Mostrando postagens com marcador Demétrio Magnoli. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demétrio Magnoli. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: DEMÉTRIO MAGNOLI


Resultado de imagem para IMAGENS PONTO FORA DA CURVA
IMAGEM: LIKEDIN


DORIA-CRIVELLA, A ARMADILHA

Ao contrário do que pensam os analistas vulgares,
o resultado das eleições municipais não reduziu
as chances de triunfo de um ‘outsider’

POR DEMÉTRIO MAGNOLI
Publicado em O Globo
Em 20/10/2016


Geralmente, num sistema político polarizado, a derrota de um dos polos transfere a hegemonia temporária para o outro. A regra indicaria que, após a derrota histórica do PT, pontuada pelo impeachment e pelas imputações judiciais contra Lula, abre-se uma era de predomínio do PSDB. Uma análise convencional dos resultados das eleições municipais, nas quais os tucanos colecionam triunfos quantitativos e qualitativos, reforça a ideia de uma oscilação decisiva do pêndulo rumo ao partido de FHC.

Contudo, acreditar nisso equivaleria a perder de vista o principal: a queda do lulopetismo assinala o encerramento da bipolaridade que vincou a política brasileira nas duas últimas décadas. Depois de Dilma, é o dilúvio. O sistema político brasileiro nunca foi realmente bipolar. PSDB e PT revezaram-se no poder, mas jamais configuraram algo parecido com um sistema bipartidário.

O PMDB, essa federação de partidos pragmáticos regionais, funcionou como elemento estabilizador, aliando-se ora com um, ora com o outro. A crise do sistema acarretou a multiplicação de partidos e as heterogêneas alianças parlamentares do lulopetismo. Isso que ficou conhecido como “presidencialismo de coalizão” prossegue, agonicamente, no governo transitório de Michel Temer.

São os dobres de finados da “Nova República”. As eleições municipais não devem ser interpretadas como uma vitória tucana, mas como um paradoxal triunfo da chamada “base de Temer”. A vitória eleitoral nada tem a ver com uma aprovação do governo federal, que é majoritariamente rejeitado. Nas urnas, os eleitores condenaram o lulopetismo, sufragando os candidatos antipetistas.

“O PSDB atual, repleto de figuras parlamentares
ligadas às igrejas neopentecostais, pouca relação
 mantém com o partido  de centroesquerda fundado
 por Franco Montoro, Mário Covas e FHC”

Com raras exceções, como o Ceará controlado pelo clã dos Ferreira Gomes ou o Acre ainda sujeito à família Viana, os eleitos pertencem ao extenso arco da base governista. Ao lado das variadas circunstâncias locais, o antipetismo operou como força decisiva no ciclo eleitoral. A crise manifesta-se nitidamente como derrocada do PT, mas atinge toda a elite política, vista como uma coleção quase indiferenciada de máfias consagradas à captura de riquezas públicas.

Ao longo dos anos de oposição, o PSDB perdeu sua identidade e dividiu-se, irremediavelmente, entre três caciques hipnotizados por suas ambições pessoais. A principal conquista tucana, a eleição de João Doria, em São Paulo, não representa um triunfo do partido, mas uma vitória de Geraldo Alckmin no seu feudo interno com José Serra.

Na campanha, cuja tônica foi o antipetismo, o candidato surfou na aversão pública à elite política, cobrindo-se com o manto ilusório da eficiência administrativa. O PSDB atual, repleto de figuras parlamentares ligadas às igrejas neopentecostais, pouca relação mantém com o partido de centroesquerda fundado por Franco Montoro, Mário Covas e FHC.

O horizonte de 2018 parece distante, além de sujeito às turbulências das investigações policiais e judiciais de corrupção, que tendem a derrubar nomes notórios do núcleo governista e de suas adjacências. Entretanto, na paisagem de ruínas, não é difícil identificar os vetores políticos da disputa pelo Planalto.

“A difusão da antipolítica é um reflexo da crise terminal
da ‘Nova República’, mas não uma solução para
o desmoronamento do sistema político”

A “esquerda” (aspas necessárias), um campo que vai do PDT de Ciro Gomes ao PSOL, passando pelo PT, não é alternativa real de poder e usará as eleições para tentar se reinventar, unida ou dividida, após o longo período de hegemonia lulopetista. De fato, em princípio, o poder será disputado entre a “base de Temer” e a possível candidatura de um “outsider”.

Eis aí uma perspectiva duplamente assustadora. A “base de Temer” é um vasto condomínio que reúne fragmentos saudáveis da elite política a incontáveis tons de atraso, inclusive os setores ultrafisiológicos do PMDB e do “Centrão”, os deploráveis cruzados das igrejas de negócios e uma direita nostálgica do regime militar.

