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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

OS NÚMEROS ENGANAM



GOOGLE

-- Sei que vocês, jornalistas, embora vivam das letras, têm um gosto especial pelos números. Mas eu não me fio muito neles, não – iniciou a conversa o Velho Marinheiro, como quem não quer nada, mas louquinho da silva para enveredar pela discussão política.

Ananias, nosso repórter em fim de carreira, mordeu a isca:

-- Os números dão credibilidade à reportagem. Além do quê, os números não mentem.

-- Sei disso. Mas não se pode dizer o mesmo de quem produz e interpreta os números. Tenho pra mim que eles enganam tanto quanto as palavras, se não enganarem mais. Não por acaso, políticos são obcecados por números. E isso não é uma escolha casual.


-- Mas os números, Velho Marinheiro, permitem comparar o que governos fizeram. Dão ao povo condições de escolher com critério seus representantes – argumentou Ananias com sua sabedoria de botequim.

-- Bobagem, meu jornalista. Se isso fosse verdade, não teríamos os governos que temos. A opinião do povo não é parâmetro pra nada. De que vale dizer que este governo construiu em quatro anos o dobro de casas e hospitais em relação a seu antecessor, se está deixando a conta para o sucessor? Ora, construir e não pagar é coisa fácil, qualquer um pode fazer. Até nós dois – dois bestas. Quer outro exemplo, Ananias? Se a dita economia mundial está superaquecida, se os preços dos produtos estão nas alturas, é natural que, em termos absolutos, em termos de grana, as exportações cresçam. Isso é fruto de uma série de fatores. Não é obra de um governo...

-- Está certo, está certo, mas...

-- O que importa é saber o quanto avançamos em relação aos outros. Qual o quê! O Brasil não vai de fato pra frente porque não gosta da verdade, prefere se comparar com ele mesmo. É mais fácil e de grande utilidade para o jogo político rastaquera que aqui se pratica, no qual o roto fala do rasgado.

-- Pensando bem...

-- Pensando bem vamos pedir logo a saideira. Romualdo Bastos está chegando com aquela sua empáfia de cruzadista.

(OS 2014 - atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 23 de outubro de 2019

NEM PENSAR, ANANIAS!

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-- Ananias, diga “não”, e pronto. Não perca tempo com falsas explicações, com mentirinhas nas quais ninguém acredita: “Minha mulher e eu fizemos um pacto: se eu assinar, ela não assina, e vice-versa”. O sujeito vai lá, conversa com sua patroa, amolece o coração dela e você fica sem saída. Acaba por assinar a papelada. Ser fiador? Nunca mais.

-- É que o rapaz, Velho Marinheiro, é meu amigo de longa data...

-- Fie-se nisso. Ele pode até ser honesto, mas depois de amanhã perde o emprego, vira a cabeça, sei lá. E quem terá que pagar o aluguel dele? Ora, você quer perder sua casa ou o pouco que tem na poupança? O sujeito que vá ao banco e pague um seguro fiança.

-- O senhor tem razão, mas é que...

-- Não quero ter razão, Ananias. Não quero que você se estrepe outra vez na vida. Já sei. Não tem coragem. Vou lá com você. Aproveito a ocasião e aviso o homem: “Ananias e sua patroa também não batizam mais ninguém”.

-- Como o senhor sabe que ele me convidou para batizar o filho?

-- Ananias: a desgraça nunca anda só, está sempre com más companhias.

-- O senhor se recusa a batizar uma criança?

-- Não recuso nem batizo. Não sou padre. Eu me recuso é ser padrinho. Tenho vários afilhados. Todos eles só vieram à minha casa para pedir isso e aquilo. Anos atrás, um compadre, depois da cerimônia religiosa e do almoço (que Mafalda e eu pagamos), me sai com essa: “Agora, posso morrer em paz. Minha filhinha tem um segundo pai e uma segunda mãe, está em boas mãos.” Vá se catar! Que cada um cuide dos seus. 

-- E como o senhor faz para se livrar do convite?

-- Ananias: no começo, eu dizia “não quero” e ponto final. Mafalda insistia para que eu não fosse tão direto, grosseiro. Passei a adotar uma estratégia. Se os pais são católicos, digo que somos evangélicos. Se eles são evangélicos, digo que não saímos do terreiro...

-- Mas, afinal, do ponto de vista religioso, o que o senhor é?

