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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ECONOMIA/OPINIÃO: FABIO GIAMBIAGI

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Ilustração: Lézio Júnior

MUITO ALÉM DA CORRUPÇÃO

A despesa exceto juros do governo federal passou
de 14% do PIB em 1991 para 24% do PIB em 2016,
antes de ceder um pouco em 2017

Por Fabio Giambiasi
O Globo – 06/02/2018

É famosa a frase do jornalista americano Henry Louis Mencken de que “para todo problema complexo, há uma solução que é simples, elegante e errada”. A frase me veio à memória tempos atrás quando estava aguardando o elevador, carregando um livro que discutia por que a economia brasileira crescia tão pouco. Uma pessoa leu o título do livro e comentou: “Por que o Brasil cresce pouco? Ora, é simples: pela corrupção!”.

Não há dúvida de que a corrupção é uma chaga. Ela castiga o país de três formas. Primeiro, pela drenagem de recursos públicos que provoca. Segundo, porque devemos ser um dos países com a maior proporção de pessoas no mundo dedicadas a “esquemas”, sejam municipais, estaduais ou federais, o que é uma distorção alocativa dramática comparativamente às riquezas genuínas que esses indivíduos poderiam gerar caso se dedicassem a atividades legais e produtivas. E terceiro, o que talvez seja o mais grave, pelo efeito moral deletério que exerce sobre a cidadania.

Num país normal, as autoridades deveriam dar o exemplo e ser o espelho no qual cada habitante deveria se olhar procurando fazer o melhor para o seu país. No Brasil, porém, quando o indivíduo olha para a realidade que o cerca, é inescapável se lembrar, para quem a conhece, da frase de Rui Barbosa, de que “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Dito isso, porém, e ressalvados o mal que os problemas desvendados pela Lava-Jato causaram e o papel positivo que a ação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça tem tido para construir um país melhor, a ideia de que a causa principal dos males do Brasil é a corrupção é um equívoco. Insisto com três dados que nunca me canso de repetir. O primeiro, que a despesa exceto juros do governo federal passou de 14% do PIB em 1991 para 24% do PIB em 2016, antes de ceder um pouco em 2017. O segundo, que a idade em que as pessoas se aposentam por tempo de contribuição no Brasil é de 53 anos para as mulheres e 55 para os homens. E o terceiro, que a preços de 2018, deflacionada pelo deflator do PIB com uma estimativa para o ano em curso, a despesa do INSS, que foi de R$ 190 bilhões no começo da estabilização, em 1995, será de mais de R$ 580 bilhões em 2018. Mais um dado para informação do leitor: o que se gasta com benefícios assistenciais de um salário mínimo é equivalente a seis vezes o total do investimento do governo federal. Nada disso tem a ver com corrupção, e sim com um país onde muitas pessoas se aposentam cedo, os recursos públicos são pessimamente utilizados e que é pouco propenso a aceitar as regras da competição como algo associado ao sucesso dos indivíduos, das empresas e dos países.

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Fabio Giambiagi é economista/YouTube

Tomemos um exemplo prosaico. Pensemos no João, um caso de trabalhador comum. Tendo sido um aluno fraco, abandonou há pouco mais de dez anos o ensino médio com notas baixas. Aos 30 anos, não consegue se firmar em empresa alguma e já acumula dois períodos de recebimento do seguro-desemprego durante alguns meses. A essa idade, já tem dois filhos de dois casamentos, e sua atual namorada está esperando o terceiro. O trabalho que fazia já passou a ser feito por máquinas em duas oportunidades. No primeiro caso, porque lançava dados como digitador de informações numa empresa que hoje captura as informações no sistema. No segundo, porque o trabalho manual como operário numa planta, agora é feito por um pequeno robô.

Sem maiores qualificações, vive pulando entre uma ocupação e outra, com salários que variam de R$ 1.500 a R$ 2.000. Provavelmente, ele se indigna, com razão, ao ler o noticiário sobre a profusão de escândalos do país. Infelizmente, porém, mesmo que tivéssemos padrões escandinavos de gestão da coisa pública, a realidade nua e crua é que João está desaparelhado para enfrentar a competição no mundo de hoje. Isso requer uma macroeconomia saudável, uma educação de qualidade e um ambiente econômico onde, como diz um amigo economista, a empresa invista no empregado, e o empregado invista na empresa. E isso vai muito além da corrupção. Não há saídas fáceis para o Brasil.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: FABIO GIAMBIAGI

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Ilustração: Salvatore

O CENTRO E AS REFORMAS

Fui entendendo que a conquista do centro era essencial
para sustentar os avanços políticos, econômicos e sociais

Por Fabio Giambiagi
O Globo – 05/12/

Minha juventude coincidiu com os últimos anos do governo militar, encerrado em 1985. No contexto da radicalização própria da idade, combinado com as circunstâncias da época, minhas primeiras incursões como cidadão no terreno da política se deram flertando com a ideia de uma “ruptura”, um momento a partir do qual o “antigo regime” seria substituído por um novo, livre das mazelas do anterior.