A sua continuidade, por meio de um candidato tucano ou de algum personagem de ocasião, representaria a tentativa de perenização do que há de mais anacrônico na política brasileira. Significaria, entre outras coisas, o enterro da oportunidade de erradicação da corrupção crônica que envenena a máquina da administração pública.

Ao contrário do que pensam os analistas vulgares, o resultado das eleições municipais não reduziu as chances de triunfo de um “outsider”. Marina Silva, a mais notória liderança com esse perfil, pode ter sucesso se optar por uma aventura baseada na rejeição generalizada aos partidos tradicionais.

Porém, evidentemente, um hipotético governo nascido nesse berço, carente de estruturas partidárias sólidas, estaria condenado a extinguir-se em desastre. A difusão da antipolítica é um reflexo da crise terminal da “Nova República”, mas não uma solução para o desmoronamento do sistema político. Dias atrás, encontraram-se Temer e FHC.

DEMÉTRIO MAGNOLI (FOTO: ARQUIVO GOOGLE)

O diálogo entre ambos tem algum sentido, se a meta for ajustar os ponteiros para a votação de medidas urgentes, como a PEC do teto dos gastos e a reforma previdenciária. Outra coisa é a soldagem de uma aliança estratégica, cujos sinais aparecem aqui e ali, como no apoio dos tucanos à candidatura de Marcelo Crivella.

Seguindo essa rota, o PSDB confirmaria seu declínio, prendendo-se à armadilha do atraso. Existe um amplo eleitorado órfão de representação política funcional. O Brasil sem voz defende a economia de mercado, redes adequadas de proteção social e forte prioridade para a qualificação da educação e da saúde públicas.

Quer traçar uma fronteira intransponível entre a alta burocracia administrativa e as empresas estatais, de um lado, e os partidos políticos, de outro. Almeja um Estado efetivamente laico e cultiva os valores da liberdade individual e da tolerância à diversidade.

No horizonte de 2018, a emergência de uma plataforma desse tipo exige a cisão da “base de Te- mer” e uma profunda reunificação política de centro-esquerda. Nada disso se fará à sombra do paradigma Doria-Crivella.

(*) Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana, especialista em política internacional  e autor dos seguintes livros, entre outros: 'Gota de Sangue - História do Pensamento Racial' e 'O Leviatã Desafiado'.

quarta-feira, 16 de março de 2016

OPINIÃO/POLÍTICA: DEMÉTRIO MAGNOLI

12.03.2016 – FOLHA DE S. PAULO

IMPEACHMENT, URGENTE!


(Por Demétrio Magnoli) O círculo íntimo de Lula abrange apenas dois escudeiros. Paulo Okamotto cuida do caixa; Gilberto Carvalho, da política. Falando à Folha (7/3), o segundo disparou uma ameaça dirigida a Dilma Rousseff e outra ao país inteiro. Com Dilma, funcionou: enquadrada, a presidente reposicionou-se na vanguarda do combate à Lava Jato. Agora, a escolha tornou-se incontornável: é o impeachment ou o triunfo da velha ordem.

Carvalho chamou Dilma a mudar sua agenda econômica, sob pena de acentuar seu "conflito com o partido", e formulou uma sentença de morte condicional: "a sobrevivência dela estaria muito ameaçada se saísse do PT". Quanto ao país, tudo dependeria do "comportamento da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário". Há uma linha vermelha: "Se ficar claro que a Lava Jato busca combater a corrupção, não o Lula", ok. Caso contrário, "temo muito um processo que nos leve ao que acontece na Venezuela". Ok?

Nas democracias, o Estado detém o monopólio da força legítima. Nos sistemas autoritários, o regime tem o monopólio da força, que é ilegítima. O regime chavista em declínio conserva o controle sobre o Judiciário, as forças armadas e a polícia, usando-o para calar a imprensa, encarcerar opositores e anular as prerrogativas da maioria parlamentar eleita. Nana, nenê, que a Cuca vem pegar: pronunciando a palavra "Venezuela", Carvalho apela ao discurso mitológico, traçando um paralelo impertinente, mas eficaz.

"A urgência da remoção de Dilma decorre da operação criminosa em curso: a transformação do Planalto na sede de um poder ilegal, consagrado à obstrução da justiça. Impeachment já, pois o Brasil não é a Venezuela"


O Brasil é uma democracia. Mesmo longevo, o governo do PT não se converteu num regime. Temos um Judiciário independente. A polícia e as forças armadas são leais a suas funções constitucionais, não a um partido. A Cuca de Carvalho só pode existir na esfera da imaginação ""mas é nela que investe o porta-voz de Lula. Seu recado dirige-se à parcela da elite política que, temendo a Lava Jato, está disposta a abraçar-se ao lulopetismo sob o pretexto da manutenção da "paz social".

