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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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FOTO: DIVULGAÇÃO PF

O ANO DA ESPERANÇA

O brasileiro espera um messias, alguém que salve
o país. Quebramos a cara várias vezes com isso

Por Walcyr Carrasco
Época – 26/12/2017 - 08h00

O ano foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos. Um atrás do outro.

Nunca gostei de botar dinheiro nas relações de amizade. Como afirmou Shakespeare, perdem-se o dinheiro e o amigo. Nos primeiros pedidos, eu ajudava, com a consciência de que era uma doação. A situação foi piorando. Os argumentos também. No início era para pagar a escola do filho. Depois vieram as mães e avós doentes. Lamentavelmente, aprendi a não ser generoso. Ajudava um rapaz, que não conheço pessoalmente. Mas que sofreu um acidente e não tinha como pagar a fisioterapia. Comecei com a físio. Vieram sucessivas internações, remédios. A situação piorando, eu já estava encomendando missa de sétimo dia. Falei com um amigo médico, no Rio de Janeiro. Ele aceitou tratar o caso gratuitamente. Surpresa! O doente não aparecia para a consulta. Até que o botei contra a parede. Ou se consultava ou não ajudava mais.

Cheio de saúde, foi ao consultório.  Pediu uma receita de suplementos para ficar com o corpo atlético. Nunca conheci o sujeito, repito. Eu me senti um idiota por ter caído na história. Só que esse rapaz havia perdido o emprego após o suposto acidente. Foi por isso que me deixei enganar. Mas, ao perder salário, muita gente perde também a vergonha. Pior ainda. A violência aumenta. As pessoas buscam vagas nos mercados em expansão. Se a indústria automobilística vai bem, é lá que vão trabalhar. O mercado em expansão nesse momento é o da bandidagem. Surgem mais candidatos a roubar, matar, traficar. E quem trabalha e não recebe? Tomo como exemplo o Rio de Janeiro. Os funcionários públicos mal recebem seus salários. Como viver?

“Papai, o que preciso fazer para ter R$ 50 milhões em malas?”

Fraude, fraude. Como não considerar a fraude, o uso da boa-fé alheia absolutamente normal, depois de um ano em que as máscaras de nossos políticos caíram tão radicalmente? Temos presidente suspeito. Ministros. Políticos de todos os escalões. Respeito muito o Supremo Tribunal Federal (STF). Mas às vezes é difícil entender certas decisões, como deixar nas mãos dos lobos o cuidado do galinheiro – caso de Aécio Neves. Se Aécio é culpado ou não, não tenho o direito de afirmar. Essa questão fica para a Justiça. Mas continuar, depois da divulgação daquele telefonema? Imagino que para os pais ande muito difícil explicar aos filhos que é preciso ser honesto. E se a criança perguntar:

– Papai, o que preciso fazer para ter R$ 50 milhões em malas?

Também, juro, fiquei com uma sensação muito ruim por dona Marisa ser suspeita de tanta coisa, no depoimento do viúvo Lula. Não a conheci. Mas desejo que descanse em paz.

Podemos esperar por um futuro melhor ou o que nos aguarda é mais descrédito?

Novos candidatos vão surgir. Serão novos? Ou os antigos? Ou novos com cabeça de velhos? Para a Presidência, quem? A crise está melhorando? Está. Mas, depois de tudo, o brasileiro espera um messias. Alguém que, de alguma maneira maravilhosa e inconfundível, salve o país. Quebramos a cara várias vezes por isso, no passado. Tivemos Jânio Quadros. Ia passar a vassoura no país. E outros, outros. Acabou vindo Collor. Eu sofri naquela época! Faltou grana! Tínhamos tanta confiança, que ele pôde até confiscar nosso dinheiro nos bancos. Para terminar em impeachment. E agora, vai aparecer um novo messias? Linha dura? Mais liberal? Vamos ter de viver tudo isso outra vez, com planos mirabolantes?

