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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE


CINISMO, INDIGNAÇÃO E PALAVRÕES FOFINHOS

Dar mais valor à forma que ao conteúdo é 
um aspecto selvagem de nosso povo

POR MURILLO DE ARAGÃO
BLOG DO NOBLAT
16/02/2017 - 01h25

O cinismo explica a política de modo mais eficiente que a indignação. Ao enveredar pelos maus humores para explicar a política, caímos no poço da indignação. Um poço fundo e escuro do qual é difícil sair.

O indignar tem sido arma de retórica de muitos. Até mesmo pelo fato de que o Brasil é um país que tem inúmeros motivos para causar indignação. O indignar, no entanto, tem sido usado de forma pouco eficiente, já que embute uma perigosa armadilha. E, ao cairmos na armadilha da indignação, temos nossos sentidos obliterados.

Quase todos os grandes líderes da humanidade usaram a indignação como forma de manipular o povo. Mas essa não é uma prerrogativa apenas das pessoas. Instituições também manipulam as expectativas do povo, e o recurso da indignação é o caminho mais curto para se chamar a atenção.

Em um país de pobre estofo gramatical e onde a teatralidade no falar vale mais do que a literalidade das palavras, a indignação cai bem. Por isso qualquer coisa pode ser dita a um brasileiro, desde que seja dita sem exaltação. Já qualquer coisa banal dita com tom de indignação causa efeito. Dar mais valor à forma que ao conteúdo é um aspecto selvagem de nosso povo.

Ocorre com os cachorros: palavras de carinho ditas agressivamente causam temor e raiva; palavras depreciativas sussurradas carinhosamente geram alegria e satisfação. Um anúncio comercial de tubos e conexões da Tigre, em que dois operários trocam palavras doces e inconsequentes em tom de briga, mostra bem como isso funciona. O mote é: “Por um mundo sem palavrões; use palavrões fofinhos”.

Nosso povo, ao examinar a política, deveria dar mais valor ao conteúdo do que é dito do que à sua forma. Pois, no afã de se fazer ouvir, muitos gritam tolices. Criam pânico e agem como Pedro, personagem da fábula Pedro e o Lobo. Enfadado ao cuidar das ovelhas, Pedro resolveu gritar que um lobo estava a atacá-las. Foi socorrido pelos fazendeiros, que não encontraram lobo nenhum. A brincadeira se repetiu até o dia em que o lobo apareceu de verdade, comeu as ovelhas e os fazendeiros não foram socorrer, pois achavam que os gritos eram de brincadeira.

A indignação nas palavras deve ser processada com muito cuidado. O que é vendido fácil demais como verdade absoluta tem uma grande chance de ser algo que não vale o seu valor de face. O alarmismo tende a criar uma capa de insensibilidade que nos leva ao cinismo a respeito das coisas, das pessoas e das instituições. Já a prudência, por mais enfadonha que seja, pode nos levar à precisão.

MURILLO DE ARAGÃO É CIENTISTA POLÍTICO



quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO

Gaiola (Foto: Arquivo Google)
IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE


A GAIOLA DOURADA DA POPULARIDADE

A questão da popularidade, porém, persegue os governantes
assim como os autores de novela perseguem o Ibope


POR MURILLO DE ARAGÃO
BLOG DO NOBLAT
05/01/2017 - 01h25

Houve quem criticasse Nizan Guanaes quando ele recomendou ao presidente Michel Temer aproveitar a sua impopularidade para adotar medidas duras, a fim de restabelecer o equilíbrio fiscal e promover a retomada do crescimento econômico. Eu estava a seu lado no Conselhão quando ele fez a recomendação.

Em síntese, ele dizia que o presidente deveria tratar de temas duros sem se preocupar em ser popular. A declaração foi longe e gerou debate, mas Nizan estava coberto de razão. O estado em que o Brasil se encontra demanda medidas que dificilmente serão populares.

Ninguém acredita que uma Previdência Social tecnicamente quebrada possa ser reformada sem dor. Muitos sabem que os salários devem ser congelados e os benefícios cortados, conforme feito em Portugal. A questão da popularidade, porém, persegue os governantes assim como os autores de novela perseguem o Ibope.

