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6 de junho de 2014

Na cama com Onetti



Por estes dias, no Uruguai, evoca-se os vinte anos da morte de Juan Carlos Onetti (Montevideu 1909-Madrid 1994). A sua derradeira fotografia, dando-se como desaparecido na sua casa de Madrid durante anos depois de se ter exilado do Uruguai, parece contrariar um itinerário pessoal feito de peripécias amorosas, empregos inverosímeis e mudanças drásticas. E, sobretudo, de literatura. Porque todo ele era literatura. Primeiro, como leitor e, depois, como escritor. Também por necessidade de sobrevivência. E, no entanto, confundia-se com um homem comum. Um escritor sem qualidades. Tão poucas que não nos legou nenhuma arca com manuscritos inéditos. Antes um legado prodigioso de artigos, romances e contos que, lamentavelmente, tardam em chegar às livrarias portuguesas.

Até há bem pouco tempo encontravam-se publicados, de uma extensa bibliografia, apenas dois romances: Junta cadáveres (Bertrand, 1976, numa excelente tradução de Pedro Tamen) e O Estaleiro (Edições 70, 1981). Recentemente, e a pretexto da data do centenário do seu nascimento a Relógio d’Água publicou de uma assentada um romance, A vida breve (considerado o primeiro romance moderno da literatura latino-americana), e uma colectânea das suas melhores histórias, Um sonho realizado e outros contos (também, com tradução de Pedro Tamen).

Juan Carlos Onetti era um melancólico como são quase todos os uruguaios. Mas de uma melancolia que só pairava quando escrevia e ficava só com os personagens que atravessavam a zona de sombra das suas ficções. Porque para aqueles que com ele privavam, mesmo que nos últimos anos de vida os recebesse sempre na cama, revelava-se outro, alguém que sabia rir perdidamente. E era daí, da sua cama, que melhor se ria da sua própria sombra e das sombras dos outros. Também da vanidade dos inimigos do literário que rejeitava assim: «... lo que llamamos éxito no pasa de una vanidad amañada: amigos, críticos, editores, modas».

Para a sua biografia de escritor sem qualidades, seguramente mais do que quaisquer outras palavras, valem as que o próprio Onetti escreveu sobre Faulkner, em 1962, quando da morte do escrtor americano: «Descendiendo del reciente difunto inmortal a este humilde necrólogo a pedido, reiteraremos que no fue hombre de academias, de discursos patrióticos, de asociaciones literarias. Y, si se le hubiera permitido escribir sobre su muerte, no habría aportado ni una gota a los chaparrones de cursilería que julio promete sobre el tema y cumplirá, sin duda alguna».

Lembrar Onetti, hoje, é ler os seus artigos judiciosos, plenos de humor e ironia, Mas é também explorar os abismos desse impressionante conto, O inferno tão temido, com a certeza de que esta história de infâmia continuará desafiando os leitores para uma leitura perigosa. E, depois, é perder-se através da improvável geografia de Santa Maria, esse território mítico onettiano – à semelhança da Macondo, de García Márquez, ou da Comala, de Rulfo - onde o escritor uruguaio punha em andamento as histórias dos seus livros.

6 de fevereiro de 2012

Literatura sem escritores



Escreve W. G. Sebald que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece. E que neste processo de aceleração imparável é conveniente que a literatura se encarregue desta consternação. Mas Sebald já cá não está. Nem Mann, nem Musil, nem Walser, nem outros que acreditaram na capacidade de resistência da literatura e o papel fundamental que ela poderia desempenhar na sobrevivência da história da memória humana, como disse Vila-Matas em Doutor Pasavento. É, ainda, Sebald que, em Os anéis de Saturno, nos oferece uma admirável síntese do que é a literatura: Sempre que decifro uma destas notas surpreende-me que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível aqui, no papel.

Mas, onde perseguir, hoje, esse rasto, quando é o próprio universo da literatura que parece poder funcionar sem escritores? Não estará a banalização da palavra a levar ao desaparecimento a própria ideia de literatura? Quem inscreve no papel esse rasto que leremos daqui a cem anos, mil anos? Todos estes mortos à nossa volta, onde sepultá-los se não na linguagem?,  pergunta Adónis, um poeta sírio-libanês que me revela Vila-Matas. E, no entanto, a banalização "pós-moderna" da palavra é uma miragem de um lago em cuja superfície opaca se desvanecem os traços, os rastos, a própria essencia da literatura.

Que fizeram os escritores contemporâneos do legado que receberam do passado, permitindo que a água e o ar estejam a apagar o rasto das palavras? Entra-se numa livraria e há muitos livros. Mas há poucos escritores. Tão poucos que parece que o próprio mundo da literatura parece já funcionar sem a necessidade dos escritores. «Vejo escritores falsos e sei distinguir entre o escritor falso e um que não o é» - disse Vila-Matas numa entrevista recente. «Depois de Kafka não consigo imaginar um escritor a apanhar banhos de sol [...] há muitos escritores que vejo como falsos», acrescentou. E, ainda, em O Mal de Montano, «essa raça de escritores, imitadores do já feito e gente absolutamente desprovida de ambição literária, mas não de ambição económica». E Lídia Jorge: «Não me interessa a literatura sobre o nada». Vila-Matas e Lídia Jorge, tão aparentemente diferentes, mas tão iguais na sua entrega à literatura. Por isso, li os seus últimos livros quase ao mesmo tempo. Porque não há em nenhum dos dois, embora em registos literários muito diferentes, nada de excessivo. Não desbaratam palavras. O primeiro, através de Pasavento, perseguindo uma poética da extinção, da ocultação, os mortos sepultados na linguagem; Lídia recolhendo a matéria impura com que veste a sua escrita, a realidade, onde põe em movimento personagens com inteireza, vivas.

Evoco-os aqui porque, embora cada um transformando, contando, a realidade à sua maneira, ambos são verdadeiros. Ambos pertencem à literatura. Na sua diferença representam aqueles que procuram contrariar a histeria tranquila de grande parte dos escritores da moda, incapazes de traçar os sulcos que muitos anos depois, se os tivessem inscrito, haveríamos de ler. Na maior parte, o que há, hoje, são actores e não autores, que transformam a literatura num ramo pobre e marginal da cultura do espectáculo. Um simulacro de literatura, aproveitado, incentivado por «homens de negócio que editam livros». Por isso, as novidades das livrarias encontram-se inflacionadas por livros de figuras públicas, jornalistas, políticos, historicismos, esoterismos, remakes, best-sellers, bagatelas que se vendem como qualquer mercadoria, porque são, efectivamente, mercadoria efémera.

Já Roland Barthes, nos anos 60, afirmava que a crise não era da literatura, mas sim do livro, do excesso de livros postos a circular por um mercado apenas preocupado com a multiplicação das páginas, do lucro. Só nos restará, então, regressar aos clássicos? A esses regressaremos sempre, hoje, daqui a cem anos, mil anos, porque neles se encontra gravada a história da memória humana. São os livros esplendorosos, raros, assombrosas «extensões da memória e da imaginação» que com paciência encontramos quase escondidos nas livrarias. Que apenas se encontram nos alfarrabistas amantes de livros. E há, também alguns, actuais, ainda mais raros, e difíceis de reconhecer na confusão de títulos lançados em cascata, mas que serão futuros clássicos donde, uma vez abertos a quem os queira ler, se soltará para sempre o sopro que manterá vivo, apesar dos outros, apesar dos «trapezistas do marketing» editorial, o fogo da literatura. 