Antes da entrevista de Carvalho, Dilma iniciara a primeira manobra ostensiva contra a Lava Jato: a troca do ministro da Justiça. José Eduardo Cardozo tombou sob a acusação lulista de não "controlar a Polícia Federal", papel que seu substituto deveria desempenhar. Na hora do depoimento de Lula, a presidente avançou o sinal, disparando ácidas críticas à condução coercitiva, decisão judicial questionável por qualquer um exceto a figura que exerce o Poder Executivo. Depois, ela ouviu a mensagem de Carvalho e pintou-se para uma guerra contra o sistema de justiça.

A visita presidencial a Lula, em São Bernardo, um ato oficial de desagravo a um investigado pela justiça, foi seguida pelo jantar em palácio no qual Dilma ofereceu um ministério a seu antecessor. O cargo serviria para alçar Lula acima da jurisdição de Sergio Moro e, ainda, para transformá-lo, oficialmente, em coordenador político de um governo devotado ao combate contra o Judiciário. Na sequência, o investigado reuniu-se com Renan Calheiros, ensaiando unificar a resistência à Lava Jato num bloco político suprapartidário. Segundo um cândido mas eufemístico Calheiros, Lula "falou da necessidade de costurarmos a união nacional".

A oposição errou ao apresentar um pedido de impeachment fundamentado precariamente sobre as "pedaladas fiscais" – e mais ainda ao articular o afastamento de Dilma com Michel Temer, líder de um PMDB consorciado no "petrolão", e Eduardo Cunha, o homem das contas na Suíça. O cenário, hoje, é outro. Nas múltiplas evidências recentes do financiamento das campanhas de Dilma, em 2010 e 2014, por dinheiro oriundo da corrupção encontram-se motivos suficientes para o impeachment. Contudo, a urgência da remoção de Dilma decorre da operação criminosa em curso: a transformação do Planalto na sede de um poder ilegal, consagrado à obstrução da justiça. Impeachment já, pois o Brasil não é a Venezuela.

Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana, 
especialista em política internacional
 e autor dos seguintes livros, entre outros:  
'Gota de Sangue - História do Pensamento Racial' 
e 'O Leviatã Desafiado'.



domingo, 13 de março de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: DEMÉTRIO MAGNOLI

10.03.2016 – O GLOBO



SIGA O PEDALINHO

(Por Demétrio Magnoli) “Esta pergunta não está à altura da Polícia Federal”, reagiu um arrogante Lula ao ser indagado, na fatídica sexta-feira, sobre os pedalinhos mantidos no sítio de Atibaia. Mas a lógica da pergunta decorre da regra “siga o dinheiro”. No rastro dos pedalinhos, há muito mais que a propriedade do próprio sítio. Eles indicam o caminho da Internacional lulista — uma articulação que, ao contrário das internacionais operária, socialista, comunista e trotskista, rege-se por um misto de política e negócios.

Do Casco Antiguo da Cidade do Panamá, não se avista mais a península. “O horizonte do Golfo se perdeu”, lamenta a presidente de uma organização consagrada à proteção do patrimônio histórico do país ístmico. De fato, em 20 de maio de 2011, foi inaugurado o viaduto de seis pistas e 2,8 quilômetros que rasga o mar à frente do centro histórico, uma obra da Odebrecht contratada por US$ 780 milhões. Lula participou da inauguração, a convite do presidente panamenho Ricardo Martinelli, com quem participaria de um jantar oferecido pela Odebrecht. O evento contou com a presença do ministro José Domingo Arias, candidato do presidente a sucedê-lo, que acabou derrotado em 2014, apesar dos esforços do marqueteiro João Santana.

Lula, Odebrecht, Santana. Na Internacional lulista, o quarto componente é o BNDES, responsável pelo financiamento do metrô da capital panamenha e da Autopista Madden-Colón, obras tocadas pela mesma Odebrecht, que venceu todas as grandes licitações no governo Martinelli. O Panamá não é um caso singular: o esquema quadripartite repetiu-se na Argentina (Ferrovia Sarmiento), no Peru (Hidrelétrica de Chaglla), na Venezuela (ponte sobre o Orenoco e metrô de Caracas), na República Dominicana (Termelétrica de Punta Catalina e 16 outras obras) e em Angola (Hidrelétrica de Lauca e dezenas de outras obras). Sem Santana, mas com a Odebrecht e o BNDES, a Internacional operou em Moçambique (BRT de Maputo e Aeroporto de Nacala), no Equador (hidrelétricas de San Francisco e Manduriacu) e em Cuba (Porto de Mariel). Finalmente, com a Odebrecht e Santana, mas sem o BNDES (ufa!), seus tentáculos alcançaram El Salvador.

