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sexta-feira, 17 de junho de 2016

MULHER LARGADA, MULHER VIÚVA




Estava impaciente que só, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar. Para variar, o dedão direito estava prestes a sangrar. E nada de achar o bicho do pé. Nem poderia. É imaginário. Coisa da idade? Ninguém sabe.

Resolveu falar para aliviar a agonia:

-- Mafalda: tive conversa séria com Tiago.

-- Com o diabo?

-- Mafalda, temos que por pilha nova ou trocar esse seu aparelho de ouvido. Falo uma coisa, você entende outra. Assim não pode ser por muito tempo. Se tivesse ainda o vozeirão que já tive, lhe cantava “Conceição”, só para colocar Peixoto em seu devido lugar. Falei com TIAGO (OUVIU?), noivo de Irene, nossa neta.  Tiago quer entrar na política. Que a política está cheia de diabo todo mundo sabe, até Tiago, candidato a capeta.

-- Agora, ouvi. E falou o quê para Tiago?

-- Pra desistir da política. Isso já foi coisa boa. Hoje, é para quem não presta. Ele é meio tolo, um simplório deslumbrado. Vai meter os pés pelas mãos. Acaba preso. Ainda lhe disse: se for para entrar numa encrenca dessas, seja honesto. A concorrência será menor.

-- E o que ele lhe disse, meu velho?

-- Não disse nada, sorriu maroto, deu de ombros. Quis parecer o que não é: esperto. Tiago é tolo. Mas lhe fiz uma advertência final. Acho que é por conta disso que Irene tem feito café ralo e doce demais, coisa de mineiro vingativo. Ando desarranjado. 

-- Qual foi o aviso? Você me bota agoniada.

-- Disse a Tiago com todas as letras, vírgulas e pontos: o homem entra na política, fica esperto: pinta cabelos, negocia, arruma amante de estômago estufado, larga a mulher e filhos. Então, saiba que faço minhas as palavras de ACM, de quem nunca gostei: “Na minha família, não tem mulher largada. Tem mulher viúva”. Veja lá o que vai fazer com Irene. Tiago ficou de pensar. (2013)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MESQUINHARIA? NEM PENSAR!


-- A verdade é a seguinte: temos que rever nossos planos. Papai come pouco, mas a empregada é uma leoa. Não se trata de mesquinharia, não, claro, naturalmente. Suco de caixinha? Não dá mais. Ele bebe todo dia um copo, junto com papai. Não dá. O pão de forma já não dá para semana. Do presunto nem falo. Gente sem modos. Parece que nunca viu comida. Não é mesquinharia, não! Mas...


segunda-feira, 9 de junho de 2014

VÔ CARECA

Não pude conviver com meus avôs, infelizmente O paterno morreu cedo, de câncer, em Santa Catarina. Meu pai tinha 19 anos – se não me falha a memória, essa bandida claudicante. Com o avô materno, tive pouca intimidade, quase nada. Dele trago a lembrança do velório (em casa, claro) em dia (ou véspera) de eleições.

(“Varre, varre, vassourinha...” Folhetos. Carros de som. Meu avô morto. Eu querendo balas de goma. Meu pai, sempre pronto, tentando me convencer que não se chupa bala de goma em velórios.)

Do avô Gabriel (pai do pai), eu só ouvi elogios uma vida inteira: trabalhador, honesto etc. e tal. Era quase santo, segundo versões altamente suspeitas. Do avô João, “vô careca” (pai da mãe), não posso dizer o mesmo. Era trabalhador, honesto, etc, e tal. Mas gostava de vinho, gostava de vinho além da conta. Criava problemas.

Viúvo, pai de dois filhos, Orlando e Tonico, o “vô careca” se casou de novo. E teve mais duas filhas: Neide (minha mãe) e Laura. Os quatro filhos, claro, deveriam ter os mesmos sobrenomes: Minas Silva. Mas, por conta do vinho abundante, o “vô careca” resolveu inovar em cima de tia Laura: incluiu em seu sobrenome um Manzanares. Até hoje ninguém sabe exatamente o motivo. Embora não haja dúvidas da influência das uvas fermentadas sobre aquela opção.

Em defesa do “vô careca” e do vinho ordinário que ele sorvia em doses industriais, um registro, ou melhor, uma indagação: o que teria levado meu avô Gabriel, tão sóbrio, a permitir que minha avó desse a seu filho, meu velho e generoso pai, o nome que lhe deu – ODELORME?

Moral da história: bebida faz estrago, sim, mas não pode ser acusada de todos os desatinos da rapaziada.  






terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O PRIMO JAIRO

Jairo é primo do pai, bem mais novo que o pai. Jairo é CATARINA, MANEZINHO DA ILHA. 

Décadas atrás, vestiu a capa de retirante. Veio tentar a sorte em São Paulo. Voltou rapidinho. Fez bem. Foi ser feliz nos braços fortes de Marlete, mulher decidida, de sorriso largo. E fizeram muitos filhos, todos queridos, de quem tenho saudades. Não os vejo há muito tempo.

Durante anos, quase todos os anos, nos hospedamos em sua casa, em Saco dos Limões. Por mais de uma vez, Jairo e Marlete nos tiraram do hotel. Ambos consideravam ofensa inominável a gente não dormir ali, na casa deles, comer ali, na casa deles, não ir com eles, nos finais de semana, pra casa de praia, pescar, comer peixe, famílias reunidas. Aquilo não era uma reunião. Era um rolezinho da alegria.

Marlete cuidava dos filhos. Jairo pegava no batente lá fora. Gente séria. E alegre.

Mas nem tudo é perfeito.


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A valentia de Jairo, de cuidar da família, de trabalhar dobrado sempre que preciso, esbarrava numa única e intransponível barreira: o exame de sangue. (Tenho com Jairo mais afinidades do que supunha: também capoto feio nessas ocasiões.)

Marlete grávida do último filho (fizeram outro?), levou Jairo ao laboratório. Ele entrou amuado, saiu desmaiado. As enfermeiras corriam de um lado para outro, de olho no barrigão da Marlete, que esperava o desfecho previsível.

Antes que a enfermeira falasse, Marlete disparou:

-- Já sei, já sei. Ponham Jairo no carro, por favor.

-- Como a senhora vai retirá-lo do carro quando chegar em casa?

-- Esquenta, não. A família já está esperando. Dois dias de cama, ele fica novinho em folha.

Se um dia escreverem a história da família, tenho a impressão de que, no quesito valentia, Jairo e eu não vamos figurar. O que, convenhamos, é uma puta sacanagem.   


 


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

QUE BOM

De uma hora para outra, dez anos depois, todo mundo saiu correndo.

Não precisava ser assim.
Dez anos se foram.