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quinta-feira, 15 de março de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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Marun: sem medo de ser ridículo
Foto:Sérgio Lima


O IMPEACHMENT DE BARROSO

Mais que indecoroso, ameaçar o ministro
com o impeachment é irresponsabilidade
própria de quem é dado a bravatas

Por Carlos Melo
Blog do Carlos Melo
13/03/2018 – 23h56

Quando é o caso de soltar a língua, Carlos Marun é o gatilho mais rápido que há no deserto do governo Temer. Volta e meia, ganha holofotes não por elaborações políticas, conquistas no Congresso ou por uma visão de futuro, mas em virtude da contundência destemperada e de exageros recorrentes a que é dado. Tapeado pelo poder e habilidade que não possui, torna-se especialista em bravatas, desconhecendo que o ridículo é um lugar sem volta.

De fato, nestes tempos em que a natureza parece estéril, Marun é uma força da natureza política nacional. Em primeiro mandato, tornou-se ministro responsável pela articulação, talvez pelo estilo pouco polido e pela desfaçatez sarcástica que expressava na Câmara e diante das câmeras de TV. É a cara da base de Michel Temer, o perfil acabado do Centrão. Trombador, pau-de-toda-obra, espicaça adversários esquecendo-se da elegância e da permanente necessidade de diálogo.

Foram tantas as suas… Flagrado no Plenário cantando e dançando em comemoração à votação que salvou o presidente na denúncia por formação de quadrilha, levou uma espinafrada homérica, do autor da canção, Benito di Paula. Depois, declarações de que bancos públicos liberariam recursos em favor da reforma da Previdência, revoltaram governadores e funcionários públicos.

Mais tarde, afirmou que o diretor-geral da PF ''tem o dever de observar inquéritos de grande repercussão'', o que indicava a manobra para arquivar os processos contra Michel Temer. E, agora, ameaça retomar seu mandato no Congresso especialmente para pedir o impeachment de Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Como se sabe Barroso mandou quebrar o sigilo bancário do presidente da República, assim como anulou os efeitos mais escandalosos do indulto presidencial que livraria a cara de corruptos pegos pela Operação Lava Jato. O magistrado tem-se notabilizado como pedra no sapato de Michel Temer, dos suspeitos protegidos pelo foro privilegiado e dos corruptos em geral, tornando-se um obstáculo na direção do forno onde o governo pretendia assar a grande pizza política nacional. É arrimo da resistência.

Mais que indecoroso, ameaçar ao ministro com o impeachment é irresponsabilidade própria de quem é dado a bravatas. Possivelmente, revela um sentimento e um desejo que não é só seu. Mas, demonstra também desconhecer os aspectos mais básicos de qualquer disputa de poder — indispensável a políticos em geral —, que é saber da própria força e da força do inimigo.

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Carlos Melo é cientista político e professor do Insper
Foto: Fiesp
Ignorando a opinião pública a respeito do presidente da República e de boa parte de seus ministros, apresenta-se como um tipo de ''Napoleão de Hospício'', de estatura avantajada.

Como a maior parte do governo, Carlos Marun parece sofrer a síndrome de gabinete, aquela ensimesma o sujeito, o afasta da realidade e compromete seu discernimento. Por osmose, engana-se cercado que está por seus iguais. Tem má avaliação da realidade, ''como o sujeito que vai à Rua Javari e passa a acreditar que a torcida do Juventus é maior que a do Flamengo'' — fica o crédito da frase a Renato Meirelles. É natural do poder encastelado e distante das ruas; natural de governantes cercados de aduladores. Natural dos últimos governos.

Enquanto a reforma da Previdência passa ao largo do Congresso, objetivo e razão para que o deputado fosse deslocado ao Executivo, Marun passa para o folclore político nacional. Desvela-se neste novo Febeapá — festival de besteiras que [torna a] assola[r] o país. Ficará marcado na história. É para poucos.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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Huck vem aí... Será?
Foto: Divulgação

LUCIANO HUCK, O ATOR E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

Não é possível afirmar, já, que Huck será candidato à presidência.
Todavia, pistas e ''mal-entendidos'' — como a aparição no Domingão do Faustão, marcante demais para ser apenas acidente 
— alimentam a lenda que pode tornar-se realidade

Por Carlos Melo
UOL – 06/02/2018

No final de novembro, Luciano Huck publicou na Folha de S. Paulo um artigo em que afirmava não pleitear candidatura alguma à presidente da República, nesta eleição pelo menos. Comparava-se a Ulisses, de ''A Odisseia'', dizendo amarrar-se aos mastros de forma a não ceder aos cantos das sereias. Causou impacto porque, naquelas semanas, os boatos e a expectativa de sua candidatura se expandiam aceleradamente.

