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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ZÉ TORRES, O ALCE

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O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, acompanhava com impaciência evidente a falação besta de Zeca Comedor, como gostava de ser chamado José Torres – um sujeito de alguma aparência e posse, que gostava de contar em alto e péssimo som (ainda que ninguém lhe perguntasse) suas peripécias sexuais. 

Para garantir assistência, Zé Comedor pagava cachaça e cerveja a todos os que se dispunham a ouvi-lo no bar do Carneiro. Tarefa fácil. O que mais se encontra ali é gente pronta, capaz de rir, aplaudir e pedir bis por um trago gratuito.

Naquele dia, José Torres estava particularmente insuportável. 

-- Com a mulher da gente, a coisa é diferente. Sexo só de vez em quando. E nada além do convencional. Ela tem que se comportar como esposa e mãe. Foi para isso que se casou. Ou não foi?

O Velho Marinheiro interrompeu a conversa:

-- José Torres: não sou homem de dar conselhos a ninguém, muito menos a um tipo como você: safado. Mas saiba que, a exemplo do dinheiro, vagina não aceita desaforo. Quem se gaba de pôr galhos na cabeça dos outros e despreza a companheira, cedo ou tarde, vira alce. Seu destino é ser corno. 


(Atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

UVAS VERDES






Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

-- Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

-- Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, que retribuiu o cumprimento com igual entusiasmo. Teleco levantou a dúvida:

-- Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro. (Atualizado em outubro de 2019)

terça-feira, 5 de março de 2019

QUEM ASSOBIA NÃO COME

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De repente – não mais que de repente – o pessoal que jogava bilhar no bar do Carneiro, um dos mais movimentados da Vila Invernada, largou os tacos sobre o pano verde e veio até a porta do estabelecimento para apreciar a paisagem andante. A atitude foi seguida também por quem jogava dominó e por quem estava lá só para entornar umas e outras. Em seus postos, permaneceram o dono do bar, o Velho Marinheiro e Ananias. O primeiro, atrás do balcão, com os olhos grudados no caderno de fiados. Os outros dois deram de ombros à excitação coletiva e continuaram bebericando e observando a malta.

Por paisagem andante entenda-se uma mulher de uns trinta anos, obesa, com celulite para dar, alugar e vender, de quadris imensos, vestindo uma bermuda branca, transparente e colada ao corpo, cujo número estava muito aquém de suas necessidades.  Para completar o que se poderia chamar de “uma tela de Dante”, a portadora da bermuda branca e transparente usava calcinha preta, minúscula, tipo fio dental. Sua barriga protuberante e estriada transbordava a vestimenta. O que, pelo visto, contribuía para excitar ainda mais o bando de desvairados.

Não faltaram, claro, assobios nem falsos gemidos nem comentários do tipo:

(a)  Que peixão;

(b)  Vá ser gostosa assim na PQP;

(c)  Com uma gata dessas faço sexo três dias sem parar;

(d)  E tem cara que prefere homem;

(e)  Etc.

Aos poucos, os machos retornaram à mesa de bilhar e ao balcão. Um deles, sabedor de sua timidez, resolveu provocar Ananias:

-- E aí, jornalista, não veio ver a gatona por quê? Não gosta?

O Velho Marinheiro não esperou o amigo se manifestar:

-- O Ananias é como eu: não gosta de filme B. Além disso, ele também sabe que quem assobia não come.  
(OS - maio/2015 - Atualizado em março de 2019)


sábado, 1 de setembro de 2018

E POR FALAR EM SINÔNIMOS...

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Romualdo Bastos estava mais impossível que nunca. 

O maior cruzadista de Vila Invernada de todos os tempos - talvez o único em todos os tempos - não disfarçava a satisfação de ter uma plateia numerosa e atenta, jogada a seus pés, babando de admiração por aquela vasta e inútil cultura.

Gabava-se de saber de cor e salteado os nomes de todos os técnicos e jogadores das 32 seleções que disputaram no Brasil a 20ª Copa do Mundo de futebol. Sabia mais: as datas e horários de todos os jogos, os nomes e nacionalidades de todos os árbitros, bem como a escalação de todas as equipes que conquistaram a taça. Também era de seu conhecimento os principais artilheiros de cada certame e as defesas menos vazadas.

