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18 de janeiro de 2014

A Europa dos cafés


A Europa era feita de cafés. Uma cartografia de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, flâneurs. Como se a própria Europa fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais.

"Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa", escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Também de renuncia, como nos cafés de Viena, onde os homens sem qualidades de Musil representavam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre", ora afrontando a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem.

Lisboa onde ao entardecer, metódica e pontualmente, como num rito sagrado, Pessoa se sentava numa mesa de canto do Martinho da Arcada, desdobrando-se, em desassossego interior, em Bernardo Soares para meditar em vão sobre "metafísicas perdidas pelos cantos dos cafés de todo o lado, as ideias casuais de tanto casual, as instituições de tanto zé-ninguém". Ou a Brasileira do Chiado onde nas tertúlias de antanho era comum verem-se os restos da Carbonária numa mesa, os integralistas noutra e Pessoa e Almada Negreiros noutra ainda. Ou o Majestic, no Porto, "onde - conta Agustina Bessa Luís - se juntavam músicos e pintores do tempo duma boémia que o burguês via com enfado".

Lisboa: Pessoa no Martinho da Arcada inventando a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Paris: Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, num amplexo amoroso, entre duas reuniões "existencialistas". Berlim: Walter Benjamin no Café Tiergarten, traçando "labirintos de tinta embebidos nos [seus] cadernos". Copenhaga: Kierkegaard num vaivem meditativo entre cafés, lançando as bases do existencialismo. Trieste: Claudio Magris navegando pelo Danúbio no Café San Marco, "um verdadeiro café, situado na periferia da História". Praga: Kafka pousando a sua existência de morcego no Café Louvre. Budapeste: Deszó Kosztolányi, no Café Sirius, pedindo tinta para escrever, em vez de um café: "- Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!". Odessa: Isaac Babel pondo em movimento, num café do guetto judeu, os seus gangsters de papel.

Zurique: Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. As sombras, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. Enrique Vila-Matas autoficcionando um encontro impossível: "Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de Gente de Dublin".

E ainda os cafés de Paris revisitados por Enrique Vila-Matas em Paris nunca se acaba, como aquele "café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmo a escrever inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco".

Ou o Café La Closerie de Lilas onde um dia me pareceu ver o encantador de garrafas Hemingway, mas que, afinal, se revelou ser um jovem catalão aprendiz de escritor aguardando o melhor momento para sair sem pagar. Ou aquele minúsculo café no Boulevard Jourdan para onde me levavam os meus passos nocturnos desde a Cité Universitaire para, noite adentro, ir enfiando moedas na velha juke-box e ouvir o anarquismo musical de Boris Vian e de Leo Ferré, porque ali não se cantava o fado e a metafísica ocupava todas as mesas.

Desapareceram, entretanto, os cafés da velha Europa. Ou, o que vem dar ao mesmo, apagou-se a aura que os habitava. E os que, ainda, sobrevivem, já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma clientela mais ou menos extravagante, composta por epígonos nostálgicos, turistas alheios ao literário, contempladores sensíveis e fetichistas dos bons lugares, confundidos no vaivem dos empregados de mesa sem perceberem que  tudo, ali, afrouxou na aparência das coisas e da sua representação.

23 de abril de 2012

Os livros dentro dos livros



Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros.

E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por escritores sem qualidades. E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».

Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgesiana «clássico é aquele livro [...] que decidimos ler como se nele tudo fosse [...] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, - como escreveu George Bataille - a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».

Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Gilles Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».

10 de março de 2012

A tentação do fracasso


A partir da vida fracassada de um jovem com ar de Dylan, um espectro do passado, alguns fantasmas do futuro e um Arquivo Geral do Fracasso, Enrique Vila-Matas, regressa de Dublin - para onde tinha dada o salto inglês, melhor seria dizer irlandês - a Barcelona, ao seu próprio bairro nas imediações da Pasaje Pellicer ("Na realidade quando me mudei para este bairro, vivi indirectamente esta história. Dediquei-me, por isso, a contá-la, modificando apenas alguns pormenores. Real na sua essência, como a própria vida", confessa em entrevista à revista El Cultural) para nos brindar com Aire de Dylan (numa evocação à ampôla de vidro com ar de Paris que Duchamp construiu para oferecer a uns amigos e à qual deu o nome de Air de Paris) que a Seix Barral lançará na próxima 3ª feira em Espanha e a Teodolito, a nova editora de Veiga Ferreira, publicará em Portugal, parece, ainda este mês.