No mesmo dia, publiquei neste BLOG um artigo que procurava captar, nas entrelinhas, o sentimento mais profundo do apresentador da TV Globo. Afirmei que a impressão que sua ''negativa'' deixava era a de que ''as portas de Huck para a política parecem mais abertas que fechadas''. Até porque, afirmava, ''em política nada é definitivo''.

Com efeito, se as circunstâncias persistissem, seria muito provável que o espaço para um outsider, ao feitio de Luciano Huck, continuasse em aberto. E ''logo mais adiante'', ponderava, ''novas turbulências podem produzir ondas de 'queremismo' por esse tipo de ator. Um canto aí, sim, irresistível seja para Ulisses tanto quanto para aqueles que o rodeiam''.

O problema do outsider é que ele pode ser qualquer pessoa, mas jamais será qualquer um. Esse espaço, quando aberto, espera ser ocupado por características específicas e bem definidas. Alguém amplamente conhecido, sem qualquer problema de recall; alguém com franca e direta comunicação com a massa de eleitores. Alguém que signifique mais que uma promessa (e aposta) de elevação do que a certeza de mediocridade.

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Carlos Melo, cientista político e professor do Insper
Foto: Fecomércio -SP

Não há muitos assim. Joaquim Barbosa, por exemplo, parece mercurial demais, personalista demais para um sistema político tão complicado e repleto de armadilhas como o brasileiro. Ademais, não se saberia com que equipe poderia contar, ao contrário de Huck cujos nomes de eventuais ministros já são desde logo aventados, para reduzir a resistência a seu nome.

Na ocasião, não escrevi, mas tenho repetido que, como estratégia, o artigo e a ação de Huck eram perfeitos: a porta aberta nas entrelinhas permitiria um recuo do recuo. E afastamento evitava que se sujeitasse a todo tipo de pancada a que estaria exposto. Por que antecipar constrangimentos quando é possível protelar? Encurtar a exposição, reduzindo desgastes e aumentando a intensidade do impacto de uma decisão.

Coisa fácil de entender: ao invés de submeter-se a pressões, investigações, ilações e eventuais denúncias pelo prazo de um longo ano, seu artigo tem lhe permitido reduzir esse processo a apenas seis meses — com uma Copa do Mundo, naturalmente dispersiva de atenções, no meio do caminho.

Não é possível afirmar, já, que Huck será candidato à presidência. Como tudo nessa conjuntura, qualquer cenário nasce, morre e ressuscita sem uma lógica que se possa capturar. Todavia, pistas e ''mal-entendidos'' — como a aparição no Domingão do Faustão, marcante demais para ser apenas acidente — alimentam a lenda que pode tornar-se realidade.

O fato é que o espaço para um outsider com as suas características continua como uma ampla avenida aberta para as urnas de outubro próximo. E, em dois meses, as circunstâncias só fazem reforçar esse sentimento.

Desde a publicação de seu artigo, nenhuma candidatura do autodenominado ''centro democrático'' se consolidou. Henrique Meirelles permanece mais como candidato de sua vontade do que de forças políticas capazes de alavancá-lo. A candidatura de Rodrigo Maia coloca-se como vagalume, acendendo e apagando ao sabor da desgraça ou sorte de seus aliados/adversários de base governista: Temer, Meirelles e Alckmin.

A candidatura de Michel Temer, embora plausível, seria apenas uma cartada para negociação e não pode ser levada a sério, consideradas suas chances de vitória.

“Na volatilidade que se vive, as circunstâncias pesam mais
que os atores, cujos desejos ou indisposição tornam-se detalhes, variáveis de segunda ordem.  Na verdade, circunstâncias assim determinam a lógica dos atores, não o contrário.
Quem os navega é o mar”


Geraldo Alckmin, o candidato em melhores condições neste campo, continua patinando nas sondagens de intenção de voto, com índices pouco expressivos — entre 8% e 11%. O que, para um político que já concorreu à presidência e cumpre o QUARTO mandato como governador do maior e mais visível estado da federação é pouco, mesmo para esta fase do processo.

Além disso, a mais que provável ausência do ex-presidente Lula, nas urnas, abre amplo espaço para um candidato popular, acostumado a se comunicar com os setores mais pobres — e majoritários — do eleitorado como um braço assistencialista e sem assustá-lo com radicalismos e promessas de uso atabalhoado da força.

A propósito, a ausência do petista ocasiona a mesma fragmentação de forças que se vê ao centro, agora, na esquerda sem um aglutinador natural. A fragmentação somada às possibilidades de elevados índices de abstenção, brancos e nulos desenha um cenário em que Jair Bolsonaro, à frente de fiéis setores rediviva Linha Dura, começa a assustar.

Assim, entre os que rodeiam Luciano Huck, cresce a angústia e ansiedade, e ondas de ''queremismo'' tornam-se inevitáveis. O nome do apresentador volta à boca de políticos e analistas, consta das sondagens eleitorais, num ciclo que enfraquece, ainda mais, Geraldo Alckmin, colocando maior volume de água do moinho de Huck. O que faz com que se pressinta o risco de ''cristianização'' de Alckmin.

