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sexta-feira, 29 de abril de 2016

BRUNO NEGROMONTE

RELEMBRANDO NUNO ROLAND


Em quase quatro décadas de carreira, 
cantor foi um dos grandes de sua época


Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em  Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor. Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo. 

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então "terra da garoa" (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão  do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista). Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa "Pensemos num lindo futuro" e a canção "Cantigas de quem te vê". Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro "Coitadinho do pachá", "Morena do samba", a valsa "Enquanto o luar está contente" e "Não posso te dizer adeus". Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas "Amor por correspondência", de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, "Seja o que Deus quiser", de Mário Morais e Vadico, a marcha "Mulher fatal", de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha "Guarda essa arma!", de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa "Iracema", de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos. 


Ficam aqui duas canções registradas pelo intérprete na década de 1930, mais precisamente em 1938. A primeira trata-se de "Covardia", canção de autoria de dois ícones do cancioneiro popular brasileiro (Ataulfo Alves e Mário Lago):

A segunda trata-se da valsa "Mil corações", canção de autoria também de Ataulfo, só que desta vez em parceria com Jorge Faraj, gravada no dia 28 de março de 1938 e lançada em julho do mesmo ano sob a matriz 5787:



sábado, 23 de abril de 2016

BRUNO NEGROMONTE

RELEMBRANDO FRANCISCO EGYDIO

Em oito décadas de vida, Francisco Egydio foi intérprete
de inúmeros sucessos ao longo de sua carreira



Assim como muitos de sua geração, o cantor Francisco Egydio deu início a sua carreira artística a partir das grandes emissoras de rádio existentes em uma época em que a televisão ainda engatinhava em nosso país. No início da década de 1950 assinou contrato com a Rádio Excelcior e logo em seguida fechou também com a gravadora Copacabana, por onde teve a oportunidade de lançar o seu primeiro disco em 1953. Nesta estreia teve a oportunidade de registrar dois sambas: "Rascunho brasileiro", de autoria de Polera, e, "Sem palavras", de M. Mores, E. S. Discepolo e Nelson Figueiredo. Esta acompanhada por Alfredo Grossi e Sua Orquestra Típica, aquela com acompanhamento da orquestra de Nozinho. No ano seguinte fez o registro das canções "Espanhola tentação" (uma marcha de autoria de José Roy e Rodrigues Filho) e "Nosso amor morreu" (samba composto por Avaré e Wilson Roberto), sem contar duas canções de autoria de Oscar Gomes Cardim em homenagem ao quarto centenário da cidade de São Paulo: "Terra bandeirante" e "São Paulo das bandeiras".

A primeira metade da década de 1950 propiciou ao artista diversos registros fonográficos pela gravadora Copacabana tais quais o clássico samba "A Bahia te espera", de Herivelto Martins e Chianca de Garcia, os sambas "Operária", de Francisco Ávila, e "A diferença", de Celso Vilaça, e a marcha "Sombra e água fresca", de José Roy, Arlindo de Oliveira e Orlando Monello. Na segunda metade da década o cantor transferiu-se para a gravadora Odeon e por lá registrou diversos gêneros musicais tais quais bolero ("Vera Cruz", de S. Cahn, H. Friedhofer e Ghiaroni), mambo ("Quem será?", de Beltran Ruiz com versão de Lourival Faissal), partido alto ("Samba de nego", de Heitor dos Prazeres e Kaumer Teixeira Camelo), sambas ("Joquei clube", de Antonio Rago e João Pacífico, "Pingo d' água", de Beduíno e Conde, "Viva o Santos", uma homenagem de Júlio Nagib ao Santos Futebol Clube, campeão paulista daquele ano, e "A voz do morro", de Zé Kéti, no segundo registro desse clássico samb) e marchas ("Se essa nega fosse minha", de Elzo Augusto e Gentil Castro). Ainda na década de 1950 em parceria com o também cantor Roberto Paiva gravou o  LP "Polêmica - Wilson Batista X Noel Rosa - Roberto Paiva e Francisco Egydio" lançado pela Odeon, com capa do caricaturista e compositor Nássara. Nessa briga que resultou em alguns dos maiores clássicos do samba brasileiro, interpretou os sambas "Rapaz folgado", "Palpite infeliz", "João Ninguém", todas de Noel Rosa, além de "Feitiço da Vila", de Vadico e Noel Rosa.