Segundo o editor, um romance em que Vila-Matas convoca os seus melhores argumentos retóricos com humor, ironia e sarcasmo para, através de uma intriga negra, com assassinos e assassinatos, dirigir uma crítica à pós-modernidade. E um romance, ainda, cuja história "dialoga - segundo o próprio autor - com o jovem que escreveu História abreviada da literatura portátil que girava em torno de uma sociedade secreta". Uma sociedade secreta preguiçosa, que se contenta em "ter uma ideia por dia", mas sem nunca levá-la a cabo para - digo eu - não fracassar na sua tentação de fracassar.

"Alguns entram muito tarde no teatro da vida, mas quando o fazem parece que entram sem rédea e directamente para o final da obra", assim arranca Aire de Dylan. Outras frases soltas que me chegaram, como "O fracasso é prefiguração natural do escritor", antecipam a ideia da tentação do fracasso que parece alimentar a vida do protagonista do romance, o jovem Vilnius, conhecido como o pequeno Dylan, mistura do cantor americano com o poeta Rimbaud.

Segundo a sinopse do editor, um prolífico escritor vai a um congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. Nesse congresso, participa, em substituição de Juan Lancastre, uma espécie de "Hamlet fitzgeraldiano pós-moderno", o seu filho Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida atingir o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso. Mas fracassar absolutamente não é tarefa fácil, como, imagino, se verá no livro.

A partir desse extravagante congresso literário sobre o fracasso, acompanhamos a história de Vilnius que acredita que se encontra possuído pelo espectro do pai. Como ainda não li o livro, ponho-me a imaginar que Vilnius tentará imitar Lancastre, cultivando a impostura de viver como se fosse ele. E imagino que Vilnius fracassará no empenho de levar por diante uma vida emprestada, fracassada. E que no seu duplo fracasso, o de querer fracassar mas fracassar no empenho de fracassar, Vilnius se assemelhará ao escrevente Bartleby - o personagem do conto homónimo de Herman Melville - na sua fracassada tentativa de escrever "um decálogo da não acção".

Ao mesmo tempo, acompanhamos o escritor que, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o silêncio total e definitivo. "Tinha decidido secretamente mesmo antes de conhecê-los, confessei-o a Débora, não escrever nenhum outro livro, pois estava muito arrependido, quase magoado, com todos os que tinha publicado durante a minha vida" (Aire de Dylan). Enfim, sucumbir perante o síndroma de Bartleby essa "pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre" que Vila-Matas já recenseara nesse "caderno de notas de pé de página" a que deu o nome de Bartleby & Companhia (Assírio & Alvim). Fascinado por Vilnius que terá escrito, o escritor, e Vila-Matas, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso.

Ponho-me, então, a imaginar que com a esta improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, um e outro se sentirão cada vez mais tentados pelo fracasso, o que será um êxito. Este paradoxo fará, imagino, que a distinção entre fracasso e sucesso resulte em algo em que não nos devemos fiar. Tal como também não será de fiar esta minha tentativa de escrever esta nota de pé de página sobre um livro que ainda não li mas cujo desejo de ler me vai fazendo sucumbir à tentação do fracasso de o escrever para, assim, poder antecipar a sua leitura, no que, certamente, como bom escrevente bartlebiano fracassarei.

Levado pela tentação do fracasso de escrever, seguindo os preceitos avançados por Pierre Bayard em Comment parler des livres que l'on n'a pas lus?, sobre um livro que não li, nem poderia ter lido porque ainda não foi publicado, mas não querendo fracassar nesse empenho, encontro no Diário Volúvel algo com um certo ar de Dylan. "O mundo é uma ilusão, um cenário onde todos temos frases para dizer e um papel  para representar. Certa classe de actores, ao constatar que fazem parte de uma peça, continuarão a representá-la apesar de tudo; outra classe de actores, escandalizados com a descoberta de estarem participando numa impostura, tratarão de sair de cena e da peça. Os segundos enganam-se. Enganam-se porque fora do teatro não há nada, nenhuma vida alternativa que possamos incorporar. O espectáculo, tal como o teatro kafkiano de Oklahoma, é, pode dizer-se, o único que está em exibição. E a única coisa que alguém pode fazer é continuar representando o seu papel, ainda que talvez com uma nova consciência, uma consciência cómica.”

