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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

CAUSOS: NO DIA EM QUE OTTO LARA RESENDE "VIROU" ZÉ APARECIDO




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TIM-TIM (FOTO: ARQUIVO GOOGLE)




O mineiro Otto Lara Resende (1922 – 1992) viveu mais tempo no Rio de Janeiro que em seu estado natal. Se nunca abandonou a “mineirice” trazida de São João Del Rei, incorporou, definitivamente, o senso de humor dos cariocas. Advogado, jornalista, escritor e frasista de primeira, Otto formou com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, seus amigos de juventude, todos igualmente mineiros e talentosos, o que eles próprios definiram como os quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Ou: “adolescentes definitivos”. 

Antes de tudo, Otto foi um exímio contador de casos. Há quem o considere o “ultimo causeur” brasileiro. Ficcionista, ele próprio transformou-se num personagem. Diz-se que certa noite, em plena ditadura militar, ele entornou uns uísques a mais no famoso Antonio’s, reduto da boemia intelectual do Leblon. Lá pelas tantas, subiu numa cadeira e fez um duro discurso contra o regime vigente. Mais um gole, Otto voltou ao palanque improvisado, agora para comunicar à assistência, em alto e bom som, quem era: “Anotem o meu nome: José Aparecido de Oliveira”.

Em tempo: José Aparecido de Oliveira, ex-secretário do ex-presidente Jânio Quadros, mineiro como ele, era amigo de Otto desde os tempos de juventude, nas Gerais. Se a história é verdadeira ou falsa, ninguém sabe. Nem o jornalista Benício Medeiros, autor de um excelente perfil sobre o “mais carioca dos mineiros”.
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DA ESQUERDA PARA A DIREITA: PAULINHO,
SABINO, OTTO E HÉLIO (AGACHADO) 


Nos tempos de juventude, numa brincadeira, Fernando Sabino
 fez a seguinte quadrinha, para adornar a lápide de Otto:

"Aqui jaz Otto Lara Resende

mineiro ilustre, mancebo guapo.

Deixou saudades, isso se entende:

Passou cem anos batendo papo."

(Atualizado em fevereiro de 2019)




terça-feira, 26 de junho de 2018

LÍNGUA AFIADA: OTTO LARA RESENDE


NETTO

A psicanálise é a maneira mais rápida e objetiva
de ensinar as pessoas a odiar o pai, a mãe e os amigos.

***

O homem é um animal gratuito.

***

Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.

***

A tocaia é a grande contribuição de Minas à cultura universal.

***


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Foto: Mercado Livre

Devemos a Graham Bell
 o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo
 e alguém poder nos chatear por telefone.

***

Todo cuidado é pouco com o tempo do verbo,
 quando se trata de um casal.
Agora é, daqui a pouco já era.

***

A morte é, de tudo na vida, 
a única coisa absolutamente insubornável.

***

Política é a arte de enfiar a mão na merda.
Os delicados (vide Milton Campos) pedem desculpas,
têm dor de cabeça e se retiram.


sábado, 13 de janeiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: OTTO LARA RESENDE

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Foto: Arquivo Google



VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. (OLR)


Publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, em 23 de fevereiro de 1992


quinta-feira, 27 de julho de 2017

CRÔNICAS: OTTO LARA RESENDE

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ILUSTRAÇÃO: DEPOSITPHOTOS


VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.


ILUSTRAÇÃO: NETTO

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

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MEMÓRIAS DO PARKINSON

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica... Por Orlando Silveira


https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/07/memorias-do-parkinson.html#comment-form

sexta-feira, 29 de julho de 2016

NO DIA EM QUE OTTO LARA "VIROU" ZÉ APARECIDO

OTTO LARA RESENDE

O mineiro Otto Lara Resende (1922 – 1992) viveu mais tempo no Rio de Janeiro que em seu estado natal. Se nunca abandonou a “mineirice” trazida de São João Del Rei, incorporou, definitivamente, o senso de humor dos cariocas. Advogado, jornalista, escritor e frasista de primeira, Otto formou com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, seus amigos de juventude, todos igualmente mineiros e talentosos, o que eles próprios definiram como os quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Ou: “adolescentes definitivos”.  

Antes de tudo, Otto foi um exímio contador de casos. Há quem o considere o “ultimo causeur”. Ficcionista, ele próprio transformou-se num personagem. Diz-se que certa noite, em plena ditadura militar, ele entornou uns uísques a mais no famoso Antonio’s, reduto da boemia intelectual do Leblon. Lá pelas tantas, subiu numa cadeira e fez um duro discurso contra o regime vigente. Mais um gole, Otto voltou ao palanque improvisado, agora para comunicar à assistência, em alto e bom som, quem era: “Anotem o meu nome: José Aparecido de Oliveira”.

Em tempo: José Aparecido de Oliveira, ex-secretário do ex-presidente Jânio Quadros, mineiro como ele, era amigo de Otto desde os tempos de juventude, nas Gerais. Se a história é verdadeira ou falsa, ninguém sabe. Nem o jornalista Benício Medeiros, autor de um excelente perfil sobre o “mais carioca dos mineiros”.