-- Filho de Deus. Apesar de agnóstico.  (OS - 2014 - atualizado em outubro de 2019)

terça-feira, 5 de março de 2019

QUEM ASSOBIA NÃO COME

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De repente – não mais que de repente – o pessoal que jogava bilhar no bar do Carneiro, um dos mais movimentados da Vila Invernada, largou os tacos sobre o pano verde e veio até a porta do estabelecimento para apreciar a paisagem andante. A atitude foi seguida também por quem jogava dominó e por quem estava lá só para entornar umas e outras. Em seus postos, permaneceram o dono do bar, o Velho Marinheiro e Ananias. O primeiro, atrás do balcão, com os olhos grudados no caderno de fiados. Os outros dois deram de ombros à excitação coletiva e continuaram bebericando e observando a malta.

Por paisagem andante entenda-se uma mulher de uns trinta anos, obesa, com celulite para dar, alugar e vender, de quadris imensos, vestindo uma bermuda branca, transparente e colada ao corpo, cujo número estava muito aquém de suas necessidades.  Para completar o que se poderia chamar de “uma tela de Dante”, a portadora da bermuda branca e transparente usava calcinha preta, minúscula, tipo fio dental. Sua barriga protuberante e estriada transbordava a vestimenta. O que, pelo visto, contribuía para excitar ainda mais o bando de desvairados.

Não faltaram, claro, assobios nem falsos gemidos nem comentários do tipo:

(a)  Que peixão;

(b)  Vá ser gostosa assim na PQP;

(c)  Com uma gata dessas faço sexo três dias sem parar;

(d)  E tem cara que prefere homem;

(e)  Etc.

Aos poucos, os machos retornaram à mesa de bilhar e ao balcão. Um deles, sabedor de sua timidez, resolveu provocar Ananias:

-- E aí, jornalista, não veio ver a gatona por quê? Não gosta?

O Velho Marinheiro não esperou o amigo se manifestar:

-- O Ananias é como eu: não gosta de filme B. Além disso, ele também sabe que quem assobia não come.  
(OS - maio/2015 - Atualizado em março de 2019)


terça-feira, 20 de novembro de 2018

QUASE HISTÓRIAS: POBRE ANANIAS

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Foto: Arquivo Google

Jornalista em fim de carreira, vivendo de bicos, Ananias é sujeito de hábitos prosaicos. Nem poderia ser diferente. Sempre trabalhou muito, sempre ganhou pouco. Seu único lazer, fora as leituras, é tomar um aperitivo em botecos populares. O dinheiro é curto. Mas não reclama, até gosta de conviver com pessoas simples, para não se desgarrar do mundo real. É seu lado repórter a desassossegá-lo. A desgraça é que, frequentemente, tem que mudar de bar. E sempre pelas mesmas razões. Ninguém suporta ser motivo de chacota. Nem Ananias, o resignado..

No início, os novos amigos lhe fazem festa. Apresentar-se como jornalista é coisa que costuma causar certo frisson na maioria das rodas. Mas, logo, logo, a admiração inicial, que beira a vassalagem, é substituída pelas gozações. É questão de semanas. Logo, logo, a porta do inferno estará aberta. É sempre assim.

“A” quer saber se ele já entrevistou Obama. “B” não se conforma que ele não tenha tido um encontro sequer com Fidel. Não adianta explicar que sua área é outra. “C” e “D” acham um absurdo que ele não saiba de cor e salteado os nomes dos mais de 5.000 municípios do país. “E” vai à loucura, quando ele admite não ter respostas para solucionar o trânsito de São Paulo nem para acabar com a corrupção no Brasil. E a coisa vai num crescer. Até que “X”, “Y” e “Z” lhe perguntam com a franqueza dos ignaros tocados pela uca: “Mas, que porra de jornalista é você? Onde comprou o diploma?”

Hora de mudar de boteco. Jornalista sofre. Ananias não foge à regra. 

(Orlando Silveira - Atualizado em novembro de 2018)

domingo, 11 de novembro de 2018

PAPO CABEÇA


-- Nunca fui homem de letras, menos ainda de poesia. Gosto de coisas diretas. Não sou chegado a floreios, Ananias. Implico com rimas. Amor com flor e amor com dor me tiram do sério. Não obstante, gosto daquele poema que diz assim: “A solidão é o fim de quem ama”.

-- De Vinícius...

-- De Moraes, eu sei, eu sei. No fundo, todo mundo é solitário, embora muitos vivam rodeados de gente barulhenta. Viver é um ato solitário. Quem é do mar sabe disso. De nossos medos, só nós sabemos.

