Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de março de 2019

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES



O AMOR...

É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!



LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

____________________________________

LEIA TAMBÉM


Não precisa bater quando chegares./
Toma a chave de ferro que encontrares/
sobre o pilar, ao lado da cancela,/e abre com ela/ 
a porta baixa, antiga e silenciosa... 
De Guilherme de Almeida

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: CLARICE LISPECTOR

Resultado de imagem para IMAGENS CLASSIFICADOS DE JORNAL
Imagem: Depositfhotos

PRECISA-SE

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

terça-feira, 25 de julho de 2017

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES



RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

***


LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

***

LEIA TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens rei salomão

E SALOMÃO DISSE: "Jesus te ama, o “bispo” te afana."
Por Orlando Silveira. Em RAPIDÍSSIMAS
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/07/rapidissimas.html#comment-form


quarta-feira, 24 de maio de 2017

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES



Resultado de imagem para IMAGENS GIRASSOL

DE UM LADO CANTAVA O SOL



De um lado cantava o sol,

do outro, suspirava a lua.

No meio, brilhava a tua

face de ouro, girassol!



Ó montanha da saudade

a que por acaso vim:

outrora, foste um jardim,

e és, agora, eternidade!

De longe, recordo a cor

da grande manhã perdida.

Morrem nos mares da vida

todos os rios do amor?



Ai! celebro-te em meu peito,

em meu coração de sal,

Ó flor sobrenatural,

grande girassol perfeito!



Acabou-se-me o jardim!

Só me resta, do passado,

este relógio dourado

que ainda esperava por mim . . .


quarta-feira, 1 de março de 2017

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES

Resultado de imagem para IMAGENS LAMBE-LAMBE FOTÓGRAFO
FOTO: ARQUIVO GOOGLE 



ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

CECÍLIA MEIRELES



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES

CANÇÃO DE OUTONO


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

***

VEJA TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens leon frederic

Hora do recreio, hora de "passear" pelas tela
s do pintor belga Léon Frédéric
 (26 de agosto de 1856 - 27 de janeiro de 1940)


http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/01/imagens-leon-frederic.html#comment-form

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

CHÁ DAS CINCO: CECÍLIA MEIRELES



Resultado de imagem para IMAGENS MATISSEJANELAS
HENRI MATISSE



A ARTE DE SER FELIZ



Houve um tempo em que a minha

janela se abria para um chalé.



Na porta do chalé brilhava

um grande ovo de louça azul.

Neste ovo costumava pousar

um pombo branco.



Ora, nos dias límpidos,

quando o céu ficava da mesma

cor do ovo de louça,

o pombo parecia pousado no ar.



Eu era criança,

achava essa ilusão maravilhosa e

sentia-me completamente feliz.



Houve um tempo em que a minha

janela dava para um canal.



No canal oscilava um barco.

Um barco carregado de flores.

Para onde iam aquelas flores?

Quem as comprava?



Em que jarra… em que sala,

diante de quem brilhavam,

na sua breve experiência?

E que mãos as tinham criado?

E que pessoas iam sorrir de

alegres ao recebê-las?



Eu não era mais criança,

porém minha alma ficava

completamente feliz.



Houve um tempo em que a minha

janela se abria para um terreiro,

onde uma vasta mangueira

alargava sua copa redonda.



À sombra da árvore, numa esteira,

passava quase o dia todo sentada

uma mulher, cercada de crianças.

E contava histórias.



Eu não podia ouvir, da altura da janela,

e mesmo que a ouvisse, não entenderia,

porque isso foi muito longe,

num idioma difícil.



Mas as crianças tinham tal expressão

no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos
tão compreensíveis, que eu participava do auditório, 
imaginava os assuntos e suas peripécias
e me sentia completamente feliz.



Houve um tempo em que na minha janela havia um

pequeno jardim seco.



Era um tempo de estiagem,

de terra esfarelada,

e o jardim parecia morto.



Mas todas as manhãs vinha um pobre

homem com um balde e em silêncio,

ia atirando com a mão umas gotas

de água sobre as plantas.



Não era uma rega:

era uma espécie de aspersão ritual,

para que o jardim não morresse.



E eu olhava para as plantas,

para o homem, para as gotas de

água que caíam de seus dedos magros

e meu coração ficava

completamente feliz.



Mas, quando falo dessas pequenas

felicidades certas, que estão diante

de cada janela, uns dizem que essas

coisas não existem, outros que só

existem diante das minhas janelas

e outros finalmente, que é preciso

aprender a olhar, para poder vê-las assim.



CECÍLIA MEIRELES