No início da década seguinte especializou-se em gravações de músicas românticas a partir de registros como os presentes no LP "Creio em ti" e o LP "Francisco Egydio vive os sucessos de Lupicínio Rodrigues", um tributo (em vida) ao compositor gaúcho no qual interpretou alguns dos clássicos de sua lavra tais quais "Se acaso você chegasse", "Nervos de aço", "Nunca", "Vingança", "Cadeira vazia", entre outras. Já da metade da década em diante participou de diversos discos coletivos dedicados ao repertório de carnaval (registrando marchas como "Eu vou ferver", "Quem bate" , "Vou deixar cair", "Pra frente", "Garota moderna", entre outras) e chegou a gravar um LP no qual predominou versões de músicas estrangeiras de sucesso. Nos anos setenta teve sua voz em trilhas de novelas ("Meu rico português", da TV Tupi), registrou clássicos como "Risque", de Ary Barroso, "Caminhemos", de Herivelto Martins, "A volta do boêmio", de Adelino Moreira, e "Cinco letras que choram (Adeus)", de Silvino Neto; participou do LP "Sambas de enredo das Escolas de samba do Grupo 1", de São Paulo, lançado pela Continental interpretando o samba-enredo "Sonho de um Rei negro"Vale registrar que Egydio em sua extensa carreira (gravou mais de vinte discos em 78 rpm além de vários LPs pelas gravadoras Odeon, Chantecler e Continental, além de participar de diversas coletâneasfoi o primeiro cantor a receber o o Troféu Imprensa na categoria cantor em uma carreira que conta com registros fonográficos (além dos já citados) de canções como "Pedacinho por pedacinho", "Adivinhão", "Sorris", "É desconfiança", "Cinco letras", "Greve de amor", "Coração de fera", "Até parece castigo", "Por um beijo de amor", entre outras.

Segue aos amigos leitores duas canções na voz do saudoso intérprete. A primeira é uma canção que faz parte do rol dos grandes sucessos de nossa MPB, "Cadeira vazia" de autoria de Lupicínio Rodrigues. Essa e outras canções de autoria do compositor gaúcho podem ser encontradas no álbum Francisco Egydio – Vive Os Sucessos De Lupicinio Rodrigues, gravado em 1962:




A segunda canção trata-se de uma marchinha carnavalesca que fez enorme sucesso na voz do cantor quando o mesmo a registrou em disco em 1970. "Gelinho (Me Dá Um Gelinho Aí)", trata-se de uma canção de autoria de Manoel Ferreira e Ruth Amaral:


segunda-feira, 18 de abril de 2016

BRUNO NEGROMONTE

RELEMBRANDO... NILTON PAZ


 Nilton em sua primeira gravação
estourou no carnaval de 1939

Dando continuidade a preservação da memória de nossa música popular brasileira, hoje trago outro nome que não tenho visto com a notoriedade que merecia. Trata-se do cantor Nilton Paz, que deu início à sua carreira fonográfica no finalzinho da década de 1930, quando aos vinte anos registrou a canção "Pirolito", uma marcha de autoria do saudoso João de Barro (Braguinha) e do cantor e compositor carioca Alberto Ribeiro. 

Tal registro fonográfico ocorreu no início de janeiro (bem em cima da folia de momo) e foi lançada praticamente às vésperas do carnaval pela Columbia (disco 55013-A, matriz 120) e mesmo havendo esse lançamento as vésperas do carnaval, a canção acabou tornando-se uma das campeãs da festividade daquele ano. Esse enorme sucesso fez a composição atravessar diversas décadas no gosto popular (tanto que até os dias atuais é lembrada). Um fato curioso sobre essa gravação é a omissão do nome da cantora Emilinha Borba (que à época, aos dezesseis anos, participava dos vocais de gravações distintas em busca de dar início ao ofício que a consagraria nas décadas seguintes). 

Outro registro válido é que tal canção foi feita para o longa-metragem musical "Banana da Terra" (produzido por Wallace Downey com roteiro do autor João de Barro e de Mário Lago, além da direção de Ruy Costa). Este filme além de contar com esse grande sucesso registrado por Nilton também traz diversos outros números musicais nas vozes de alguns dos maiores sucessos da época, tais quais Carlos Galhardo, Dircinha e Linda Batista, Alvarenga, Orlando Silva, entre outros. Ainda é válido o registro de que este longa é responsável por uma das mais emblemáticas parcerias de toda a história de nossa música: o encontro entre Dorival Caymmi e Carmen Miranda, que no filme interpreta a canção "O que é que a baiana tem?", de autoria do mestre baiano que entrou no longa em substituição a canção "Boneca de piche", de autoria de Ary Barroso e Luiz Iglesias. Tal composição, mesmo fora do filme, alcançou grande sucesso com Carmem Miranda e Emilinha Borba.