Enfim, se será candidato ou não, é provável que nem mesmo Luciano Huck consiga responder. E qualquer um que o faça neste momento arrisca-se a escrever na água. Na volatilidade que se vive, as circunstâncias pesam mais que os atores, cujos desejos ou indisposição tornam-se detalhes, variáveis de segunda ordem.  Na verdade, circunstâncias assim determinam a lógica dos atores, não o contrário. Quem os navega é o mar.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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Melo: Cada um tem o Churchill que merece

A HORA MAIS ESCURA

Churchill foi uma liderança política que carregava: valores,
convicção e coragem para defendê-los; sensibilidade política
e capacidade de comunicação; visão de futuro, articulação,
paciência e estratégia. E, ao lado da rabugice, cultura para
suportar um humor ferino e destruidor de adversários

Por Carlos Melo
15/01/2018


Não haverá spoiler, fiquem tranquilos; o final do filme será preservado. Mas, a história é conhecida. Trata-se do período logo após a primeira condução de Winston Churchill ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, quando teve que convencer o establishment inglês que não convinha fazer a paz com Hitler. Refiro-me a ''O Destino de Uma Nação'', em cartaz nos cinemas do Brasil — o título em inglês parece-me mais interessante: “Darkest Hour”.

Como se diz, é um ''filmaço'' e Gary Oldman — irreconhecível — merece, sim, o Oscar que deverá ganhar. Claro, há um ou outro trecho romanceado, coisa para emocionar a plateia e dar cores ainda mais extraordinárias ao herói. De todo modo, Churchill foi, de fato, um personagem extraordinário.

Sobre o período e o personagem, já havia lido muita coisa. Algo rápido e interessante é ''O Duelo: Churchill x Hitler: 80 dias cruciais para a Segunda Guerra Mundial'', de John Lukacs (Jorge Zahar Editor, 2002). Fica a recomendação.

Tratou-se mesmo de uma encruzilhada para a humanidade e os ingleses estiveram muito próximos de tomar o caminho errado — embora, aparentemente, o mais conveniente.

Churchill, por sua vez, era um personagem folclórico: desacreditado, posto que responsabilizado por retumbante fracasso na Batalha de Dardanelos, em Galípoli, na Turquia, durante a Primeira Guerra Mundial. Acompanhava-lhe a fama, não injustificada tampouco mentirosa, de temperamental e beberrão.

Foi escolhido primeiro-ministro a contragosto do Partido Conservador e do Rei George VI (este, igualmente, uma figura ímpar). Acreditava-se que não durasse muito. O próprio Hitler esperava por isso — possuía informação dos ingleses.

Neville Chamberlain, primeiro-ministro anterior e homem forte do Partido Conservador, ao lado de Edward Wood (conde de Halifax), o preferido para suceder a Chamberlain e secretário de Relações Exteriores, eram favoráveis ao diálogo e à paz com os alemães. Subestimavam Churchill e, no meio político, possuíam muito mais força e prestígio que ele. Enfim, questão de tempo.

Aqueles dias, possivelmente, expressam um dos mais elevados momentos da liderança política da história. Estudando Hitler e o nazismo ao longo dos anos, Churchill possuía convicção diferente de seus pares: ''Não se negocia com um tigre quando você está com a cabeça dentro de sua boca''. Diante de seus valores, era imperativo resistir. Em virtude disso, não se furtou ao contraditório, enfrentou, debateu, correu riscos.

Exageros à parte no filme, o fato é que realmente percebeu, antes de todos, o sentimento da nação, vocalizando-o em discursos. Resistindo aos adversários internos, refugiou-se nas palavras e, ao final, unificou a população e os políticos.

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Carlos Melo é cientista político e professor do Insper

Depois, ao tempo em que enfrentava o fantástico poderio militar alemão, mobilizou energias para atrair os Estados Unidos para o centro do conflito europeu; aguardou o rompimento do pacto entre Hitler e Stálin, de modo a que os alemães se vissem forçados a lutar em duas frentes, o que os enfraquecia significativamente. Venceu a guerra e deu outro rumo ao mundo.

Humano, claro, possuía uma série de defeitos; seus biógrafos confirmam que seu temperamento tornava dura a vida dos que o rodeavam; liberal e ao mesmo tempo conservador, não foi assimilado pela esquerda política e cultural, que ainda o vê com preconceito.

Mas, o mais importante, e que os parágrafos acima querem demarcar, são as características da liderança política que carregava: valores, convicção e coragem para defendê-los; sensibilidade política e capacidade de comunicação; visão de futuro, articulação, paciência e estratégia. E, ao lado da rabugice, cultura para suportar um humor ferino e destruidor de adversários. Ao final, é a soma de suas qualidades o que importa.