Grande Romualdo. Romualdo imbatível. Era assim que ele se via, era assim que ele se sentia.

Animado pelos aplausos e olhares de admiração, Romualdo disse em alto e bom som, no bar do Carneiro, que a Copa, para ele, “sob o aspecto cultural”, já era página virada em seu folhetim, que agora estava concentrado nas eleições de outubro, que estava a gravar os nomes dos 32 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral e das dezenas de legendas com registro provisório. Mais ainda: sabia porque sabia  a data de fundação e nome de seus respectivos presidentes.

O Velho Marinheiro, então, resolveu lhe fazer uma pergunta:

-- Seu Romualdo, eu conheço bem essa sua obsessão por decorar bobagens. Gostaria que o senhor me respondesse uma coisa, ou melhor, duas: (1) quanto de grana cada agremiação leva, por ano, do fundo partidário? e (2) qual o tempo que cada uma dispõe no horário eleitoral gratuito?

Ante o silêncio do cruzadista, o Velho Marinheiro não deixou por menos:

-- Estou vendo que o senhor não fez direito a lição de casa. Está fraco. Só para não perder viagem, gostaria de lhe fazer outra pergunta: quantos sinônimos de “cona” o senhor conhece?

-- Uns 50 – balbuciou Romualdo Bastos.

-- Pois eu tenho na ponta da língua mais de 100. Até logo. Boa tarde a todos. (Atualizado em agosto de 2018)

***

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O MAR ENSINA

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Boas amizades são urdidas na quietude. Ser amigo não é bisbilhotar a vida do outro, querer que o outro lhe conte o que ele não quer contar. Há tempo para tudo: para discutir coisas sérias, para contar piadas, para assuntar besteiras, para, eventualmente, desabafar... Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/o-mar-ensina.html#comment-form

sábado, 22 de outubro de 2016

O FIADO VIROU SOLUÇÃO

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Carneiro andava injuriado. Pouco falava, jamais sorria. Era pura tristeza. Parecia estar sempre no mundo da lua. Aquele seu olhar distante evidenciava um aborrecimento medonho. Tal situação não escapou aos fregueses mais próximos. Uns chegaram a pensar que ele adquirira mais uma doença (Carneiro costumava dizer que tinha dez tipos diferentes de males, embora não conseguisse enumerar mais que meia dúzia.). Outros suspeitavam de que sua mulher continuava fazendo o de sempre: torrando parte da féria miúda na maquininha caça-níquel instalada no fundo do bar.

O Velho Marinheiro aproveitou que estavam a sós para lhe perguntar por que andava daquele jeito, tão sorumbático. Carneiro abriu o jogo:

-- É o maldito fiado. Não sei mais o que fazer. O cara vai gastando, vai gastando. Para receber, é um sacrifício. O sujeito lhe deve trezentos, vem com uma nota de cem, leva mais cinqüenta de mercadoria. Sem contar os que simplesmente desaparecem... Não há quem possa.

-- Acabe com o fiado – lhe sugeriu o Velho Marinheiro.

-- Se fizer isso, não entra mais ninguém, melhor fechar as portas de uma vez.

-- Pelo menos você não perde dinheiro.

-- Não dá, não dá, tenho que trabalhar, não sei fazer outra coisa na vida, sempre fui dono de bar.

Carneiro pediu licença para atender um freguês que acabara de chegar.

Quando voltaram a ficar sozinhos, o Velho Marinheiro retomou a conversa:

-- Acho que tenho a solução, Carneiro. Ponha uma placa com os seguintes dizeres: “VENDEMOS FIADO”...

-- O senhor, Velho Marinheiro, está de gozação!

-- Calma, não terminei de falar. Abaixo do “VENDEMOS FIADO” você escreve assim: “MAS SÓ NO CARTÃO DE CRÉDITO”.

-- Não entendi.

