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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

CULTURA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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 AINDA CONY, INESGOTÁVEL

Há mais de 40 anos, o crítico Otto Maria Carpeaux
advertia: ‘Esconde atrás da máscara de um cinismo
feroz seu sentimentalismo inato’

Por Zuenir Ventura
O Globo – 10/01/2018

Carlos Heitor Cony morreu deixando de propósito a imagem de que era pessimista, cético, cínico e, como revelou no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, anarquista. Gozador, deve estar se divertindo por ter conseguido que acreditassem nisso. Mas será que esse Cony correspondia ao real, de carne e osso? Pelo menos seu amigo Otto Maria Carpeaux achava que não. Há mais de 40 anos, o grande crítico advertia: “Cony esconde atrás da máscara de um cinismo feroz seu sentimentalismo inato”.

Bastaria lembrar o que o cronista expressou publicamente sobre Mila (*). Um trechinho: “Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas vezes juntos, a patinha dela em cima de meu ombro”. É difícil imaginar um cínico capaz de se enternecer e chorar de saudade a perda de uma cadelinha.

A mesma contradição se encontra nesse anarquista obediente aos rituais. Foi ele quem revelou: “Estudei em seminário não por um sentido místico, mas porque a liturgia me atraía”. Quer dizer: o que o fascinava nos dez anos de internato não era a fé, mas os ritos da religião.

Dois mecanismos foram importantes na formação de Cony. O primeiro, de compensação. Aos 5 anos, quando começou a articular palavras, ele misturava letras, o que o levou a se refugiar na escrita. Escrevendo, não trocava, por exemplo, o “g” pelo “d” em “fogão” como fazia ao falar, provocando bullying dos colegas.

O segundo mecanismo foi o de defesa — “um modo de não se deslumbrar” — e de proteção contra o niilismo e o desespero. Caminhando sempre entre paradoxos, ele às vezes se mostrava tão cético que parecia não acreditar nem no ceticismo.

Em 1958, Luiz Garcia e eu éramos editores do suplemento literário da “Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda, quando apareceu na redação um desconhecido com um envelope: “São os originais de meu livro. Não sei se vale uma resenha”. Era Cony, com o “Ventre”. Valia, e como.

Já estava nesse romance de estreia com imagens fortes e uma inesperada contundência de linguagem um pouco da dissonância que iria marcar sua vida e obra — uma espécie de espírito de contradição que gostava de contestar expectativas óbvias e de não se permitir estacionar numa posição ideológica. Chegou a ser flagrado na esquerda, na direita e no centro, mas não por muito tempo.

Uma vez ele escreveu que, vizinhos de bairro, só nos encontrávamos nos aeroportos ou fora do Brasil. Num desses encontros a caminho de alguma palestra, perguntei que máscara ele ia usar na sua fala. Como não aceitava provocação nem de brincadeira, retrucou: “Eu uso a máscara do pessimismo e você, a do otimismo. Cada um se defende como pode da tentação contrária”.

À sua maneira, ele concordava enfim com o diagnóstico de Carpeaux.

***

LEIA A CRÔNICA “MILA”

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

CRÔNICA/POLÍTICA: CARLOS HEITOR CONY

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Cony por Sponholz

A GRANDE FLÓRIDA

Fiz um esboço do que seria esse AI-2, cujo artigo
primeiro rezava: "A partir da publicação deste Ato,
os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se
Brasil dos Estados Unidos"

Por Carlos Heitor Cony
Folha de S. Paulo
24/06/2002

Pensava em escrever a crônica de hoje sobre a noite de São João, que antigamente era "a mais fria do ano". Hoje não mais. Além disso, a coluna de Clóvis Rossi no sábado foi magistral, como sempre: ele dá a solução que poderia ser "a solução final" de todos os problemas que nos afligem.

Malan seria candidato presidencial por uma coligação de todos os partidos nacionais, Fraga seria vitalício no Banco Central com direito de indicar o sucessor em testamento, como se o banco fosse coisa do grupo do qual faz parte.

Lembrei, modestamente, uma crônica que escrevi em 1965, no "Correio da Manhã", e que criou uma crise que me obrigou a pedir demissão ao Callado e ir embora. O jornal foi informado que se publicasse mais uma crônica minha, seria fechado, como de fato o foi, mas já em outro contexto.