Restará saber (e isso poderia ser a tese do romance se eu me fizesse passar por Vila-Matas) -, mas essa resposta deixarei que seja o autor a dá-la, afinal o romance é seu e eu não pretendo continuar a imitar Vilnius, ele tomando o lugar de Lancastre no congresso sobre o fracasso, e eu tomando o lugar de Vila-Matas na escrita deste livro - se neste teatro kafkiano de Oklahoma, o prolífico escritor, numa atitude semelhante à dos personagens de Roberto Arlt, se sentirá, no final do romance, livre de qualquer sentimento de culpa ou responsabilidade relativamente ao seu fracasso literário, exibindo-se perante os espectadores ou se, ao contrário dos fracassados exibicionistas arltianos, adoptará a atitude de Oblomov - o personagem do romance homónimo do escritor russo Ivan Goncharov -, um jovem desamparado aristocrata incapaz de levar a sua vida por diante, inspirando aqueles "jovens poéticos e doentes, notórios Oblomovs, perdidos no vazio cultural do seu mundo e com tendência a ser, até insuspeitados limites, preguiçosos e avessos ao esforço" (Aire de Dylan). Nisto reside "a alma moderna, o ar de Dylan, a essência da nossa época" (Aire de Dylan).

Dir-me-ia Vila-Matas, se lesse este texto, que fracassei na minha tentação de escrever sobre Aire de Dylan sem o ter lido, já que houve aqui uma certa impostura da minha parte ao citar, e glosar, o que nunca poderia ter citado, e glosado, devido à evidência física de não possuir o livro. Como, então terei sucumbido à tentação de escrever sobre um livro que não li? Ficando, esta noite, quieto em casa como bom discípulo de Kafka que, numa noite, em Praga, escreveu "Não é necessário que saias de casa. Fica à tua mesa e escuta. Nem sequer escutes...", apanha apenas o ar de Vila-Matas.

2 de novembro de 2009

A última caminhada


Que melhor post publicar em 2 de Novembro, data em que tradicionalmente é prestada homenagem aos mortos, se não aquele que editei no meu blogue pretérito a pretexto do livro Campo Santo, de W. G. Sebald?

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem, vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

10 de julho de 2009

Lendo, escrevendo


Escreve Julien Gracq - esse passeante do Loire que, às vezes, acompanho nas suas longas caminhadas pela costa de Syrtes - em En lisant, en écrivant (Corti, 1980), que lemos empurrados por «uma imperiosa tracção que move para diante a mão da caneta». Também eu leio escrevendo a lápis. E um impluso secreto me empurra a mão para diante, rasteando, a lápis, através dos labirintos de tinta embebidos nas páginas dos livros - como diria Walter Benjamin - linhas de fuga e de intromissão, cesuras, no texto alheio. Vou, assim, deixando a presença titubeante da minha mão na espessura do texto, como se cada página fosse um território por medir, por escavar, e donde brotará, depois, o rasto vegetal - madeira e carvão -que vou deixando no chão da escrita, também ele vegetal, incitado (e excitado) pela leitura que, lentamente, umas vezes, sofregamente, outras, avança através dos labirintos de tinta impressa.

Em Finita, Maria Gabriela Llansol diz-me como fazer: «Interesso-me por uma frase, por um fragmento de texto, e, muito raramente, por todo um livro que leio lentamente». A partir do fascínio dessa frase, que sublinho, - e que, às vezes, esconde «a imagem» perseguida por Gerard de Nerval - escapo-me furtivamente da topografia da página para as margens onde ressaltam novas palavras, encadeamentos, fórmulas, variações, derivações, fissuras do texto a que regressarei, depois, sempre, como explorador de abismos para me rever, então, como co-autor de um livro que não escrevi.

Às vezes, imagino-me como o Agrimensor, esse personagem que, no romance infinito de Kafka, O castelo, mais do que andar de um lado para o outro como conviria a um agrimensor, deambula de interpretação em interpretação, parando em cada curva do caminho, tudo comentando, como se através do comentário pretendesse chegar ao grau zero da escrita. Assim, também eu leio os livros da minha biblioteca de quarto escuro. Como um agrimensor literário errando na topografia da página, de lápis na mão - porque é o lápis que me incita à demora, que me imbrica no texto. Que me suspende no trilho das palavras, que me incita a voltar atrás, a enredar na topografia da página. Como ler Bernardo Soares ou Llansol ou Musil ou Walser ou Sebald ou mesmo Borges a não ser a lápis?