10 de setembro de 2011

Retóricas do 11-S


Foi há dez anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos», segundo a fórmula de Baudrillard. O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001.

A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições foram acontecendo na única realidade do nosso tempo, a televisão. Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercutir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro.

Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína? Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172].

Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade? Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos. Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo.

Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» (Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969), em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os pólos do bem e do mal.

E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).

Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado (Peter Sloterdijk, Alheamento do mundo)

19 de dezembro de 2010

Outros abismos mexicanos


E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, no Dia dos Mortos, ao crepúsculo, sentado na esplanada de Las Mañanitas de frente para os vulcões gémeos resplandecentes de neve, bebendo uma coronita gelada - essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no Verão, ao segundo entardecer, gosto de beber sentado no meu terraço sob um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.

E ali - isto é, aqui, agora, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página - imagino um país que, escreve Juan Villoro, é uma «indecifrável realidade que por convenção chamamos México». Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde, nem sempre, regressam incólumes. Como Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» (José Agostinho Baptista) engolido nos abismos do mescal.

Abandono, entretanto, o cenário de ruínas e amargura de Cuernavaca e, num recanto da minha biblioteca mexicana, vou procurando outras bifurcações de um país onde toda a ficção é possível. Primeiro, os mexicanos. Juan Rulfo, claro. E Carlos Monsivais e Sergio Pitol e Juan Villoro. E os estrangeiros. Talvez aqueles que melhor visionaram o México. Escreve Roberto Bolaño - o escritor chileno prematuramente desaparecido - que «dos muitos romances que já se escreveram sobre o México, os melhores provavelmente serão os ingleses e um ou outro americano. D. H. Lawrence [A serpente emplumada] desata a novela agonista, Graham Green o romance moral [O poder e a glória] e Malcolm Lowry a novela total» (Entre paréntesis, Anagrama, 2004). E, acrescentaria eu, Enrique Vila-Matas que em Longe de Vera Cruz (Assírio & Alvim) desata uma exaltada mitografia do México.

E que desata o próprio Roberto Bolaño que nos legou dois extravagantes romances «mexicanos» que guardo numa prateleira muito especial da minha biblioteca? Os detectives selvagens (Teorema), «o melhor romance mexicano desde A região mais transparente [Carlos Fuentes, 1958], ou o melhor romance sobre o México desde Debaixo do vulcão, segundo Jorge Herralde; um delírio de labirintos crepusculares derramando-se sobre arredores estranhos de uma cidade, México D. F., território de sobrevivência de uma geração encarcerada à beira do precipício. E 2666 (Quetzal) espécie de romance pulp fiction, buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez, lugar de todas as vertigens, de todos os pesadelos? Desata, sobretudo, uma nova ordem literária - a do realismo visceral - que corta com o chamado realismo mágico latino-americano dos galos da Amazónia e das virgens em levitação e com as visões estrangeiras de uma Cuernavaca que só sobrevive no romance de Lowry.

18 de dezembro de 2010

Debaixo do vulcão


Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e, respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos, ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas; e de, ali, depois, ter experimentado a minha primeira tequila destilada do mais puro agave mexicano. Herradura vinha escrito no rótulo da garrafa depositada sobre o balcão.

E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri há dias no blogue da Fundação criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mescal. E é o próprio Lowry que, agora, mo confirma: «que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? […] pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como aporta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém». (Debaixo do vulcão, Relógio de Água.

E agora que volto a ler o seu livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra encardida do balcão ao fundo, «afogando a dor no melhor mescal do México», parecer-me ter visto - não sei se por ter bebido aquele álcool até ao fundo, se embriagado pela atmosfera mescalianiana de El Farolito - o próprio Malcolm Lowry. E que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite volto a beber enquanto vou sublinhando o nome das setenta e sete bebidas alcoólicas diferentes emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do alucinante romance de Lowry?

22 de abril de 2010

Elogio da preguiça


Saint-Germain-des-Près foi para mim, durante os dois anos que vivi em Paris, o meu bairro artúrico (como a rua imaginada e percorrida por Rimbaud que, no final do seu trajecto, dava para o fim do mundo: "só pode ser o fim do mundo se avançarmos"), onde se concentrava toda uma mitografia que levei comigo, sedimentada nos lugares imaginados da minha atracção parisiense. Neste bairro, que naquele tempo me foi oferecido como um pequeno território secreto, tracei com passos repetidos uma cartografia pessoal feita de ruas estreitas, passagens cobertas, pequenas livrarias, galerias de arte, estúdios de cinema, cafés, um mercado de rua, pequenos jardins…

Era ainda o tempo em que, por exemplo, ao virar de uma esquina, podíamos encontrar os filhos do mundo que sonharam viver em Paris. Nesse tempo, era possível, invariavelmente depois 14h 30, hora a que fechavam as agências de emprego, cruzarmo-nos com Albert Cossery, o escritor egípcio que nos anos quarenta aqui desembarcara com pouco dinheiro e tendo como única bagagem uma selecção de contos, Os homens esquecidos de Deus, que Henry Miller acabava de publicar nos Estados Unidos e que o editor Edmond Charlot pretendia publicar em França. Não trazia outra ambição que não fosse a de escrever um livro de oito em oito anos, à média de uma frase por semana.

Na rua de Seine, que começa perpendicular à rua de Saint Sulpice e desce até ao quai Malaquais, no quarto 58 do hotel La Louisiane cujas janelas davam sobre uma mercearia - frequentado na época por Gréco, Sartre, Beauvoir, Mouloudji… -, escolheu Cossery o seu único lugar de escrita, o espelho perfeito de alguém que apenas pretendeu gozar a vida, o reflexo de uma obra que elegeu o dandismo indolente como processo de reflexão permanente, povoada por mendigos filósofos, ladrões magníficos e preguiçosos impenitentes. Como Gohar, Gala ou Ossama, as suas personagens rebeldes que cultivam a pobreza para não ter nada a perder, Cossery baniu da sua existência os bens mundanos e elegeu a preguiça como arte de vida e instrumento de resistência contra a vanidade dos seus contemporâneos: «Se eu tivesse guardado tudo o que me ofereceram, seria milionário. Quando Giacometti me dava um quadro, ele sabia que eu o venderia no dia seguinte. Isso permitia-me viver durante algum tempo».

Porque um quarto de hotel não é uma casa, só ali, sem casa nem carro a atestar a sua presença sobre a terra – apenas alguns livros de Dostoievski, Nietzsche, Stendhal, Baudelaire, Rimbaud, Thomas Mann… - Cossery se sentia livre, praticando a indolência e a meditação que os seus livros celebram. «Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no Oriente, isso se designa por filosofia oriental… A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo». E foi aí, nesse pequeno quarto de hotel na rua de Seine, que Cossery, iluminado pela gaia ciência de Nietzsche, escreveu com toda a ternura do mundo sobre as misérias insondáveis das vielas do Cairo, nos anos quarenta, cinquenta. Embora nunca mais tenha regressado ao Egipto – «O Egipto nunca me deixou» -reinventou-o mais verdadeiro que o verdadeiro, com os seus mendigos e altivos, desesperadamente pobres, preguiçosos e indolentes.

