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quarta-feira, 17 de abril de 2019

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR

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Ilustração: Dreamstime


FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal

e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
( e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve.

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse -
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito já não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
( o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

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Ferreira Gullar, Por Gilmar Fraga

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite.


Ferreira Gullar, In: Em alguma parte alguma, p. 21-25, Ed. José Olympio, 2010.



segunda-feira, 8 de abril de 2019

HORA DA VITROLA: HEITOR VILLA-LOBOS/FERREIRA GULLAR (TRENZINHO DO CAIPIRA)




Resultado de imagem para IMAGENS TRENZINHO DO CAIPIRA
ILUSTRAÇÃO: YouTube



TRENZINHO DO CAIPIRA



MÚSICA: HEITOR VILLA-LOBOS

LETRA: FERREIRA GULLAR



Lá vai o trem com o menino

Lá vai a vida a rodar

Lá vai ciranda e destino

Cidade noite a girar

Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra, 
Vai pela serra, 
Vai pelo mar

Cantando pela serra do luar

Correndo entre as estrelas a voar

No ar, no ar, no ar... (...)

COM NEY MATOGROSSO 




COM EDU LOBO






COM PASSOCA E BRAZ DA VIOLA

quinta-feira, 28 de março de 2019

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR

NETO
REENCONTRO

Estou rodeado de mortos.

Defuntos caminham comigo na saída do cinema.

São muitos,
sinto a presença ativa das magnólias
queimando em seu próprio aroma.

Os mortos acomodam-se a meu lado
como numa fotografia.

Ajeitam o paletó, a gola da blusa
e parecem alegres.

São gente amiga
com saudade de mim
(suponho)
e que voltam de momentos intensamente vividos.

Tentam falar e falta-lhes a voz,
tentam abraçar-me
e os braços se diluem no abraço.

Fitam-me nos olhos cheios de afeto.

Ah quanto tempo perdemos,
quanta desnecessária discórdia,
penso pensar.

É isto que me parecem dizer seus pálidos rostos
neste entardecer de janeiro.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR

Resultado de imagem para IMAGENS PARA PEDRA
Foto: Prefeitura de S. Bento de Sapucaí (SP)

UMA PEDRA É UMA PEDRA

uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)

uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa

ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa

enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo

que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga

e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta

e se inventa

***

LEIA TAMBÉM

Ninguém é absolutamente sincero. 
Eu não sou. 
Às vezes, digo até logo, 
mas o verdadeiro desejo é dizer adeus. 
Por Orlando Silveira, em "Rapidíssimas"

https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2018/01/rapidissimas_11.html#comment-form


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR


www.digestivocultural.com

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma

mesmo que não se ouça coisa alguma.



PERPLEXIDADES

a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR



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FOTO: ANA OSWALDO CRUZ



REPOUSO

pouso o rosto
na mesa

que
alívio
ser apenas
tato

só este
macio
contato

o corpo –
corpo
defeso,
dos esplendores
da vida