Com o amadurecimento propiciado pela idade e refletindo acerca daqueles mesmos anos, influenciado por aqueles que me guiaram nos primeiros passos nessa dura caminhada do aprendizado dos limites impostos pela realidade, fui entendendo que a conquista do centro era essencial para sustentar os avanços, tanto políticos, quanto econômicos e sociais do país.

Convido o leitor à seguinte reflexão. Quais foram os principais progressos do país nas últimas três a quatro décadas? Creio que ninguém hesitaria em apontar quais tenham sido:

* a reconquista da democracia nos anos 80;

* a estabilização da economia no governo Fernando Henrique (FH);

* os avanços sociais, com redução da desigualdade e da pobreza, observados inicialmente nos anos FH e aprofundados nos anos de governo de Lula.


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Fabio Giambiagi é economista

Em todos os casos, tais situações resultaram da ação decisiva do centro político. Na redemocratização, ela foi simbolizada pela figura de Tancredo Neves — a expressão do centro por excelência — e pela aliança formada pelas lideranças do antigo MDB com os dissidentes da ex-Arena, o partido oficial na época dos militares.

Na redemocratização, o papel do centro foi vital na aliança entre o PSDB e o antigo PFL, em função das sábias palavras de FH, ditas ainda em campanha, ciente do potencial eleitoral do Plano Real, mas, como ex-parlamentar, plenamente consciente da necessidade de ter uma coalização legislativa que desse sustentação às reformas que preconizava: “Eu posso me eleger sem o PFL, mas não conseguirei governar sem ele”.

No governo Lula, o papel do centro esteve representado pela versão “Lulinha Paz e Amor” do então candidato Lula, procurando a associação com quem veio a ser seu vice-presidente (o líder empresarial José Alencar) e pela famosa “Carta aos Brasileiros” de 2002, com o que ganhou a adesão de frações importantes do establishment e da classe média.

Não estou tratando aqui das óbvias degenerações de nossa democracia imperfeita nem dos métodos non sanctos que, sabemos todos, foram empregados diversas vezes na História do país. Estou apenas fazendo uma constatação. Que é, de resto, comum a outras experiências históricas, com destaque para o papel decisivo de Adolfo Suárez na transição política espanhola ou de Frederic De Klerk no fim do apartheid na África do Sul.

“Há um espaço aberto para que um candidato de centro
se imponha à polarização e dê sequência às reformas
econômicas que têm sido implantadas no país desde 2016”

Está claro para todos que o país precisa deixar para trás as mazelas herdadas da Nova República e as práticas políticas que temos arrastado como parte de nosso vetusto “presidencialismo de coalizão”.

A questão é que, da mesma forma que o fim do governo militar no Brasil se beneficiou da adesão de quem era sócio do regime até a véspera do seu óbito e que — mal comparando, por serem processos históricos diferentes — Mandela manteve parte da burocracia que tinha acompanhado o apartheid durante décadas, será muito difícil avançar sem a presença parcial, nas forças renovadoras, de uma parte dos grupos que estiveram associados ao estágio que se deseja superar.

É neste ponto que vale lembrar o que aconteceu na eleição para prefeito no Rio de Janeiro em 2016, quando três candidatos de perfil bastante assemelhado — Índio da Costa, Carlos Osorio e Pedro Paulo — dividiram um eleitorado de configuração muito parecida em partes muito próximas entre si.

Propiciaram, assim, as condições para que uma parcela relevante do eleitorado não se sentisse representada pelas opções eleitorais que passaram para o segundo turno, numa rara combinação de imperícia conjunta dos partidos associados àquelas três candidaturas.

O paralelo com a cena nacional é claro. Há um espaço aberto para que um candidato de centro se imponha à polarização e dê sequência às reformas econômicas que têm sido implantadas no país desde 2016. Sem que o centro esteja coeso, porém, as chances de repetição a nível nacional de um evento como o do Rio em 2016 são muito elevadas.