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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A SEMANA É DE Manuel Bandeira (5)

Foto: Ricardo Pozzo


O BICHO

Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.




                                                         O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


PORQUINHO DA ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

pepinoemconversa.blogspot.com 


***


Manuel Bandeira (1886, Recife, PE - 1968, Rio de Janeiro, RJ) foi um poeta brasileiro. "Vou-me Embora pra Pasárgada" é um dos seus mais famosos poemas. Foi também professor de Literatura, crítico literário e crítico de arte. Os temas mais comuns de sua obra são: a paixão pela vida, a morte, o amor e o erotismo, a solidão, o cotidiano e a infância. Foi um dos maiores representantes da primeira fase do Modernismo. FONTE: EBIOGRAFIA




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A SEMANA É DE Manuel Bandeira (4)



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa (*) vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

NA INTERPRETAÇÃO DE JUCA DE OLIVEIRA




(*) Mulata que serviu de ama-seca a Manuel Bandeira e a seus irmãos quando meninos.

É o próprio Bandeira quem explica:

“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema [...]”  FONTE: BRASIL ESCOLA


***


Manuel Bandeira (1886, Recife, PE - 1968, Rio de Janeiro, RJ) foi um poeta brasileiro. "Vou-me Embora pra Pasárgada" é um dos seus mais famosos poemas. Foi também professor de Literatura, crítico literário e crítico de arte. Os temas mais comuns de sua obra são: a paixão pela vida, a morte, o amor e o erotismo, a solidão, o cotidiano e a infância. Foi um dos maiores representantes da primeira fase do Modernismo. FONTE: EBIOGRAFIA



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A SEMANA É DE Manuel Bandeira (3)




ESTRELA DA MANHÃ



Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda a parte



Digam que sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa? Eu quero a estrela da manhã



Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário



Virgem mal-sexuada

Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos



Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras



Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto



Depois comigo



Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas

comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

eu quero a estrela da manhã



NA INTERPRETAÇÃO DE EDUARDO TORNAGHI






terça-feira, 21 de agosto de 2018

A SEMANA É DE Manuel Bandeira (2)


pintura surrealismo rene magritte
OS AMANTES - RENÉ MAGRITTE (1898-1967)

 TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, 
conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, 
dermite nos dedos, uma aliança empenhada 
e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, 
instalou-a num sobrado no Estácio, 
pagou médico, dentista, manicura... 

Dava tudo o que ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, 
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. 
Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. 
Não fez nada disso: mudou de casa.

Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, 
Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, 
Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, 
Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, 
outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, 
Boca do Mato, Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, 
onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, 
matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída 
em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

***


Manuel Bandeira (1886, Recife, PE - 1968, Rio de Janeiro, RJ) foi um poeta brasileiro. "Vou-me Embora pra Pasárgada" é um dos seus mais famosos poemas. Foi também professor de Literatura, crítico literário e crítico de arte. Os temas mais comuns de sua obra são: a paixão pela vida, a morte, o amor e o erotismo, a solidão, o cotidiano e a infância. Foi um dos maiores representantes da primeira fase do Modernismo. FONTE: EBIOGRAFIA




segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A SEMANA É DE Manuel Bandeira (1)

www.cbnet.org.br

CARTAS DE MEU AVÔ

A tarde cai, por demais
Erma, tímida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu – fruto sem cuidado
Que, ainda verde, apodreceu.

O meu semblante está enxuto
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

***



Manuel Bandeira (1886, Recife, PE - 1968, Rio de Janeiro, RJ) foi um poeta brasileiro. "Vou-me Embora pra Pasárgada" é um dos seus mais famosos poemas. Foi também professor de Literatura, crítico literário e crítico de arte. Os temas mais comuns de sua obra são: a paixão pela vida, a morte, o amor e o erotismo, a solidão, o cotidiano e a infância. Foi um dos maiores representantes da primeira fase do Modernismo. FONTE: EBIOGRAFIA


domingo, 1 de abril de 2018

CHÁ DAS CINCO: MANUEL BANDEIRA

Resultado de imagem para IMAGENS PARA DESENCANTO
Imagem: arquivo Google
DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: MANUEL BANDEIRA

Resultado de imagem para IMAGENS MANUEL BANDEIRA
Bandeira (Foto: Arquivo/CB/D.A Press)

AUTORRETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.