Falava-se num tal Ato Institucional nº 2, que seria assinado naqueles dias, fechando todos os partidos e radicalizando o regime de exceção até que, em 1968, com o AI-5, a radicalização chegou ao ponto considerado ótimo pelos militares.

Fiz um esboço do que seria esse AI-2, cujo artigo primeiro rezava: "A partir da publicação deste Ato, os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se Brasil dos Estados Unidos".

Nos demais parágrafos, previa que o dólar seria a moeda oficial do país e que teríamos o direito de eleger um governador, pois seríamos mais um estado da federação norte-americana.

***

Carlos Heitor Cony, que morreu na última sexta-feira (05), aos 91 anos, foi um grande jornalista, escritor e intelectual. Morreu o homem, mas seu talento está registrado em suas publicações. Para quem ainda não leu o romance, recomendo a leitura a leitura de “Quase Memória”. (OS)   

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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Ilustração: arquivo Google

PERGUNTAS NA CPI

É verdade que Vossa Senhoria desde criança tem 
o hábito de palitar os dentes com um alfinete de platina 
que roubou da senhora sua mãe?
  
Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL – 30/08/2005


1) Responda francamente, sem tergiversações: onde Vossa Senhoria estava no dia 22 de fevereiro de 2002?

2) Vossa Senhoria conhece um cidadão chamado Antero Dias de Souza? Se a resposta for positiva, Vossa Senhoria manteve com ele algum tipo de relacionamento?

3) Qual o tipo de colaboração que Vossa Senhoria mantém com a Associação dos Ex-Funcionários Paraplégicos do Triângulo Mineiro? Por acaso, Vossa Senhoria sofreu algum tipo de doença, assemelhada? Quem o tratou e em que data foi curado?

4) Vossa Senhoria confirma que viajou para Belém do Pará, no vôo 3009 da Varig, em companhia de empresários interessados no desmatamento da Amazônia?

5) É verdade que Vossa Senhoria desde criança tem o hábito de palitar os dentes com um alfinete de platina que roubou da senhora sua mãe?

6) Por que Vossa Senhoria, que se diz morador na avenida João Pessoa, recebe sua correspondência particular no beco das Carmelitas Descalças?

7) Em 17 de maio de 2003, Vossa Senhoria foi vista em companhia de um paraguaio que havia entrado ilegalmente no país. São numerosos os testemunhos deste fato que Vossa Senhoria poderá explicar, jamais poderá negar.

8) Como Vossa Senhoria explica que janta todas as sextas-feiras na churrascaria Berro do Boi e que teve uma altercação, no dia 28 de maio de 2003, com um garçom por causa de uma picanha mal passada?

9) Durante as comemorações do Dia da Pátria, em setembro de 2001, Vossa Senhoria teria dito que, se pudesse, dava o fora do Brasil? O que teria levado Vossa Senhoria a semelhante demonstração de falta de patriotismo?

10) É verdade que Vossa Senhoria encerrou a conta número 045697 no Banco do Oeste de Pernambuco porque o gerente teria tido um caso com a digna consorte de Vossa Senhoria?

Carlos Heitor Cony é romancista, cronista e jornalista. Cony foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2000.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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ILUSTRAÇÃO: ISTOCK

A BANALIZAÇÃO DO ERRO

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL
24/01/2006

Não estou por dentro do assunto, mas leio nos jornais que há algum embaraço entre autoridades norte-americanas e o Google, questões não sei se técnicas, legais ou morais, mas há algum desconforto entre o quebra-galho eletrônico mais utilizado pelos internautas e os responsáveis pelo setor nos Estados Unidos.

Não tenho elementos --nem me interessa tê-los-- para dar opinião a respeito. Como qualquer usuário, recorro ao Google em determinados casos, mas confesso que com receio, mais do que receio, com remorso. Sei como é falho em suas informações, misturando nomes, datas, situações, fatos. Outro dia fiz uma consulta sobre mim mesmo, digitei meu nome por completo e recebi, entre várias informações corretas, uma centena de Carlos Heitor que nada tinham a ver comigo, inclusive um pai-de-santo no Maranhão e um dono de laboratrório acho que aqui mesmo no Rio.