“Lula é uma fonte de inspiração para a América Latina”, proclamou Danilo Medina, presidente da República Dominicana, em janeiro de 2013, durante uma visita de Lula patrocinada pela Odebrecht e seguida pela concessão de vultosa linha de financiamento do BNDES. A Internacional dos negócios expandiu-se em países sob governos “progressistas”, um adjetivo com dúbios significados políticos. Na América Latina, apoiou-se nos ombros do chavismo, do kirchnerismo e do castrismo, mas estabeleceu laços com líderes populistas como Ollanta Humala, do Peru, Mauricio Funes, de El Salvador, e o próprio Medina. Na África, ligou-se ao ditador angolano José Eduardo dos Santos, do MPLA, presidente desde 1979, que converteu os processos eleitorais em farsas macabras e comanda um dos regimes mais corruptos do mundo.

“Num país tão carente em infraestruturas e saneamento básico
como o Brasil, falta uma justificativa plausível
para o direcionamento de capitais escassos
ao metrô de Caracas, ao viaduto monumental do Panamá,
ao Porto de Mariel ou às múltiplas obras
do regime cleptocrático angolano”

Tudo começou durante os mandatos de Lula, mas prosseguiu sob Dilma Rousseff. Bombado por multibilionárias transferências de recursos oriundos da emissão de dívida pública, o BNDES lançou-se numa escalada de financiamentos no exterior. A Odebrecht, a maior beneficiária deles, obteve cerca de US$ 8 bilhões. Dias atrás, na esteira do depoimento de Lula, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, disse que será preciso “dialogar com o povo brasileiro” para “explicar como são feitas as palestras, em que países aconteceram”. Há muito a explicar, mas inexiste mistério sobre os países selecionados: em geral, coincidem com empreendimentos da Odebrecht subsidiados pelo BNDES.

Lula deixou a Presidência, mas não o poder, o que pode ser verificado pelas quedas sucessivas dos ministros Aloizio Mercadante, Joaquim Levy e José Eduardo Cardozo. O Instituto Lula e a empresa que agencia as palestras do ex-presidente receberam R$ 56 milhões em quatro anos. Lula tornou-se, ao lado de Bill Clinton, o palestrante mais caro do planeta. Sem o BNDES, tais feitos seriam impossíveis. Luciano Coutinho, presidente do banco público, deveria “explicar” ao “povo brasileiro” os critérios de seleção dos países e empreiteiras agraciados por empréstimos subsidiados. Até hoje, ele proferiu platitudes sobre o estímulo a negócios de empresas brasileiras no exterior, mas nunca enfrentou a questão do custo de oportunidade desses financiamentos. Num país tão carente em infraestruturas e saneamento básico como o Brasil, falta uma justificativa plausível para o direcionamento de capitais escassos ao metrô de Caracas, ao viaduto monumental do Panamá, ao Porto de Mariel ou às múltiplas obras do regime cleptocrático angolano.

“Há muito a explicar (sobre as palestras de Lula), mas inexiste mistério
sobre os países selecionados:
em geral, coincidem com empreendimentos da Odebrecht
subsidiados pelo BNDES”

A ciranda financeira no duto que interliga o BNDES, a Odebrecht e o Instituto Lula seria suficiente, num país sério, para destruir a carreira política de Lula e ensejar processos judiciais devastadores. Tudo se complica com as evidências de que, muitas vezes, o triângulo transforma-se em retângulo pela adição dos serviços de João Santana, proprietário de uma empresa de marketing político que já confessou operar caixa dois nas suas aventuras internacionais. As excessivas coincidências sugerem que a Internacional lulista, como sua predecessora comunista, organiza-se sob a égide do “centralismo democrático”.

Num país sério, os pedalinhos, esses singelos presentes aos netinhos de Lula, poderiam ser ignorados por policiais, procuradores e juízes. Mas, no Brasil, onde o “governo popular” dedicou-se à modernização das mais tradicionais práticas patrimonialistas, a Polícia Federal tinha o dever de formular as perguntas que provocaram a indignação de Lula. Os pedalinhos não são patrimônios, mas indícios. Seguindo as delicadas ondulações causadas pelo movimento deles, chegamos a um projeto internacional que associa poder e dinheiro: a geopolítica do lulismo.


Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana, 
especialista em política internacional
 e autor dos seguintes livros, entre outros:  
'Gota de Sangue - História do Pensamento Racial' e 'O Leviatã Desafiado'.