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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

EDUCAÇÃO/OPINIÃO: HUBERT ALQUÉRES


Educação Superior (Foto: Arquivo Google)
ARQUIVO GOOGLE






TÃO JOVENS, TÃO VELHOS

Na rede pública o corporativismo, a ideologia, a má fé
e a ignorância operam para aprofundar o fosso
da desigualdade social, condenando nossa juventude ao atraso

POR HUBERT ALQUÉRES
BLOG DO NOBLAT
09/11/2016 | 01h25

Daqui a 20 ou 30 anos, quando as salas de aula pouco terão a ver com os dias de hoje, historiadores e pesquisadores que se debruçarem sobre o atual movimento de ocupação das escolas, em protesto contra a reforma do ensino médio, vão entendê-lo como algo tão anacrônico como a Revolta da Vacina de 1904.

Na época, por desinformação e ignorância, a Escola Militar e boa parte da população do Rio de Janeiro se sublevaram contra a vacinação obrigatória, forçando o governo de Rodrigues Alves a decretar estado de sítio na cidade. Medida dura, mas o sanitarista Oswaldo Cruz estava certo. Só assim a epidemia de varíola foi extinta no Rio de Janeiro.

Em defesa da Revolta da Vacina pode-se arguir que o grau de informação era precário, pois os meios de comunicação praticamente se resumiam aos jornais e a maioria da população era analfabeta. A ignorância é a mãe do obscurantismo, de movimentos regressistas como o de Canudos de Antônio Conselheiro.

O mesmo não se pode dizer sobre os dias atuais. Os modernos meios de comunicação democratizaram as informações, hoje acessíveis a todos, inclusive à minoria que ocupa as escolas. As mazelas do ensino médio são sobejamente conhecidas, tanto por educadores como por quem sofre na pele as suas consequências, os estudantes e pais de família.

O problema maior não é a ocupação das escolas, embora seja uma forma de luta estapafúrdia e antidemocrática por meio da qual uma pequena parcela impõe seu ponto de vista a milhões e milhões de outros jovens impedidos de frequentar as aulas.

“Os centros de excelência da rede privada começam a focar no desenvolvimento dos aspectos não cognitivos dos alunos,
no incentivo à capacidade de liderança, na relação entre o todo
e as partes, na pesquisa com espírito crítico e na capacidade analítica”


Não é apenas uma questão de forma. É, principalmente, um problema de conteúdo. O movimento ocupacionista é essencialmente reacionário, no sentido de ser contrário a ideias transformadoras. Leva, concretamente, à manutenção do status quo do nosso sistema educacional, perpetua o pacto da mediocridade, onde parte dos professores finge que ensina e parte dos alunos finge que estuda.

Parece não darem conta que o mundo se move e com ele a educação.

No Colégio Bandeirantes, tradicional escola particular de São Paulo, da qual faço parte, as barreiras literalmente estão sendo derrubadas. Em 2017 não haverá mais divisão rígida por disciplina, as aulas de laboratório de física, química, biologia e artes acontecerão em um mesmo espaço, com professores de várias áreas interagindo simultaneamente. A palavra-chave é interdisciplinaridade. Será adotado um “currículo escolar flexível” (como propõe a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio) com vistas a permitir ao aluno a seleção de algumas disciplinas nos quais queira se aprofundar, conforme sua vocação.

Não pensem ser um caso isolado. As boas instituições do ensino privado brasileiras trilham o mesmo caminho, pois a escola que não se reinventar desaparecerá do mercado ou terá peso pena.

As mudanças chegam também ao ensino fundamental. Os centros de excelência da rede privada começam a focar no desenvolvimento dos aspectos não cognitivos dos alunos, no incentivo à capacidade de liderança, na relação entre o todo e as partes, na pesquisa com espírito crítico e na capacidade analítica.

E não o fazem por modismo, mas por necessidade do país em ter cidadãos mais preparados, em especial, o mercado de trabalho, que requer hoje um profissional com qualidades inteiramente diferentes da época do chão de fábrica.

Vem sendo ditada também por instituições de ponta do ensino superior, que avaliam os chamados conhecimentos não cognitivos, em seu processo seletivo. Isso já acontece na seleção das conceituadíssimas Faculdade de Medicina Albert Einstein, Faculdade de Engenharia do Insper na Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas.

Mais: vislumbra-se no horizonte uma importante alteração no exame internacional PISA – OCDE, principal instrumento de avaliação do ensino no mundo, que pauta políticas educacionais em vários países. Sim, o PISA deve passar a agregar aspectos não cognitivos em futuras avaliações.

A transversalidade, o currículo flexível, a mudança da arquitetura das salas de aulas, a valorização de habilidades que farão a diferença na vida futura dos alunos, os trabalhos por projetos, a combinação do ensino presencial e à distância estão sendo implantadas em países de ponta: Estados Unidos, Canadá, Finlândia, entre outros.