O filósofo suíço Alain de Botton é de uma sinceridade devastadora ao explicar a obsessão em querer ser popular, buscar o elogio e o reconhecimento, querer agradar sempre. No Brasil rasteiro, há quem considere a popularidade a medida do sucesso, em especial quando se mistura espetáculo com política. Não importa como se consegue ser popular nem em que circunstâncias.

Muitos acham que o presidente deve ter a preocupação de agradar sempre por conta do ciclo eleitoral. Que deve tomar medidas duras de início e guardar os agrados para o último ano e meio do mandato, numa dinâmica que atende ao interesse eleitoral e não ao nacional.

A busca da popularidade extrapola o limite dos mandatos. É o caso da antecipação de aumentos salariais pelo governador que deixa o cargo para que sua decisão seja cumprida pelo governador que acabou de ser eleito. Uma espécie de bomba-relógio para as finanças públicas na ânsia de ser eleitoralmente popular.

Agradar deveria ser a última das preocupações de um presidente. E sua popularidade deveria decorrer de uma análise fria dos acontecimentos. Algo que jamais acontecerá, considerando a profundidade de nosso entendimento sobre o cotidiano. Afinal, vivemos em um país raso, onde quem explica também busca a popularidade.

Daí a espetacularização do noticiário. As manchetes são movidas pelo espetáculo. As fotos de capa mostram o detalhe do cabelo despenteado ou um leve roçar no nariz, de forma a forçar a vista para o inusitado. Popularidade a qualquer preço.

“Dilma Rousseff, a mais incompetente presidente de nossa história,
foi, paradoxalmente, a presidente mais popular. No início de 2013,
bateu recordes de popularidade e aprovação”

Recorrentemente, vemos celebridades e subcelebridades artísticas que, por conta de sua exposição, se acham no direito de dar opinião sobre o que não conhecem. Surfam nas ondas baixas do senso comum em busca de popularidade. Confirmam, usando o axioma “com certeza”, o que o senso comum espera ser confirmado em círculo vicioso de intensa mediocridade.

O francês Michel Houellebecq, mesmo sendo um dos mais respeitados escritores da atualidade, se diz escritor e não intelectual. E afirma que não deve dar opinião sobre tudo. No Brasil rasteiro, falta pudor às nossas celebridades e juízo aos comunicadores, que se encarregam de propagar as besteiras ditas em favor da popularidade. Assassina-se, diariamente, uma das maiores conquistas do século passado: a reflexividade.

Dilma Rousseff, a mais incompetente presidente de nossa história, foi, paradoxalmente, a presidente mais popular. No início de 2013, bateu recordes de popularidade e aprovação. Acabou melancolicamente descartada no lixão político de nossa República. É uma prova de que popularidade não é tudo e pode terminar mal, se não vier acompanhada de decisões políticas consistentes.

Mesmo sendo uma armadilha terrível, a busca pela popularidade é a tônica da nossa sociedade. Daí muitos não terem entendido quando o grupo Los Hermanos desprezou a sua mais popular canção, “Ana Júlia”. Eles queriam ir além da popularidade pop que a canção lhes trouxe. Se não fizessem isso, teriam se transformado, certamente, em uma espécie de “one hit wonder” nacional, como o Sylvinho, do “Ursinho Blau-Blau”.

Na explicação do fenômeno político, as armadilhas são cotidianas. Seguir o “bom senso” ou o “senso comum” pode ser o caminho para a popularidade. Mas não o caminho para o sucesso do analista. Usar a indignação como ponto de ênfase para as explicações também é outro atalho para a popularidade. Mas leva para longe a verdade dos fatos. Na política, a indignação pode justificar, mas não explica.

O mais grave não é apenas o desejo doentio do reconhecimento. É o fato de que a verdade deixou de fazer sentido. São tempos de pós-verdade. Era de factoides. Fatos que parecem mas não são verdades, assim como os julgamentos indignados sobre o porquê das coisas.

Quando Nizan, mago da publicidade e celebridade internacional, recomendou que o presidente aproveitasse as vantagens da impopularidade, machucou um dos objetivos mais caros da vida de milhões: ser popular. Para a imensa maioria, a sugestão de Nizan é algo absolutamente incompreensível. Neste momento, se formos medir o governo pela popularidade, certamente estaremos aprofundando a vala comum de nosso fracasso coletivo.