-- Carneiro: é simples. O sujeito quer gastar R$ 200,00? Tudo bem. Ele passa o cartão, o banco vai cobrá-lo depois de trinta dias. Nesse período, ele vai consumindo. Chega aqui, entorna uma cachaça, come um torresmo, sei lá, e você desconta. Ele já não tem mais R$ 200,00 de crédito, tem R$ 190,00. Você continua dando fiado, mas transfere o problema pro banco. Entendeu?

-- E quem não tem cartão?


-- Mande beber em outra freguesia. 


(ORLANDO SILVEIRA - maio/2014)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

UMA SELFIE COM O VELHO MARINHEIRO

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Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos o celular novo que acabara de comprar, dos mais modernos. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:

-- Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você, Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo...

-- Fazer o quê?

-- U-ma sel-fi-e.

-- Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.

-- Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?

-- Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.

Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:

-- Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.

-- Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!

-- Todo mundo faz – tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.

-- Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.

E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.


(agosto/2014)
    

terça-feira, 6 de setembro de 2016

MEMÓRIA DE ELEFANTE


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 -- E o senhor, Velho Marinheiro, está animado com as próximas eleições?

-- Seu Romualdo Bastos, não me cutuque com vara curta... Quem pode se animar com uma porcaria dessas? É a farsa de sempre – respondeu-lhe nosso Lobo do Mar aposentado, com sua impaciência histórica, por todos conhecida, enquanto sacava do bolso da camisa um papelucho.

-- Farsa! Por quê? – quis saber o maior cruzadista da Vila Invernada, talvez o único de toda região.

-- Vou lhe dar uns números, que minha neta pegou pelo computador. Em São Paulo, teremos 1.339 candidatos a deputado federal e 1.962 candidatos a deputado estadual. Ora, quem tem tantas opções, a bem da verdade, não tem nenhuma. É uma vergonha, essa nossa legislação. A palhaçada se repete há anos e anos, e continuará sendo assim por muito tempo. O Congresso Nacional não tem interesse em mudar as regras. A cambada vai para o rádio e televisão falar qualquer besteira que o partido lhes mande dizer em 15 segundos. Quase ninguém presta atenção no que é dito. Muitos desligam os aparelhos. Os que tentam acompanhar, no final do programa, não sabem quem disse o quê. Francamente, temos uma democracia muito da mixuruca.

-- Salvo engano meu, o senhor é contra a pluralidade...

À beira de um ataque de nervos (os dois nunca se bicaram) e já à caça do bicho de pé imaginário, o Velho Marinheiro pediu mais uma cerveja e um aperitivo para o Carneiro, dono do boteco. E emendou:

-- Seu Romualdo Bastos, no fundo, eu o entendo bem. Fazedor obstinado de palavras cruzadas, o senhor adora decorar inutilidades, e se gaba disso. Está diante de um prato cheio. Mas quero ver o senhor, com essa sua memória de elefante, gravar nome, número e partido de toda aquela gente. O repto está feito. Se conseguir, uma rodada de cerveja, aperitivo e tremoço fica por minha conta. Ao trabalho. (2014) 

segunda-feira, 14 de março de 2016

O SUMIÇO DO VELHO MARINHEIRO


pt.dreamstime.com


Há duas semanas ao menos, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, não dava o ar de sua impaciência no bar do Carneiro. O que passou a alimentar especulações de toda ordem, entre os muitos que tinham os dois pés atrás em relação a ele e também entre seus raros admiradores. Na verdade, estes eram apenas dois: Deolinda, o único símbolo sexual da Vila Invernada, e Ananias, o angustiado jornalista em fim de carreira, seu companheiro de copo e prosa.

"Zeca Péssimas Notícias” – o corvo de Vila Invernada – dizia a quem quisesse ouvir que fontes seguras lhe garantiram que ele estava hospitalizado:

-- Não foi por falta de avisar. Aquela sua mania de cutucar o dedão em busca do bicho de pé deu nisso: gangrena. É capaz de perder a perna.

Alguns chegaram a propor a formação de uma comissão de frente, cuja tarefa seria fazer uma visita ao Velho Marinheiro. Ananias tratou de abortar a ideia:

-- Nem pensar, pessoal. Ele não gosta nem um pouco de visitas, e gosta menos ainda de visitas inesperadas. Só nos resta esperar. Uma hora ele volta.  