Terá sido em Paris que, talvez, me tenha cruzado um dia com este elegante profeta da contemplação, transportado dos cafés árabes do Cairo, onde a vida corria livremente, temperada com um pouco de haxixe. Claro que nos meus dias de Paris, Saint Germain já não era o que fora nos anos brasa de Cossery, embora a brasserie Lipp e todos os outros locais frequentados por Cossery ainda lá estivessem. Mas estava menos Cossery e, sobretudo, já não estavam os seus amigos, Camus, Genet, Louis Guillouxx, Mastroianni, Ferreri. Imaginei-o aí instalado com a sua corte, em frente dos azulejos do pai de Paul Fargue. Ou, no outro lado do boulevard, no Café de Flore. Ou sentado numa cadeira no Jardim do Luxembourg, observando a única coisa de que a sua língua viperina não poderia dizer mal, as árvores: «Eu não gosto do campo. Não posso dizer mal das árvores». Mas foi no Café de Flore, onde o procurei algumas vezes e por ironia nunca o encontrei que melhor o imaginei.

Nos anos oitenta, o Flore já tinha sido colonizado por uma fauna de turistas literatos nostálgicos que perscrutavam ansiosamente a mesa onde Sartre escreveu A náusea ou o canto onde Roland Barthes se refugiava a ler o Le Monde. Poucos procuravam a sombra de Cossery cuja existência ignoravam, e muito menos o seu estatuto de escritor deslocado, marcado pela heráldica do desapego e da indolência, e tão fora da gesticulação literária e mundana. Mas a mim, fascinava-me imaginar, no meio da clientela extravagante alheia ao literário, a figura aristocrática de Cossery contemplando a rua através da esplanada envidraçada do café, talvez meditando sobre o seu último livro que publicaria em 1999, As cores da infâmia, em que continuaria a denunciar implacavelmente «a face ignóbil e grotesca dos poderosos da terra», o que levou Henry Miller a afirmar que a sua obra era «uma surpresa total. É o género de livros que precedem as revoluções e engendra a revolução, se é que as palavras possuem algum poder».

Para mim que, recentemente, li quase de seguida alguns dos livros de Cossery [Mendigos e altivos, Mandriões do vale fértil, A violência e o escárnio, Uma conjura de saltimbancos, Os homens esquecidos de Deus, Uma ambição no deserto, As cores da infâmia, todos editados pela Antígona], as suas palavras sobre a gesta dos anti-heróis das ruas do Cairo, continuam a sinalizar as paragens do meu itinerário de leitura. Isto porque, tal como Ahmed Safra, o condutor de eléctricos de A casa da morte certa, que só se detinha nas paragens que lhe apetecia, também eu só me detenho em livros embebidos na tinta da vida e, por isso, capazes de agitar o pensamento.

18 de abril de 2010

Sob o céu de Tânger


«Não escolhi instalar-me em Tânger. Aconteceu. Devia ser uma estadia breve. Queria continuar, indefinidamente. A preguiça fez-me adiar a partida. Um dia, tive de render-me: o mundo estava muito povoado, os hotéis eram menos bons, as viagens menos agradáveis e as paisagens menos belas. Quando estava noutro sítio, lamentava não estar em Tânger. Estou aqui porque cá estava quando percebi a que ponto o mundo piorou. Já não queria viajar mais», confessa Paul Bowles.

Tânger aqui tão perto. Sai-se de manhã cedo de Portimão e, pelo meio-dia, tomamos o ferry em Tarifa. Primeiro, o porto, depois a Place Koweit; almoçamos no Hotel Continental, alojamo-nos, saímos de novo, tomamos um taxi que nos leva encosta acima entre terrenos baldios até ao Edifício Itesa, onde Bowles viveu desde os cinquenta anos até poucas semanas antes da sua morte, em 1999, aos oitenta e oito anos. Subimos umas escadarias amplas de mármore até ao quarto andar e batemos à porta do apartamento 20. Esperamos. Ninguém responde. Não veremos a sua última morada. A mesma que foi visitada por Mick Jagger e Brian Jones, seus vizinhos por algum tempo no andar de baixo do Itesa, e que vieram a Marrocos para ouvir os sons dos fazedores de perfumes e gravar os Master Musicians of Jajouka que seria considerado o primeiro álbum de músicas do mundo. Primeiro que ninguém, Bowles tinha descoberto esta música nas suas deambulações por Marrocos, enquanto musicólogo. Porque Bowles já não mora ali descemos, e já na rua avistamos um pedaço azul do estreito de Gibraltar. «Há lugares no mundo que contêm mais magia do que outros», escreveu Bowles.

Voltamos a descer a ladeira de Monteviejo, por entre os ciprestres que ladeiam a estrada que nos devolve à Medina. Perdemo-nos no labirinto de ruelas, sob odores exóticos e reencontramo-nos à porta do The Paul Bowles Room, na antiga American Legation. Entramos. O ambiente irradia serenidade, apesar de três das velhas malas que correram o deserto, outras vezes o mundo, nos convidarem ao devaneio. Imaginamo-lo, então, sentado em tantos lugares, aqui, em Fez, em Ait-Benadou, no deserto ao crepúsculo, sob um céu que nos protege, as montanhas azuis ao fundo. Se aqui estivesse agora falaria da disciplina errática das viagens. De nomadismos. Do mar de Conrad. Do silêncio do deserto. De Graham Greene e Raymond Chandler. Da hibris marroquina. Sim, de Jane Bowles. De Kafka, Gerturde Stein e Flannery O´Connor. A prisão do corpo. A morte libertadora. Os labirintos do kif. A poesia de Mohamed Choukri. A escrita como ritual. O concerto de oboé e clarinete que nunca terminou.

Saímos para o primeiro entardecer de Tânger. Há homens trabalhando cestos, o cobre, a lã. A padaria onde Bowles comprava o pão, naquela esquina antes dos degraus do Baba. Procuramo-lo no Café Hafa, por entre delicados saracoteares de copos de chá de menta. Depois, no Café de Paris, outrora também frequentado por Jean Genet, um dos muitos que ajudaram a criar o mito de Tânger, cidade nervosa. Impossível não imaginar neste refúgio déco o encontro entre Malkovich e Debra Winger, à procura de si próprios em Um Chá no Deserto. A voz de Bowles, no filme, confessando que, mais tarde, acabariam por se perder, irremediavelmente, nas areias sedutoras e fatais do deserto. Mas é na ressuscitada Librairie des Colonnes, onde Bowles se encontrou tantas vezes com Mohamed Choukri, e que utilizava como caixa pessoal de correio, que reencontramos o antigo espírito do lugar. Abrimos um livro que fala desta cidade, Deixa chuva cair. E é nessa morada de vocação mediterrânica que, finalmente, o encontramos numa Tânger desaparecida onde vingava a corrupção e a desordem, onde se movimentavam vigaristas e assassinos, excêntricos e ninfomaníacos, homossexuais e magnates. Dolorosa iniciação.

