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MONÓLOGO DE ORFEU
Mulher
mais adorada!
Agora
que não estás,
deixa
que rompa o meu peito em soluços
Te
enrustiste em minha vida,
e
cada hora que passa
É
mais por que te amar
a
hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.
E
sabes de uma coisa?
Cada
vez que o sofrimento vem,
essa
vontade de estar perto, se longe
ou
estar mais perto se perto
Que
é que eu sei?
Este
sentir-se fraco,
o
peito extravasado
o
mel correndo,
essa
incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo
isso que é bem capaz
de
confundir o espírito de um homem.
Nada
disso tem importância
Quando
tu chegas com essa charla antiga,
esse
contentamento, esse corpo
E me
dizes essas coisas
que
me dão essa força, esse orgulho de rei.
Ah,
minha Eurídice
Meu
verso, meu silêncio, minha música.
Nunca
fujas de mim.
Sem
ti, sou nada.
Sou
coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu
menos Eurídice: coisa incompreensível!
A
existência sem ti é como olhar para um relógio
Só
com o ponteiro dos minutos.
Tu
és a hora, és o que dá sentido
E
direção ao tempo,
minha
amiga mais querida!
Qual
mãe, qual pai, qual nada!
A
beleza da vida és tu, amada
Milhões
amada! Ah! Criatura!
Quem
poderia pensar que Orfeu,
Orfeu
cujo violão é a vida da cidade
E
cuja fala, como o vento à flor
Despetala
as mulheres -
que
ele, Orfeu,
Ficasse
assim rendido aos teus encantos?
Mulata,
pele escura, dente branco
Vai
teu caminho
que
eu vou te seguindo no pensamento
e
aqui me deixo rente quando voltares,
pela
lua cheia
Para
os braços sem fim do teu amigo
Vai
tua vida, pássaro contente
Vai
tua vida que estarei contigo.
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ORFEU NO TEATRO
Desde
1942 que a ideia de transpor o mito grego de Orfeu para uma favela carioca
habitava Vinícius de Moraes. Foi
durante esse ano que o poeta norte-americano Waldo Frank visitava o Brasil e que Vinícius ficou responsável por ciceroneá-lo pelo país.
Suas
incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue
e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade
afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a
aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos
e trágicos dos tempos míticos.
Nesse
mesmo ano, Vinícius estava passando
alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos
Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro
sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de
uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba.
Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato.
Em
25 de setembro de 1956, a peça – Orfeu da
Conceição – finalmente estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Entre
idas e vindas de Paris, Vinícius consegue
arregimentar para sua montagem grandes nomes da cultura brasileira de então: Oscar Niemeyer fez os cenários, Tom Jobim fez a múisica, Carlos Scliar e Djanira fizeram os
cartazes, o Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento forneceu os atores para o elenco, como o próprio
Abdias, além de Haroldo Costa, Ademar Pereira da Silva, Ruth de Souza entre outros. Foi a
primeira vez, na história do Teatro Municipal, que atores negros pisaram em seu
palco. (Fonte: www.viníciusdemoraes.com.br)
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