Se me atrevo a dar uma opinião sobre o Google, diria que, tal como nas boas enciclopédias, cada texto (ou verbete) deveria trazer o nome do autor que o escreveu, abonadas com a citação das fontes. Do jeito que está, simplesmente veiculado por uma sigla (Google), deixa de ser confiável. Torna-se até leviano.

Um colégio aqui do Rio fez uma espécie de concurso sobre os escritores cariocas e meu nome apareceu em diversos deles. Noventa e oito por cento dos alunos consultaram o Google e sem darem crédito à fonte, repetiram o mesmo erro que consta de uma de suas as páginas: atribuíram-me um livro de estréia que nunca publiquei nem escrevi.

A massificação das informações facilita este tipo de trabalho escolar, mas os erros são tantos e tamanhos que prejudica o aluno e a verdade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

RISOS E VAIAS

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL
04/10/2005

Uma das curiosidades dos textos que leio, na mídia impressa, é a rubrica que se tornou generalizada, não sei se ensinada nas faculdades de comunicação, ou adotada pela necessidade de chamar atenção para um detalhe considerado irônico ou engraçado.

O entrevistado ou declarante está divagando sobre um tema qualquer, com a seriedade que se espera de alguém que mereça ser entrevistado ou declarante. Lá pelas tantas, diz ou lembra alguma coisa, algum episódio que ele próprio considera irônico ou engraçado. E ri.

Ao fazer o texto, o entrevistador coloca entre parêntesis: "riso". Ou "risos", no plural quando, além do entrevistado, o entrevistador também ri. Dou um exemplo banal: "Todo mundo morre, eu sei que morrerei um dia (risos). Mas confio em Deus que este dia esteja bem longe (risos)."

O recurso da rubrica é natural e até necessário para os textos de teatro, embora os diretores não obedeçam às marcações dos autores, por conta da criatividade pessoal. Há sempre a indicação para os personagens idosos: tosse, pigarro, sobretudo tosse. Todos os velhos tossem em cena e, eventualmente, na vida real. Também nos parlamentos há a indicação dos aplausos e, no final do discurso, a informação suplementar: "Palmas. O orador é vivamente cumprimentado".

Paro por aqui. Fico a merecer uma rubrica para o que acabei de escrever: "O cronista é intensamente vaiado" (risos).

sexta-feira, 28 de julho de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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 PARÁBOLA DO PAPAGAIO

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – FSP
07/02/2006

Não sei se é piada já em forma de piada mesmo, ou se limita à citação de uma crônica de Humberto de Campos, na minha opinião, ainda o maior cronista da literatura brasileira.

Um sujeito queria comprar um papagaio, entre outras coisas, para ensinar-lhe a dizer todos os dias: "Deus seja louvado!", frase machadiana que durante algum tempo figurava nas cédulas do dinheiro em circulação. Um vendedor de papagaios ofereceu-lhe um espécime raro, belo e brilhante em sua plumagem verde e amarela, com alguns toques de azul, uma síntese animal das cores da nossa bandeira, salve, salve.

O comprador perguntou:

- Ele fala?

O vendedor respondeu:

- Não. Mas ele pensa.

Lembro a anedota às avessas, quando vejo e ouço certos governantes e políticos, o mais notório deles sendo o próprio presidente da República, que é uma mistura de político e governante.

Ao contrário do papagaio da anedota, eles falam, falam muito, falam demais, a qualquer hora e por qualquer motivo. Bem ou mal não importa para eles. O que importa é falar.

E ainda ao contrário do papagaio citado aí em cima, não pensam. Ou pior, só pensam naquilo. Como o Juquinha de outra anedota, que só pensava em sacanagem e coisas afins.