MURILLO DE ARAGÃO É CIENTISTA POLÍTICO


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO





Resultado de imagem para ILUSTRAÇÃO JUÍZES DE TOGA
DE COSTAS PARA A CONSTITUIÇÃO (**)




TESTANDO OS LIMITES DO ABSURDO

POR MURILLO DE ARAGÃO (*)
PUBLICADO NO BLOG DO NOBLAT
15/12/2016 | 01h25

Em uma decisão no mínimo polêmica e no máximo pautada pelo ativismo judicial, tão em voga nestes tempos estranhos, o ministro do Supremo Luiz Fux mandou devolver à Câmara o projeto de lei das “dez medidas contra a corrupção”, ora em exame no Senado, para que sua tramitação recomece do zero.

A argumentação é inusitada, para dizer o mínimo e manter o respeito devido a um ministro do STF. Mas não é apenas inusitada. É igualmente estapafúrdia. Diz o ministro Fux que a Câmara dos Deputados traiu os anseios da população ao mudar o texto enviado ao Legislativo.

Fux entende que, para se debater na essência projeto de lei de iniciativa popular, deve-se interditar emendas e substitutivos que desfigurem a proposta original "para simular apoio público a um texto essencialmente distinto do subscrito por milhões de eleitores".

Obviamente Fux desconhece que os deputados podem apresentar emendas e substitutivos a qualquer proposta legislativa em tramitação. É da essência de sua atividade aprimorar ideias que se transformam em lei. Não fosse assim, bastaria a assinatura de tantos milhões de eleitores para uma nova lei entrar em vigor.

Chega a ser cômico que o esclarecido ministro proponha impedir mudanças nas propostas em discussão por parte do Poder Legislativo. Agindo dessa forma, o magistrado aporta ao direito uma nova categoria de instrumento legal: o decreto-lei popular que não pode ser mudado – só aprovado – pelo Legislativo! 

Seguindo o iluminado raciocínio de Fux, a Lei da Ficha Limpa, por exemplo, deveria ser anulada, já que foi mudada pelas “mãos impuras” dos legisladores. Depois do episódio desmoralizante para o STF da liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Mello afastando Renan Calheiros da presidência do Senado, esperávamos que o tribunal se recolhesse a uma recatada prudência, apropriada aos momentos natalinos. Mas qual! Em meio ao calor de uma guerra institucional, o ministro Fux vai mais além, testando os limites do absurdo.

(*) MURILLO DE ARAGÃO É CIENTISTA POLÍTICO

(**) ARQUIVO GOOGLE

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO

Eduardo Cunha (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters





UM HOMEM IMPREVISÍVEL

O primeiro exercício é saber se o ex-todo-poderoso presidente
da Câmara está mais para José Dirceu ou para Nestor Serveró

POR MURILLO DE ARAGÃO (*)

Blog do Noblat
20/10/2016 - 02h50

Nunca se especulou tanto a respeito de assunto tão esperado. Eduardo Cunha preso tornou-se imediatamente um fato que excita a imaginação política, naturalmente fértil: fará ou não delação? Com denúncias contundentes? Mesmo sem provas cabais? Seu livro vai ser publicado? Poupará ex-aliados? Quem serão, de fato, seus desafetos?

Quem quiser as respostas para essa lista interminável de perguntas, na ausência de fatos terá que pensar como um agente policial de série de TV das 11 da noite. Na primeira hora dos acontecimentos, a mídia não ajudou muito a decifrar o enigma.

O primeiro exercício, então, é saber se o ex-todo-poderoso presidente da Câmara está mais para José Dirceu, um político profissional, ou para Nestor Serveró, um operador de estatal, sem grandes sofisticações.

Na primeira hipótese, sua tendência seria jogar com os investigadores, categoria que também aprecia esse esporte, a propósito mais difícil que o xadrez; na segunda possibilidade, deve-se esperar um mero comportamento de alguém acusado de quadrilheiro. Gente acostumada a contas simples de chegar, sem maiores preocupações com as vítimas, nem expectativas de grandes desdobramentos.

Em qualquer uma delas, contudo, quem conhece seu estilo espera um comportamento Marcelo Odebrecht – demorado, desafiador. Combina mais com o perfil psicológico do homem que dominou Brasília nos últimos dez anos, e só perdeu a aposta por um erro fatal de vaidade. Por ter ido a uma CPI sem ser chamado, portanto, de graça e despreparado para enfrentar suspeitas embaraçosas.

Está provado que as marcas registradas de Cunha são imprevisibilidade e obstinação. Dele pode-se esperar tudo. Eis o dado mais assustador no repertório do homem-bomba do momento. Mas antes de tudo, ele só poderá delatar crimes a respeito dos quais tenha provas.

Como poderia tê-las se, em geral, sua especialidade era justamente agir sem deixar rastros? Versátil, com domínio de todas as posições, forte e ágil, conduzia e arremessava. Um ala, hoje fora da competição. Inevitável dublê de Roberto Jefferson, delator de Dirceu, ambos feriram de morte o PT, sendo que o primeiro entregou o chefe, mas não o funcionamento da engrenagem, que mais tarde se replicaria no petrolão.

A rapidez da ação do juiz Sérgio Moro, ao despachar em semanas um caso que dormiu longo período no Supremo, tirou o sono da população mais ilustre da Capital do país. Muitos não conseguiram dormir, atormentados por outra sorte de perguntas formuladas pela insônia: estarei na lista? Conspiram contra mim? Meu caso será simples? Serei acordado bem cedo pela Federal?

Enquanto isso, em Curitiba, Cunha monta sua narrativa, mas não pode brigar com todo mundo. Político é o ser mais realista que existe. Quase sempre já está bem na frente enquanto os mortais ainda tentam entender o que se passa. Depois de sua prisão, será inevitável a pressão para enfrentar a pauta Lula.


(*) MURILLO DE ARAGÃO É CIENTISTA POLÍTICO

quinta-feira, 12 de maio de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO

Brasil smile (Foto: Arquivo Google)
GOOGLE

ENFIM, UM GOVERNO

BLOG DO NOBLAT -12/05/2016 - 01h52

(Por Murillo de Aragão) Quando escrevo este artigo, o Senado Federal caminha para afastar Dilma Rousseff do poder. É o fim de uma crônica da morte anunciada. O governo Dilma estava a fadado a morrer. Hoje ou depois. Das pedaladas de antes ou pela obstrução da justiça de agora. Não tinha escapatória.

O que esperar de Michel Temer? Primeiro, devemos ajustar as nossas expectativas. Não podemos esperar aquilo que o governo não pode entregar. Também não podemos deixar de considerar o sistema político que temos.

Considerando que o impeachment será confirmado definitivamente, teremos dois e pouco de um governo de transição. Não é muito tempo. Mas é suficiente para restabelecer a confiança na economia.

Outro fator é o regime político do país. Vivemos um presidencialismo de coalizão que se sustenta na boa relação do presidente com o Congresso. Se o relacionamento for equilibrado e respeitoso, muito pode ser feito.

Assim, nossas expectativas devem ser ajustadas para o nível básico da realidade. O governo Michel Temer poderá ser excepcional se nossas expectativas forem realistas e ele souber usar os recursos que tem.

Temer sabe que o Brasil tem dois desafios imediatos. Recuperar a credibilidade fiscal do país e destravar os investimentos. De certa maneira, são desafios factíveis de serem alcançados se forem bem trabalhados e existir um bom relacionamento com a base política.

Em tese, qualquer agenda pode ser encaminhada desde que seja bem preparada. Mesmo a reforma previdenciária pode avançar se a proposta for bem explicada para a cidadania; que atinja inicialmente os funcionários públicos e que existam regras claras de transição.

Murillo de Aragão é advogado, 
jornalista, cientista político, 
presidente da Arko Advice Pesquisas
 e sócio da Advocacia Murillo de Aragão

A aprovação de um limite constitucional para os gastos públicos e da renovação da DRU - Desvinculação das Receitas da União também podem ser alcançadas. Desde que o relacionamento político seja sólido.

A base do sucesso do governo Temer está em observar as razões do fracasso do governo Dilma. Uma das razões mais óbvias foi o distanciamento que o governo manteve de sua base. Na hora que precisou dos deputados, se aproximou de forma oportunista. Não funcionou.

Dilma avançou e recuou em muitas de suas iniciativas. Passou falta de clareza e ausência de rumos. Sua comunicação foi caótica. Quando não era patética. Sua liderança nunca se afirmou apesar do repertório de grosserias. Tudo o que não se espera do novo presidente.