Depois deste arrebatador sucesso como intérprete, Nilton Paz (então com vinte anos), fez ao longo dos anos posteriores diversos outros registros, tais quais "Quem é essa morena?" (Francisco Malfitano e Frazão), "Que rei sou eu" (Herivelto Martins e Waldemar Ressurreição), o hino "Alegria do nosso Brasil", e as marchas "Meu Barraco" "Havaiana". Vale registrar que paralelo à carreira de intérprete, o artista incursionou também pelo cinema, o que o fez acreditar em uma possível carreira internacional (o que acabou fazendo-o optar por mudar-se para os Estados Unidos afim de dar continuidade a este desejo). Apesar da experiência em películas brasileiras (a exemplo do filme "Pif-Paf") e a tentativa da Metro Goldwyn Mayer em torná-lo ator, a sua carreira no cinema norte-americano não vingou. Dentre as curiosidades existente nessa incursão de Nilton Paz pelo cinema, há uma história curiosa sobre o intérprete: Desde a gravação de "Pirolito", o intérprete começou um flerte com a jovem Emilinha Borba. Nos anos seguintes o flerte acabou por tornar-se um "namorico". Linda, Emilinha acabou por chamar a atenção do diretor de cinema norte-americano Orson Welles, que estava no país para gravar tomadas do filme “It’s All True”. Neste período, o diretor não arredava pé do Cassino da Urca, e apesar de estar mantendo um caso amoroso com Linda Baptista, não deixava de dar diversas investidas na então "namorada" do Nilton, que não gostou nem um pouco dessa situação. Reza o folclore que cantor brasileiro, incomodado com os bilhetes endereçados a Emilinha, interpela o cineasta de 2 metros de altura, que auto denominando-se "Rei do Café", dizendo-lhe que se ele, Orson Welles, era o "Rei do Café", então, ele, Nilton Paz era o "Rei das Porradas". O recado foi muito bem apreendido por Welles pelos relatos da época.

Ficam aqui dois registros do saudoso cantor. A primeira trata-se de "Pirolito", a sua primeira gravação já citada ao longo do texto:




Já a segunda vem a ser "Quem ver cara", uma composição de Francisco Malfitano e Erastótenes Frazão com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto. Assim como a canção anterior, esta também foi lançada em 1939:




sexta-feira, 8 de abril de 2016

BRUNO NEGROMONTE

Relembrando Mauricy Moura



Nascido em São Vicente – SP, se vivo,
 o intérprete completaria 90 anos em 2016


Hoje estava a passear pelas redes sociais e me deparei com um álbum do saudoso Mauricy Moura, cantor que se vivo estivesse estaria completando nove décadas de existência ao longo deste ano. Então, resolvi trazer ao longo deste mês nomes da nossa música que não merecem estar no ostracismo que hoje se encontram. Selecionei, dentre tantos, quatro nomes para abordar ao longo deste mês que tiveram seus momentos de ascensão dentro do nosso cancioneiro e hoje infelizmente são lembrados apenas pelos saudosistas como eu, que procuro garimpar materiais e nomes que, de um modo ou de outro, caíram no limbo do esquecimento (característica infelizmente tão constante em nosso país). 

Mas vamos ao que de fato interessa: rememorar a boa música e os grandes intérpretes do nosso país. Como primeiro nome série de saudosos e esquecidos cantores relembro o nome deste intérprete paulista que que começou a carreira participando de distintos programas de rádio (a exemplo do "Programa de Dª. Dindinha Sinhá", na Rádio Atlântica, de Santos) e teve, ainda na infância, como sua primeira grande incentivadora a própria mãe, que segundo dizem possuía profundos conhecimentos da arte vocal. Essa característica que fazia parte de sua mãe talvez tenha corroborado de modo significativo para que ela estimulasse Mauricy a participar juntamente ao irmão Maurício a participar do Conjunto Calunga (Tal grupo, além dos irmãos Moura, era formado por Gentil da Silva, Edésio Resende e Jarina Resende, depois substituídos por Avelino Tomaz e Rachel Tomaz). Foi a partir da experiência neste grupo que profissionalizou-se como solista do conjunto e, posteriormente, começou a apresentar-se em distintos espaços, além de diversos outros programas de rádio.


Sempre orientado por Dona Georgina (sua mãe), o ainda menor Mauricy apresentou-se em locais como o antigo Cassino Ilha Porchat (sob autorização do juiz de menores para abrilhantarem as noitadase outros “shows” por esse Brasil afora. Com a dissolução do conjunto, Cicica (como o artista era carinhosamente chamado) ingressou na Rádio Atlântica de Santos. Nesse período tem a oportunidade de ir para São Paulo pelas mãos do "caboclinho do Brasil" Silvio Caldas para fazer parte do “cast” da Rádio Excelsior. Posteriormente vai para a Rádio Record, onde tem a oportunidade de conquistar o famoso troféu “Roquete Pinto” como revelação do ano.  A sua estreia em disco se deu em 1952, pela Sinter, gravando dois sambas-canção: "Maria da Piedade", de Evaldo Rui, e "Não digas nada", de David Raw e Victor Simon. Em gravações posteriores teve o acompanhamento de nomes como os dos maestros Lírio Panicalli e Guerra Peixe. Dentre suas façanhas chegou a registrar, como intérprete, canções de autores como Newton Mendonça, Blota Jr, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Vinícius de Moraes, João Pacifico, Adoniran Barbosa, Cyro Monteiro, Edith Piaff e Lupicínio Rodrigues. Foi o responsável pelo primeiro registro em disco do até então desconhecido compositor Antonio Carlos Jobim, assim como também pelo registro de clássicos do nosso cancioneiro como "Meus tempos de criança" e "Chove lá fora", clássico de Tito Madi dentre os mais de quinze discos que deixou gravados. 

Por essas e outras Mauricy Moura acabou tornando-se um dos mais expressivos nomes da noite de sua época e não merece o ostracismo que hoje encontra-se. Não havia dentro da noite paulistana um notívago boêmio que o desconhecesse. Segundo consta em alguns depoimentos, suas apresentações eram marcantes, pois quando soltava a sua voz  o silêncio se impunha e o barulho desaparecia. Não era à toa que era considerado por Silvio Caldas, Alfredo Borba, Ciro Monteiro, Elizeth Cardoso, Evaldo Rui, Wilson Batista e outros cultores da nossa música, como o mais completo seresteiro do Brasil.


Mauricy morreu aos 51 anos de idade no Hospital Santa Verônica em São Paulo, a 23 de agosto de 1977. Partiu fora do combinado como costuma dizer o nosso magnânimo Rolando Boldrin, deixando saudosos fãs de suas interpretações e uma indelével marca dentro do cancioneiro popular brasileiro ao longo de quase quatro décadas de carreira. Aproveitando a oportunidade de relembrar esse saudoso intérprete deixo aqui para os amigos leitores duas canções registradas magistralmente pelo saudoso intérprete. A primeira trata-se de “Meus tempos de criança”, canção da lavra do não menos saudoso Ataulfo Alves. Faz-se vale a divulgação desta gravação por ser do artista, a primeira gravação desta música:



A segunda canção trata-se de “Somos iguais”, gravação de 1964 (mesmo ano do registro de Altemar Dutra). A canção foi composta por Evaldo Gouveia e Jair Amorim. É válido o registro de que os arranjos, a flauta e o piano são do alquimista sonoro Hermeto Pascoal:

sexta-feira, 1 de abril de 2016

BRUNO NEGROMONTE

Histórias e estórias da MPB - Parte 19




Dentre as curiosidades abordadas ao longo das últimas postagens estão algumas referentes ao saudoso cantor, instrumentista e compositor Jessé. Na postagem já publicada tive a oportunidade de falar um pouco sobre o início da carreira deste nome que arrebatou milhares de fãs ao longo de sua carreira, principalmente apos participar de um dos festivais musicais promovidos pela Rede Globo, onde de modo singular deu voz a canção "Porto Solidão". 

Outra canção citada ao longo da postagem anterior foi "Estrelas de papel", canção composta para que Jessé participasse de um festival internacional ocorrido nos EUA e de onde o artista voltou aclamado pelo juri como vencedor em diversas categorias. Um fato curioso desta participação ocorreu envolvendo o nome do então presidente norte-americano Ronald Reagan, que por acreditar que a letra tratava-se de uma homenagem a ele mandou um telegrama agradecendo ao artista brasileiro. Detalhe: a letra tratava-se de uma homenagem a Charlie Chaplin... e Jessé acabou por esquecer os troféus no aeroporto de Nova York. 

Além dessa exitosa composição, o artista acabou por registrar em disco também mais algumas composições de sua lavra como é o caso das canções "Vento forte" (parceria com Onofre), "Cantar", "Minha cidade", "Farsante" e "O sorriso ao pé da escada" (outras parcerias com Elifas), "Oração da noite", uma versão para a canção "Adágio D'Albinoni", entre outras. Por falar em versão, Jessé é responsável por todas as presentes em seu disco "Ao meu pai", lançado em 1985 pela RGE e que traz temas religiosos.Vale salientar que aos dez anos de idade o então pequeno Jessé já tocava violão e órgão na Igreja organizada pelo pai acompanhando hinos e louvores, o que de certo modo acabou por facilitar o seu ingresso no contexto da composição.


Antes do estrondoso sucesso com "Porto solidão", Jessé foi músico de baile (como costumava se auto definir) e neste período que antecedeu sua carreira solo (durante quase 15 anos) chegou a ter alguns registros fonográficos, dentre eles, alguns ao lado do Placa Luminosa (grupo que ajudou a fundar ainda em Brasília). Um registro dessa época que fez relativo sucesso na época foi a canção "Velho demais", cujo compositor é o piauiense Clodô Ferreira, em parceria com o baiano Zeca Bahia (um dos autores de "Porto solidão") e fez parte da trilha sonora da novela global "Sem lenço, sem documento", exibida na emissora carioca entre os anos de 1977 e 1978. Sem contar a sua incursão na música internacional como Tony Stevens e registros como "If you could remember". Apesar do reconhecimento do público, Jessé nunca ao longo de sua carreira obteve o merecido reconhecimento da chamada crítica especializada. O descaso da crítica rendeu um texto escrito por Silvio Lancelloti à época de sua apresentação no Teatro da Universidade Católica: "Durante 15 dias, Jessé encheu a plateia do "TUCA", o Teatro da Universidade Católica, no final de fevereiro, com o primeiro espetáculo de fato em sua carreira. E só o companheiro Zuza Homem de Mello, do "Estadão" e da "Jovem Pan", lhe deu a merecida atenção". Outra queixa exposta na época veio do seu maior parceiro, lifas Andreatto, o extraordinário artista gráfico que dirigiu a celebração de Jessé: "Eu convidei duas dezenas de jornalistas para assistirem ao show. Ninguém, mas ninguém mesmo, apareceu. Não queriam escrever? Tudo bem? Mas, ao menos, deveriam ter aparecido para ver o que idealizamos e o que fizemos". E por incrível que pareça ainda hoje essa tal crítica especializada parece ignorar a existência dessa figura que, graças aos ardorosos fãs, não acabou caindo no ocaso.


Deixo para os amigos leitores (assim como ao longo da semana passada), mais duas canções para audição deste singular intérprete. A primeira trata-se de "Voa Liberdade", canção de autoria de Eunice Barbosa, Mário Maranhão e Mário Marcos:



A segunda é "If you could remeber", gravação da época em que Jessé apresentava-se como Tony Stevens. Canção composta sob melodia da Sinfonia da Cantata 156 em fá maior, de Johann Sebastian Bach.



VEJAM TAMBÉM A PARTE 1 E OUÇAM PORTO SOLIDÃO

http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/03/bruno-negromonte_25.html#comment-form


sexta-feira, 25 de março de 2016

BRUNO NEGROMONTE

Histórias e estórias da MPB - Parte 19


Nascido em Niterói, o carioca Jessé Florentino Santos foi criado em Brasília, de onde saiu para São Paulo já adulto. No período em que residiu na Capital Federal teve a oportunidade de corroborar com desejo do pai, que tinha a intenção de fundar uma Igreja no local onde moravam. De fato o pai realizou tal desejo ao fundar a Igreja Presbiteriana independente do Cruzeiro, onde Jessé arregaçou as mangas aos nove anos de idade e deu uma de carpinteiro, ajudando além de carregar os instrumentos, construir os primeiros assentos do local. Foi nesta Igreja as suas primeiras incursões no universo musical. 

No entanto foi a partir do sr. Cesarino, vizinho do pretenso artista, que obteve os seus primeiro aprendizados musicais teóricos. Jessé, como ficou conhecido nacionalmente a partir dos anos de 1980, começou a sua carreira na década anterior ao seu estrondoso sucesso nacional quando atuava como crooner em boates e casas de eventos de todo o país em grupos como o Corrente de Força e o Placa Luminosa (mesmo grupo que anos mais tarde viria a estourar em todo o território nacional a partir da execução da canção "Fica comigo"). Ainda nos anos de 1970 chegou a gravar em inglês canções como "If You Could Remember" (entre outras) sob o pseudônimo de Tony Stevens. No entanto, apesar de tal registro fonográfico o sucesso e o seu nome de batismo só viria a ser revelado ao grande público em 1980, no Festival MPB Shell da Rede Globo com a música "Porto Solidão" (canção oferecida pelo autor Zeca Bahia a nomes como Gilliard e Fábio Jr., que se negaram a gravar), sem dúvida alguma o seu maior sucesso. Com esta interpretação, o então concorrente além de ganhar o prêmio de melhor intérprete também teve a oportunidade de lançar, pela RGE, seu primeiro LP de título homônimo ao seu nome e que trazia, além de "Porto Solidão", faixas como "Voa liberdade" e "Palavra de honra", de autoria de Accioly Neto. 

Ao longo dos dois anos posteriores fez dois registros fonográficos que mantiveram o seu nome em evidência em todo o território nacional, até que em 1983 Jessé ganha o XII Festival da Canção Organização realizado em Washington. O Brasil não tinha representante para o festival, Jessé resolveu por conta própria participar. No entanto para isso precisava de uma canção para levar aos Estados Unidos. Na véspera da viagem, por volta das 21 horas pega o seu irmão e vai para casa dar início a composição. Por volta das 23 horas liga para Elifas Andreato e pede que ele escreva uma letra para a nova composição. Elifas, mesmo acreditando que não daria conta, acaba por escrever uma letra para Jessé e a manda para o intérprete por volta das 02 horas da madrugada. 