-- E o senhor, Velho Marinheiro, já sentiu medo?

-- Se até rato – bicho mais abusado que homem – tem, por que eu não teria? Agora, ter medo, uma vez ou outra, é uma coisa, ser cagão é outra. Vamos pedir torresmos e mudar de conversa. Esse papo cabeça me enfara. 

(Orlando Silveira - atualizado em novembro de 2018)

domingo, 17 de setembro de 2017

POBRE ANANIAS




enquantos.blogspot.com

Jornalista em fim de carreira, vivendo de bicos, Ananias é sujeito de hábitos prosaicos. Nem poderia ser diferente. Sempre trabalhou muito, sempre ganhou pouco. Seu único lazer, fora as leituras, é tomar um aperitivo em botecos populares. O dinheiro é curto. Mas não reclama, até gosta de conviver com pessoas simples, de não se desgarrar do mundo real. É seu lado repórter a desassossegá-lo. A desgraça é que, frequentemente, tem que mudar de boteco. E sempre pelas mesmas razões. Ninguém suporta ser motivo de chacota. Nem Ananias, um resignado.

No início, os novos amigos lhe fazem festa. Apresentar-se como jornalista é coisa que costuma causar certo frisson na maioria das rodas. Mas, logo, logo, a admiração inicial, que beira a vassalagem, é substituída pelas gozações. É questão de semanas, se tanto. Em pouco tempo, a porta do inferno estará aberta. É sempre assim.

“A” quer saber se ele já entrevistou Obama. “B” não se conforma que ele não tenha tido um encontro sequer com Fidel. Não adianta explicar que sua área é outra. “C” e “D” acham um absurdo que ele não saiba de cor e salteado os nomes dos mais de 5.000 municípios do país. “E” vai à loucura, quando ele admite não ter respostas para solucionar o trânsito de São Paulo nem para acabar com a corrupção no Brasil. E a coisa vai num crescer. Até que “X”, “Y” e “Z” lhe perguntam com a franqueza dos ignaros tocados pela uca: “Mas, que porra de jornalista é você? Onde comprou o diploma?”

Hora de mudar de boteco. Jornalista sofre. Ananias não foge à regra.

(OS - agosto/2013 - atualizado em setembro de 2017)

***

LEIA TAMBÉM

Aos 95, com a saúde arruinada, Filomena continua a mesma, 
nunca foi mulher de mandar recados: "Estão com o saco cheio de mim? 
Então, não peguem mais meu dinheiro." 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OLHOS DE LINCE

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE


O Velho Marinheiro estendeu os braços no limite, quase derrubou os copos e a garrafa de cerveja que estavam sobre a mesa. Esforço inútil. Não conseguia ler as letras miúdas do jornal, ir além das manchetes. Esquecera os óculos em casa. Resmungou algo que ninguém entendeu e pediu a Ananias que lesse o que não estava conseguindo ler. Ananias lamentou não poder ajudá-lo. Também deixara os óculos em casa.

-- De longe, ao menos, o senhor enxerga bem, não enxerga? – quis saber o ex-jornalista.

-- Já enxerguei, tinha olhos de lince. Hoje, não. À média distância, eu ainda me viro bem.

-- Por que o senhor não usa óculos para longe, vaidade?

-- Ananias: não seja besta. Na minha idade, não vou permitir que óculos me roubem o prazer de só ver ao longe aquilo que minhas lembranças e imaginações me permitem avistar. Melhor assim. 


(ORLANDO SILVEIRA - 2014/ ATUALIZADO EM JULHO DE 2017 )

terça-feira, 18 de outubro de 2016

UMA SELFIE COM O VELHO MARINHEIRO

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VECTOR ART ILUSTRATION

Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos o celular novo que acabara de comprar, dos mais modernos. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:

-- Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você, Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo...

-- Fazer o quê?

-- U-ma sel-fi-e.

-- Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.

-- Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?

-- Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.

Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:

-- Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.

-- Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!

-- Todo mundo faz – tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.

-- Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.

E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.


(agosto/2014)
    

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DA COSTA, O PENTELHO

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Da Costa não viveu e não deixou ninguém viver. Passou a vida em busca da condição ideal. Pra viver. Pra fazer isso e aquilo. Da Costa não fez nada (ou quase nada) que lhe desse um pingo de prazer. É unanimidade na Vila Invernada. Unanimidade dupla, não lhe bastasse uma – a lhe assegurar a burrice. Ah, Nelson Rodrigues... 

