Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de julho de 2019

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO (EDITAR)


A BELA ADORMECIDA

Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico, como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.


sexta-feira, 5 de julho de 2019

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO


Resultado de imagem para IMAGENS CASAL DE MEIA-IDADE NAMORANDO

POEMA COMEÇADO NO FIM

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.



MURAL

Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
é seu próprio gosto
em Ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela nào sabe que sabe,
a rotina perfeita é Dues:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá a sua saia,
a árvores a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:

que nada mude, Senhor.

quinta-feira, 21 de março de 2019

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO (DONA DOIDA)

ADÉLIA PRADO


DONA DOIDA



Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO

Resultado de imagem para IMAGENS PARA ESPERANÇA

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO


Resultado de imagem para imagens tacho no fogo

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

PARÂMETRO

Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto, sim, é consolo.

IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

( Adélia Prado )



domingo, 30 de julho de 2017

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO (BENDITO)


BENDITO

Louvado seja Deus, meu senhor
Por que meu coração está cortado a lâmina
Mas sorrio no espelho ao que
À revelia de tudo se promete;
Por que sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
Mas me lembro de uma noite na roça
O luar nos legumes e um grilo
Minha sombra na parede.

Louvado sejas por que eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
Violar as tumbas com o arranhão das unhas,
Mas vejo a tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
Três vezes em meu socorro.

Louvado sejas, porque a vida é horrível
Porque mais é o tempo que eu passo
Recolhendo os despojos
- velho ao fim de uma guerra como uma cabra -
Mas limpo os olhos e o muco de meu nariz
Por um canteiro de grama.

Louvado sejas por que eu quero morrer, mas tenho medo
E insisto em esperar o prometido

Uma vez quando eu era menino
Abri a porta de noite
A horta estava branca de luar
E acreditei, sem nenhum sofrimento:
LOUVADO SEJAS!!!!



sexta-feira, 10 de março de 2017

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO

CORRIDINHO


 O amor quer abraçar e não pode.

A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.

O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.

Mas água o amor não é.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO

A BELA ADORMECIDA


Estou alegre e o motivo beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão, aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele
que volta e põe tudo arcaico,
como a matéria da alma,  se você vai ao pasto,
se você olha o céu, aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova, sabe que nada mudou.

O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço  a cada ano mais. 
Sob juramento lhes digo:  tenho 18 anos.
Incompletos.

***

LEIA TAMBÉM

marco_mendes_1

Há momentos em que o olhar vago nada vê, 
exceto o passado em preto e branco. 
Por Orlando Silveira, em "Rapidíssimas"

http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/02/rapidissimas.html#comment-form



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO


SARAIVA CONTEÚDO/MARCOS DANTAS

CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

(Adélia Prado)

TALVEZ VOCÊ GOSTE DE LER

"QUASE HISTÓRIAS:
O ANALFABETO"


E a moça se gabava de sua inteligência, mas lamentava a burrice do patrão: 
" Com trinta e cinco anos, aprendi a ler e a escrever. Em seis meses! 
Ele, coitado, continua tentando." Por Orlando Silveira

http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/12/quase-historias-o-analfabeto.html#comment-form

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO




O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.

***

Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.

*** 

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

***

Então eu virei pra ela e falei assim:
ah, nada, boba, também é assim, se der, bem,
se não der, amém, toca pra frente.

***

TALVEZ VOCÊ TAMBÉM GOSTE DE LER A CRÔNICA ABAIXO

 Sou presa fácil de vendedores. Compro qualquer coisa, pago fortuna pelo imprestável, mas não os deixo a ver jangadas, ainda mais se me fizerem o desfavor de mostrar tudo o que está encalhado na loja. Vou ser honesto: compro mais pela necessidade premente de sair dali que pela consideração que não lhes tenho... Por Orlando Silveira
 
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/12/quase-historias_9.html#comment-form

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO



Resultado de imagem para IMAGENS CASA PINTADA DE COR LARANJA
WWW.DECORFACIL.COM.BR


IMPRESSIONISTA



Uma ocasião,

meu pai pintou a casa toda

de alaranjado brilhante.

Por muito tempo moramos numa casa,

como ele mesmo dizia,

constantemente amanhecendo.



***



PARÂMETRO



Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto sim, é consolo.




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO

Resultado de imagem para IMAGENS ADÉLIA PRADO
ADÉLIA PRADO (FOTO: ARQUIVO GOOGLE)



PARA O ZÉ



Eu te amo, homem, hoje como

toda vida quis e não sabia,

eu que já amava de extremoso amor

o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos

de bordado, onde tem

o desenho cômico de um peixe — os

lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer

te amo. Teço as curvas, as mistas

e as quebradas, industriosa como abelha,

alegrinha como florinha amarela, desejando

as finuras, violoncelo, violino, menestrel

e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito

pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo

o teu coração, o que é, a carne de que é feito,

amo sua matéria, fauna e flora,

seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas

perdidas nas casas que habitamos, os fios

de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo

pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:

“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas

o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não

ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama

fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

Te alinho junto das coisas que falam

uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como

o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,

tira de mim o ar desnudo, me faz bonita

de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,

me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que

acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando

os panos, se alargando aquecido, dando

a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,

o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,

te amo do modo mais natural, vero-romântico,

homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.

Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,

a luz na cabeceira, o abajur de prata;

como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:

com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,

me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles

eu beijo.