DA ESQUERDA PARA A DIREITA: SABINO, HÉLIO, OTTO E PAULINHO

Nos tempos de juventude, numa brincadeira, 
Fernando Sabino fez a seguinte quadrinha, 
para adornar a lápide de Otto:

"Aqui jaz Otto Lara Resende
mineiro ilustre, mancebo guapo.
Deixou saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo."

LEIA TAMBÉM ALGUMAS FRASES FAMOSAS DE OTTO
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2015/06/cha-das-cinco-otto-lara-resende.html#comment-form

domingo, 16 de fevereiro de 2014

CHÁ DAS CINCO: OTTO LARA RESENDE

TRÊS PARES DE PATINS



apoesianasentrelinhasdavida.blogspot.com 

No amplo adro de ladrilhos, o ruído surdo, enrolado, parecia sepultar-se na terra. Os risos e os gritos da meninada embaraçavam-se na copa da grande magnólia, iam aninhar-se nas torres da igreja. Os sinos de bronze ruminavam, bojudos e quietos, o próprio silêncio. De quando em quando, a queda de algum patinador provocava uma algazarra que aumentava a confusão. Alheio a tudo, Betinho corria de uma ponta a outra com voltas arriscadas em torno da magnólia que projetava uma sombra compacta e úmida sobre as escadas de pedra-sabão. Betinho deslizava na pista e maldosamente abalroava os menos hábeis. Lá embaixo, depois do largo, as sombras do crepúsculo começavam a envolver os telhados baixos, encardidos.

— Vem — disse Betinho, quando cruzou com Francisco.

Pouco adiante, Débora já os esperava. Juntos, os três procuravam não tropeçar na emenda das lajes, mais altas, mais baixas, ásperas ou lascadas. Betinho ia à frente, puxava Débora pela mão. Olhos fixos no chão, Débora erguia os pés como se saltasse obstáculos e lançava um olhar suplicante a Francisco, que acompanhava timidamente Betinho. O cemitério já se entrevia por trás do gradil.

— Vem — disse Betinho, petulante.

— Onde você está me levando? — perguntou Francisco.

— Medroso — disse Betinho.

Até ali atrás da igreja chegavam os ecos dos patinadores no adro. Débora olhou para trás: ninguém pela redondeza. Um movimento em falso, deitou-a de comprido no chão.

Prolongou a queda, como se esperasse auxílio de alguém. Indeciso, Francisco não a socorreu.

— Betinho — chamou Francisco, para significar que não ia mais adiante.

— Tirem os patins — disse Betinho.

Os três ao mesmo tempo desabotoaram as fivelas dos patins e os descalçaram. Era bom pisar com os pés dormentes em terra firme. Como se tivessem vindo de águas revoltas, em movimento.

— O cadeado está trancado — disse Francisco.

— A gente pula — disse Betinho, e atirou os patins por cima das grades do portão.

— Olha o vigário — disse Francisco.

— Onde? — Betinho, voltou-se de olhos vivos, assustados.

— Pode aparecer — resmungou Francisco.

— Medroso — e Betinho começou a subir no portão, mãos e pés nas vigas de ferro.

— Agora vem você — disse a Débora e lhe estendeu a mão direita.

— Empurra a Dé — disse Betinho, agora em posição segura.

Francisco agarrou os tornozelos da menina sem saber o que lhe competia.

— Assim não — disse Betinho.

claricelispectorims.com.br


Francisco subiu-lhe as mãos pelas pernas, ajudou-a a galgar a primeira etapa, mãos nos seus pés. Depois subiu e alcançou a coluna. Evitava as hastes pontudas. Francisco e Débora acompanhavam-lhe os passos — não havia outro caminho. Em cima do portão, letras de ferro, bordadas, estava escrito: "Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris". Os meninos desciam pelo outro lado, dentro do cemitério.

— Depressa — e Betinho escondeu-se entre o muro e um túmulo.

Francisco apertou a mão de Débora, que era fria, e estendeu a vista de um lado e outro, até lá em cima, no ossário e na parede de engavetar defuntos. Já não se ouvia a meninada no adro. Os patinadores deviam ter se recolhido. Em pouco era a noite. A treva cobriria o cemitério, envolveria a igreja. Uma densa mancha engoliria a copa da magnólia. Em casa o esperavam para jantar, talvez dessem por sua falta e fossem buscá-lo — pensou Francisco.

— Está ficando tarde — disse.

— A gente volta já.

Betinho puxava Débora, que ia nas pontas dos pés, pesada como quem se recusa. Francisco viu Betinho enlaçar a menina e ambos desapareceram por trás de um mausoléu com um anjo de asas de bronze, a mão parada no ar. Francisco olhou os fundos da igreja — quieta e solene como o morro. Voltou-se depois para os túmulos que se sucediam encosta acima. Hora indecisa, entre a noite e o dia. No silêncio, tudo tinha parado. A cidade e o mundo, esquecidos, não ultrapassavam as fronteiras do cemitério. Francisco queria apoiar-se em alguma coisa, mas não ousou encostar-se no túmulo mais próximo. O Cristo de bronze pregado numa cruz de mármore, os companheiros, a vida, o mundo — tudo era absurdo e longe. O arrulhar dos pombos no beiral da igreja queria dizer-lhe qualquer coisa que ele não entendia.