Eras um americano a fugir do mal-de-vivre urbano. Tinhas chegado com Aaron Copland, procurando romper com o nomadismo cosmopolita que te levara a viajar pela Europa primeiro, depois pelo Extremo-Oriente e pela América Central, com incursões mais ou menos prolongadas em Paris e Nova Iorque. Em 1947, decidiste ficar aqui, em Tânger, donde partias em viagens pelo deserto como relatas em Baptism of solitude. Sim, Bertolluci também percebeu esse fascínio e ofereceu-nos Um chá no deserto, baseado no teu livro O céu que nos protege. E muitos vinham aqui visitar-te. Truman Capote, Tenesse Williams, Cecil Beaton, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gore Vidal foram alguns dos que participaram no desregramento de sentidos das longas noites estreladas de Tânger.

Mas quem sempre ficou aqui foste tu. E disso nos falas agora: «É estranho. Vivo aqui há 59 anos e continuo a ser um turista. As pessoas vêem-me como turista e acho que têm razão. Isto apesar de, oficialmente, eu ser residente. Mas a menos que nos tornemos muçulmanos, continuamos a ser estrangeiros. Eles vêem-me como um Nassrani, ainda que não seja cristão. É muito difícil tornarmo-nos amigos íntimos de alguém. Aqui, é-se apreciado como fazendo parte de um grupo. O estrangeiro, digamos, o turista, não sabe como aproximar-se dos marroquinos, pois a sua forma de pensar é diferente. Para eles, as coisas importantes não são as mesmas. Há que aceitar, e continuar a aceitar, suceda o que suceder, uma vez que quem estuda as pessoas está na posição de espectador, observando as pessoas de outra cultura».

Por isso, aqui, neste café, ao crepúsculo tangerino, rencontrar Paul Bowles talvez seja também uma forma de nos deixarmos cobrir, nós e este islão vizinho, sob o mesmo céu que nos protege.

2 de novembro de 2009

A última caminhada


Que melhor post publicar em 2 de Novembro, data em que tradicionalmente é prestada homenagem aos mortos, se não aquele que editei no meu blogue pretérito a pretexto do livro Campo Santo, de W. G. Sebald?

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem, vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

25 de setembro de 2009

Jantando com Bolaño


Do meu diário chileno, recupero um jantar com Bolaño, e assim me (re)compenso da minha ausência, logo à noite, na Ler Devagar (Lx Factory), na festa de lançamento do "2666".

Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje, descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos.

Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos e outros cuja identidade não ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que não é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que "no es una escritora, sino na escribidora"; e Skármeta, “un personaje de televisión“. Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu Bolaño a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, conta-me, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu.

Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

31 de julho de 2009

Uma cena vienense


«Como todas as cidades, [Viena] era feita de irregularidade, mudança, precipitações, intermitências, choques de coisas e interesses, tudo intervalado de silêncios abissais, de caminhos abertos e territórios por abrir, de uma grande pulsação rítmica e da eterna dissonância, da crónica deslocação mútua desses ritmos. No seu conjunto, era como uma bolha em ebulição num cadinho feito da substância duradoura de casas, leis, regulamentos e tradições históricas». Tudo parecia ali, ainda, reger-se pela calculabilidade, pela exactidão e pela extensividade da vida metropolitana que exclui os impulsos humanos e instintivos que, a existirem, determinariam outras formas de vida. Contudo, «momentos antes já qualquer coisa tinha descarrilado, com um movimento lateral brusco», vindo perturbar aquele deslizar ostensivo da chusma humana, aparentemente composta por gente metropolitana com qualidades, que ia subindo uma avenida larga e animada, desenhando a um ritmo regular fluxos apressados por entre outros mais tranquilos. Um camião despistado acabara de atropelar um homem que jazia no chão sob os olhares curiosos dos transeuntes não sem provocar um aperto no estômago em quem por ali ia ficando. «Estes camiões pesados que circulam no nosso país têm uma distância de travagem demasiado longa», alguém comentou, integrando, assim, para alívio de todos, «aquele terrível acidente numa qualquer ordem, transformando-o num problema técnico». Entretanto, já se ouvia o silvo estridente de uma ambulância que não tardaria em chegar e, para satisfação dos presentes, recolher no seu interior asséptico o homem sinistrado. «Admiráveis estas instituições sociais!». Posto isto, «as pessoas foram-se afastando quase com a impressão, justificada, de que tinham presenciado um acontecimento em que tudo fora legal e regulamentar» e que, uma vez regressada a ordem aparente das coisas, poderiam, de novo, mergulhar nos simulacros de sentido das suas vidas em perda vertiginosa de sentido.

Este o primeiro capítulo, aqui resumido, de O homem sem qualidades (Dom Quixote), em que Musil com a sua ironia fria e metódica nos introduz numa Viena neo-decadente, passeando-se, ainda, num «belo dia de Agosto de 1913» sob um céu de benignas ilusões mas que, em breve, se cobrirá com o manto negro da Primeira Guerra. Uma cidade já aprisionada pela essência da modernidade, marcada pelo cepticismo e pela indiferença social, onde cada um reage aos estímulos metropolitanos desenvolvendo defesas protectoras que os fazem atravessar impunemente as situações mais dramáticas sem nelas derraparem, mas onde tudo, parece, começou já a descarrilar sem que os homens com qualidades aglomerados em torno daquele acidente ou contemplativos nos cafés da moda – como o Herenhof, o Central, o Museum ou o Griensteidl – onde, contraditoriamente, floresce a intelectualidade vienense ou fetichistas nos gabinetes imperiais se tenham apercebido. Talvez por não terem lido a peça aparentemente escatológica de Karl Kraus Os últimos dias da humanidade ignorem ser já aquele um tempo terminal que os vienenses vão vivendo, desconfiados e cépticos mas sem nunca perder o estilo, numa espécie de «apocalipse alegre» segundo a fórmula encontrada por Broch para descrever a forma particular da experiência nihilista austríaca.

Eis a Viena cacaniana cujo nihilismo tanto afectará Musil como a sua obra, levando-o a empreender a tarefa expedicionária de afrontar a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenhar, nem que para isso tivesse de prescindir da sua biografia, isto é, desprender-se de todas as qualidades e atributos, abandonar a carreira de matemático e toda a pretensão à genealidade, ser estrangeiro – no sentido simmeliano – em todos os lugares, abrir-se à contingência de uma obra escrita num tempo em que «tudo [deixou] de ser narrável» e, por isso, vir a revelar-se não apenas inacabada, mas também inacabável – como escreveu Blanchot -, aberta, portanto, a todas as possibilidades. É que, como se afirma no livro, numa frase que é ela própria um programa de acção política - nunca perseguida, no entanto, por Musil -, «é a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso».