O filme retrata apenas um pequeno período da vida do personagem; de fato, a ''hora mais escura'', numa tradução livre do título original. Não demonstra que, ao final, Churchill foi estigmatizado pelos aliados americanos, sendo praticamente afastado do centro das negociações pós-guerra, quando a Europa foi repartida em áreas de influência.

Não menciona que, finda a guerra, o Partido Conservador, de Churchill, perdeu as eleições para os trabalhistas de Clement Attlee, que o sucedeu. Também omite que Churchill escreveu às carradas, em quantidade superior a Charles Dickens somado a mais uns tantos, sendo laureado com o Nobel de Literatura. Fracassos e triunfos que o engrandecem.

“Estudando Hitler e o nazismo ao longo dos anos, Churchill
possuía convicção diferente de seus pares: ''Não se negocia
com um tigre quando você está com a cabeça dentro de sua boca''’

Sob muitos aspectos, dividido, o Brasil vive também sua ''hora mais escura'': não há diálogo; o fenômeno das redes sociais traz aspectos inovadores à participação, mas também faz crescer a intolerância. A cultura se defronta com o ''politicamente correto'', numa transição que mistura intransigência e sanha punitiva, muito a cima dos desejos de superação dos preconceitos e da transformação social. A arte é questionada, num afã de censurá-la. A religião penetra nas instituições.

Há desemprego e enorme precarização do emprego; o quadro econômico é, no mínimo, incerto. A violência cresce, facções de criminosos se expandem e ganham corpo na política, inclusive. Febre amarela de volta; Saúde e Educação, bens de luxo. A demografia do país passa por uma revolução, políticas públicas precisam ser repensadas. Desigualdade e injustiça social; grupos de interesses perpetuarão privilégios?

O país precisa de reformas em todos os campos, nas mais diversas áreas. Só conseguirá fazê-las se houver unidade, forjada na persuasão de argumentos que falem às mentes e também aos corações; na visão de futuro e na capacidade de comunicação dos governantes.

Num ano eleitoral, a esperança deveria pulsar em torno da emergência de novas lideranças; acender velas, dissipar o breu da hora mais escura. Mas, a história dá saltos somente quando preparada e ainda não permite avanços. Por ora, somos o que podemos ser. Cada um tem o Churchill que merece.

sábado, 13 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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POR QUE OS CONGRESSISTAS MUDARIAM
DE ATITUDE SE O ESTRAGO JÁ FOI FEITO?
FOTO: JEFFERSON RUDY/AG. SENADO

A POLÍTICA RAREFAZ O AR
DA ECONOMIA NO BRASIL

O governo vive de aflição em aflição, sabe bem que seu fim
pode estar logo ali, no descontrole das contas públicas
e na frustração com o crescimento. Já é tão pouco o que
mantém Michel Temer vivo politicamente que qualquer
desatenção pode fazer desmoronar o barranco em que se escora

Por Carlos Melo
Blog do Carlos Melo
 09/01/2018 – 09:49

  
Meses de festas e férias, e o mormaço do verão. A vida assume outro ritmo e a política tende a se acomodar à modorra de dezembros e janeiros. Em tese, tudo para. Só que não. A comichão se espalha e, nos bastidores, as articulações se aceleram. É ano de eleição. Num tempo normal, a perspectiva das urnas esquenta tudo, naturalmente. Numa quadra histórica como a que se vive desde 2016, mais ainda a chapa ferve, com risco de derreter. O fato é: não há férias para o desassossego; a vertigem nacional tem fluxo contínuo.

O governo vive de aflição em aflição, sabe bem que seu fim pode estar logo ali, no descontrole das contas públicas e na frustração com o crescimento. Já é tão pouco o que mantém Michel Temer vivo politicamente que qualquer desatenção pode fazer desmoronar o barranco em que se escora. O downgrade de agências de risco não surpreende, mas agrava a situação.

As lentes coloridas dos membros da equipe econômica, sempre positivas, querem enxergar algo de bom em tudo. É do seu papel. Acreditam, diz a fonte em uma notícia qualquer, que o rebaixamento será alvissareiro, pressionará deputados. Será? Pode ser também que não: aliviados pelo mal que já ocorreu — o rebaixamento veio e nada será imediatamente revertido — por que deputados teriam pressa, depois que Inês morreu? Tudo pode, então, ficar para depois, não?

***

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MARUN, POR KLÉBER SALES
O ESTADO DE S. PAULO

Temer foi alçado ao poder somente porque se comprometeu com entregáveis contratados, na economia: desarmar a bomba da ''Nova Matriz'', realizar o ajuste, retomar atividade e boas perspectivas. Implica em, pelo menos, remediar a Previdência Social, desculpa para todos os rombos. Se o presidente não serve para isto, para o que mais serviria? Ele não veio ao mundo para sanear o sistema político, instaurar a moralidade; veio só para isto.