Sete horas depois, às 09 da manhã, Jessé embarca para os EUA para arrebatar o jurado de modo ímpar, o cantor e compositor traz para o Brasil os prêmios de melhor intérprete, melhor canção e melhor arranjo para "Estrelas de Papel", canção de parceria inusitada entre o próprio intérprete e o artista plástico Elifas Andreato. A dupla ainda foi responsável pela composição da canção "Uma mulher", também gravada pelo cantor. 

De voz muito potente, Jessé sempre chamou a atenção do grande público por interpretações viscerais e emotivas, o que o acabou tornando bastante popular. Dentre seus registros fonográficos estão composições de nomes como Tom Jobim, Wagner Tiso, Chico Buarque, Belchior, Milton Nascimento, Sá e Guarabira, Angela Rô-Rô, Capiba, Fernando Brant, Jonh Lennon, Paul MacCartney, Pablo Milanés, Caetano Veloso, Carlinhos Vergueiro, Guilherme Arantes, Silvio Caldas, Orestes Barbosa entre outros ao longo dos anos em que atuou em palcos de todo o país, assim como também nos 12 discos que deixou como legado, dentre eles os álbuns duplos "O sorriso ao pé da escada" e "Sobre todas as coisas"Jessé faleceu após um trágico acidente automobilístico no dia 29 de março de 1993 no município paulista de Ourinhos quando estava a caminho do Paraná, onde iria se apresentar. Acompanhado da esposa (que estava grávida de cinco meses), o artista perdeu o controle do carro e capotou, fazendo com que a esposa perdesse o bebê e também ficasse em estado grave. Transferido para a santa casa municipal. o cantor que no acidente sofreu traumatismo craniano não resistiu e acabou tendo morte cerebral. Após decretada a sua condição, teve o seu corpo transferido para São Paulo afim de atender ao seu último desejo: a doação dos seus órgãos. Deixo aqui para os amigos leitores duas canções citadas ao longo do texto. A primeira trata-se do estrondoso sucesso "Porto solidão", gravada por Jessé como dito em seu álbum de estreia em 1980:




A segunda trata-se "Estrelas de Papel", canção que trouxe ao cantor e compositor os louros internacionais:

sexta-feira, 18 de março de 2016

BRUNO NEGROMONTE

NOVAS SENSAÇÕES
 EM MAIS UM VOLUME 
DA TRILOGIA CAMALEÃO




O músico brasiliense apresenta o segundo volume do projeto "Camaleão", um disco totalmente autoral que reafirma não apenas o seu talento, mas principalmente o seu compromisso com a música brasileira e suas mais variadas vertentes.

Nome de destaque na música instrumental brasiliense Ademir Junior vem alçando vôos cada vez maiores a partir de adjetivos que o fazem destacar-se para além das fronteiras do seu Estado. Empunhando o seu instrumento, Ademir vem ao longo dos últimos anos sedimentando uma carreira coerente e imbuída de verdade, características que o acabam destacando entre os grandes nomes da música instrumental nacional a partir de execuções precisas, inovados arranjos e uma discografia coerente com a sonoridade que acredita e procura divulgar pelos palcos aos quais tem se apresentado ao longo dessas mais de duas décadas de carreira entre a música secular e a música cristã. Seu interesse pela música vem ainda de sua tenra infância, quando ao lado do pai o pequeno Ademir deu início aos seus estudos musicais. Após esta primeira experiência tem a oportunidade de participar de bandas como a do SESI, a Banda Sinfônica da Escola de Música (onde torna-se solista) e a Orquestra Cristã de Brasília, espaço onde desenvolve de modo mais intenso as suas habilidades musicais e o seu interesse pelos estudos do saxofone, principalmente a partir de sua inserção na UNB aos 18 anos. Com um talento, rapidamente o musicista desenvolvesse métodos e técnicas próprias para a execução do saxofone , fazendo-o destacar-se para além de nossas fronteiras. Um exemplo para esta afirmação se deu recentemente, quando a Europa rendeu-se ao seu talento e Júnior tornou-se o primeiro saxofonista brasileiro de jazz a ser endorser da Selmer (a mais tradicional fábrica de saxofones do mundo) e da Vandoren (fábrica de boquilhas e palhetas). O convite se deu após uma apresentação em um festival em Rouen, na França e um show na Selmer, em Paris. 