Devo ao lápis essa possibilidade infinita de me perder nos labirintos de tinta embebidos nas páginas dos livros. O lápis, então, como ferramenta que antecipa outros textos que hão-de vir em forma de micro-ensaio ou de crónica de momento que convoca a citação, a glosa, a paráfrase, anunciadas pelo trilhar a lápis do pensamento que toda a leitura incita (e excita). Como esta crónica breve sobre a escrita a lápis que nasce de uma anotação vegetal - fabricantes de lápis - inscrita na margem da página 17 de Fuga sem fim, de Joseph Roth [Acantilado, 2003]; ou a referência ao agrimensor K. suscitada por uma outra anotação à página 156 de O mal de Montano, de Enrique Vila-Matas [Teorema, 2002]. Sublinhar, anotar a lápis, então, não para desaparecer como pretendia Robert Walser com os seus microgramas, mas para abrir afluentes vegetais que hão-de embeber, depois, a tinta, primeiro, os cadernos moleskine e, mais tarde, o livro de micro-ensaios por vir.

Já nos cadernos moleskine prefiro escrever a tinta - castanha, porque é a que mais se aproxima da terra -, com caneta de aparo, uma art pen que me transforma momentaneamente no escritor húngaro Dezsó Kosztolány que num café, em Budapeste, enquanto escrevia Cotovia [Dom Quixote, 2006], em vez de pedir ao empregado um café, pedia tinta: – « Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!». A caneta de aparo como extensão da mão, do corpo, um fio de tinta, ziguezagueante, a embeber a página, com cheiro, e mudando de cor no rasto das oscilações da alma, deitando depois o pensamento no chão do caderno onde desaguam os afluentes vegetais que brotam das margens dos livros lidos. Como teria sido eu capaz de evocar, agora, Kosztolány, se como um agrimensor literário não tivesse antes deixado uma anotação vegetal na margem de Cotovia?

E só depois utilizo o computador. Pelas suas extravagantes possibilidades de ligações, cruzamentos, derivações, substituições, colagens. De hipertextualidade. De montagem literária. Enfim, de estabilização discursiva do pensamento ondulante no espelho quebrado do monitor onde vou precipitando e encadeando citações alheias - às vezes, erróneas - e referências literárias, não só porque servem para criar novos sentidos no texto por vir, mas porque elas são o próprio texto.

10 de dezembro de 2007

Escrita vegetal




Leio traçando a lápis, simultaneamente, linhas de fuga e de intromissão sob os labirintos de tinta embebidos das páginas dos livros, como diria Walter Benjamin. Deixo, assim, a presença fragmentária da minha mão no corpo do texto, como se cada página fosse um território por medir, por interpretar, à espera do rasto vegetal - madeira e carvão - que vou deixando no chão da escrita, também ele vegetal - papel -, incitado (e excitado) pela leitura que, lentamente umas vezes, sofregamente outras, avança através dos labirintos de tinta impressa. Aqui e acolá, escapo-me furtivamente para as margens, território virgem da página onde deixo impressões de leitura: anotações, remissões, indexações - espelhos quebrados do texto onde mais tarde regressarei para me rever como co-autor de um livro que não escrevi. Então, como o Agrimensor de Kafka [in O Castelo], também eu ando de margem em margem, e passo de uma anotação para outra, de um comentário para outro, adentrando-me nos trilhos vegetais que fui abrindo durante a primeira leitura.

Devo, portanto, ao lápis essa possibilidade infinita de não mais me perder nos labirintos de tinta embebidos, impressos, nas páginas dos livros. O lápis, então, como ferramenta preparadora de outros textos que hão-de vir em forma de pequeno ensaio ou de crónica de momento que convoca a paráfrase, a citação, preparadas transitoriamente pelo trilhar a lápis do pensamento que toda a leitura incita (e excita). Como esta crónica breve sobre a escrita a lápis que nasce da anotação vegetal o fabricante de lápis, na margem da página 17 de Fuga sem fim, de Joseph Roth [Acantilado, 2003]; ou a referência ao agrimensor K. suscitada por uma outra anotação à página 156 de O mal de Montano, de Enrique Vila-Matas [Teorema, 2002]. Sublinhar, anotar a lápis, então, não para desaparecer como pretendia Robert Walser com os seus microgramas, mas para abrir afluentes vegetais que hão-de embeber, depois, a tinta, os cadernos moleskine por vir.