Em mantendo clareza de propósitos, uma boa e sincera comunicação social e um diálogo permanente com a base política, Temer poderá consolidar sua presidência e fazer uma boa gestão. É uma expectativa realista.



domingo, 13 de março de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: MURILLO DE ARAGÃO

09.03.2016

A CRISE SE AGRAVA,
MAS SEM UMA DEFINIÇÃO CLARA
DO FIM DO GOVERNO


www.escolalf.com.br

(Por Murillo de Aragão) Os acontecimentos das últimas três semanas aceleram e aprofundam a velocidade da crise. Nunca o risco de este governo acabar esteve tão alto. A Arko Advice estima em 50% a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff não terminar o seu mandato, o que é uma percentagem altíssima.

Quais são as razões para isso?

11)    Pela primeira vez existe uma acusação formal (ainda não homologada) contra a presidente Dilma Rousseff relacionada a seu atual mandato. A delação do senador Delcídio do Amaral de que a indicação do ministro Marcelo Navarro para o Superior Tribunal de Justiça teria sido “encomendada” para salvar o empresário Marcelo Odebrecht da prisão, é muito séria. Dilma Rousseff pode vir a ser acusada de tentar obstruir o funcionamento da Justiça. A possível homologação da delação de Delcídio será um grande revés para o governo.

22)    Lula foi objeto de condução coercitiva, o que – midiaticamente – é trágico. Pior é a convicção, já formada pelo Ministério Público Federal, de que o ex-presidente seria o chefe de um esquema criminoso. Tudo indica que Lula será indiciado, o que enfraquece ainda mais o governo;

33)    Em 30 dias, ou um pouco mais, a Câmara vai começar a examinar o processo de impeachment em meio ao agravamento da conjuntura econômica;

44)    Existem delações bombásticas a caminho. Além do testemunho do senador Delcídio do Amaral, os depoimentos de executivos das empreiteiras OAS e Andrade Gutierrez e do ex-presidente do PP e ex-deputado Pedro Corrêa podem resultar em revelações altamente comprometedoras;

55)    O chamamento de Lula à resistência por parte do PT e dos movimentos sociais às investigações comandadas pelo juiz Sérgio Moro, à frente da operação Lava Jato, pode causar o enfraquecimento da base de sustentação do governo. Diretórios do PT e movimentos sociais em vários Estados começaram ontem a convocar atos em defesa do ex-presidente Lula.

O que deve acontecer no curto prazo?

A crise pode ter os seguintes desfechos nos próximos 30 ou 45 dias:

11)    Em seu aprofundamento, a presidente Dilma Rousseff rompe com o PT e tenta refazer o governo a partir de uma nova maioria. É uma possibilidade, ainda que improvável. No entanto, o agravamento da crise pode levar a essa opção;

22)    Sentindo-se isolada e sem condições, a presidente Dilma solicita licença e pede que o vice-presidente organize uma nova maioria para aprovar medidas emergenciais. É outra opção improvável, mas que não pode ser descartada diante de um acirramento da crise;

33)    O TSE, em que pese o clima, não deve acelerar o julgamento da chapa a ponto de este ser concluído nos próximos 30 ou 45 dias;

44)    A partir da decisão do STF sobre constituição e funcionamento da comissão que examinará o impeachment, o processo começará a ser debatido na Câmara com resultados incertos. Hoje, o governo ainda tem maioria para barrar o impeachment. A cada dia, no entanto, a situação fica pior para o Planalto;

55)    As manifestações de 13 de março, por causa das recentes revelações e pela disposição de resistência de Lula e de seus aliados, têm um poder desestabilizador importante, que pode acelerar os vários tempos da crise.

      Portanto, salvo um evento extraordinário, o que veremos no período é o agravamento da crise política a partir de novas delações, mas sem uma definição clara do fim do governo. Até mesmo pelo fato de as crises – econômica e política – e as investigações da Lava Jato e da operação Zelotes terem tempos distintos e dinâmicas próprias.

Murillo de Aragão é advogado, 
jornalista, cientista político, 
presidente da Arko Advice Pesquisas
 e sócio da Advocacia Murillo de Aragão