Cedo ou tarde, o Brasil terá de acompanhar este movimento. O preocupante hoje é que as escolas privadas de boa qualidade já estão acertando o passo, enquanto na rede pública o corporativismo, a ideologia, a má fé e a ignorância operam para aprofundar o fosso da desigualdade social, condenando nossa juventude ao atraso.

Involuntariamente, ou não, o movimento de ocupação das escolas faz esse jogo.
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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: HUBERT ALQUÉRES

SPONHOLZ




DO PT AO PT DO B

Desde o resultado das urnas o Partido dos Trabalhadores
entrou em estado de liquefação. Enquanto sua cúpula
brinca de avestruz e empurra a crise com a barriga,
a avalanche vai se formando

POR HUBERT ALQUÉRES

No Blog do Noblat
Em 19/10/2016 - 01h25

O ex-presidente Lula não visou o grande público em seu artigo “Por que querem me condenar”, publicado em jornal de circulação nacional (*).  A essa altura do campeonato, o caudilho tem plena consciência de que suas palavras são inúteis para mudar a convicção dos brasileiros quanto às suas responsabilidades nos delitos praticados em seu governo e por seu partido.

Ele usou o jornal para falar com as fileiras internas do Partido dos Trabalhadores, engalfinhadas em uma guerra intestina; com tudo para desaguar no desmanche do PT.

Desde o resultado das urnas o Partido dos Trabalhadores entrou em estado de liquefação. Enquanto sua cúpula brinca de avestruz e empurra a crise com a barriga, a avalanche vai se formando.

Impossível detê-la com o apelo à unidade, em nome da “defesa de Lula”, ou com vigílias em frente do prédio onde mora o ex-presidente, para evitar sua suposta “prisão iminente”.

O real é o ultimato dado por um grupo expressivo de parlamentares para que até o início de dezembro seja convocado o congresso partidário e para a antecipação das eleições internas.

Os parlamentares, claro, miram em 2018, sabem ser mínimas suas chances de reeleição por uma legenda que acabou de ser escorraçada das urnas.

“Sair agora a campo para construir um novo partido
pode ser uma enorme aventura.
Mas ficar no Partido dos Trabalhadores provavelmente
será o caminho mais rápido para a não reeleição”

A pressão por mudanças vem também das tendências mais à esquerda, que vão direto na jugular de Ruy Falcão, presidente nacional do partido, e de outros dirigentes vinculados à tendência majoritária “Construindo um Novo Brasil”.

O PT hoje é uma nau à deriva, na qual sua tripulação, ou parte dela, se indaga se já não é hora de se jogar no mar e se agarrar em alguma tábua de salvação.

Essa boia pode ser a proposta de uma “frente ampla”, ou melhor, uma frente de esquerda, um contorcionismo de petistas para driblar sua crise.

Nada a ver com a “Frente Amplio” do Uruguai, construída por meio de um longo processo, iniciado em 1971, e no poder há 15 anos. Aqui seria uma cortina de fumaça onde o PT se esconderia dos eleitores em 2018, face à sua queimação ampla, geral e irrestrita.
E como se daria essa “frente ampla”? Por meio de uma fusão com outras legendas? Quem irá querer se fundir com o PT, ou mesmo se coligar com ele, na próxima disputa presidencial?  E o candidato desta frente, digamos Ciro Gomes, faria a defesa em seu palanque dos governos Dilma e Lula?

Uma “frente de esquerda” para 2018 é uma ideia natimorta. Todo mundo quer distância do PT, a começar pelo PSOL, que, bem ou mal, concorde-se ou não com suas ideias, conquistou um lugar ao sol, sem nenhum trocadilho.

O PSOL aposta na polarização ideológica, em ser o reverso da medalha do deputado e pré-candidato pelo PSC, Jair Bolsonaro, na próxima disputa presidencial. Não vai se diluir numa frente.

Mesmo o PDT de Ciro Gomes, um caleidoscópio ideológico, pensará duas vezes se aceita, ou não, a composição com o PT; se isto agrega votos ou se lhe condena a uma derrota.

No PT, só há um consenso: o de que não há consensos. Daí cada cabeça ser uma sentença entre seus parlamentares.  Para uns, a salvação está em criar uma nova legenda, tarefa nada fácil se o horizonte for ser competitivo nas eleições de 2018.

Sair agora a campo para construir um novo partido pode ser uma enorme aventura. Mas ficar no Partido dos Trabalhadores provavelmente será o caminho mais rápido para a não reeleição.

Político que se preza, pensa, antes de tudo, na sua sobrevivência. Não será diferente com os parlamentares petistas. Provavelmente percorrerão o caminho mais seguro, a revoada para outras legendas para ter tempo de TV e acesso ao fundo partidário. Pode até ser uma dessas legendas de aluguel disponíveis no mercado.

Quem diria, o desmanche do PT pode escoar no PT do B. Vá explicar para os eleitores que são coisas diferentes...

PARA LER O ARTIGO DE LULA, CLIQUE NO LINK ABAIXO: 

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo