Mostrando postagens com marcador Marco Antonio Villa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marco Antonio Villa. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de junho de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para imagens Petrobrás
Ilustração: Amorim


ESTATAIS A SERVIÇO DO BRASIL

Não é possível falar em história do desenvolvimento
econômico brasileiro no século XX sem falar do Estado.
Foi ele o grande indutor da economia

Por Marco Antonio Villa
IstoÉ – 08/06/2018 – 18h


A greve dos caminhoneiros recolocou a questão da privatização da Petrobras e — por tabela — de todas as estatais. O tema entrou na pauta meio de contrabando. Afinal, a questão envolvia diversas questões e o ataque às empresas estatais foi somente mais um pretexto na longa luta em defesa do que os liberais chamam de Estado enxuto. Os liberais brasileiros sempre foram meio fora da curva clássica: apoiaram ditaduras, fecharam os olhos às graves violações dos direitos humanos, à censura e, quando lhes convinham, à presença estatal na economia.

Não é possível falar em história do desenvolvimento econômico brasileiro no século XX sem falar do Estado. Foi ele o grande indutor da economia. Qual empresário quis fundar a Companhia Siderúrgica Nacional? E a Petrobras? E a Embraer e a Embratel? E a vale do Rio Doce? E Itaipu? A lista é quilométrica e, para economizar espaço, fico somente nessas empresas.

Todas elas exigiram investimentos de longa maturação e, inicialmente, as taxas de lucros eram baixas. Tudo o que o empresariado brasileiro não gosta.

O lucro fácil é o seu principal objetivo e a história do Brasil é farta em exemplos que reforçam essa afirmação. Portanto, não estamos no terreno da ideologia, mas sim trabalhando com dados muito conhecidos e inquestionáveis.

Ao longo do tempo — e é um problema sério — as empresas estatais foram ocupando espaços que deveriam estar reservados à iniciativa privada. É um fato. Também as estatais foram perdendo seus objetivos originais e acabaram, boa parte delas, tomadas por interesses político-partidários, o que também é um fato de conhecimento geral.

O grande desafio é recolocá-las no seu papel de indutoras do desenvolvimento. Entregá-las de mãos beijadas para investidores, principalmente estrangeiros, será um crime de lesa-pátria

Sendo assim, a questão que se coloca não passa pela privatização indiscriminada de todas as estatais, pelo grito inconsequente de privatize tudo. Não! O Estado, até por razões de segurança nacional, mas não só, tem de continuar controlando com eficiência e competência setores que são fundamentais para o País. É urgente despartidarizar as estatais, limpá-las da corrupção e colocá-las a serviço do desenvolvimento nacional. Essas empresas não devem ser dirigidas com o objetivo de atender prioritariamente os investidores. Se agirem assim é melhor que deixem de ser estatais. O grande desafio é recolocar as estatais no seu papel de indutor do desenvolvimento. Entregá-las de mãos beijadas para investidores — principalmente estrangeiros — será um crime de lesa-pátria.



quinta-feira, 15 de março de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Joaquim Nabuco (1849 - 1910)


O TENENTISMO QUER VOLTAR

Estamento militar quer se recolocar na política.
Tenta construir projeto intervencionista.
Mas não sabe de onde partir

Por Marco Antonio Villa
O Globo – 13/03/2018

Em outubro de 1891, Joaquim Nabuco, em carta enviada ao amigo Aníbal Falcão, escreveu: “Já lhe respondi que se quisesse entrar novamente em política, primeiro assentaria praça (é um pouco tarde, não lhe parece?) por estar certo de que o melhor governo que a República pudesse dar ao país seria incapaz de receber direção que não partisse dos próprios quartéis. Vocês, republicanos, substituíram a monarquia pelo militarismo sabendo o que faziam, e estão convencidos de que a mudança foi um bem. Eu […] pensei sempre que seria mais fácil embarcar uma família do que licenciar um exército.”

Até 1889, os militares tinham papel pouco relevante na cena nacional. O militarismo era um mal platino. A sucessão de golpes de Estado, típica da região, era inexistente no Brasil. No Segundo Reinado (1840-1889), a maioria dos ministros do Exército e da Marinha foi civil. As atribuições das Forças Armadas estavam determinadas nos artigos 145 a 150 da Constituição. A obediência ao Poder Executivo era clara: “a força militar é essencialmente obediente; jamais se poderá reunir sem que lhe seja ordenado pela autoridade legítima.” (artigo 147)

As Forças Armadas foram arrastadas à política, agindo corporativamente, quando da Questão Militar. Os liberais foram os principais agentes naquele processo. Estimularam a desobediência castrense acreditando que, dessa forma, enfraqueceriam seus adversários, os conservadores. Ironicamente, em novembro de 1889, foram derrubados — e com eles, a monarquia — por um golpe militar.

A entrada dos militares na política foi nociva ao país e às Forças Armadas. Na maioria dos estados — antigas províncias — a República foi proclamada pelas guarnições militares. O entusiasmo pela política foi tão grande que para a Assembleia Constituinte, escolhida em setembro de 1890, foram eleitos 54 constituintes militares: 40 deputados e 14 senadores. Desde então, tiveram papel permanente na política, participando ativamente dos embates eleitorais e agindo como uma corporação que estaria acima das instituições, como uma espécie de reserva moral da nação, um caricato Poder Moderador.

Nos anos 1920, o militarismo renasceu como elemento renovador da política. O tenentismo serviu como receptáculo reunindo a insatisfação militar da jovem oficialidade com os rumos do país. Tinha apoio civil. Mas, na sua essência, desprezavam a política e os “casacas”, forma depreciativa como se referiam à elite dirigente. O salvacionismo levou às rebeliões de 1922, 1924 e à Coluna Prestes. E, em 1930, chegou ao poder sob direção — ironia da história — de um civil. Tomaram e expandiram o aparelho de Estado. Determinaram os rumos do país tanto nos momentos democráticos, como nos autoritários. Basta recordar que durante o populismo (1945-1964), nas quatro eleições presidenciais, sempre houve candidatos militares. Mesmo assim — ou apesar disso — estiveram presentes nas conspirações e golpes ocorridos no período, como na pressão contra a posse de Getúlio Vargas, em 1951, na crise de agosto de 1954, nos dois golpes de Estado de novembro de 1955, nas revoltas de Jacareacanga e Aragarças no governo Juscelino Kubitschek, na crise da renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, e, finalmente na derrubada de João Goulart, em abril de 1964.

Resultado de imagem para fotos marco antonio villa
Marco Antonio Villa é historiador
Foto: Jovem Pan/Divulgação

De 1964 a 1985, o militarismo nunca foi tão dominante. Determinou o rumo do país, inclusive do processo de transição para o regime civil. Centenas de militares ocuparam postos na estrutura estatal. As polêmicas castrenses ocuparam o espaço da política. Tudo era definido de acordo com os interesses das Forças Armadas. Os cidadãos eram meros espectadores, pois havia brasileiros mais iguais que outros. Isto foi absolutamente nocivo ao aperfeiçoamento profissional das três armas e — por mais paradoxal que seja — à segurança nacional, tão propalada pelos generais-presidentes.

Os governos civis não conseguiram colocar os militares nas funções constitucionais e muito menos elaborar uma doutrina que definisse claramente o papel das Forças Armadas. Também — forçoso reconhecer — as lideranças castrenses não souberam produzir propostas que pudessem ser debatidas pela sociedade destacando, por exemplo, a importância de um país com as dimensões do Brasil ter um orçamento militar adequado. Ficaram na defensiva tentando legitimar os atos dos anos 1964-1985. Perderam tempo. Este não era o principal embate. Optaram pelo discurso, ao invés da ação.

Agora, ainda sem clareza do que fazer, o estamento militar quer se recolocar na política. Tenta construir um projeto intervencionista. Não sabe de onde partir, nem como fazer. Buscar no guarda-roupa da história a roupagem tenentista vai transformar a ação das Forças Armadas numa comédia pastelão. As sucessivas declarações políticas de altos oficiais violam o regulamento disciplinar das três forças. E não passam de respostas desesperadas, símbolos da esterilidade corporativa.

Pior será se os militares forem seduzidos pelas novas vivandeiras que rondam os quartéis. São os oportunistas de sempre. Para as Forças Armadas, quanto mais distantes da política partidária, melhor. Mais ainda do atual processo eleitoral para a Presidência da República. Desenterrar o modelo do soldado-cidadão, que serviu para justificar o golpe militar republicano e as diversas intervenções ao longo do século XX, conduzirá o país e as Forças Armadas a uma grave crise política e institucional. A advertência de Joaquim Nabuco está de pé. Não foi ouvida em 1889. Espero que seja ouvida agora.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para imagens blocos de carnaval
Blocos: a mídia lhes dedica espaços generosos 

O CARNAVAL DO VALE-TUDO

Esse ano ele atingiu o ponto máximo de mediocridade.
E o poder público, de olho no politicamente
correto, incentivou tal comportamento

Por Marco Antonio Villa
IstoÉ – 16/02/2018 – 18h

O Carnaval acabou. Ainda bem.

É muito difícil encontrar no calendário das festas brasileiras (e haja festa!) uma tão patética como o Carnaval.

Instrumentalizado por interesses os mais diversos, ocupa um espaço absolutamente desproporcional na mídia à sua importância e na própria ação do poder público.

A mídia dedica à festa espaços generosos. O processo tem início, especialmente, um mês antes da festa. Detalhes os mais bizarros possíveis são transformados em notícias importantes. Somos informados de pormenores ínfimos sobre as fantasias, os enredos, os destaques (geralmente celebridades do mundo vulgar da cultura de massa), as “rainhas de bateria” e seus preparativos para o desfile — em suma, não há nada que fique de fora. Nos últimos anos, além dos desfiles das escolas de samba, os blocos adquiriram grande importância. E também sobre seus dirigentes e componentes a mídia reserva ampla cobertura, inclusive porque alguns desfilam antes do Carnaval preparando-se para a festa.

Não há no mundo uma comemoração tão anunciada, tão longa — os quatro dias de folia foram sendo paulatinamente ampliados —, tão noticiada como o Carnaval brasileiro.

A separação do público e do privado de há muito foi abolida. Blocos e camarotes privados ocupam as ruas e avenidas. Realizam grandes negócios. E ainda recebem a proteção especial da segurança pública — isso onde ainda há segurança…

A massiva cobertura — especialmente da televisão — amplifica a festa. Mais que isso: transforma o Carnaval em modelo para o País. Personagens pífios são transformados em celebridades. Viram referências artísticas e morais. Nas entrevistas tecem considerações bizarras. Tudo o que falam é glorificado. Há, implícito, um desprezo pela cultura.

Esse ano o Carnaval atingiu o ponto máximo no campo da mediocridade — sem que nos anos anteriores tenha sido comedido, vale ressaltar. Virou um verdadeiro salve-se quem puder.

Não há nenhum paralelo. Cada celebridade buscou aparecer mais que outra. Escandalizar virou o mote preferido das personalidades midiáticas. E o poder público, de olho no politicamente correto, incentivou tal comportamento.

O Carnaval acabou servindo como uma boa metáfora da profunda crise por que passa o Brasil, um país sem rumo. E crise no sentido mais amplo possível.

***

LEIA TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens anitta
Anitta: "símbolo" da cultura nacional
Foto: Manuela Scarpa - Brazil News

A decadência cultural do país é inquestionável. A ignorância se transformou em política oficial. Quanto mais medíocre, melhor. 
Por Marco Antonio Villa

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para imagens da favela da rocinha rio de janeiro
Favela da Rocinha (RJ)/ YouTube


O CAOS DA SEGURANÇA PÚBLICA
Por Marco Antonio Villa
Na Jovem Pan – 07/02/2018




Três vias expressas no Rio de Janeiro foram interditadas por conta de tiroteio, além disso, um garoto foi morto jogando futebol na Maré. Outra notícia é da morte de uma menina de três anos durante assalto. É possível viver em uma cidade como essa? Como será enfrentado essa questão da segurança pública no Rio? Com intervenção federal.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para CARICATURAS DE LULA

 LULA É APENAS O PRIMEIRO

No País reinou a calma. Era esperado. E o mesmo vai ocorrer
quando da prisão do chefe do petrolão. O Brasil mudou, ainda bem