Temer é antes o resultado do sistema; um articulador de pequenos interesses e interesses pequenos. Seu papel é conduzir o clero baixo, tanto quanto possível, para mitigar a aflição econômica de modo que, assim, a economia fizesse a paz da política, pelo menos da Lava Jato.

Para os que o apoiaram, nos mercados, a economia é uma exigência. Mas, para o governo, um imperativo, questão de sobrevivência. Contudo, nada é mesmo simples e a doença há casos em que não há remédio, além do deixar sangrar e do tempo.

O presidente se desdobra mesmo que a saúde física lhe cobre juros. Mas, a verdade é que não tem de onde tirar nada melhor do que aquilo que dispõe: a precariedade de quadros políticos em sua base — e no Brasil atual — é assustadora, de onde pode retirar recursos humanos para operar a recuperação?

Escolheu Carlos Marun como ministro da Secretaria de Governo. Deputado de um único mandato, num ambiente cheio de vícios, Marun se destacou rapidamente em razão da virtude de seus defeitos, com o perdão do paradoxo.

Crê-se que seja o quadro adequado para lidar com os recalcitrantes do governismo, temerosos em votar a reforma e ampliar o fosso com os eleitores. Por falar a língua objetiva da base, calculou Temer que melhor que os bons modos de Imbassahy seriam os maus modos de Marun. Faz sentido, mas após escorregar em rede nacional — admitir a pressão sobre governadores –, Marun recolheu-se aos bastidores, de onde, menos forte, articula as esperanças do governo.

Aliados começaram a abandonar o barco antes do que se supunha. No afã de manter a base, o governo recorreu ao apoio de Roberto Jefferson — uma espécie de Carlos Marun, dos tempos de Fernando Collor — para que indicasse o ministro do trabalho, e apertasse os nós do vínculo de seu PTB com o governo. Jefferson pariu Cristiane Brasil.

Deputada articulada e aguerrida como o pai — o próprio Jefferson — padece da mesma precariedade da base — difícil encontrar alguém sem ''poréns''. Mas, não é papel do Judiciário definir quem o Executivo pode ou não pode nomear ministro. Parece uma interferência indevida, quase um troco, uma desforra.

Todavia, renegar dívidas trabalhistas, já julgadas em última instância, pega mal para um ministro do Trabalho. Ser acusado por gente simples, motoristas e domésticas, arranha tanto a reputação quanto a de um dentista com cárie e banguela. Argumentos em sua defesa, como os do deputado Beto Mansur — ''se for assim, o ministro da Saúde não pode fumar; o dos Transportes não pode ter multa''—, são, sinceramente, patéticos.

***

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CARLOS MELO (ESQ.) É CIENTISTA POLÍTICO 
E PROFESSOR DO INSPER

Enquanto o governo fica assim nessa água malparada, esperando fevereiro chegar, a fragmentação eleitoral corrói a base e aprofunda a desinteligência. Já há pelo menos três candidatos que se reivindicam do autodenominado ''centro democrático'' em que o governo diz estar; disputas se acirram e, assim, se desvia o governo de sua pauta.

Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia se preparam para consumirem-se mutuamente. Buscam demonstrar que são capazes de reunir melhores times que os demais; já insinuam formar ministérios. Faz sentido, procuram atrair setores da elite e do empresariado, no primeiro momento. O diabo, porém, será conquistar a massa — no momento seguinte.

Pelo menos para Alckmin e para Meirelles, o caminho pode não ter volta: para ambos, a eleição de 2018 será a última oportunidade de realizar o sonho da Presidência, que acalentam há anos. Não é fácil renunciar a sonhos. Já para Maia, pode se tratar de cavalo que passa encilhado, como descartar? O deputado percebeu que em política, o poder é destino; há de virar o rosto se a sorte lhe sorri?

Quem abriria mão em nome de quem? Em 1989, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e Mário Covas não chegaram a qualquer acordo; fragmentaram o centro, abriram espaços para Collor, Lula e Brizola. Nenhum deles conseguiu atrair o outro, tornar-se ponto de confluência de múltiplas forças políticas. E, note-se, eram quadros mais vividos, mais respeitados politica e intelectualmente, mais sagazes e credíveis que os atuais.

A saída para aglutinar o campo governista seria mesmo a natural atração que um governo bem resolvido e bem-sucedido, naturalmente, possui. Mas, esse não parece ser o caso. Voltamos às agruras de janeiro e fevereiro, mencionadas acima. E se fosse o caso — ou improvavelmente vier a ser — porque seria um deles e não o próprio Temer o candidato?

Vive-se, então, certo impasse e assim será pelo menos até abril, até que aos poucos tudo se defina (ou não), já a partir de 24 de janeiro, quando o ex-presidente Lula será julgado pelo TRF da 4a. Região. Enquanto isso, no mormaço de verão, o sol arde, a chuva cai. As cidades param por entre carros engarrafados ou sob águas que brotam dos bueiros. Não há brisa, a febre amarela reaparece. O bafo suspeito do futuro rarefaz o ar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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Depois da farra...
Heitor dos Prazeres/ Enciclopédia Itaú Cultural

REGRAS DE OURO

Foi Temer quem, ao contrário das expectativas de sua equipe 
econômica, se acomodou às pressões do Legislativo, 
mesmo antes do Joesley Day

Por Carlos Melo
Blog do Carlos Melo
 09/01/2018 – 09:49


Com justificados cuidados com a qualidade do ambiente macroeconômico, a chamada ''regra de ouro'' consiste num instrumento que impede o governo federal de fazer mal a si mesmo, a seu sucessor e ao país, proibindo-o de emitir dívidas em montantes superiores aos investimentos. O objetivo é dar travas à natural ''bondade com o dinheiro dos outros'', ao irresponsável populismo fiscal, com elevação de despesas correntes que os governantes adoram.

Esse tipo de mecanismo é simples e racional e, bem ou mal, expressa segurança indicando que, por pior que seja o governo, por mais perdulário, sua ação deletéria ficará sob limites mínimos, forçando-o à economia e ao ajuste: governar significa dirigir com cuidado e zelo. Quando não o fizer, e a sociedade assim permitir, se verá obrigado a elevar impostos tão logo cessem aumentos de arrecadação — ou quando as despesas crescerem em ritmo maior que a arrecadação.

Trata-se, antes de tudo, de uma regra de bom senso; de um ponto de vista objetivo, ninguém pode ser contra: a administração pública tem obrigação de se pautar, de fato, pelo comedimento e pela responsabilidade fiscal. Então, é uma prática justa e respeitosa com o dinheiro público; de certo modo, um procedimento óbvio e banal que, no entanto, no Brasil, precisou constar da Constituição.

“Foi a área política do governo Temer — fisiológica, assustada
e fraca — que desconstruiu, aos poucos e sistematicamente,
as regras e os cuidados fiscais que ofereciam como alternativa
à Dilma, derretendo, o ouro da credibilidade prometida”

Impedido — ou incapaz, não importa — de fazer sua parte no controle dos gastos, é exatamente isto o que o governo do presidente Michel Temer pretende mudar.

Não custa lembrar que foi Michel Temer quem, ao assumir o lugar de Dilma Rousseff, concedeu aumentos ao funcionalismo; foi o presidente quem aceitou renegociações de dívidas (REFIS para todos os gostos), liberou emendas a granel e no atacado para manter o mandato; concedeu privilégios a bancadas setoriais, capitulou diante do interesse de estados e municípios, evitou o quanto pôde enfrentar corporações na questão previdenciária — o faz somente agora, de modo oblíquo e desesperado, quando já parece tarde.

Foi Temer quem, ao contrário das expectativas de sua equipe econômica, se acomodou às pressões do Legislativo, mesmo antes do Joesley Day. Foi a área política de seu Governo — fisiológica, assustada e fraca — que desconstruiu, aos poucos e sistematicamente, as regras e os cuidados fiscais que ofereciam como alternativa à Dilma, derretendo, assim, o ouro da credibilidade prometida.

Isto tudo posto sobre a mesa, é claro que a eliminação da ''regra de ouro'' acaba por ser natural, caminho previsível diante de trajetória errante. Não traz surpresas.

Contudo, implicará em sobressaltos na economia; afinal, quem pode dar cavalos-de-pau desse tipo, pode muito bem ultrapassar outros limites. Mudanças assim, elevam a insegurança em relação às regras, às instituições e à credibilidade dos atores, tornando tudo muito mais instável, por incerto e inseguro.

Quem, num ambiente destes, comprometeria recursos desconfiando que tudo pode, de repente, mudar ao sabor das conveniências políticas, onde governos não ajustam às regras ou, antes, conciliam interesses com corporações e as alteram?

Quadro como este só faz sentido mesmo no campo da política brasileira, pois sua regra de ouro é bem outra. Para a maioria dos políticos, manter o poder e, se possível, ampliá-lo é, este sim, o fundamento básico que de qualquer cartilha. Tanto mais quando — e este é o caso — a situação implica, acima de tudo, salvar a própria pele, preservar o pescoço, escapando de processos na Justiça e, até, da possível cana dura.

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Carlos Melo é cientista político e professor do Insper
Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Dizem que os cães lambem a própria virilha pelo mais básico e elementar princípio da anatomia: eles o fazem simplesmente porque podem, porque é possível. De modo que fazer ou não, obedecer ou não, em política, não depende apenas de regras ou critérios abstratos de bom senso; dependem, antes, de poder ou não poder. E Michel Temer, ao contrário de sua antecessora eleita, pode.

Possui condições mais favoráveis para desviar-se de qualquer boa prática definida pela lógica econômica: o mercado financeiro lhe é mais condescendente, a ortodoxia econômica mais amigável e tolerante, os tribunais menos rigorosos, o Parlamento mais aberto à ''negociação'', a sociedade mais apática. Tudo dá ao governo Temer a elasticidade dos cães, mencionada no exemplo acima. Faz porque pode.

Somente os custos de reputação de sua equipe econômica poderão conter esse processo. Fora disto, estaremos no campo do ''Poder'' — na língua portuguesa, verbo e substantivo. O Poder, a dor e delícia da política; é eloquente, fala e cala por si. Interessante constatar como o governo Temer é, paradoxalmente, fraco e poderoso. Fraco, por sua fragilidade intrínseca, sua impopularidade explícita; poderoso por conta da condescendência de atores econômicos; da permissividade que lhe é garantida pela perplexidade da crise. Que mais dizer?

Nada mais. “Biquínis e mensagens devem ser curtos para aguçar o interesse e longos o suficiente para cobrir o objeto” (Carlos Heitor Cony). É isso aí: o que não está à mostra fica na imaginação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

Foto: Sérgio Lima/Poder 360

NO VÁCUO, TEMER FICARÁ
APENAS POR IR FICANDO

A lambança revelada na ''conversa de bêbados''
de Joesley e Saud dá desculpas e dissimulação
a quem já não votaria mesmo pela abertura de processo

Por Carlos Melo
UOL – 14/09/2017 | 20h43


No liquidar de seu mandato, Rodrigo Janot oficializa, enfim, a segunda denúncia contra Michel Temer e mais uma penca de peemedebistas e assemelhados. Trata-se de mais uma estocada, dura e contundente: Temer deixa de ser o primeiro presidente a sofrer uma denúncia do PGR para ser o primeiro a sofrer duas denúncias. Recorde sobre recorde. Contudo, o mais provável é que também esta seja uma marca destinada a não dar em nada.

Cabe compreender: a denúncia é, em si, notícia velha. As samambaias do país sabiam que ela viria mais tarde ou mais tarde. Aliás, Janot contava que, até o final do mandato, pudesse enviar três e não duas denúncias. Desgastar a Michel Temer e sua turma com mais método e vagar.

Contudo, por tudo o que tem acontecido em torno no Procurador-Geral — a frustração e o escândalo em torno da delação de Joesley Batista —, o processo não transcorreu como o PGR esperava. Também a tramitação da delação de Lúcio Funaro — o operador do PMDB — parece ter demorado mais do que se supunha. De modo que a denúncia chega fora do timing planejado, o que a torna menos potente e eficaz.

Além disso, a partir da próxima semana, ficará sob os cuidados de uma nova equipe, desvinculada de Rodrigo Janot e ligada a próxima Procuradora-Geral, Raquel Dodge. E independente da disposição da nova direção do MPF, o fato é que haverá uma quebra de ritmo nesse processo — até para que os novos agentes tomem pé da situação — e é natural que a disposição em aquecê-la na mídia também arrefeça.

Outro aspecto está vinculado a quase nenhuma disposição do Congresso Nacional em afastar o presidente da República, permitindo que seja investigado já — o ''depois'' fica para depois. Quando da votação da primeira denúncia, por força dos argumentos, cargos e recursos do governo se fez valer e mais de 26O deputados disseram não ao PGR e, de acordo com as pesquisas, também à sociedade.

Agora, com a sociedade resignada, coberta pelo desalento e falta de alternativas, ainda tanto mais fácil será a disposição da Câmara a deixar tudo como está e até retirar uma ou outra vantagem disto. Janot suspeitava constranger o sistema, mas, a lambança revelada na ''conversa de bêbados'' de Joesley e Saud dá desculpas e dissimulação a quem já não votaria mesmo pela abertura de processo.

O mais provável, portanto, é que o presidente termine seu mandato e que ajuste contas com a Justiça — se vier a ajustar — somente após 1o. de janeiro de 2019.

A efetividade da substituição de Temer é também cada vez mais duvidosa e, para boa parte do sistema político, mesmo na oposição; a cada dia interessa menos abreviar seu mandato, uma vez que sua hipotética sucessão, a cada hora, torna-se um exercício de imaginação menos real e mais confuso. É justamente o esgotamento do tempo que lhe resta que o torna mais estável.