A nossa classe política, com as exceções de praxe e circunstância, que felizmente são muitas, está repleta de papagaios emplumados, patrióticos, alguns deles chegam a estar a venda. Falam, falam, mas não pensam no compromisso que assumiram nas campanhas eleitorais, quando juraram trabalho, honestidade e dedicação à causa do povo que os elegeu.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY




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LAGOA RODRIGO DE FREITAS/ IG ESPORTE




PROMESSA E MENTIRA

Por Carlos Heitor Cony
Folha Online – 08/11/2005

Perdoem o assunto pessoal, mas pensando bem, ele tem a ver com todos nós, que somos enganados pelos candidatos a cargos públicos durante as campanhas eleitorais. Moro na Lagoa, aqui no Rio, um dos cartões-postais da cidade. Não é grande a Lagoa, é bastante. Foi gradativamente aterrada mas sobrou água bastante para merecer o nome de "lagoa" e não o de "poça".

Há mais de 50 anos vem sofrendo poluição gradativa, de tempos em tempos os moradores daqui são obrigados a fechar as janelas devido ao mau cheiro dos peixes mortos que ficam boiando, tornando a lâmina de água um imenso lixo prateado e nauseabundo.

Paralelamente, há 50 anos os candidatos a governador e a prefeito, uns da direita, outros da esquerda, dos mais disparatados partidos e coligações políticas, juram que acabarão com o problema. De uma forma ou outra, o eleitorado acredita neles, não só no que diz respeito à Lagoa como a outros problemas urbanos e sociais.

Acontece que um candidato que promete justiça para todos, empregos, investimentos de infraestrutura, pode manipular números, resultados, estatísticas. O exemplo mais notável é o do atual governo federal, que garante ter dado ao Brasil o paraíso em forma de desenvolvimento, mercado de trabalho, desempenho econômico etc.

A Lagoa não pode ser manipulada. Ela é ela, está assim, degradada em imensa vala. Entra pelos olhos e pelos narizes de todos. Piora a cada ano. Tecnicamente, nem custa tanto dinheiro a sua despoluição. O Reno, na Alemanha, o Tâmisa, em Londres, foram salvos por obra de sucessivas administrações que levaram o problema a sério.

Ano que vem teremos novas eleições nos planos federal e estadual. As promessas serão repetidas com o mesmo cinismo. Evidente que há problemas maiores a resolver mas o caso da Lagoa é emblemático: cria a promessa e realiza a mentira eleitoral.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY




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ILUSTRAÇÃO: 123RF




O DIABO E A POLÍTICA

Por Carlos Heitor Cony
Folha Online – 29/11/2005

Sempre que leio os jornais, lembro uma historinha que nem sei mais quem me contou. Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.

Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na mais completa sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.

O frade ficou admirado e interpelou o Diabo:

- O que está fazendo aí nesta boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua - assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!

Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:

- Para quê? Trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado, eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem.

Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:

- Tem sido assim em todas as aldeias. Quando entra a política eu dou o fora, não precisam mais de mim.

quinta-feira, 9 de março de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY



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FOTO: ARQUIVO GOOGLE





A CRÔNICA COMO GÊNERO
E COMO ANTIJORNALISMO

Vida é o que não falta no jornal. Há até demais. O que falta
é uma qualidade (ou defeito) que foi banida das redações
e se tornou a besta-negra do jornalismo: a emoção

POR CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE S. PAULO – 16/10/1998

A crônica só é gênero menor em termos de literatura. Admite-se como inabalável a certeza de que a literatura tende a ser perene, intemporal. Não faltam teóricos para garantir que a arte, nela incluindo a arte literária, existe para superar a morte. E, se a literatura busca a infinitude, a crônica é crônica mesmo, expressão de finitude. É temporal, fatiada da realidade e desvinculada do tempo maior que é o da literatura como arte.

Mas daí não se deve concluir que ela seja uma defunta. Dizem que se trata de produto típico do jornalismo brasileiro, mas não exclusivo. Sendo por definição um texto datado, tem fases, sacrifica-se a modismos, mas, devido à elegância ou habilidade de seus cultores, consegue sobreviver em diferentes manifestações pleonasticamente crônicas: como gênero (crônica) e como vinculada a um tempo (crônica também).

Temos a crônica esportiva, a social, a policial, a política, a econômica. Elas se diferenciam do "artigo" porque é basicamente centrada num eixo permanente: o "eu" do autor. Daí que o gênero é romântico por definição e necessidade.