Nos cadernos moleskine prefiro escrever a tinta, com caneta de aparo, uma art pen que me que me transforma momentaneamente no escritor húngaro Dezsó Kosztolány que num café, em Budapeste, enquanto escrevia Cotovia [Dom Quixote, 2006], em vez de pedir ao empregado um café, pedia tinta: - « Garçon - dizia - tinta, s´il vous plaît!».

A caneta de aparo como extensão da mão, do corpo, um fio de tinta, ziguezagueante, a embeber a página, com cheiro, e mudando de cor no rasto das oscilações da alma, deitando depois o pensamento no chão do caderno onde desaguam os afluentes vegetais que brotam das margens dos livros lidos. Como evocaria Kosztolány, primeiro a tinta e, depois, no computador, se como um agrimensor literário não tivesse antes deixado uma anotação vegetal na margem de Cotovia?

E só depois utilizo o computador. Pelas suas infinitas possibilidades de permuta e de substituição de palavras, de frases e de períodos; de cristalização sintáctica e morfológica da escrita. Enfim, de estabilização racional do pensamento ondulante no espelho quebrado do monitor onde vou colando citações, fragmentos, ecos de leituras a que acrescento frases e ideias próprias que me vão sendo incitadas  - e excitadas - pelo fio de anotações que foi brotando, primeiro a lápis e depois a tinta, como uma respiração de ideias fragmentárias no chão do caderno moleskine, para se cristalizar, finalmente, numa crónica autónoma, pessoal, mas onde se escutará sempre o eco inaugural da leitura.

 [Ilustração ao alto, de Rachael Caiano©]

9 de agosto de 2007

No Bairro portátil do senhor Tavares (III): licores fortes


Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

18 de junho de 2007

Fascismo de entretenimento




«Há uma organização terrorista europeia, sedeada na Holanda e que actua a coberto do disfarce de produção de conteúdos televisivos. Chama-se Endemol, foi fundada por um holandês, comprada pela Telefonica espanhola e acaba de ser vendida ao muito recomendável senhor Berlusconi», denunciava há duas semanas, com a agudeza crítica que se lhe reconhece, Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no Expresso . E fundamentava: «com um catálogo sempre renovável de programas televisivos todos inspirados nos vícios, nas fraquezas e nas misérias humanas, é difícil imaginar alguma organização ou ideologia que, por si só, tenha conseguido causar maiores danos à cultura, à educação e à formação cívica dos povos europeus do que esta sinistra Endemol».

A oportuna denuncia de MST incita-me a reflectir sobre o papel da televisão enquanto estratégia de manipulação do pensamento, perseguindo objectivos inconfessáveis de substituição da experiência do mundo por simulacros da realidade extraídos de uma imanência alienada e pervertida, em que é a próprio «estado do mundo como jogo permanente» que se confunde já com o modo como a televisão nos dá a ver o mundo. Ou «a vida como televisão», como escrevia Eduardo Lourenço no último JL. E se no princípio era a «principialidade das imagens» [Eduardo Prado Coelho] em movimento, hoje essa luz original apagou-se, arrastando o telespectador no torvelinho indiferenciado e indiferente das imagens pelas imagens, já sem ligação com as palavras, elas próprias transformadas em imagens de uma sociedade infinitamente anónima transportada dia e noite para o desaconchego das nossas casas.  Que diria Kafka sobre televisão, se sobre o cinema já dizia que aí nunca é o olhar que escolhe as imagens, mas que são elas quem escolhe o olhar?

Hoje, em televisão, pelo menos numa certa televisão que tem vindo a colonizar o espaço televisivo europeu e, claro está, e muito, também Portugal, tudo vale para aumentar as audiências, sobretudo se nesse vórtice de lixo televisivo se afundar qualquer hipótese de cultura, de educação, de ética. A programação televisiva lê na mesma cartilha do capitalismo pós-moderno, cujo dado principal já não é a Terra girar à volta do Sol, mas o dinheiro girar à volta da Terra, como afirma Peter Sloterdijk, um filósofo alemão de estirpe nietzchiana. E neste vórtice televisivo que tudo arrasta na procura do lucro, parece que com programas como os da Endemol é a própria televisão que enlouqueceu, não deixando lugar àquilo que ela poderia ser em termos de entretenimento inteligente, antes procurando a obscenidade do espectador. 