-- Volta nada – assegurava Zeca, com aquela certeza típica dos agourentos.

 As especulações duraram mais uns longos dias. Até que o Velho Marinheiro entrou no bar e pediu “o de sempre” ao Carneiro. Parecia estar – e estava – com a saúde nos trinques, mas seu mau humor era evidente.

Ninguém tinha coragem (Ananias não estava ali, mas "Zeca Péssimas Notícias" estava) de lhe perguntar o motivo do sumiço. Eis que chega Deolinda:

-- Que saudades, meu amigo e conselheiro. Por onde o senhor andava?

A turma apurou os ouvidos:

-- Deolinda: fiquei três semanas sem sair de casa. Esse país é uma vergonha, os governantes são uma lástima. Quando a água, finalmente, chegava, a luz picava a mula. Como sair à rua sem banho ou de roupa amarfanhada?

-- Nossa! Sempre soube que o senhor é vaidoso, mas não tanto.

-- Não é vaidade, Deolinda -- falou nosso Lobo do Mar, caçador de bicho de pé imaginário, de olhos fixos em ZPN. . É higiene. Se todos os que estão aqui presentes tivessem feito o que fiz, o bar do Carneiro não estaria fedendo desse jeito nem teria sido palco de tantas fofocas e maledicências. Gente porca e linguaruda. Aceita uma cervejinha Deolinda? (OS - 2014)

  



quinta-feira, 10 de março de 2016

VIVA O MÉRITO!


Lata D'água - Lan
LAN


Naquela manhã de sábado, no bar e mercearia do Carneiro, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, era a própria candura. Também pudera. Deolinda – a “Fabulosa”, único símbolo sexual digno do nome da Vila Invernada – sentou-se à sua mesa, aceitou um copo de cerveja e começou a prosear, sem se preocupar em esconder o que o decote avantajado e o sutiã três números menor insistiam em exibir:

-- Passei um susto danado, esta semana. Meu chefe me chamou e foi direto ao ponto: “Você não tem se saído bem como secretária. Alguns clientes reclamam que você nem sempre anota os recados, fica impaciente quando a conversa se estende etc. Assim, fica difícil.

-- E então? – quis saber o Velho Marinheiro.

-- Quase surtei, dependo do meu trabalho, o senhor sabe. Custei tanto a arrumar um emprego de secretária! Estava com medo, mas lhe perguntei: “O senhor vai me demitir?”. Para minha surpresa, ele me disse: “Não. Vou promovê-la.” Quase cai da cadeira. E ele concluiu assim: “Seu corpo roliço na medida certa, suas nádegas e seus seios fartos botam esse coração velho afogueado, são verdadeiro colírio para minhas vistas fatigadas.” O que o senhor, Velho Marinheiro, acha disso?


-- Seu chefe é homem de bom senso. Logo se vê. Sabe que é impossível agradar a todos e que clientes são chatos, acham que têm sempre razão. Parabéns pela promoção merecida. Vamos comemorar: “Carneiro: traga mais uma cerveja e uma porção de croquetes. Dona Deolinda precisa se alimentar, para manter essa forma exuberante.”

(novembro/2014)

sábado, 3 de outubro de 2015

PATRULHEIROS

fuscaclassic.blogspot.com

O Velho Marinheiro tentou puxar conversa duas, três vezes, mas, naquela manhã de domingo, quem não estava para prosa nenhuma era Ananias, nosso repórter em fim de carreira. Parecia mais deprimido que nunca – um verdadeiro Barbosa, após o segundo gol do Uruguai em cima do Brasil na Copa de 50. Entornava a cerveja com a agonia de quem ingere cicuta. Uma lástima.

-- Fala de uma vez, Ananias: o que foi que lhe fizeram?

Ananias relutou, relutou, mas acabou por romper o silêncio dos aflitos:

-- Ontem, fui humilhado por amigos antigos, posto abaixo de cachorro... Bem que eu não queria ir, não estava a fim de me reunir com ninguém. Meu coração me dizia: “Não vá, Ananias, não vá!”. Mas fui. Maldita hora.

-- Foi humilhado por quê? – quis saber, com a impaciência costumeira, o Lobo do Mar, à caça do bicho de pé imaginário.