Todos pedem que a gente tenha uma nova consciência para votar. Como? Se só sabemos ser enganados? Mais ainda, num mundo em que as fake news são divulgadas pela internet, em que muitos sites servem a qualquer mentira. Digo por mim. Já contaram cada história a meu respeito que nem sei o que dizer. Já inventaram histórias de amor, tramas nas novelas que escrevo. Pior. Depois todo mundo me pergunta por que isso ou aquilo não aconteceu na novela. Se mudei a trama. Respondo:

– Nunca foi para acontecer. Era mentira da internet.

Duvidam. Acham que estou mentindo.

Imaginem o que vai ser isso numa campanha política. Aconselho a ficarem muito de olho em quem dá a notícia. Revistas, jornais, com equipe de repórteres, verificam as notícias. Os outros inventam. Cuidado para não cair nessas notícias falsas, que destroem a vida de uma pessoa. Ou de um candidato. Se eu fui alvo de notícias falsas, o que vai se passar com os candidatos?

***

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Há mulheres que fingem, por uma vida inteira, ter o orgasmo que jamais tiveram. São as mais generosas: elas nos dão a ilusão de dever cumprido. Por Orlando Silveira em "Rapidíssimas". Leia mais no blog.
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2018/01/rapidissimas_17.html#comment-form



quinta-feira, 3 de março de 2016

CONVERSA NO ÔNIBUS


 Impossível não ouvir, que bom ouvir!

Quase duas horas de viagem. Eles não paravam de conversar conversa deliciosa – os dois sentados nos bancos atrás dos nossos. Comentavam a paisagem, as notícias do dia, falavam – lúcidos, serenos, apaixonados – sobre tudo. Tinham, salvo engano desse contador de boteco, 190 anos de amor.

Melhor tirar os óculos para leitura, fechar o livro e ouvir com atenção.

Hora de aprender.

Lá pelas tantas, ele disse a ela:

-- Acordei duas e meia, pensei em chamar você... Resolvi não incomodá-la.

E ela, feliz da silva, lhe devolveu:


-- Bobagem. Você nunca me incomodou. (OS - 2015)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O PRIMO JAIRO

Jairo é primo do pai, bem mais novo que o pai. Jairo é CATARINA, MANEZINHO DA ILHA. 

Décadas atrás, vestiu a capa de retirante. Veio tentar a sorte em São Paulo. Voltou rapidinho. Fez bem. Foi ser feliz nos braços fortes de Marlete, mulher decidida, de sorriso largo. E fizeram muitos filhos, todos queridos, de quem tenho saudades. Não os vejo há muito tempo.

Durante anos, quase todos os anos, nos hospedamos em sua casa, em Saco dos Limões. Por mais de uma vez, Jairo e Marlete nos tiraram do hotel. Ambos consideravam ofensa inominável a gente não dormir ali, na casa deles, comer ali, na casa deles, não ir com eles, nos finais de semana, pra casa de praia, pescar, comer peixe, famílias reunidas. Aquilo não era uma reunião. Era um rolezinho da alegria.

Marlete cuidava dos filhos. Jairo pegava no batente lá fora. Gente séria. E alegre.

Mas nem tudo é perfeito.


www.expressomt.com.br

A valentia de Jairo, de cuidar da família, de trabalhar dobrado sempre que preciso, esbarrava numa única e intransponível barreira: o exame de sangue. (Tenho com Jairo mais afinidades do que supunha: também capoto feio nessas ocasiões.)

Marlete grávida do último filho (fizeram outro?), levou Jairo ao laboratório. Ele entrou amuado, saiu desmaiado. As enfermeiras corriam de um lado para outro, de olho no barrigão da Marlete, que esperava o desfecho previsível.

Antes que a enfermeira falasse, Marlete disparou:

-- Já sei, já sei. Ponham Jairo no carro, por favor.

-- Como a senhora vai retirá-lo do carro quando chegar em casa?

-- Esquenta, não. A família já está esperando. Dois dias de cama, ele fica novinho em folha.

Se um dia escreverem a história da família, tenho a impressão de que, no quesito valentia, Jairo e eu não vamos figurar. O que, convenhamos, é uma puta sacanagem.