Por Marco Antonio Villa
IstoÉ – 02/02/2018 – 18h

A condenação de Luiz Inácio Lula da Silva a 12 anos e 1 mês de reclusão – além da pena pecuniária – é um marco político-jurídico. Nunca na história do Brasil houve algum fato que sequer tenha se aproximado ao acontecido no já célebre 24 de janeiro de 2018. Poucos acreditavam que a Justiça fosse igual para todos. O caput do artigo 5º da Constituição era considerado perfumaria, algo para ser lido até com desdém. Isso porque havia brasileiros mais iguais que outros. Porém, juízes identificados com a plenitude do Direito, que julgam independentemente da capa do processo, demonstraram que temos sim Justiça – muito diferente daquela dos tribunais superiores de Brasília.

O sinal dado por Porto Alegre é claro: ninguém está acima da lei. É um recado não somente para Lula, mas para toda elite política. Se até ele pode ser condenado (e vai ser preso) por que outros não serão? E são centenas de envolvidos nas investigações, alguns já processados e muitos condenados em primeira instância. A fila é longa e deve andar esse ano com novas condenações atingindo políticos de diversos partidos políticos. O País tende, portanto, para um caminho muito distinto do italiano. Lá a Operação Mãos Limpas foi logo controlada pelo poder tradicional. Aqui o processo é distinto e está criando as condições para a efetiva construção da República sob bases democráticas stritu sensu.

O PT tentou desqualificar o processo contra Lula. Perdeu. Depois atacou Sergio Moro. Perdeu também. Aí mirou suas baterias contra os desembargadores do TRF da 4ª Região. Novamente foi derrotado. Lula, como de hábito, usou o partido para seu interesse pessoal. Sabe que sem ele o PT não sobrevive. E dessa vez arrastou toda esquerda. O que foi bom para ele, foi péssimo para o futuro de outras organizações que poderiam – no campo da esquerda – produzir um discurso ético, dissociando-se do PT. Assim, caso se mantenham no apoio a Lula e na desqualificação da decisão judicial, caminham juntamente com o PT para o suicídio político.

Muitos temiam a reação popular à condenação de Lula. Os militantes profissionais que acompanharam in loco o julgamento foram embora sem qualquer problema. No resto do País reinou a calma. Era esperado. E o mesmo vai ocorrer quando da prisão do chefe do petrolão. O Brasil mudou, ainda bem.

***

VEJAM TAMBÉM

Sessão plenária do STF. Foto: Carlos Moura/SCO/STF


Em 2016, o STF gastou mais de meio bilhão de reais. Apoiado em relatório da presidente da Suprema Corte, o historiador e analista político Marco Antonio Villa analisa os gastos. É um escárnio. Confiram. (OS)
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2018/02/fala-villa.html#comment-form


sábado, 3 de fevereiro de 2018

FALA, VILLA

Sessão plenária do STF. Foto: Carlos Moura/SCO/STF
Plenário do STF/Foto: Carlos Moura


Nascer, viver e no STF morrer é um privilégio
que nem todos podem ter
Por Jovem Pan 02/02/2018 10h14


O belo hino do Santos diz “Nascer, viver e no Santos morrer. É um orgulho que nem todos podem ter”. Gostaria de adaptar e dizer que “nascer, viver e no STF morrer é um privilégio que nem todos podem ter”, e haja privilégios. Não faltam recursos para manter aquela Corte. Apenas em 2016, eles gastaram pouco mais de R$ 500 milhões. São 1.216 funcionários ativos mais estagiários e outros resultando em 222 funcionários por ministros aproximadamente.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para imagens lula sindicalista
Lula: valentia de palanque
Foto: Google

LULA E A IRONIA DA HISTÓRIA

Assim como no sindicalismo, os intelectuais transformaram
o PT numa cesura. Seria o primeiro partido de trabalhadores
da história do Brasil. Tudo o que existiu antes de 1980
não passava de pré-história – e que deveria ser ignorada

Por Marco Antonio Villa
Correio Braziliense/Estado de Minas
31/01/2018

Lula sempre teve como princípio não ter princípio. Isto desde o início da sua vida sindical, em 1972, quando seu irmão, frei Chico, o colocou na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, como um representante informal do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.