29 de julho de 2009

Paradoxos terminais


A propósito de O homem sem qualidades diz J. M. Coetzee, num ensaio sobre Musil, tratar-se de «um livro ultrapassado pela própria História enquanto estava a ser escrito». E que, por isso, seria impossível lê-lo da mesma forma depois da ascensão do nazismo. Não interpreto assim. Entendo, pelo contrário, que a corrente da banalidade do mal que haveria de desaguar, depois, na tumultuosa maré negra do nazismo já se encontrava ali pressentida, conferindo ao romance um significado paradigmático que traduz a visão de uma psicopatologia da modernidade espelhada, desde logo, no episódio do assassino de mulheres Moosbrugger a quem «talvez lhe faltasse apenas [...] a educação e a oportunidade para fazer dele qualquer outra coisa, um anjo exterminador de massas», mas em quem Musil percebe a inspiração para o mal: «se a humanidade, como um todo, pudesse ter sonhos, esse sonho seria Moosbrugger». O romance vai, assim, na linha da percepção anteriormente expressa por Karl Kraus no drama Os últimos dias da humanidade (Antígona) que, mais do que remeter para a derradeira catástrofe escatológica, antes se refere aos paradoxos terminais - da técnica, da política, da História - que vão arrastando no seu vórtice o mundo da vida (die Lebenswelt), segundo a fórmula de Edmund Husserl, para os abismos da era moderna, de que, aqui, «a desagregação bárbara» do império austro-húngaro - que no romance dá pelo nome de Cacânia - constitui a parábola da desagregação da Europa e o caso Moosbrugger, baseado num acontecimento real que Musil acompanhou, a metáfora da irrupção irracional do mal no mundo da ordem.

Dessa visão consternada de uma civilização privada de centro e de fundamento diante de uma História enlouquecida deu, também, conta Husserl nas conferências que, em 1935, proferiu em Viena e Praga, como nos relata Milan Kundera em A arte do romance (Dom Quixote). O mundo da vida «eclipsado, antecipadamente esquecido», prestes a ser trucidado pelo monstro que já não vem da alma, mas que vem do exterior, cavalgando a História sob o olhar atormentado de uma plêiade de visionários centro-europeus que «percebeu, tocou, aprendeu os paradoxos terminais» de um mundo em declínio, mas ainda assim, capaz de produzir estados produtivos, através dos quais o homem se reconhece na sua fragilidade e nos seus limites, mas se torna criador, capaz, portanto, de dar conta não apenas do sentido da realidade que ali estava, mas também de procurar algures um sentido de possibilidade contra a carapaça fria e dura do monstro da História.

Nesse sentido, Musil era, então, um visionário nihilista e activista, como também o eram outros cacanianos, como Kraus, Hoffmansthal, Rilke, Freud, Husserl, Broch, Schoenberg, Kafka e Kassner, «nomes suficientes para nos mostrar que as culturas moribundas têm grande capacidade para produzir obras revolucionárias e talentos de futuro» (Maurice Blanchot, O livro por vir, Relógio d´Água).

14 de fevereiro de 2008

De um outro uso do nihilismo


Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando «um tempo - acrescentava ainda - em que toda a gente se terá convertido em homens de negócios ». Flaubert que se dava como desaparecido nos distintos cenários da sua obra narrativa elegia a sua correspondência privada para comentar com contundência a vida cultural, política e social do seu tempo.

Ora, mais de um século e meio depois, a sua visão de um tempo marcado, não tanto pelo tédio mas sobretudo, agora, pelo vazio e pela mundanidade frívola, em que quase todos parecem ter-se convertido em homens de negócios, a contundente opinião de Flaubert adquire uma particular actualidade quando o que mais encontramos por aí são analfabetos altivos desprovidos de ética e estética, mas não de ambição económica, fetichistas gulosos dos bons lugares na sociedade, hedonistas indiferentes aos males do mundo, despudorados trapezistas do marketing. E uma massa de gente vivendo com a implacável consciência de uma quotidianeidade penitenciária sem outros sobressaltos que não os das notícias sobre a violência urbana, sobre os acidentes de trânsito, as explosões domésticas de gás, os fumos de corrupção e prevaricação e a crescente insegurança do emprego que nos transmitem uma profunda sensação de tédio que se vai derramando horizontalmente, homogeneizando tudo à sua volta, devorando as possibilidades alternativas de vida, reais ou imaginárias, como se nada mais houvesse fora da experiência de vida asséptica e anódina que aí está.

A banalidade quotidiana é-nos cada vez mais imposta - escreve Bruce Bégout em Lieu commun- Le motel américain [Allia] - como uma «fatalidade absoluta» em que a vida deixou de ser aquela experiência singular tão exaltada no advento da primeira modernidade para se tornar num processo de «produção seriada» ou, utilizando uma imagem mais contemporânea, no produto de implacáveis máquinas de marketing que visam distribuir por todos milagrosas doses de divertimento. Eis onde Flaubert não acertou. É que, se bem antecipou o triunfo do aborrecimento no apogeu do primeira modernidade, não poderia imaginar que o hedonismo indiferente que se vai espalhando por aí é determinado pela natureza pulverizadora do nihilismo pós-moderno, incoincidente com a noção de tédio geradora de opções transgressoras de vida ou de revolta social que marcou a experiência de vida no século passado. E neste torvelinho do divertimento - mas não da festa -, entregues sem remissão a licenciados em economia e a trapezistas do marketing, vai-se diluindo também a vontade de escaparmos à «colonização do quotidiano» e de nos concedermos outras possibilidades que não sejam as das qualidades homogeneizadas que nos são incitadas e excitadas. Entretanto, marcados pelas novas patologias do nihilismo, vamos caminhando para a uma espécie «apocalipse alegre» [Hermann Broch], como que procurando divertirmo-nos até à morte [Neil Postman, Amusing ourselves to death, Penguin].

«Homens de negócios», portanto, como antecipou Flaubert, aparentemente sem atributos, mas que na realidade possuem todos os atributos. Ou na formulação de Jean-François Peyret dizer, então, que vamos vivendo num «mundo de qualidades sem homem» [«Musil ou les contradictions de la modernité», in Critique, 1975]. O que ilumina o sentido da enigmática frase de Musil sobre «as experiências vividas sem que ninguém as viva». É que as qualidades em nós incitadas, e excitadas, vão-se cristalizando nas figuras aborrecidas que vamos habitando ou nas ideias de todo o género que adoptamos sem nos apercebermos do que a vida pode ter de dissonante, de criativo e de espontâneo.

Talvez, então, pensar, ainda, como Musil, esse homem sem qualidades, que em Die Schwärmer (Trad. francesa Les Éxaltés, Seuil,] dizia que se entre os homens há um sentido da realidade, deve haver também um sentido da possibilidade. E é nessa possibilidade que, embora vagamente nihilista à maneira da primeira modernidade, me reconheço.



17 de janeiro de 2008

Uma vida crepuscular


A duração das minhas viagens de avião mede-se pelo número de páginas dos livros que escolho para ler durante o trajecto. Umas vezes, uma viagem nocturna - de ida e volta - pode durar as 609 páginas de Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño [Anagrama, 2006] que me levaram desde Lisboa via Zurique até Santiago do Chile e regresso, descontando os «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que [cruzam] Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Outras vezes, apenas as 172 páginas da edição de bolso de Mes amis, de Emmanuel Bove [Éditions Note bene, 2002], que dura a viagem entre Lisboa a Paris e volta, sem contar com o sono matinal, em ambos os trajectos, sobre os Pirinéus, interrompido pelas hospedeiras da Aigle Azur a perguntarem-me se queria café ou chá.