Hoje, além de mestre na improvisação, o músico também é maestro e exerce a função de educador. Sem contar que desde 2013 vem na elaboração e divulgação de um projeto audacioso cujo título escolheu por nome Camaleão. Tal ideia surgiu em forma de trilogia e o primeiro volume ("Camaleão I") chegou em 2013, ano em que o músico completou 25 anos de carreira de carreira. Além de comemorar as bodas de prata de Ademir com a música, "Camaleão I" traz como marca aquilo que constituiu a carreira do músico brasiliense desde o início de suas atividades como músico: a capacidade de integrar-se aos diversos gêneros existentes de modo uníssono, não só mesclando de modo harmonioso todas as expressões sonoras que absorve ao seu redor, mas também transformando isto tudo que assimila em algo maior, que busca fugir daquilo que é convencional adicionando peculiaridades bastante pessoais a esta nova expressão sonora que produz. Nesta trilogia a qual se propõe Ademir, o primeiro volume trouxe nove canções permeadas pelos diversos estilos que estruturam a formação musical do artista, fazendo jus a um título que caiu como uma luva para o projeto a qual se propõe: agregar os diversos ritmos que estruturam e estruturaram a sua formação musical. Agora, dois anos após o pontapé inicial deste projeto, o músico volta ao mercado fonográfico com o segundo de uma trilogia chancelada por características ímpares. Batizado de "Sensações", este novo álbum do artista brasiliense traz consigo ora características que o assemelha ao projeto anterior, ora novas perspectivas para o futuro deste projeto. Em "Sensações" talvez seja possível acreditar que tal álbum e suas dez canções sejam eixo central dessa trilogia que busca enfatizar as diversas sensações que a música exerce em cada um daqueles que ela atinge. Título mais apropriado para este volume não poderia haver.


Nesse trabalho Ademir Junior demostra todas as suas habilidades e vai além do instrumento que o fez ganhar projeção nacional e internacionalmente. Além de tocar o seu saxofone tenor, o músico executa no álbum clarineta, o seu primeiro instrumento a partir dos diversos gêneros musicais que formam a colcha de retalho sonoro existente em nosso país. Ritmos como o baião, o afoxé, o xote e o maracatu permeiam as canções presentes no disco. Filho de nordestinos, em "Sensações" Ademir busca homenagear suas tradições, a música e cultura da região a partir das 10 novas composições que mostram grande riqueza melódica, harmônica e rítmica. Fruto da vitória o Prêmio Cássia Eller, pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), "Sensações" traz Ademir como diretor artístico, arranjador e solista executando Sax Tenor, Clarineta e EWI. Além disso, o projeto conta com nomes como Moises Alves (Trompete), Marcos Wander (Trombone), Alex Carvalho (Guitarra), Carlos Pial (Percussão), Hamilton Pinheiro (Baixo Elétrico), Guilherme Santana (Bateria) e Marcelo Corrêa (Piano Elétrico); sem contar as participações especiais de Sidmar Vieira (Trompete), Mario Morejon El Indio (Trompete) e Junior Ferreira (Acordeon).


Apesar de "Sensações" trazer em seu cerne uma predominância rítmica a partir dos gêneros musicais advindos do Nordeste a partir do legado de nomes como Sivuca,Hermeto Pascoal, Luiz Gonzaga e Dominguinhos. O disco mantém, assim como o volume anterior, uma proposta (ou talvez um compromisso assumido de modo inconsciente pelo artista) de trazer como característica principal a possibilidade de juntar ao seu redor os mais distintos gêneros e ritmos. É um produto aglutinador e capaz de se transformar em muitos ao abarcar toda a sonoridade que constitui o artista fazendo jus ao título "Camaleão". A possibilidade de aglutinar os mais distintos gêneros e mesclar diferentes estilos desvencilhando-se de rótulos e títulos habilitando as mais distintas sensações acaba por também justificar o subtítulo escolhido de modo tão certeiro. Para o artista a justificativa para o subtítulo é bastante plausível quando diz que "A música é a passagem para o mundo perceptivo da mente, virtual, metafísico ou espiritual, como cada um prefere chamar, e é onde os 5 sentidos aguardam ansiosos suas novas Sensações". Desse modo, este novo álbum abre novas perspectivas e portas dantes entreabertas para o reconhecimento do artistas como um dos mais promissores talentos de sua geração. É um disco que galga mais um passo para a bem sucedida trilogia proposta pelo músico brasiliense, reforçando de modo substancial a entrada de Ademir Junior para figurar no hall dos grandes nomes da música instrumental brasileira.

Para audição dos amigos leitores duas canções, A primeira trata-se de "Xote candango":


Já a segunda trata-se de "Mexidão". Ambas as canções são de autoria do artista apresentado:

sexta-feira, 11 de março de 2016

BRUNO NEGROMONTE

OLORÓ!