Nem bem se instalou no cargo – era diretor de Previdência – esqueceu o acordo que fez com o irmão e começou a fazer a sua própria política. Três anos depois assumiu a presidência do sindicato. Liderou greves. Era radical na frente dos trabalhadores e conciliador junto ao empresariado. Usou das paralisações para se projetar no mundo sindical. Apagou as lideranças que o precederam e impediu o surgimento de outras. Temia comparações. Contou com a preciosa ajuda de intelectuais. Estes construíram o mito do dirigente sindical autêntico, que rompia com o peleguismo e o velho Partidão. Ele era o novo. Com ele nascia o verdadeiro sindicalismo, de acordo com seus acólitos. Toda história precedente do ABC paulista, com greves desde a primeira década do século XX, foi ignorada.

Em 1980 participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Logo foi alçado à presidência. Assim como no sindicalismo, os intelectuais transformaram o PT numa cesura. Seria o primeiro partido de trabalhadores da história do Brasil. Tudo o que existiu antes de 1980 não passava de pré-história – e que deveria ser ignorada. Assim, Lula teria sido o líder que construiu duas rupturas: no sindicalismo e na política partidária.

Lançou-se candidato ao governo de São Paulo, em 1982. Ficou em quarto lugar. O partido também não alcançou o número mínimo de votos para ter representação parlamentar. Porém, o regime militar transferiu a exigência legal para 1986. O objetivo era claro. Dar espaço político para que o PT disputasse com os adversários temidos pelo regime militar: os comunistas e os brizolistas.

Participou da campanha das diretas já. Usou da estrutura do PMDB para ficar conhecido nacionalmente. Sempre buscou a divisão. Não apoiou a candidatura Tancredo Neves. Em 1986 foi um dos deputados mais votados mas o PT elegeu apenas 16 parlamentares. Na Assembleia Constituinte teve papel irrelevante. Faltou a boa parte das sessões. Não conseguia acompanhar os debates. A complexidade da construção de uma nova Constituição estava muito acima da sua capacidade de entendimento.

Em 1989 aproveitou o clima favorável e chegou ao segundo turno da eleição presidencial. No momento mais tenso da campanha – a semana que precedeu a eleição – não conseguiu enfrentar seu adversário, Fernando Collor. Perdeu o último debate assim como a eleição. Cinco anos depois tentou novamente. Foi derrotado no primeiro turno. Em 1998 diz que foi para o sacrifício. Foi humilhado no primeiro turno. Depois de quatro derrotas consecutivas para o Executivo – incluindo a eleição de 1982 – teve sua liderança questionada. Como de hábito, não aceitou. Queria permanecer como líder inconteste e, claro, sustentado pelo partido. Não trabalhava desde 1972! Em 2002 completaram-se trinta anos de ociosidade. Mesmo assim, seus comparsas espalhavam aos quatro ventos que o Brasil teria a oportunidade de, pela primeira vez, eleger um trabalhador para a Presidência da República.

Resultado de imagem para fotos marco antonio villa
Marco Antonio Villa é historiador

Pensando em chegar ao poder de qualquer forma, Lula buscou, desta vez, alianças políticas com setores que eram considerados reacionários. Fez um acordo com o Partido Liberal. Comprou a aliança por dez milhões de reais e compôs a chapa com o empresário José Alencar. Venceu duas vezes, mesmo em meio aos escândalos, especialmente o mensalão. Contou com a passividade do principal partido de oposição, o PSDB. Alcançou sua maior glória no segundo mandato. Foi chamado de estadista. Continuava o mesmo da época do sindicato: sem caráter, sem princípios, um oportunista. Mas sempre sagaz. Lia bem a conjuntura política, favorecido – é verdade – pela mediocridade dos políticos oposicionistas. Conseguiu – com base em duas campanhas milionárias, as mais caras da história – eleger um poste como sucessor.