Vou a Paris, então, numa viagem de 172 páginas, para dobrar o ano em boa companhia, levando comigo Les amis que Emmanuel Bove [1898-1945] escreveu em 1924 e a antecipação de errâncias por uma cidade que já não existe, embora a deambulação solitária do protagonista aconteça num mapa que me é sempre familiar: «J´aime errer au bord de la Seine. Les docks, les bassins, les écluses me font songer à quelque port lointain où  je voudrais habiter». Também eu, em Paris, gosto de errar ao longo dos cais do Sena e para lá me leva este voo de 172 páginas. Vou, acompanhado, ao encontro de amigos que vão estar à minha espera no aeroporto, ao contrário do que sucede a Victor Bâton, o alter-ego de Bove que, igual a um vagabundo solitário, se passeia pelas ruas cinzentas de Paris com uma obsessão boviana pela amizade que vai falhando como se tal sortilégio lhe fosse para sempre vedado: «La solitude me pèse. J´aimerais à avoir un ami, un véritable ami, ou bien une maîtresse à qui je confierais mes peines».

E à medida que o avião avança, este Bove crepuscular, passeante sem escapatória de ruelas becos e parisienses que leio pela primeira vez - e que me foi oferecido por Enrique Vila-Matas que mo apresentou logo na capa de Doutor Pasavento, numa fotografia tirada no Jardin du Luxembourg onde aparece com a sua filha Nora, de sobretudo escuro e chapéu  -, vai-se parecendo cada vez mais com o passeante Robert Walser, só que Bove mais solitário que aquele, porque - ao contrário do escritor suíço que aos domingos dava longas caminhadas pelos arredores do sanatório de Herisau na companhia do seu amigo Carl Seeling - falhou sempre a sua busca obsessiva de amizade.

Bove, o Walser de Paris, portanto, sem «point d´amis», perdido no meio da chusma humana dos boulevards que passa sem o ver, mas que lhe dá a verdadeira medida da sua solidão. Emmanuel Bobovnikoff, Bove, o inventor da auto-ficção naturalista, descendo a rue Saint-Jacques desde o seu hotel no número 298 - que já não existe -, metendo depois pela rue Soufflot, para ser detido mais adiante pela polícia de Clemenceau. Bove, ocioso, sob a máscara de Bâton: «Un homme comme moi, qui ne travaille pas, que ne veut pas travailler, sera toujours détesté. J´étais dans cette maison d´ouvrier, le fou, qu´au fond, tous auraient voulu être. J´étais celui qui se privait de viande, de cinéma, de laine, pour être libre. J´étais celui qui, sans le savoir, rappelait chaque jour aux gens leur condition misérable. On ne m´a pas pardonné d´être libre et de ne point redouter la misère». Bove, pelos passos de Bâton, errando livremente pela rue de Seine, pela rue Gît le Coeur, que levam ao parapeito do Sena.

Ou Bove, «o Walser da rue Vaneau», como pensou Vila-Matas, por aquele ali ter vivido - teria? - na mais estrita solidão, durante o ano de 1928, no rez de chaussé do mesmo prédio onde vivia também André Gide. Sempre la bonne rumeur - diria Bove - da rue Vaneau, que cabe na minha estante dentro de um livro de Vila-Matas, nela cabendo também o mundo inteiro. E por isso, enquanto vou folheando este relógio de páginas que escolhi para medir o tempo deste voo, decido que num qualquer dia desta semana parisiense terei de ir à rue Vaneau, onde para além de Gide e Bove viveram ainda Marx e Saint- Éxupéry e se alojam, hoje, no Hotel de Suède, os escritores do editor Christian Bourgois, logo Lobo Antunes incluído, nas suas passagens por Paris, o que faz dessa rua um estranho tecido de destinos e de obras, a cujo significado só poderá aceder quem «viva já nas costuras do ruído mundano». As mesmas costuras que depois de ler Doutor Pasavento haveriam de me levar à estrada de Damasco. Mas isso são outras imbricações que apenas os que vêem neste blogue uma modesta tentativa de auto-ficção poderão, talvez, descortinar. Já a comparação de Bove com Walser que aqui se foi intrometendo me parece mais verosímil. Se não, digam-me lá se esta possibilidade de apagamento do sujeito na rua não faz lembrar Walser? «J´errai dans les rues, l´âme joyeuse et vivant seule, sans les yeux».

E sobre Bove, escreveu Peter Handke, num dia de chuva, em Petit-Clamart, nos arredores de Paris, uma carta-prefácio que seria enviada, depois, desde os correios de Bièvre para Jean-Luc Bitton, co-autor (com Raymond Cousse) da biografia [La vie comme une ombre, Le Castor Astral], «[qu´il] devrait devenir le patron-saint des écrivains (purs), plus que  Kafka, et de la même façon que Anton Tchecov et Francis Scott Fitzgerald». E aqui a imbricação entre a realidade de estar agora num avião que avança para Paris, a ficção do livro que vou lendo e um prefácio à biografia do autor, escrito e enviado, precisamente, da mesma localidade onde irei ficar nesta semana parisiense, Bièvre, o que mais uma vez vem mostrar que as coincidências nunca são acidentais, e que até numa crónica se podem «plasmar as estranhas combinações estranhas da vida», como disse Gerard de Nerval que não me consta que tenha andado por Bièvre, mas que também era dado a errâncias parisienses. Assim, terei escolhido Bove para ler no avião porque vinha para ficar em Bièvre ou ficarei em Bièvre porque trouxe comigo Bove que me levou a Jean-Luc Bitton que me levou a Peter Handke que escreveu um prefácio bièvrois para a biografia de Bove? O que sei, no final deste romance, é que voltarei a errar por aí com este Emmanuel Bove crepuscular.

6 de dezembro de 2007

O último Vila-Matas: funambulismos



Contrariamente ao que pensaria Elias Canetti, para quem os exploradores jamais regressam dos mapas obscuros em que adentram, cruzo a última página de Exploradores del abismo [Enrique Vila-Matas, Anagrama, 2007] e como um funâmbulo regressado à plataforma segura onde se prende a corda estendida sobre aquela cartografia abismal, reencontro-me no lado de cá de um território fronteiriço, desolador e, às vezes, desassossegante, onde numa noite de insónia me cruzei com «seres corrientes y vulgares, es decir de individuos amostazados, apopléticos y analfabetos» que entretém a vida roçando o vazio existencial multiplicado no espelho carveriano deste livro que, mais do que uma antologia de contos, antes constitui uma contínua narrativa de equilíbrio sobre o vazio do mundo - de que a travessia sobre uma corda estendida entre as torres gémeas do WTC evocada no conto Materia oscura constitui a metáfora absoluta -, atravessado por um escritor equilibrista com «una risa excepcional, diáfana, allá en lo alto, en claro contraste con el coche fúnebre que había quedado aparcado allí abajo».

E não só não me perdi ali, como naquela perigosa região fronteiriça me cruzei com o próprio Vila-Matas, também ele, sobretudo ele, um escritor funâmbulo em equilíbrio instável sobre os abismos que abrem no outro lado da literatura: «No quiero indagar más en el abismo, es decir, en el más allá de la literatura. No hay vida ahí, sino un riesgo de muerte». Por isso, estende-nos a corda que atravessa as dezanove estações do vazio, numa tentativa de ir ludibriando a morte, como já a havia ludibriado antes quando roçou literalmente o precipício absoluto numa cama de hospital. Funâmbulismos, portanto [segundo também a tese expressa no excelente blogue espanhol, El Lamento de Portnoy], do escritor e do leitor, a que Maurice Forest-Meyer, aquela personagem furtiva que encontramos em quase todas as estações abismais, dá consistência narrativa.