No bar do Carneiro, não há quem lhe negue o mérito de ter sido e ser bom pai, marido prestimoso, trabalhador incansável, pagador de contas. Mas também não há ser vivente que não lhe atribua o título devido: pé no saco. Dá Costa é um chato. Sem cura! Da Costa gosta de dar conselhos que ninguém lhe pediu. E de distribuir livros que ninguém quer ler. Da Costa é assim: incansável.

Passa no bar do Carneiro só pra ver quem bebe. Balança a cabeça – e pergunta: “Por que bebem?” Implica com Romualdo Bastos, nosso cruzadista: “Não basta, senhor Bastos, saber quais foram os times e jogadores que ganharam todas as Copas do Mundo. Quem eram os reservas?”

Para Da Costa, que viu a vida pela janela, nunca ninguém está pronto pra tomar banho de mar, atravessar a rua, fazer sexo... Da Costa busca a condição ideal. E quer seguidores. Todo louco precisa de loucos, multidão de loucos a lhe fazer loas.

Da Costa acabou com o livro de Ananias, nosso repórter em fim de carreira. “Cem páginas, se tanto! Ananias: crie vergonha na cara, homem. Livro que presta tem que ter, no mínimo, no mínimo, quatrocentas páginas” – defecou o autor de nada.

Da Costa tentou engatar prosa com o Velho Marinheiro, não deu certo:

-- Da Costa, sossegue o facho.  Quando você se for, espero que não tarde, mando fazer uma placa para colocar na sua campa: “Aqui jaz um pentelho!" 

(ORLANDO SILVEIRA - 2014)


sábado, 10 de setembro de 2016

DECEPÇÕES À VISTA

racas.org

-- Ananias, o que estão fazendo com os cães é uma barbaridade, verdadeiro crime. Às vezes, tenho vontade de partir para a ignorância – resmungou o Velho Marinheiro.

-- O senhor é contra o uso de animais em pesquisas científicas? - quis saber o jornalista "aposentado" pelo desemprego.

-- Não me refiro a isso, não. Esta é uma polêmica em que não quero entrar. Não por que tenha medo de patrulhas. É que não tenho conhecimentos suficientes. Não sei se é possível (ou não) avançar na medicina sem a ajuda involuntária dos bichos.

-- Então, a que o senhor se refere? 

-- Dia desses, Deolinda esteve com seu cachorro, um poodle, aqui, no bar do Carneiro. Veio para se exibir para o cruzadista. Só faltou esfregar as nádegas nos óculos dele. 

-- Mas, e o cachorro com isso? – questionou Ananias.

-- O cachorro estava todo paramentado. Usava uma roupa esquisita, com direito a cachecol! Numa das orelhas, tinha um brinquinho; numa das patas dianteiras, uma pulseira. E ostentava um colar com os dizeres: “Sou da mamãe”...

-- É que virou moda...

-- Desde quando, Ananias, moda presta? A exibida da Deolinda ficou mais assanhada ainda quando aquele sujeito das palavras cruzadas lhe disse que também tinha uma cachorrinha poodle e que eles poderiam cruzar.

-- Eles quem?

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, não deixou por menos:

-- Acho que os quatro, pelo menos foi o que aquela troca de olhares lânguidos me sugeriu. Se isso ocorrer, teremos duas decepções: a da cachorra do cruzadista com o cachorro da viúva alegre e a de Deolinda com Romualdo Bastos. (ORLANDO SILVEIRA - 2013)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

SOBRE PERUCAS E ASAS DE GRAÚNA

YOUTUBE.COM

Deolinda – único símbolo sexual da Vila Invernada – não conteve o espanto:

- Gente: não acredito no que estou vendo. Olha só quem vem lá: Romualdo Bastos e o chato do irmão dele. Romualdo pintou os cabelos de preto, da cor das asas da graúna. O irmão colocou peruca – disse a moça de seios fartos e decote generoso a seus dois companheiros de mesa: Velho Marinheiro e Ananias.

- Barbaridade. Perderam o senso de ridículo. Estão pedindo para, como diz a moçada, serem zoados – limitou-se a dizer nosso Lobo do Mar.

Ananias – adepto dos panos quentes – tentou justificar o injustificável:

- Eles sempre foram vaidosos.

- Ananias: isso não é vaidade, é coisa de boiola – retrucou o Velho Marinheiro, com a concordância imediata de Deolinda. Vaidade é o sujeito andar limpo, de cabelos cortados, com uma roupinha mais ou menos. Você já viu alguma peruca que preste? Imagine eu, que tenho os cabelos brancos, chegar aqui de cabelos pretos, feito urubu. Francamente. O irmão do Romualdo ficou a cara do Zacarias.