Mas foi em 2014, paradoxalmente, que teve seu grande tropeço. Foi emparedado por Dilma Rousseff. Queria voltar e se perpetuar no poder. Tinha tentado, em 2008, alterar a Constituição permitindo três mandatos consecutivos, mas não passou das confabulações iniciais. Estando doze anos no governo, o PT tinha, em 2014, todas as condições para eleger Lula e estabelecer o continuísmo ad eternum. Contava com a simpatia da direita parlamentar lulista, o apoio do grande capital e a falta de combatividade dos tucanos. Vencendo, iria concluir a tomada do aparelho de Estado. Era, como definiu o ministro Celso de Mello, o projeto criminoso de poder. Seria inimaginável um processo de impeachment contra Lula, como ocorreu com sua sucessora. Ou alguma condenação judicial. Assim, suprema ironia da história, o Brasil foi salvo por Dilma Rousseff.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTÔNIO VILLA

Foto: arquivo Google

CIDADES VIRARAM CAMPOS DE BATALHA

Vivemos uma guerra civil nas cidades brasileiras. Se estudarmos história do Brasil no século XX verificamos o crescimento das cidades. Com ele, tivemos imenso deslocamento populacional do Nordeste para o Sudeste, isso até o final dos anos 1960. Ao chegar no Rio de Janeiro, então capital federal, em busca de empregos, muitos primeiro passavam pelo interior e iam para a região metropolitana. E conseguiam mudar de vida. O crescimento econômico construía as cidades e a segurança pública não era colocada no centro de enfrentamento. Os índices de criminalidade eram baixos. O que ocorreu do início da década de 80 para cá? (Jovem Pan)




sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA


Resultado de imagem para imagens para Brasil mestiço
Ilustração: arquivo Google

O Brasil nos últimos anos, especialmente no de 2017, convive com discursos passados como verdades. A questão da raça, é uma boa discussão. É preciso fazer uma comparação entre o que ocorreu no Brasil e o que aconteceu nos Estados Unidos no fim da escravidão.


***

LEIA TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens anitta

A decadência cultural do país é inquestionável. 
A ignorância se transformou em política oficial. 
Quanto mais medíocre, melhor. 
Por Marco Antonio Villa

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

Resultado de imagem para imagens anitta
Anitta: "símbolo" da cultura nacional
Foto: Manuela Scarpa - Brazil News

ANITTA E A REPÚBLICA DOS RASTAQUERAS

A decadência cultural do país é inquestionável.
A ignorância se transformou em política oficial.
Quanto mais medíocre, melhor

Por Marco Antonio Villa
O Globo – 09/01/2018

O Brasil vive uma crise de identidade cultural. Ao longo do século XX, foi recorrente a busca incessante de interpretações do nosso país. A grande migração do Nordeste para o Sudeste e os deslocamentos do campo para a cidade transformaram radicalmente o país. O nascimento das primeiras metrópoles e suas profundas contradições sociais e políticas fomentaram a necessidade de compreender o momento histórico. Tudo era novo, e as antigas leituras não davam conta das transformações que estavam ocorrendo em ritmo acelerado. O velho ufanismo do Conde de Afonso Celso era ridicularizado. O Brasil moderno necessitava da crítica, e não da apologia despolitizada do passado e do presente.

Na literatura, no cinema, nas artes plásticas, na música foi sendo construída a nossa identidade cultural, produto complexo, contraditório, mas que possibilitou estabelecer diálogo entre as diferentes regiões do país, as classes sociais, os desafios políticos e a elite dirigente. A cultura brasileira tinha uma presença no mundo ocidental. Dialogava com o que havia de mais moderno. Em algumas áreas, acabou se transformando em referência para outras culturas.

Atualmente, o panorama é muito distinto. A crise de identidade cultural pela qual passamos é a mais profunda da nossa história. Hoje, nada ou quase nada nos une. Somos um país fragmentado, dividido. Não há diálogo na música, na literatura, no cinema, nas artes plásticas. A cultura brasileira nada conta para o mundo.