O artigo procura a objetividade, a clareza, o raciocínio, o desdobramento de premissas e uma conclusão. Baseia-se na fonte de informação cultural ou factual, expressa-se numa linguagem apropriada para ser uma coisa e outra, ou seja, objetiva e informativa.

Já a crônica, gravitando em torno dos mesmos segmentos (política, esporte, economia, polícia, sociedade etc.) tem menos ou nenhum compromisso com a objetividade ou a informação. Sua validade (nunca a necessidade) dependerá da qualidade do texto em si. Há cronistas esportivos de excelente texto (Mário Filho e Nelson Rodrigues no passado, Armando Nogueira hoje), como há bons cronistas em cada um desses nichos jornalísticos.
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CONY, NA FOTOGRAFIA DE NELSON PEREZ




Evidente que, entre os segmentos citados, tem destaque a literatura, daí resultando que a crônica literária tem um núcleo afim ao do romance, do conto e da poesia. Foi nele que tiveram glória Humberto de Campos e Rubem Braga, para citar um antigo e um mais recente. Mas o maior de todos é mesmo Machado de Assis, que fazia uma crônica bastante eclética, pulando de um nicho ao outro e, muitas vezes, absorvendo num único texto todos os segmentos, inclusive o literário.

A imprensa moderna, altamente competitiva e cara, não chegou a mutilar o gênero, mas direcionou-o a estratégia geral do que hoje se chama "comunicação". Numa palavra: exige que tudo o que é veiculado no jornal ou revista, das condições do tempo ao desempenho das bolsas, seja útil ao leitor, seja aquilo que nas redações é chamado de "serviço".

Daí que sobra um espaço reduzido ao cronista sem assunto, sem informação e sem outro serviço que não o estilo mais sofisticado que só será apreciado por determinados leitores e não pela massa consumidora do jornal ou revista.

Quanto à falta de vida que Rubem Braga condenava na imprensa em geral, justificando dessa forma sua brilhante militância na crônica, prefiro discordar com alguma veemência. Vida é o que não falta no jornal. Há até demais. O que falta é uma qualidade (ou defeito) que foi banida das redações e se tornou a besta-negra do jornalismo: a emoção.

Temos a vida demais – disse acima. Desastres, inundações, estupros, explorações da fé e do mercado, remédios falsificados, políticos corrompidos e corruptores, vedetes grávidas ou a engravidar, bolsas despencando, atletas se dopando – tudo isso é vida. Vida que pode ser bem ou mal descrita pelos cronistas de cada setor.

Banida do texto jornalístico, a emoção foi considerada cafona, desnecessária, primária. Nelson Rodrigues reclamava da falta de pontos de exclamação nas manchetes, mesmo nas mais prosaicas. Exemplo: "Pânico na Bolsa de Nova York!" é uma coisa. Sem exclamação é outra.

Não se conclua que a emoção seja simples pontuação. Ela é uma forma de ver o mundo, um estilo de sofrer ou de gozar a vida. Dou o exemplo que mais tenho à mão, que é o meu mesmo. Quando morreu Mila, minha maior amiga, passei alguns dias sem escrever a crônica diária na página 2 da Folha. Pediram-me que, ao retomar o ofício, explicasse aos leitores que não fora censurado nem reprimido, pois vinha de uma série de artigos contundentes contra o governo da época – que por sinal é o mesmo.

Fiz a crônica sobre a morte de Mila, um texto gemebundo, sangrento na dor que sentia – e ainda sinto, pois ainda não tive coragem de substituí- la.

Houve um surpreendente retorno, a ponto de receber reclamações do serviço de atendimento aos leitores do jornal que desejavam ter acesso ao meu telefone, fax ou e-mail para mandarem mensagens de consolo e carinho. Nada menos jornalístico, nada mais churrascaria.

Antes de ser um leitor, o consumidor de jornal é um ser humano tornado carente pela solidão, pelo egoísmo (próprio e alheio), pelo nenhum sentido da sociedade como um todo. Quando um cara tem coragem de gritar que está sofrendo, fatalmente encontra alguém que o compreende e, algumas vezes, o ame. Isso não dá apenas samba. Dá crônica também.

LEIA A CRÔNICA "MILA"