-- Eles me chamaram de vira-casaca, traidor, reacionário, neoliberal, direitista... E disseram mais: que eu mereço estar na merda em que me encontro, financeiramente, porque traí o partido, porque me bandeei para a direita.

-- E você lhes disse o quê?

-- Não me deixavam falar.

-- Então, gritasse! Desse um murro na mesa!

O Velho Marinheiro achou por bem reforçar o estoque. Pediu ao Carneiro, dono do boteco, que providenciasse mais cerveja, cachaça e tremoço.

-- Escuta aqui, Ananias: quando é que você vai parar de ser besta, de se impressionar com a falação de vagabundos? Ora, só muda de opinião quem tem opinião pra mudar. Tem mais: alguém disse – Confúcio, antes de Cristo nascer – que só os gênios e os estúpidos não mudam de opinião. Pelo visto, seus falsos amigos se incluem na última categoria. Mande eles se catarem. Vão patrulhar a puta que os pariu!

-- Mas eu continuo acreditando nas mesmas coisas em que acreditava. Quem mudou foi o partido, que pregava uma coisa e, no poder, faz o contrário do que dizia defender.

-- Então, você deveria ter dito a eles: “Eu não tenho compromisso com o erro. Das duas, uma: ou vocês são muito idiotas e não entendem nada do que está acontecendo, ou vocês são uns venais”. E chega dessa prosa besta, coma uns tremoços para forrar o estômago. Não tenho mais idade nem paciência para levar ninguém para casa, muito menos um bêbado deprimido. (2014)



sexta-feira, 31 de julho de 2015

NÃO FOI DESTA VEZ

Foto: www.suza.com.br
O apelido de Zeca – “Péssimas Novas” –, evidentemente, não surgiu do nada. O homem jamais, em tempo algum, foi molhar a goela no bar do Carneiro sem levar consigo notícias ruins. No dizer de muitos que o conheciam, é uma espécie de corvo em forma de gente.

Para alguns dos frequentadores, os mais generosos, ele é apenas um sujeito pessimista, adepto da Lei de Murphy, que tem certeza absoluta de que tudo que pode não dar certo dará errado. Uma simples gripe evoluirá para a pneumonia -- e a consequente internação do paciente. Daí, para a infecção generalizada e o óbito é um passo. Para outros colegas de copo, porém, ele é mais que pessimista: é um agourento, torce sempre para que o pior aconteça – e logo, se possível. O que faz com que muitos jamais se aproximem dele. Há, no entanto, os precavidos, que optam por lhe pagar bebidas, na esperança de que Zeca não lhes deseje - nunca - mal nenhum.

Pois bem. Naquela tarde, Zeca “Péssimas Novas” entrou no bar do Carneiro cheio de otimismo. Disse que havia encontrado Abelardo e que sua recuperação era mais que surpreendente, era fantástica. “Quem diria, após tantas cirurgias? Tenho certeza de que ele voltará a ser o que sempre foi: um homem saudável, vigoroso” – não se cansava de repetir, para espanto geral. Um espanto que, a bem da verdade, durou pouco, até Zeca dar continuidade à conversa:

-- Agora, quem não anda nada bem, é dona Jurema, mulher de Abelardo. Está pálida demais. Tenho pra mim que, neste Natal, ela não estará viva pra comer castanha.

(26/11/2013)

terça-feira, 7 de julho de 2015

VIA “INDEVIDA”







-- Ananias, você sofre tanto porque é besta, já lhe falei isso várias vezes. Mas você insiste em dar ouvidos para o que lhe dizem. O que os outros pensam não interessa. Afinal, pagam suas contas, deitam na cama com você?

-- Sabe o que é, Velho Marinheiro? Há coisas que magoam. Só porque nunca entrevistei Fidel Castro nem Lula, só porque nunca viajei para o exterior, só porque não conheço o Brasil de cabo a rabo, duvidam de minha capacidade profissional, me perguntam onde comprei meu diploma – desabafava Ananias, jornalista em fim de carreira, vivendo de bicos. Ontem mesmo, escrevi a madrugada inteira, trabalhei feito mouro, conclui o trabalho e vim tomar uma no bar do Carneiro. Eram dez horas. Estava sossegado, quieto no meu canto, chegou um sujeito que nem conheço e me perguntou de chofre: “Beber tão cedo não faz mal?” Tentei explicar que....