Daí a atracção kafkiana pelo abismo experimentada pelas suas personagens solitárias e erráticas que, vivendo na mais absoluta rotina quotidiana, são inesperadamente obsequiados com epifanias que os transformam em expedicionários de mundos paralelos, de vivências nunca experimentadas, preferindo os mundos paralelos à realidade que confrontam com a soberba de quem possui a fórmula mágica que a há-de esconjurar. Mas personagens impregnadas e construídas pela discursividade omnisciente do autor cuja presença abismal como se fosse um Deus habitando no apartamento do lado e que tudo manipula, fazendo deslizar as personagens ora para o abismo ora para «fuera daquí».

Por isso, autor e personagens, perseguem os luminosos e equívocos abismos que «dan contenido espiritual al vacío», através de uma casualidade onírica que não se esgota na retórica ficcional declinada em metáforas abismais, reiterações, acasos aparentes, imagens da monotonia da chuva, inverosimilhanças, miniaturizações descritivas, desvios, citações, atribuições falsas, biografias apócrifas procuradas incessantemente por um caçador furtivo de frases, por um fazedor de discursividade - diria Barthes -, onde ecoam, ainda e sempre, as vozes de Borges, de Augusto Monteroso ou de Sérgio Pitol. Do estilo destes contos diria, seguramente, Rosario Girondo, o narrador de O mal de montano, que «consiste em destestar a linha recta e vaguear, debruar, seguir elipses e labirintos, retroceder, andar em círculo, tocar de repente esse inalcansável» que é a realidade.

«Fuera de aquí, tal es mi meta», eis a radical auto-consciência que alimenta o propósito vertiginoso deste livro onde damos com um falso explorador de abismos que escala um vulcão em busca das almas dos mortos que se escondem num lago na cratera; um autista apaixonado pelas plateias vazias; gente que julga que uma matéria obscura e invisível atravessa o universo inteiro; um russo melancólico que, farto da sua vida familiar, descobre aliviado que prefere ser um personagem de um conto; uma mulher que descobre os contornos da sua própria morte e protagoniza, ritualmente, todas as cenas prefiguradas; alguém que vive a mesma vida do seu companheiro ligeiramente alterada; a artista Sophie Calle que desafia um escritor a inventar-lhe uma história que ela, depois, protagonizará na realidade; e o belíssimo ensaio final, La gloria solitaria, que convoca Miles Davis, Thelionius Monk, Montaigne, Kafka, Fernando Pessoa, Thomas Berhardt, Glenn Gould, Robert Walser, Raymond Roussel, Giorgio Agamben, «un microcosmos de soledades todas vinculadas entre ellas». Todos «solitario[s] de sí mismo».

Ficções imbricadas na realidade que um Vila-Matas fingidor que diz «que no podría haber escrito [...] si previamente, hace un año, no [se] hubiera transformado en alguien levemente distinto, no [se] hubiera convertido en otro» [in Café Kubista], de acordo com um propósito borgesiano que vinha anunciando havia já algum tempo, o que coloca, então, a questão de se saber quem, efectivamente, - o outro ou o mesmo Vila-Matas - escreve estes contos abismais? «Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas [...] eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me», confessa Jorge Luís Borges num seu famoso texto [O fazedor (Obras Completas Vol.II), Lisboa, Teorema]. E Vila-Matas, numa entrevista recente à revista catalã Paper de Vidre: «Que me ocurren cosas vilamatasianas? Lo sabe todo el mundo que me conoce. Basta salir un momento conmigo a la calle, ir a algún sitio y armarse de una relativa paciencia y al poco rato verá usted que ocurre siempre algo que parece salido de mis relatos. Toda la realidad se parece a lo que escribo. En esta situación, Vila-Matas es obviamente uno de mis personajes».

Esta mesma urdidura ficcional já era o propósito de Vila-Matas em livros anteriores em que ensaiava a ausência e o desaparecimento como temas literários: procurando, num romance precoce, La asesina ilustrada, aniquilar os seus leitores; depois, fazendo passar um ladrão de túmulos por um escritor desaparecido, em La impostura; a seguir, inventariando escritores que renunciaram à literatura, em Bartleby & compañia; depois, ainda, confundindo-se com um homem sem qualidades, doente da literatura, em O Mal de Montano; e, no final anunciado de um ciclo, perseguir a ocultação, o eclipse, o grau zero do desaparecimento, em Doutor Pasavento. Mas será que foi mesmo um fim de ciclo, como em dado momento o autor nos quis fazer acreditar, ou antes estes contos serão, ainda, a nova habitação, multiplicada agora dezanove vezes, de Montano e Pasavento expandidos nestes exploradores de abismos? E que a utopia do desaparecimento é agora mais do que nunca múltipla, constituindo a escrita, como diria Deleuze, uma ocultação do sujeito. Ou «a vida secreta do autor, o obscuro irmão gémeo de um homem», nas palavras de Faulkner. Ou em resposta à pergunta de Blanchot - «Como faremos para desaparecer?» -, talvez diluir-se no tecido da escrita, tornando-se uma espécie de alma gémea de Musil, o escritor sem qualidades. Ou, ainda, a invenção do duplo que, segundo Ricardo Piglia, decorre da recordação de uma memória estranha, metáfora perfeita da experiência literária. Ora dessas memórias estranhas de expedicionários da realidade tratam estes contos abismais.

A mesma afectação literária de sempre, portanto, onde a autobiografia se bifurca na construção de um outro a quem acontecem as coisas e que evoca a figura borgesiana do duplo. Só que, ao invés de Borges, Vila-Matas-o mesmo não se transforma num apagado contemplador do outro, antes procura fundir a sua autobiobiografia caprichosa com o universo ficcional que se declina ora no formato de retratos de momento, inspirados em Gombrowicz, ora em entrevistas espasmódicas, ora no universo shandiano dos seus livros, onde as coisas acontecem não ao outro, mas a todos os Vila-Matas em que Vila-Matas-o mesmo se multiplicam sem que, no entanto, essa heteronímia seja assumida, por exemplo, à maneira pessoana. Já em Doutor Pasavento escrevia que «havia tantos Pasaventos em palco que seria impossível localizar-me, perder-me-ia entre eles (p. 273). O autor-expedicionário destes abismos é, então, não o outro, mas o mesmo Vila-Matas que no romance anterior se confundia com Pasavento, Ingravallo e Pynchon, como se a sua autobiografia - construída por ele à altura da sua literatura - fosse caprichosamente um género literário - uma autoficção, segundo Serge Doubrovsky, simultaneamente vivida na vida real e nas vidas de papel acolhidas na «sua maleta con libros de Bolaño», como o próprio Vila-Matas me confessava, um destes dias, numa troca de correio electrónico. Fingimentos que Vila-Matas volta a  convocar para estilhaçar a distancia entre ficção e realidade, cuja imbricação extrema é sintetizada no insuperável conto Porque ella no lo pidió, a estação mais absoluta deste itinerário abismal sobre a realidade que encontramos para além da literatura.