- Zacarias?

- Aquele humorista, dos Trapalhões.

- É meio estranho, sim.

- Meio estranho uma ova. Há anos, eu estava com Mafalda e minha neta num hotel em Serra Negra. Estávamos na piscina, quando chegou uma turma já meio tocada pela uca. O mais tolo de todos era um velho barrigudo, arrogante e peruqueiro. Continuaram bebendo. Depois, sempre falando alto, pularam na piscina. A peruca do homem se soltou. Então, começaram a jogá-la de um lado para outro. De mão em mão. E o velho puto. E mais puto ele ficou quando vários hóspedes, que não eram da família, resolveram aderir à farra. A peruca parecia peteca. Não esquentava a mão de ninguém

- Que vexame. E aí? – quis saber Deolinda.

- Aí que, passado o efeito da cachaça, o velho peruqueiro ficou o feriado prolongado dentro do apartamento, trancado, cheio de vergonha. De lá não saía nem para fazer as refeições. Durante quatro dias, foi o assunto do hotel. Bem feito. (OS)

domingo, 22 de maio de 2016

CONVERSA FIADA

INTERNET


Josué Lemos (lembram-se dele?) é figurinha carimbada na Vila Invernada. Homem de poucos dotes, mas esforçado que só. Troca courinho de torneira. Ajeita telha quebrada, faz carreto na feira etc. Faz tudo que lhe pedem. Seu bordão: “Sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Sou o que temos”. Barateiro, serviço não lhe falta. Dona Mafalda, mulher do Velho Marinheiro, adora Lemos. E a recíproca é verdadeira. “Um doce de criatura”, não cansa de repetir o quebra-galho.

Depois de hora e meia, se tanto, Lemos já fizera um bocado de pequenos reparos. Faltava apenas trocar a resistência do chuveiro do banheiro dos fundos – recanto predileto do nosso Lobo do Mar. Antes de concluir a tarefa, resolveu puxar um dedo de prosa com o caçador do bicho de pé imaginário.

-- O senhor tem visto Ananias?

O silêncio de cemitério do Velho Marinheiro não o intimidou.

-- Ele anda sorumbático, como diria Romualdo Bastos, o cruzadista. Pra mim, essa tal de internet está acabando com ele. Vive repetindo: “Fulano está em férias. Beltrano foi pro sítio. Sicrana curte ondas. Só eu é que não vou pra lugar nenhum. Nunca soube o que é descanso.” Acho que ele está doente. Com hipertensão.

-- Hipertensão tinha sua avó, Josué. Ananias tem depressão. É obcecado. Fala essas coisas porque é verão. No outono, lamenta porque não foi guarda metropolitano, ou sei lá o quê. No inverno, ele impreca porque todo mundo comeu a mulher do padre, menos ele...

-- E na primavera, de que ele reclama? – quis saber o barateiro do bairro.

-- De ter conhecido você. Vá trocar a resistência. (2014)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

QUASE HISTÓRIAS



A DÚVIDA DE ARGEMIRO

A tão sonhada aposentadoria transformou-se num inferno. Há cinco anos, a vida de Argemiro era uma mesmice insuportável. Acordava, tomava café bebido, fingia ler o jornal, sempre de olho no relógio à espera das onze horas, hora de marcar ponto no bar do Carneiro, tomar umas e outras, jogar conversa fora. 

À tarde e à noite, o ritual se repetia. Filhos e noras, todos morando no mesmo quintal, não queriam muita prosa com ele. Dona Celina menos ainda. E quando se falavam a briga era certa.

-- Passa o dia no bar, conversando com bêbados, estragando a saúde, gastando o dinheiro miúdo da aposentadoria. Não tem ânimo pra fazer mais nada. Volta atacado, torra o saco de todos. Quer beber? Beba em casa. O gasto é menor.

Com pequenas variações, aquele era o discurso diário de Dona Celina.


Certo dia, Argemiro desabafou:

-- No bar do Carneiro, só tem mala. Tirando uns poucos – Velho Marinheiro, Romualdo Bastos e Ananias, que são de pouco falar –, não tenho mais com quem conversar. Um pede para lhe pagar uma cachaça; outros filam cigarros. Um inferno. Acho que você tem razão, Celina: vou começar a beber meus aperitivos em casa, gasto menos, não me aborreço com prosa frouxa. O problema é que preciso ver gente, trocar ideias, sabe como é?