“Nunca tivemos uma elite tão rastaquera como a atual.
Despreza a cultura. Não se identifica com os clássicos
ocidentais. Acha o máximo matricular seus filhos
em escola bilíngue — somente duplicam a ignorância”

Nesta conjuntura, é possível compreender como algumas figuras caricatas tomaram conta do cenário cultural. A cantora Anitta é o melhor exemplo. É elogiada como um verdadeiro símbolo do Brasil contemporâneo. Uma representante do país para o mundo. A música “Vai, malandra” já foi chamada de novo hino nacional. O reacionarismo da letra (falar em versos, aí já é demais), a desqualificação da mulher, a idealização da favela (é favela mesmo; comunidade não passa de uma tentativa de transmudar pela palavra uma vergonha nacional, aceitar a precarização da moradia e das condições de vida de milhões de brasileiros) é dado de barato, como se fosse algo absolutamente irrelevante. Foi até chamada para cantar o Hino Nacional no último Grande Prêmio de Fórmula 1, em Interlagos — seguindo este caminho, logo teremos como intérpretes Ludmilla ou Pabllo Vittar. No réveillon, na Praia de Copacabana, foi considerada a grande estrela. Brindou o público com frase de rara profundidade filosófica, como uma Hanna Arendt dos trópicos: “Vocês acharam que eu não ia rebolar a minha bunda hoje?”

A decadência cultural do país é inquestionável. A ignorância se transformou em política oficial. Quanto mais medíocre, melhor. Tem de ser rasteiro para ser aceito, fazer sucesso. O Brasil virou a República dos Rastaqueras. No país da Anitta, é indispensável dizer sim, sempre dizer sim. Há o medo manifesto de ser hostilizado por defender uma outra visão de mundo. Os radicais dos anos 1960, hoje em idade provecta, preferiram aceitar passivamente o papel de coadjuvantes. Não perceberam o ridículo. Pior, chancelaram com entusiasmo a cultura da ignorância. Tudo para não perder o proscênio. Em busca da eterna juventude, agem como Peter Pans tupiniquins.

Como chegamos a este ponto de degradação? O desaparecimento de um pensamento crítico pode explicar este terrível cenário. A reflexão, fruto da exaustiva pesquisa, desapareceu. Culturalmente — mas não só — o país perdeu o rumo. Paradoxalmente, nunca existiram no Brasil tantas secretarias — estaduais e municipais — dedicadas formalmente à cultura. São centenas. Mas na República dos Rastaqueras, elas servem somente como moeda de troca para garantir a “governabilidade” das prefeituras e governos estaduais.

O Brasil acabou se transformando em recebedor passivo do que há de pior da cultura ocidental, especialmente a americana. Reproduz de forma caricata as manifestações culturais (além do racismo negro) dos setores ditos marginais dos Estados Unidos — que foram mercantilizados a peso de ouro pela indústria cultural. Ao invés da antropofagia cultural, temos o mimetismo caricato.

Resultado de imagem para imagens marco antonio villa
Marco Antonio Villa é historiador
Foto: YouTube

Não é possível atribuir ao conjunto da cultura ocidental a mediocridade brasileira. Poderíamos importar muita coisa melhor. Mas por que não o fazemos? Em parte, deve-se à elite econômica e política. Nunca tivemos uma elite tão rastaquera como a atual. Despreza a cultura. Não se identifica com os clássicos ocidentais. Acha o máximo matricular seus filhos em escola bilíngue — somente duplicam a ignorância em duas línguas. Quando viaja, evita os museus. Livrarias? Foge delas como o diabo da cruz. Olha mas não vê o produto de uma civilização. Quer é fazer compras.

O Brasil não tem nenhum museu que possa se aproximar de um congênere europeu. Os nossos são pequenos, pobres. Evidentemente que não seria o caso de termos um Hermitage, mas o país que está entre as maiores economias do mundo não pode se contentar com o que temos. E as bibliotecas? Pífias. Os acervos são restritos e estão desatualizados. E os grandes teatros?

Este triste panorama é produto da crise que vivemos, uma crise estrutural. A República está sem rumo. Em uma linguagem mais direta: o país está uma bagunça. Para os doutores Pangloss de plantão, tudo vai bem. Resta, então, cantar: “Vai, malandra, an an/ Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum/An an, tutudum, an an/Vai, malandra, an an/Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum/An an, tutudum, an an.” Ah, bons tempos quando Anita era a Garibaldi.

___________________________

PARA QUEM GOSTA DE PORCARIA:
"VAI, MALANDRA"