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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

CHÁ DAS CINCO: DALTON TREVISAN




NOVE HAICAIS

1

Dou com um perneta na rua e, ai de mim, pronto começo a manquitolar.

2

Uma bandeja inteira de pastéis. Como escolher um deles? São tantos.

— Fácil: deixe que ele te escolha.

3

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

4

O inimigo de futebol:

— O meu amor pela Fifi é maior que o amor pelo Brasil.

A doce pequinesa que sofre dos nervos com a guerra da buzina, corneta, bombinha, foguete.

5

— Sabe o que o João deu para o nenê, filho dele? Meia dúzia de fraldas e um pião amarelo.

6

— Casei com uma puta do Passeio Público. Tinha tanto piolho que, uma noite dormia de porre, botei um pó no cabelo dela. Dia seguinte, lavou a cabeça e ficou meia cega.

7

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

8

Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos:

— Pára. Pára. Pára.

Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas.

— Mãe, apaga o sol.

9

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos.

TALVEZ VOCÊ GOSTE DE LER TAMBÉM O QUE VAI ABAIXO:

E POR FALAR EM SINÔNIMOS

 
"Estou vendo que o senhor não fez direito a lição de casa. Está fraco. Só para não perder viagem, gostaria de lhe fazer outra pergunta: quantos sinônimos de “cona” o senhor conhece?" - quis saber o Velho Marinheiro. Por Orlando Silveira

  http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/10/e-por-falar-em-sinonimos.html#comment-form

sábado, 30 de janeiro de 2016

FRASES: DALTON TREVISAN




www.estantedoconde.com 


Não fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos.

***

O que não me contam eu escuto atrás das portas.

***

A velha insônia tossiu três da manhã.

***

Se Capitu não traiu Bentinho, 
então Machado de Assis é José de Alencar.

***

Espião dos corações solitários. 
Um espião de bote armado, eis o contista.

***

Não me acho pessoa difícil, 
tanto assim que esbarro diariamente comigo 
em todas as esquinas de Curitiba.







sexta-feira, 11 de abril de 2014

CHÁ DAS CINCO: DALTON TREVISAN

AH, É?
(ministórias)




01

Domingo inteiro em pijama, coça o umbigo. Diverte-se com os pequenos anúncios. Em sossego na poltrona, entende as borbulhas do gelo no copo de bebida. Uma velhice tranqüila, regando suas malvas à janela, em manga de camisa. Única dúvida: ganhará o concurso de palavras cruzadas?

02

Rataplã é o gato siamês. Olho todo azul. Magro de tão libidinoso.  Pior que um piá de mão no bolso. Vive no colo, se esfrega e ronrona.

— Você não acredita. Se eu ralho, sai lágrima azul daquele olho.

Hora de sua volta do colégio, ele trepa na cadeira e salta na janela.  Ali à espera, batendo o rabinho na vidraça.

Doente incurável. O veterinário propõe sacrificá-lo. A moça deita-o no colo. Ela mesma enfia a agulha na patinha. E ficam se olhando até o último suspiro nos seus braços. Nem quando o pai se foi ela sentiu tanto.

03

Ao tirar a calcinha, ele rasga.   Puxa com força e rasga.   Vai por cima.  Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor.  Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo.  Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára?  Nem ele.

04

Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.