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quinta-feira, 7 de junho de 2018

LÍNGUA AFIADA: NELSON RODRIGUES

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INTERNET



Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.


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O adulto não existe. O homem é o menino perene.


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A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.


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 Amar é ser fiel a quem nos trai.


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Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.


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Só acredito na bondade que ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma.

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O brasileiro é um feriado.


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Os jardins de Burle Marx não têm flores. Têm gramados e não flores. Mas para que grama, se não somos cabras?


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A burrice é a pior forma de loucura.


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Eu, como artista, se tivesse de escolher um epitáfio, optaria pelo seguinte: — "Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos".

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Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.


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Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

CAUSOS: AS PERIPÉCIAS DO “ANJO PORNOGRÁFICO” E DO “VELHO GRAÇA”




FOTO: ARQUIVO GOOGLE



GEMIDOS

 O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas... Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital, onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações no pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava desacompanhado (tinha medo de morrer sozinho), Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

-- Dona Concetta, fique comigo. Venha aqui. Venha me ouvir gemer.

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Nélson adorava sanduíche de mortadela. Mas a úlcera, sempre ela, lhe castigava. O mestre, então, chamava o contínuo - que à época, ao contrário de hoje, não era guri - e lhe propunha um bom negócio. Que o homem fosse buscar o sanduba. Ele pagava com gosto. Mas tinha um preço: o sortudo tinha que comê-lo na frente de Nélson. Que babava de satisfação.


A QUEM? A QUEM?

Graciliano Ramos, o “velho” e eterno Graça, dispensa apresentação. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, autor de livros inesquecíveis, era de um rigor absoluto consigo mesmo, tanto na vida pessoal como na política e no trabalho literário: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux foi ensaísta, crítico de literatura e jornalista. Chegou ao Brasil em 1939, com sua mulher. Judeus, fugiam da escalada de terror promovida pelos nazistas.

Afinidades intelectuais – mas não só elas – fizeram Graciliano e Otto grandes amigos. Ambos eram pessimistas incorrigíveis. Conta-se que, numa das inúmeras conversas que tinham nos cafés e livrarias do Rio de Janeiro, ocorreu a que segue:

-- A coisa está feia, vai de mal a pior. Amanhã, estaremos pedindo esmolas – teria dito um deles.

-- A quem? A quem? – teria questionado o outro, ainda mais desolado. 


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Quando o amanhã finalmente chega, me pega animado que só. 
Em geral, nos dois primeiros dias, supero de longe todas as expectativas. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

LÍNGUA AFIADA: NELSON RODRIGUES (4)

BAPTISTÃO


Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.


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No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. 
O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.

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O carioca é o único sujeito capaz de berrar
 confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.

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Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.

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O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira.

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Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.

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O carioca é um extrovertido ululante.

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As bodas de prata são, via de regra, uma festa cínica que finge
 comemorar um amor enterrado.

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O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem 
e não haverá mais paisagem.

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Os que choram pouco, ou não choram nunca, 
acabarão apodrecendo em vida.

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Gosto do cigarro que me queime a garganta. 
O fumo suave não passa de um ópio de gafieira.

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Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

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DE NELSON RODRIGUES, CLIQUE
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

LÍNGUA AFIADA: NELSON RODRIGUES (3)

Resultado de imagem para imagens ônibus lotado 
ARQUIVO GOOGLE 
 

Há homens que, por dinheiro, são capazes
 até de uma boa ação.

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O pobre, para sobreviver, precisa da pornografia.


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O presidente que deixa o poder passa a ser, 
automaticamente, um chato.

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O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.

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É impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes.

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Num casamento, o importante não é a esposa, 
é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir 
as qualidades e os defeitos da própria mãe.

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A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.

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No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, 
se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.

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Uma dor de viúva dura 48 horas.

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Todo óbvio é ululante.

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Djalma Santos põe, no seu arremesso lateral, 
toda a paixão de um Cristo negro.

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A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

LÍNGUA AFIADA: NELSON RODRIGUES (2)


Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.

A família é o inferno de todos nós.

A fidelidade devia ser facultativa.

O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.

D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.

Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!

O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.

Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.

O ser humano está mais para Lucho Gatica do que para Paul Valéry.

O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.

Aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto.

Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.


domingo, 16 de março de 2014

CHÁ DAS CINCO: NELSON RODRIGUES

COMPLEXO DE VIRA-LATAS


BAPTISTÃO


Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.