4 de novembro de 2007

Diário chileno (VIII). A cultura na cidade



1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados - Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño.

2. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua [...] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: "tal vez sería conveniente leer un poco más". E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria.

3. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo.

4. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiagueros - Bolaño nem sempre está comigo -  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que "en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie lee".

5. No Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado.

1 de novembro de 2007

Diário chileno (VI). Jantando com Bolaño



Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos. 

Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos  e outros cuja identidade nao ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que nao é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que "no es una escritora, sino na escribidora"; e Skármeta, "un personaje de televisión". Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus  detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, me conta, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu. 

Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

28 de outubro de 2007

Diário chileno (III). Fazer a mala com Bolaño



E que levar na mala? Roupas frescas, porque agora começa o Verão austral; também uns agasalhos porque, à noite, a sopra uma aragem fresca  vinda da cordilheira, adverte-me o Daniel Barraco. Algumas prendas, claro. Marisa ao vivo em Lisboa, a incontornável garrafa de Porto e um queijo e estrelas de figo que comprei hoje no mercado. Pequenos sabores de um tempo em desagregação. Câmara fotográfica, telefone, cartões de crédito. Um moleskine para ir corrigindo o plano de evasão. E para ler durante a viagem? Tinha pensado no livro de Joseph Roth, Fuga sem fim, o mesmo que Pasavento levou na sua mala vermelha quando viajou de Madrid para Sevilha; mas é muito curto para as longas horas de viagem que me esperam amanhã.  E depois, o meu plano de evasão tem regresso. Fazia-me jeito um livro escrito em castelhano, para assim mergulhar na língua que vou usar durante mais de uma semana. De um escritor chileno, preferencialmente. Será, então, Los Detectives Salvajes, de Roberto Bolaño, que comprei há dias em Madrid, e cujas extravagantes 609 páginas chegarão seguramente para aguentar as 16 horas de avião desde Zurique até Santiago do Chile, mais as três de Lisboa a Zurique, e regresso.

E porquê Bolaño? Porque depois dos abismos de Vila-Matas que acabo de explorar, este livro é um precipício azul que abre para a nova literatura latino-americana depois do boom do realismo mágico, contrariado pela Rayuela, de Cortázar, de que este romance é, ironicamente, o mais perfeito «contrário». E porque Los Detectives Salvajes é, escreve Vila-Matas, «uma brecha que abre para o mundo infernal de uma geração agrilhoada», a nossa. E porque Bolaño, que já cá não está, ocupa agora a minha «biblioteca do quarto escuro», ao lado de Bioy Casares, um autor do seu universo literário, também aqui hoje chamado para a elaboração deste plano de evasão. E porque quando estiver em Santiago do Chile, irei eu próprio, como um detective selvagem, procurá-lo «na rua Banderas, esquina Ahumada» onde Vila-Matas diz que «parece tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi», embora isso seja inverosímil porque àquela data já Bolaño teria ido «embora deste mundo em silêncio».

27 de outubro de 2007

Diário chileno (II). Plano de evasão



«Perder-se numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução», diz Walter Benjamin. Por isso, quando partimos, não como turistas fortuitos, mas como viajantes intrépidos adentrando-nos por mapas por fazer, é útil prevenirmo-nos com um plano de evasão, recolhendo antecipadamente informação sob os territórios de fuga, mapeando percursos, inventariando paisagens e lugares a visitar, registando intenções, construindo ficções a habitar. Nesse plano - que no meu caso é quase sempre urbano - assinalo as «cidades nervosas» com os seus monumentos, as avenidas da moda cheias de gente convergindo em direcção ao centro. Museus, teatros, exposições e outras iluminações. E também os tugúrios míticos onde depois procurarei o aleph que todas as cidades escondem. A rua artúrica que apenas ao expedicionário é oferecida, mas que só será revelada quando ultrapassar o seu limiar perdido na floresta de banalidades urbanas circundante. 

Prodígios e raridades, portanto, levemente suspeitadas, para explorar mais tarde. Passagens. Lentidões. Cafés com mesas de mármore onde se sentaram escritores, licores fortes como o metal fundido, livrarias de livros estranhos, pequenos jardins de amantes sem dinheiro. E labirintos subterrâneos. Estações de metro, quando as há, porque o metro é sempre uma aventura na noite infinita donde nem todos os que nele penetram regressam à superfície. E também estradas espalhando em muitas direcções. E, ainda, advertências e obrigações. Fusos horários, a natureza do clima, câmbios, transacções, roamings.

Daqui resulta, às vezes, que a viagem começa por ser uma ficção com lugares, tempos, personagens e acções mesmo antes de se iniciar, com a intenção expressa de, uma vez o viajante no território a explorar, habitar a ficção previamente construída durante os dias que antecederam a partida, como um expedicionário que, ao mesmo tempo que vai confirmando no terreno os sinais previamente assinalados, procura nas dobras do novo mapa sobre o qual caminha as linhas de passagem que permitem perceber a cidade. Isto porque uma cidade que não se compreende caminhando é indecifrável.

E é nessa perdição procurada com instrução que reside todo o segredo da evasão. Mesmo que a cidade seja Santiago do Chile, poluída, híbrida, anárquica, com os restos da sua arquitectura colonial perdidos no meio de uma Litlle Manhattan austral de torres pós-modernas desafiando a cordilheira nevada. Como encontrar ali as linhas de passagem para o mapa por vir? Este o desafio que Santiago coloca ao expedicionário que talvez ali tenha de ser um detective selvagem à maneira de Arturo Belano e Ulises Lima, espécie de «poetas desesperados» e errantes do livro de Roberto Bolaño [Los detectives salvajes, Anagrama], bifurcando-se através de cenários contraditórios em busca do que lhes escapa.

Mais fácil será o expedicionário perder-se no «insólito porto sem portas» que é Valparaíso, hipnotizado pelo brilho nocturno da baía, ou num funicular louco galgando uma qualquer colina sobranceira ao Pacífico, ou nos labirintos de ruelas e becos ziguezagueantes perseguindo os passos de marinheiros antigos que ali naufragaram embalados por milongas tristes. Talvez ali baste ser como Cayetano Brulé, o detective do livro de Roberto Ampuero [Encontro no azul profundo, Temas e Debates, 2004], que mora no cerro Concepción e não precisa de metafísica nenhuma, pois «Valparaíso [já] é um lugar metafísico, um centro mágico da existência», como escreveu Sergio Vuskovic Rojo na última Atlântica.

Levo comigo um plano de evasão que esconde dunas movediças, abismos inesperados cujos umbrais luminosos cruzarei à procura do aleph borgesiano que encerra tanto os segredos da cidade da cordilheira como os da cidade do paraíso e, talvez, ainda aqueles que se escondem nas estradas que se espalham desde Santiago em direcção aos Andes, ao Aconcágua e a Mendoza, na Argentina.

Entretanto, para lá chegar, primeiro um estranho roteiro que passará sobre a montanha mágica de Thomas Mann e de Robert Walser perto da qual, em Zurique, tomarei o avião que me levará até ao outro lado do mar e, depois, até ao outro lado do continente, banhado aí pelo Pacífico.