— Francisco.

A cara de Betinho por trás do mausoléu. Francisco foi andando pela aléia entre as sepulturas, até aproximar-se do companheiro, que abotoava os suspensórios por baixo da blusa. Por um momento, estranhou a ausência de Débora e logo a viu deitada, puxando o vestido que deixava à mostra os joelhos.

— Vai — disse Betinho. Está escurecendo. Francisco aproximou-se da menina, tocou-lhe os pés que as alpercatas mal escondiam. Não sabia o que fazer. Olhou Betinho como se pedisse instruções.

— Anda — disse Betinho.

Francisco ajoelhou-se aos pés de Débora e viu Betinho de novo a espreitá-lo.

— Vai embora — e bateu a mão com impaciência.

Betinho sumiu. De joelhos, Francisco apoiou-se com as mãos no chão. O cordão, as medalhas. Débora permanecia passiva, corno a vítima prestes a ser imolada. Estendendo-se de comprido, Francisco sentiu o corpo morno que inerme o recebia. Era como um ritual de que ambos se tinham esquecido. Recortado contra o céu escuro, Débora via parte do anjo de bronze, o braço erguido em sinal de advertência. As mãos no chão, Francisco levantou-se a meio corpo. Débora tentou cobrir o rosto, mas deixou à mostra os olhos que eram cinzentos, quase opacos.

— Está chorando? — perguntou Francisco e passou-lhe a mão pelos cabelos, puxou-lhe os anéis até os ombros.

— Anda — disse Débora.

Francisco não precisou responder, porque Betinho aparecia naquele momento:

— Pronto?

Débora ergueu-se e sacudiu a saia como se quisesse limpá-la. Betinho estava grimpado no alto da pilastra.

— Espera sua irmã — disse Francisco, a voz tão alta que o assustou.

Betinho escorregou para o outro lado, sem fazer caso. Um patim em cada mão, alguns passos adiante voltou-se:

— Ela sabe o caminho.

— Dé — disse Francisco. — Eu te levo.

E saltaram o portão. O vestido de Débora rasgou-se numa haste. Cada qual pegou o seu par de patins. Junto à parede de engavetar defuntos, lá em cima, acendeu-se uma lâmpada vermelha, que anunciava a noite. Em cima do mausoléu, imóvel, o anjo dava adeus num gesto de bronze.

— Tarde demais — e Débora ergueu os olhos para o céu sem estrelas.
— Sua mãe zanga? — perguntou Francisco.

De mãos dadas, de costas para o cemitério, ganharam a calçada que contornava a igreja. No jardim, um padre passeava para lá e para cá, um livro aberto nas mãos. Francisco sussurrou qualquer coisa que Débora não entendeu. Voltaram ambos pelo mesmo caminho, passaram diante do gradil do cemitério e contornaram a igreja pelo outro lado. Confundido agora com as sombras da noite, o silêncio a tudo emprestava proporções monumentais. O adro imenso, desabrigado. O vento na copa da magnólia iluminava as folhas de um lado como se tivessem luz própria.

A escadaria, os degraus gastos, familiares, caminho da missa, da novena, da bênção e do mês de maio. Chegaram ao largo e apertaram o passo até a esquina da mangueira. A casa no alinhamento tinha janelas baixas. Na ponta dos pés como uma boneca, Débora abriu a porta e, lá dentro, ouviu a voz de Betinho entre vozes adultas, indiferentes.

— Está na mesa — disse a mãe.

— Onde está Dé? — perguntou o pai.

— E vem aí — disse Betinho, fungando.

Sozinho na rua, Francisco ouviu o sino que começou a dobrar e despejava sobre a cidade uma onda de sons, a noite grave e triste que ia começar. Na rua parada, as casas paradas, as árvores paradas. O sino o perseguia, ia à frente e vinha atrás. Francisco deixou cair os patins e não voltou para apanhá-los. Fugia como se o cemitério tivesse se despenhado rua abaixo, no seu encalço.

Abriu o portão de casa, atravessou o jardim, parou no alpendre que uma trepadeira atulhava. A dama-da-noite impregnava o ar de um perfume sereno, pacificador. Uma luz estava acesa lá dentro. Limpou com insistência os pés no capacho, como se chegasse da chuva. Enxugou seu rosto molhado de lágrimas na fralda da camisa.

O sino tinha parado de tocar, mas alguma coisa vibrava no ar, sobre a cidade que acabava de acender as suas luzes para dormir.


(O texto acima foi extraído do livro "O Boca do Inferno", Companhia das Letras — São Paulo, 1998, pág. 67.)