Como o leitor deve ter notado, não há aqui considerações de mérito e juízos de valor a respeito da denúncia. Não porque inexistam questões dessa natureza, mas porque, de um ponto de vista prático, parecem pouco relevantes. E isto é o mais terrível: um presidente e seu grupo se mantêm no cargo não porque sejam importantes ou inocentes — o que, a rigor, somente a investigação e o julgamento que a Câmara não permitirá é que poderiam demonstrar —, mas apenas porque não valeria mais a pena mexer com ele. A íntima convicção de que não vale a pena. Michel Temer ficará simplesmente porque vai ficando. Em política, às vezes, existe, sim, o vácuo.

Carlos Melo é cientista político e professor do Insper


sexta-feira, 28 de julho de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

ESCÂNDALOS SE INCORPORAM
DESUMANAMENTE AO COTIDIANO

Em alguns lugares, a bala perdida foi assimilada;
faz parte do ruído urbano como o pio dos pardais.
Banaliza-se a morte

Por Carlos Melo
21/07/2017

Vivendo sua quadra histórica mais complicada, nessas duas semanas o país disfarça seus males e faz de conta que tudo está bem. São as águas paradas do recesso, o cansaço da opinião pública, a desatenção causada pelo frio; o remanso temporário das águas no mesmo lago onde mora o monstro. Presidente, Michel Temer toca o bumbo: ''O país reencontrou o rumo; está nos trilhos''. É do seu papel e sua alternativa: ao jogador de poucas cartas cabe o blefe; olhar para mão pobre e sorrir como se repleta estivesse de ases e reis.

Mas, o rumo é tortuoso e os trilhos danificados. O que mais preocupa é a segurança pública. Alguém já assinalou que, em alguns lugares, a bala perdida foi assimilada; faz parte do ruído urbano como o pio dos pardais. Banaliza-se a morte. Há alguns meses, numa dessas viagens que a profissão obriga, me perdi num desses subúrbios perigosos. Apavorado, o motorista que me levava suava em bicas; dizia-me que, ali, o risco era o ladrão e também a polícia. Frio, eu mantinha a calma dos ignorantes.

Tempos depois — de volta ao estado, consciente dos riscos —, comentei o caso com um taxista; como se lhe contasse uma aventura, falei dos caminhos porque havia me perdido. Com atenção, ele ouvia sem abalos; parecia-lhe óbvio que na cidade houvesse áreas desse tipo e que elas se expandissem. ''Está cada vez pior''. Nem o Waze é capaz de dominar a sociologia das cidades. Por fim, filosofou: ''Às vezes, nada acontece''. Não era ironia nem piada: tive sorte. A tragédia é, sim, o normal.

O estado em questão foi o Rio de Janeiro, mas o episódio cabe em qualquer rincão do país. Simbólico, o Rio é apenas, na federação, o doente em estágio mais avançado. De um modo geral, todos estão quebrados, sem dar conta do custeio das máquinas públicas — quanto mais investir para amenizar os efeitos da crise. À população resta se adaptar: trancar as portas, cercar as casas, evitar as ruas. Medo que se banaliza ou é neurose ou é covardia — a covardia nossa de cada dia.

O escândalo se incorpora desumanamente ao cotidiano como um poste sem vida. Evidente que, ao chegar à segurança pública, a crise já tomou várias outras áreas. Saúde, educação, promoção social; ética e moralidade pública. Tudo se resume a uma espécie de muro pichado, numa rua abandonada à qual todos incorporam ao caminho; o rumo de que fala o presidente Temer. Tem sido assim.

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CARLOS MELO/DIVULGAÇÃO
A maior preocupação de muitos analistas se volta para a saúde das contas públicas. Não deixa de fazer sentido, em tese. O raciocínio é conhecido: sanear as finanças do Estado, fornecendo confiança para investimentos privados, que trariam empregos e crescimento econômico; aumentos de arrecadação facilitariam investimentos em segurança, saúde e educação: circulo virtuoso, desenvolvimento social. Tudo muito simples. Em tese.

Nesse sentido, justificam-se os aumentos de impostos diante das condições fiscais, mas também pela manutenção de importantes políticas públicas. Seria mesmo inevitável.

Os impostos, no entanto, vieram após o aumento dos salários de parcelas do funcionalismo, o perdão ou refinanciamento de dívidas, liberações de emendas e cargos às mancheias para garantir o claudicante mandato do presidente. Reforma da previdência, com manutenção de aposentadorias especiais; modernização trabalhista com preservação do imposto sindical. Que sentido há nisto além do poder dos grupos de pressão?

O que fazer está nos livros-texto dos melhores cursos de economia. Como fazê-lo nenhum manual ensina. O longo prazo é uma esperança para depois de depois de amanhã; não raro, se lhe perde de vista. A vida concreta e o desespero da vida se dão no hoje e no agora: é preciso Políticas pra já.  Depois, é sempre tarde. Na verdade, é cruel: jogar água fria na manhã gelada dos que dormem na rua demonstra a estupidez humana em seu grau mais elevado. Prêmio Barbárie. Nem às vezes isso pode dar certo.

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Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.