-- Compre um espelho.

-- Espelho, Celina!?

-- É. Falar sozinho você já fala. E não é de hoje! Pega o copo, olha para o espelho e conversa com você mesmo.

-- Será que eu vou me suportar?

sábado, 12 de março de 2016

NATAL SEM CASTANHAS

chocolateamais.com

-- Velho Marinheiro, meu amigo, o único que ainda tem paciência para ouvir minhas lamúrias: vou de mal a pior. Sou a tristeza encarnada.

-- Ananias: desembuche. Meus ouvidos estão prontos para ouvi-lo. Mas seja breve, como convém a um jornalista. Até porque fui convidado para churrasco na casa de Deolinda. Não gosto de chegar atrasado.

-- Sabe o que é?

-- Se você não me falar, como vou saber? Não sou vidente, Ananias. Adiante.

-- Velho Marinheiro: minha vida não faz mais sentido. Não tenho vontade de me reunir com as pessoas, está cada vez mais difícil encontrar trabalho, ainda que temporário, dependo, sim, da ajuda financeira de minha mulher, acho que não fui bom marido nem bom pai...

-- Que mais, Ananias?

-- Quando entro nas redes sociais, então... Porra, todo mundo deu certo!

-- Rede social é o tal de facebook?

-- Sim, o facebook faz parte das redes sociais.

-- Dia desses, Ananias, minha neta querida, Irene, estava nesse lixo. Dei uma espiada. Aquilo é mais falso que fotografia posada. Ali, todo mundo ri, todo mundo está feliz. É o parque da Xuxa. Abandone essa porcaria. Outra coisa: você está bebendo demais. Seu cérebro está perturbado. Quem bebe muito deixa tudo para amanhã – um amanhã que nunca chega.


entretenimentor7.com

-- Tenho que mudar de vida. É verdade, é verdade. Do contrário, não comerei castanhas no Natal.

-- Eu também, Ananias, não vou comer castanhas no Natal.

-- Não me diga uma coisa dessas, Velho Marinheiro. O senhor tem saúde de ferro.

-- Tenho mesmo, graças a Deus. Mas não vou comer castanhas porque odeio castanhas. Agora, me dê licença: o churrasco de Deolinda me espera. (2014)



quarta-feira, 9 de março de 2016

SEM TRIBOS E APITOS



-- Ananias: gosto de você. Você sempre foi homem correto. Isso me basta. Temos mais afinidades que divergências, meu caro. Sou menos forte do que pareço; você não é tão frágil quanto sugere ser. No fundo, somos dois índios sem tribo. Melhor assim. Você e eu erramos pela própria cabeça, pagamos o preço. Dois índios que, por opção e sina, não querem apitos. É o que tem a lhe dizer esse Velho Marinheiro, antes de pedir ao Carneiro uma gelada e brindar nossa amizade: não deixem que o humilhem, você tem valor. Feliz aniversário. (OS - 2014)




sábado, 5 de março de 2016

SEXO: SEGREDO DE ESTADO


juzinhasoli.wordpress.com


-- Ananias, meu amigo, me fale uma coisa: quem é que pode com conversa tão abestalhada como a daqueles dois cretinos no balcão? Pecam na forma e no conteúdo.

-- Velho Marinheiro, eu não entendi. Como assim?

-- Como assim o quê?

-- Pecam na forma e no conteúdo.

-- Na forma, porque eles não falam, eles berram para que todos ouçam sua prosa vagabunda. No conteúdo, porque só falam indecências. Tenho asco de homem que sai contando o que fez na cama com sua parceira. E ainda dá o nome da infeliz! Isso não é coisa que se comente. O mesmo vale para mulher tagarela. Quem faz bem não conta. Sexo é uma espécie de segredo de Estado, exige cumplicidade e silêncio absolutos. Entendeu?

Um dos velhos exibicionistas coçou o peito peludo e as bolas, e disse ao outro, para que todos que estavam no bar do Carneiro ouvissem:

-- Viu como aqueles três brotinhos sorriram para nós?

-- Claro que vi. Três fofas. Estamos bem na fita.

O Velho Marinheiro não se conteve:

-- Cidadãos: dá para falar mais baixo? Não estou interessado na conversa de vocês, meus ouvidos não são penico. Outra coisa: elas não sorriram para vocês, ela riram de todos nós. (OS - 2014)