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06 janeiro, 2012

dia de reis






Reis Magos
(em porcelana chinesa, claro)




[Um bom dia de leis pala todos. Se não gostalem desta ilustlação, desliguem o computadole da colente pala deixalem de vêle. : )) ]

01 maio, 2011

antiga música

Dvorák - songs my mother taught me

1 de Maio de 1925








Sorkine, Raya
un bouquet pour maman






86 anos, em dia da Mãe.

29 abril, 2011

dança






Nolde, Emil
dance around the golden calf
(1910)





Em dia mundial da dança.

24 abril, 2011

há domingos assim (37) [especial Páscoa, tempo de ressuscitar, surgir de novo, voltar à vida]









Magritte, René
le pays des miracles (series 2)
(1967)







 
my beautiful blue country, Alfredo Keil - Luís Pipa 


A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa, mensagem

19 março, 2011

todo o nada que és é teu





Ohlson, Doug
cat eyes
(1993)







Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, antologia poética, ed. rba eds, 74


Philip Glass, metamorphosis (1), Branka Parlić (piano)

... para quem passa, neste sábado cheio de sol, em que se lembra o dia do pai [que saudades] :)))

05 outubro, 2010

res publica






Pastine, Ruth
ethics and desire, and strength's vulnerability limitless
(2009)

A Portuguesa

[É para ouvir, tábem?]

[Alguém me explica o que é que o António Costa Pinto está a fazer na sic-n? Aparentemente está a comentar os discursos proferidos na sessão solene das comemorações do centenário da implantação da República mas, não se ouve nada. O senhor tem um registo de voz que só usa frequências e tons que o põem a falar para o boneco. Pois se não se ouve?! E  o mal se pega-se porque o Luís Delgado que normalmente se ouve bem, também já encontrou uma frequência em que pouco se percebe. Não que a perda seja importante, entenda-se!]

Adenda: há um ano o bnb comemorou assim

08 março, 2010

não sou de dias, mas...

.





Pokpong, A.
woman of elegance IX
(2010)




Repito o que aqui disse o ano passado.

[uns dias muito bons, para as meninas e para os meninos]

14 julho, 2009

14 de Julho

.




Raynaud, J. P.
bleu - blanc -rouge
(1987)





14 de julho


La Marseillaise


O jrd faz um reparo pertinente: diz-me que este post merecia uma canção francesa. Entendi. Mas vou só reparar a falta de cuidado com uma provocaçãozinha:


Gilbert Becaud, l'important c' est la rose

30 março, 2009

girassóis de Van Gogh

[Comovo-me ao olhar um dos seus vasos com girassóis. Disfarço como posso. Que diabo, chorar assim, no meio do museu ...]
Van Gogh nasceu a 30 de Março de 1853.

Deixo-vos com os girassóis de Arles





Van Gogh, V.
still life- vase with five sunflowers
(Agosto de 1988)
destruído pelo fogo na segunda guerra mundial














Van Gogh, V.
still life - vase with fifteen sunflowers
(1989)
Sompo Japan Museum of Art, Tóquio













Van Gogh, V.
still life - vase with fifteen sunflowers
(Agosto 1888)
National Gallery, Londres












Van Gogh, V.
still life - vase with fifteen sunflowers
(1889)
Museu Van Gogh, Amsterdam












Van Gogh, V.
still life with twelve sunflowers
(Agosto 1988)
Neue Munich, Bayerische Staatsgemaldesammlungen, Neue Pinakothek, Munique










Van Gogh, V.
still Life with twelve sunflowers
(Janeiro 1989)
Philadelphia Museum of Art














Van Gogh, V.
three sunflowers in a vase
(Agosto 1988)
E.U.A. colecção privada






homenagem a Van Gogh


starry starry night


Don McLean, Vincent - Starry Starry Night (tb nos vídeos)

E, a propósito, acabo de ver esta notícia n' O Público. Independentemente das reticências ...

19 março, 2009

generosidade operária? [acrescentado]



Andrea d'Angiolo [Andrea del Sarto (Florence 1486-1530)]
head of saint Joseph looking down


No tempo de eu ser filha pequena, o dia 19 de Março, além de ser dia do pai, era, sobretudo, o dia de S. José Operário [nesse meu tempo, a sério a sério, comemorava-se o dia da Mãe, no dia 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição... As comemorações do dia do pai eram uma espécie de 2ª liga].
Sempre tive uma empatia natural com o S. José E não creio que a simpatia inicial acontecesse porque o seu dia se relacionava com o dia do (meu) pai... (Que saudades!...)
Acentuei a ternura pelo S. José quando, no início da adolescência (eu era tão crente!), pensei no dilema que ele teria vivido ao olhar para a sua Maria! A sua Maria, Imaculada, estava grávida... A sua Maria IMACULADA (sem pecado), com a barriga a crescer a olhos vistos? ... Sem que ele...
E o S. José...em vez de ... aceitou!
Nas palavras que eu, na altura, usava para pensar no assunto, o S. José era generoso, doce e dava mostras de um coração que compreendia além da razoabilidade humana... Cheguei a "condoer-me" com a situação em que o via como companheiro da Maria... (convenhamos... mesmo com o Anjo a prestar-lhe informações sobre o caso, não devia ser fácil lidar com a situação) - a Maria era Imaculada por parte do S. José... mas, ia ter um filho...
Não durou muito este meu enlevo... Os desafios da minha cabecita conduziram-me para zonas onde não existem os S. Josés literais ... Mas ficou-me este rasto de simpatia com o dia 19 de Março... e a noção de que, ser pai é, também, este amor sem condições "compreensíveis"...

(post de 19 de Março de 2008, com pequeníssimas alterações)


Cat Stevens, father and son


Ser pai é, também, este amor sem condições...

Eu sei que as fronteiras são ténues ... mas há exemplos que são edificantes e pronto...

08 março, 2009

flores para quem vier por bem






Willkens, Silvia
lady with flowers
(2003)



flores vão para as meninas,
flores vão para os rapazes,
está escrito nas nossas sinas:
só juntos somos capazes!

19 março, 2008

...dia do pai ...




Carta ao pai (Brief an den Vater) é uma das obra do escritor checo Franz Kafka. Li-a quando o meu filho era ainda pequeno, antes de entrar na adolescência...

referência a outra carta ao pai aqui

13 abril, 2007

Para mim hoje não é só Sexta feira 13

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.





Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.





Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?





Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.





(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)





Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.





(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)





Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.





Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.





Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.





Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.





Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.





Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.





Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.




(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.





O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15-1-1928