-- Está errado, homem. Não tem que explicar nada. Deveria ter dito, em tom de provocação: “Beber sempre faz mal”.

-- E ele me perguntaria: “Então, por que bebe?” – tentou argumentar Ananias.

-- E você responderia ao enxerido: “Por hábito, vício, sei lá. Pelas mesmas razões que o levam a sentir prazer pela via indevida” – arrematou o Lobo do Mar. Vamos tomar uma e mudar de assunto. Esse já deu o que tinha que dar. (janeiro de 2014)
  





   

sábado, 9 de maio de 2015

O FIADO VIROU SOLUÇÃO

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Carneiro andava injuriado. Pouco falava, jamais sorria. Era pura tristeza. Parecia estar sempre no mundo da lua. Aquele seu olhar distante evidenciava um aborrecimento medonho. Tal situação não escapou aos fregueses mais próximos. Uns chegaram a pensar que ele adquirira mais uma doença (Carneiro costumava dizer que tinha dez tipos diferentes de males, embora não conseguisse enumerar mais que meia dúzia.). Outros suspeitavam de que sua mulher continuava fazendo o de sempre: torrando parte da féria miúda na maquininha caça-níquel instalada no fundo do bar.

O Velho Marinheiro aproveitou que estavam a sós para lhe perguntar por que andava daquele jeito, tão sorumbático. Carneiro abriu o jogo:

-- É o maldito fiado. Não sei mais o que fazer. O cara vai gastando, vai gastando. Para receber, é um sacrifício. O sujeito lhe deve trezentos, vem com uma nota de cem, leva mais cinqüenta de mercadoria. Sem contar os que simplesmente desaparecem... Não há quem possa.

-- Acabe com o fiado – lhe sugeriu o Velho Marinheiro.

-- Se fizer isso, não entra mais ninguém, melhor fechar as portas de uma vez.

-- Pelo menos você não perde dinheiro.

-- Não dá, não dá, tenho que trabalhar, não sei fazer outra coisa na vida, sempre fui dono de bar.

Carneiro pediu licença para atender um freguês que acabara de chegar.

Quando voltaram a ficar sozinhos, o Velho Marinheiro retomou a conversa:

-- Acho que tenho a solução, Carneiro. Ponha uma placa com os seguintes dizeres: “VENDEMOS FIADO”...

-- O senhor, Velho Marinheiro, está de gozação!

-- Calma, não terminei de falar. Abaixo do “VENDEMOS FIADO” você escreve assim: “MAS SÓ NO CARTÃO DE CRÉDITO”.

-- Não entendi.

-- Carneiro: é simples. O sujeito quer gastar R$ 200,00? Tudo bem. Ele passa o cartão, o banco vai cobrá-lo depois de trinta dias. Nesse período, ele vai consumindo. Chega aqui, entorna uma cachaça, come um torresmo, sei lá, e você desconta. Ele já não tem mais R$ 200,00 de crédito, tem R$ 190,00. Você continua dando fiado, mas transfere o problema pro banco. Entendeu?

-- E quem não tem cartão?


-- Mande beber em outra freguesia. 


(ORLANDO SILVEIRA - maio/2014)

domingo, 8 de março de 2015

“NÓIS FUMO” OU “NÓIS FOMO”?

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Naquele domingo de manhã, no bar do Carneiro, a disputa acirrada no bilhar (era campeonato) não acabou em pancadaria por um triz. Os jogadores de olho no troféu anual “O BAMBAM DA VILA INVERNADA” – o mais importante evento esportivo do bairro –, buscavam pretextos para armar confusão. Nem que para isso fosse preciso atropelar a gramática, ferrar a regência, jogar o pai dos burros no lixo. Foi o que alguns fizeram.  