Vítima de um câncer de pulmão, morre Naná Vasconcelos, 
ganhador de oito Grammys e considerado um dos maiores
 percussionistas do mundo


(Por Bruno Negromonte) Em yorubá, oloró tem por significado festa. Contexto este que acredito fazer parte da chegada de Naná Vasconcelos hoje em outras pairagens. Não acredito que haja outra situação para receber um artista da grandeza de Naná. Feliz foi Gabriel, o pensador, ao saber do falecimento deste músico irrepreensível: "Não vou estranhar se os trovões, os ventos e as chuvas passarem a soar bem melhor, em combinações inusitadas de ritmos, depois da chegada do mestre Naná Vasconcelos ao céu". Senhor de todos os ritmos neste planeta, Naná resolveu assumir as percussões celestiais não sem antes deixar como legado para os que aqui ficam uma carreira pontuada por amizades sonoras em todos os cantos do planeta desde que deu início a sua carreira ainda na década de 1960.

Mesmo rodando todos os cantos do planeta o músico pernambucano foi um dos mais fiéis seguidores da máxima de Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Nascido em Recife, Juvenal de Holanda Vasconcelos ganhou o apelido de Naná dado pela avó em reverência a Nanã, que no candomblé é a mãe dos orixá. Desde criança convivia com instrumentos em casa devido ao pai, que tocava violão e o introduziu no contexto musical no início da adolescência. Por volta dos doze anos Naná já atuava tocando bongô e maracas em grupos musicais. Um pouco mais velho chegou a tocar bateria em alguns cabarés e ser percussionista da banda municipal de sua terra natal. Logo em seguida, por volta de 1967, seguiu para o Rio de Janeiro objetivando seguir carreira artística. Na “cidade maravilhosa” gravou dois LPs com Milton Nascimento e, no ano seguinte, junto com Geraldo Azevedo, viajou para São Paulo para participar do Quarteto Livre, que acompanhou Geraldo Vandré no III Festival Internacional da Canção. De volta ao Rio de Janeiro, formou o Trio do Bagaço, com Nélson Angelo e Maurício Maestro, apresentando-se, com o grupo, no México, a convite de Luis Eça. Vem desse período a sua escolha pela percussão e, em especial, pelo berimbau.

Atuou na trilha sonora de “Pindorama”, filme de Arnaldo Jabor. Nessa época, conheceu Gato Barbieri, com quem viajou para Nova York (EUA) para a gravação de um disco. Nos Estados Unidos tem a oportunidade de mostrar todo o seu talento a partir da participação em diversos festivais de jazz, e atuar ao lado de alguns dos maiores nomes da música internacional da época. Cidadão do mundo, Naná apresentou-se em países como França, Suíça, Escócia, Polônia, Alemanha entre outros países do continente Europeu muitas vezes ao lado do Quarteto Iansã. Na África foi buscar inspirações através de pesquisas que resultaram em seu primeiro LP intitulado “Africadeus”. Ainda na Europa, compôs a trilha sonora de uma novela para a televisão francesa com temas brasileiros. Em Portugal gravou um disco no dialeto angolano quimbundo. 

"Senhor de todos os ritmos neste planeta, Naná resolveu assumir as percussões celestiais não sem antes deixar como legado para os que aqui ficam uma carreira pontuada por amizades sonoras em todos os cantos do planeta desde que deu início a sua carreira ainda na década de 1960"

Em 1972, retorna ao Brasil e apresentou, no Teatro Fonte da Saudade. Nessa apresentação, interpretou o repertório de seu disco “Africadeus” e uma bachiana de Villa-Lobos, regendo um coral e atuando como único músico do show. No ano seguinte, gravou seu segundo LP, “Amazonas”, lançado pela Philips, mesclando o ritmo brasileiro ao folclore africano. 

Em seus projetos soma-se parcerias com nomes como Egberto Gismonti (com quem trabalhou durante oito anos e gravou os discos “Dança das cabeças” e “Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos & Walter Smetak”), Pat Metheny, Gilberto Gil, B.B. King e Paul Simon. Sua discografia é composta por títulos como “Fragmentos”, “Minha Loa”, “Dança das cabeças”, “Saudades”, “Isso vai dar repercussão” (em parceria com o não menos saudoso Itamar Assumpção), “Visions of Dawn” (Ao lado de Joyce e Mauricio Maestro), entre outros. Seu últimos trabalhos fonográficos foram os álbuns 4 elementos (solo) e Café no bule (parceria com Zeca Baleiro e Paulo Lepetit).

Ganhador de oito grammys, a simplicidade de Naná paradoxalmente o fez um gigante no exercício do seu ofício, um mestre que deixa como legado lições percussivas e aprendizados também como ser humano. Para mim, além de todos esses adjetivos a ele atribuídos ao longo do dia, soma-se o modo polido como ele sempre procurou tratar a todos, a simplicidade a o sorriso cativante que mesmo após o diagnóstico do câncer não o abandonou. Responsável durante 15 anos pela abertura oficial do carnaval de Pernambuco, e a frente de projetos como o “Voz nagô”, “língua mãe”, o “ABC musical” e o “Flor do Mangue”; Naná deixa hoje uma lacuna impreenchível na música global.

Ọdàbó, Naná! Adupé!