Longe vão os anos em que Karl Kraus proclamava que o «jornalismo come o pensamento». E, no entanto, essa visão aplicada aos media de hoje parece mais actual do que nunca. Tanto assim que a questão do funcionamento dos media tem vindo a ocupar um lugar central no empreendimento filosófico de Sloterdijk, comparando-os a uma versão contemporânea da arena romana e, logo, reponsáveis por aquilo a que ele chama de «fascismo de entretenimento». Os noticiários, quase todos idênticos, e logo sem atributos que os diferenciem, caíram na imanência do quotidiano filtrado pela máquina televisiva, do qual não conseguem nunca distanciar-se reflexivamente, antes preferindo promover a vulgaridade opinativa, o escândalo obsoleto, o ruído informativo em lugar da realidade autêntica, por exemplo a da miséria inamovível do mundo continuamente sublimada pelo seu tratamento «espectacular». 

De fora fica quase sempre a pedagogia informativa que devia ser a razão dos noticiários. E, sobretudo, o «sentido da possibilidade» aberta aos muitos mundos do mundo, prometida pela luz inicial, mas que, hoje, só talvez a literatura poderá ainda proclamar. E mesmo aqueles programas que se apresentam vestidos com uma roupagem de maior seriedade, mais não fazem do que celebrar um tempo cada vez mais cheio das mesmas «qualidades» [daí a actualidade desse extraordinário romance-ensaio de Robert Musil, O homem sem qualidades, que a Dom Quixote prometeu reeditar este ano] que há muito tempo Walter Benjamin exorcizou. 

Quanto ao entretenimento, exceptuando alguma nova serialidade televisiva, um filme ou outro fora de horas e intervalado por longos momentos de publicidade invasiva, somos arrastados num mesmo vórtice de telenovelas e de reality shows  que encenam a trivialidade bacoca de um quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção. Ou pior ainda, promovem uma descida ao Maelstrom da indignidade com programas como os produzidos pela Endemol. A mais recente indignidade desta «Al-Qaeda televisiva» como lhe chama MST, é o novo programa em que doentes terminais fazem doacções de órgãos em directo a outros doentes que vão entre si disputar os fígados ou os rins de que precisam para sobreviver.

Dir-se-á que sempre podemos escolher entre o que nos é oferecido. Talvez. E muitos de nós escolhem, quanto mais não seja apagando o televisor. Mas, e a maioria que é incitada (ou excitada) pela máquina televisiva, não será mais escolhida do que escolhedora? Já em 1928, Heinrich Mann escrevia que «é possível habituar todas as grandes massas ao kitsch. E depois é fácil afirmar que elas não entendem nem querem mais nada». Dizer que as massas apenas respondem às luzes incandescentes do divertimento bacoco e daí baixar cada vez mais os padrões de qualidade na programação televisiva é um sofisma perverso. Por isso, o dever de regulação, no respeito pela inteligência, contra a devassa e a iniquidade televisivas, e pela restauração da aura que esmorece perante o influxo de luz incandescente do ecrã caseiro.

24 de maio de 2007

Doutor Pasavento (III). As regiões inferiores


Chego ao final de Doutor Pasavento de Enrique Vila-Matas e o que me cai é um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos livros anteriores do autor, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, mas sempre com uma escrita culta, lúdica, provocatória quanto baste, que propõe uma desconstrução da figura do autor, concluindo, assim, a sua trilogia metaliterária (O mal de Montano, Bartlebly e Companhia e Doutor Pasavento). Ao mesmo tempo, trata-se de uma viagem às regiões inferiores de Robert Walser, que escrevia a lápis para estar mais perto do desaparecimento, do eclipse; de Emmanuel Bove, que parecia estar sempre à espera que o esquecessem; de Thomas Pynchon, que se esconde em Nova Iorque; de Kafka, que queria era continuar a existir sem ser incomodado; de Salinger, o escritor que vive em paz , oculto; de W. G. Sebald, para quem o desaparecimento sempre existiu; de Joseph Roth, que narra a viagem errática de um desaparecido. Uma poética da extinção.

11 de março de 2007

Da leitura


Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros.

E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por escritores sem qualidades. E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».

Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgeseana «clássico é aquele livro [...] que decidimos ler como se nele tudo fosse [...] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, - como escreveu Bataille - a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».

Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».