-- Animal, analfabeto: não se fala “nóis fumo”; o certo é “nóis fomo”. Tô errado, doutor? – quis saber, em tom agressivo, o mais ignorante e grandalhão deles, do intelectual da redondeza, Romualdo Bastos, o cruzadista.

(Bastos dedicava-se diariamente a esse ofício: fazer palavras cruzadas – para espanto geral. Muitos se perguntavam: “Como pode alguém preencher com letras todos esses quadrinhos e dar sentido a esse preenchimento? Coisa para sábio.”)

Bastos sempre foi orgulhoso de sua sabedoria, mas tinha tino, jamais se meteu em discussões que pudessem lhe trazer danos físicos, não seria agora, depois de velho, que faria isso:

-- Os dois estão certos. A língua é dinâmica, se me entendem – balbuciou, com as pernas trêmulas e as mãos em busca de pandeiro.  

O cruzadista mais não disse. Os dois contendores não entenderam nada, mas fizeram que sim. Acalmaram-se. Estavam satisfeitos com a resposta. Bastos pegou, então, o caminho da roça. Homem prudente.

O Velho Marinheiro, desafeto do cruzadista, não deixou por menos:

-- Ananias: esse Bastos, além de chato, é mentiroso e covarde.





sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ROMUALDO BASTOS



Onze horas. Um homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente) entra no bar, deseja (em tom solene) que “todos os senhores tenham um excelente dia”, dirige-se até o balcão, cumprimenta o dono da espelunca, pede um aperitivo e uma lata de cerveja, vai até a mesa mais retirada, senta-se, abre o jornal em determinada página, saca a caneta do bolso, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, escreve algo que ninguém ali imagina o que seja, olha para o alto como se pedisse ajuda divina, baixa a cabeça de novo, escreve mais alguma coisa, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, volta a olhar para o alto etc.

Esse ritual leva cerca de uma hora, período em que, por nenhuma vez, virou a página do jornal. Levanta-se, vai até o balcão, pede um novo aperitivo (que entorna de uma vez, ao contrário do que fizera com o primeiro, sorvido aos golinhos), paga a conta, despede-se do dono do bar, deseja (sempre em tom solene) que “todos os senhores tenham uma excelente tarde”.

Mal atravessou a rua, começaram as especulações: quem seria a figura, de onde viera, era morador novo no bairro, que fazia da vida, já tinha aparecido por ali antes, por que olhava tanto para o alto antes de escrever, por que não virava a página do jornal? As indagações eram muitas, do tamanho da curiosidade humana.

Infelizmente, Carneiro, o dono do boteco, também não tinha maiores informações sobre aquele homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente). Sabia apenas que era a segunda vez que aparecia ali, que hoje repetiu o ritual de ontem, que se mudara para a casa do falecido J. Pinto (na rua debaixo), que ele se chamava Romualdo Bastos e que, salvo engano, ele viria todos os dias, aposentado que era. Nada mais que isso.

O pessoal do bilhar deixou os tacos de lado, para se concentrar nas especulações. Para fulano, o homem era investigador e estava de campana, atrás de informações sobre o paradeiro de Chiquinho da Maconha, o principal traficante da área. Para beltrano, não era nada disso, não. Logo se via, pela grossura dos óculos, que não era polícia coisa nenhuma. Nunca tinha visto investigador de óculos com lentes tipo fundo de garrafa, coisa para intelectual, gente que lê muito. Sicrano observou que os óculos poderiam ser um disfarce, investigadores e detetives adoram disfarces, era bom não se fiar no homem. Alguém sugeriu que a turma lhe desse uma prensa, para que revelasse quem era. Carneiro achou a operação arriscada, melhor todo mundo ficar quieto, não dizer palavra enquanto ele estiver no bar.

 O mal-estar só se dissipou quando Toninho Moleza chegou e disse:

-- Seu Romualdo gostou muito do ambiente daqui, Carneiro. Disse que virá todos os dias.

-- E você conhece Romualdo Bastos, Toninho Moleza? – quiseram saber todos.

-- Claro! Minha mãe faz faxina na casa dele há uns dez anos ou mais, desde o tempo em que ele morava na Penha. É gente boa. Só tem um vício: palavras cruzadas.


OUTUBRO DE 2013