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quarta-feira, 17 de abril de 2024

Memória de um dia limpo – 17 de Abril de 1969

 

Memória de um dia limpo – 17 de Abril de 1969

 

A sombra  do olvido não murchou

a glória sempre  aberta dessa dia.

 

A  saudade inventa o que é mais novo

na sombra da memória que sonhámos.

 

Foram  homens  de negro a desabar

no coração de espanto desse dia.

 

E um cerco de ferro foi lançado

num garrote de medo e crispação.

 

Os soldados da noite enegreceram

a sombra das palavras por dizer.

 

Mas houve uma palavra incendiada

dizendo-se na própria liberdade.

 

 e o sórdido milhafre ficou mudo

fechado em sua enorme solidão.

 

Um quadrado de raiva fez-se vento

e  os muros começaram a cair.

                                                           (17 de Abril de 2024)

domingo, 17 de abril de 2022

 


 

LOUVOR AO 17 DE ABRIL

[1969/2022]

 

A pérola do tempo descansou

na guitarra  longínq1ua da saudade,

deixando que um só dia incendiasse

o sagrado sabor da liberdade.

 

Nas mãos nuas dos versos desarmados

que colhem a chegada da alegria,

foi gravada a lenda deste dia

respirou-se no vento a tempestade.

 

Um gume de revolta atravessou

o perfume da nossa primavera

e a verdade ficou no meio de nós,

colhendo-se inteira até ao fim.

 

Capas negras dos sonhos acordados

foram sangue no próprio coração,

dizendo-nos por dentro de quem somos

com as palavras livres e despertas.

 

Caminhámos por todos os lugares,

navegando sempre além do fim,

fomos cidade,  amor  e sedução,

voz súbita de todos os poetas.

 

Quando os corvos do medo nos cercaram

não colhemos a flor do desespero,

erguemo-nos na nossa condição

e lutámos

             [ 17 de Abril de 2022]                                                                                                                                                                   

sábado, 17 de abril de 2021

Ressonância do 17 de Abril de 1969


Ressonância do 17 de Abril de 1969

         -homenagem às lutas estudantis pela liberdade e pela justiça

 

Está em sépia o perfume deste dia,

navegando a memória, cheiro antigo.

Passa a brisa dos dias docemente,

quase luz, melancólica saudade.

 

Eram negros os corvos desse tempo,

cercando cada gesto, cada passo,

sem tréguas, com ódio, sem pudor,

apodrecendo mais em cada dia.

 

Abrimos a janela do futuro

num incêndio de paz e juventude.

Rasgámos o cinzento que doía,

respirando por dentro da alegria.

 

Quantos anos passaram desfilando

por glórias, sonhos e paixões.

Deixamos que a memória nos semeie,

colhemos esse dia e somos sempre.

 

                       [Rui Namorado- abril de 2021]



sábado, 27 de junho de 2020

Recordando o Osvaldo Castro




Recordando o Osvaldo Castro
Já há alguns dias, a Teresa no FB e a Catarina, numa mensagem que me enviou, evocaram o Osvaldo com saudade e amor. Associo-me a essa memória numa homenagem fraterna e agradeço-lhes por me terem associado a essa lembrança. Deveria tê-lo feito mais cedo, mas uma circunstancial urgência na conclusão de uma tarefa útil absorveu-me a atenção por alguns dias. Escrevo agora.
Em junho de 2014 fui honrado pelo convite de participar numa homenagem ao Osvaldo Castro. É o texto que reproduz as palavras que então disse e que publiquei neste mesmo blog que aqui vou transcrever.

"Às vezes, o tempo atravessa-nos como um estilete implacável, para nos lembrar brutalmente como corre. É assim que os amigos nos deixam. Com ou sem aviso, mas inscrevendo sempre dentro de nós o rasto de uma saudade que, mesmo esbatendo-se melancolicamente, não passará.
E, quando partilhámos com eles desígnios, que foram muito para além da pequena dimensão de cada um de nós, essa saudade tinge-se de uma memória que a ergue sem tristeza, como se todo o passado que nos diz respeito estivesse afinal concentrado no futuro de que não desistimos.
Por isso, o Osvaldo está hoje aqui presente, não só como a sombra luminosa de uma saudade, mas também como camarada de um futuro que, mesmo quando parece afastar-se de nós pela crueldade fria da história, continua como horizonte irrenunciável das nossas vidas.
Corria o mês de Janeiro de 1968. Não sabíamos ainda que se aproximava um mês de Maio que inscreveria, uma vez mais, a França na legenda histórica do inconformismo e da revolta. Não sabíamos ainda que um velho ditador iria cair de uma cadeira e do poder, oito meses depois. E muito menos sabíamos que o garrote fascista que nos apertava o pescoço se desfaria em pó, pouco mais de seis anos depois.
Sete estudantes de Coimbra sentaram-se em volta de uma mesa para uma primeira reunião na cave da República do Ninho dos Matulões: o Osvaldo Castro, o Celso Cruzeiro, o Carlos Baptista, o Pio Abreu, o Jorge Strecht, o Jorge Aguiar e eu próprio. O Conselho das Repúblicas e os Organismos Autónomos haviam-nos escolhido para liderarmos o combate contra o estado de exceção na AAC, contra os delegados do Governo que usurpavam a direção da Associação Académica de Coimbra, contra a Comissão Administrativa que nos envergonhava.
A democracia tinha que regressar á nossa Associação, a Academia de Coimbra não queria ver prolongada a sua humilhação. Cabia-nos conseguir a realização de eleições.
Éramos, por isso, a Comissão pró-Eleições. Liderámos o movimento estudantil em Coimbra até ao início do ano seguinte, quando, tendo sido cumprido o encargo que recebemos, uma nova direção eleita para a AAC tomou o seu lugar na liderança do movimento estudantil em Coimbra.
Sinalizando uma continuidade procurada, o Osvaldo e o Celso faziam parte da nova direção, ao lado do Alberto Martins, da Fernanda da Bernarda, do Matos Pereira, do Gil Ferreira e do José Salvador.
Nessa tarde simples de um janeiro banal, começou de algum modo uma nova aventura. Aqueles primeiros sete estudantes, mas também os outros cinco, sabiam-se e queriam-se como apenas um punhado entre milhares. Gostavam de ler, de escrever, de viver o teatro, a música e o canto, de praticar desporto, de serem gente da boémia coimbrã e até de estudar. Gente comum que não tinha interesse em subir ao palco das pequenas glórias, que não estava impregnada pela vertigem ilusória das pequenas ambições. Uns acabados de entrar na juventude, outros navegando a meio do rio, outros ainda resistindo teimosamente a sair dela.
Não podíamos defraudar os que haviam confiado em nós. Não éramos heróis de coisa nenhuma, mas estávamos dispostos a vender cara a nossa pele. Não íamos cumprir um calendário de sofrimento. Íamos conseguir eleições. E houve eleições na AAC.
O fascismo, irritado com aquele primeiro passo, largou os mastins da violência contra os estudantes. Os estudantes resistiram. A luta entrou num patamar mais duro, novos protagonistas a lideraram nesta nova e mais difícil fase. A responsabilidade dirigente passara a um outro coletivo, no qual o Osvaldo também participava. Um outro coletivo, mas a mesma determinação e o mérito acrescido de terem navegado com êxito numa tormenta maior.
Sem tergiversarem, mas com a serena inteligência dos justos, com determinação, sempre olhando a realidade a partir dos estudantes, sem inúteis alaridos, mas sempre de pé, a Direcção-Geral da AAC ergueu-se com a Academia, tornando evidentes os limites que crescentemente apertavam o fascismo.
Nas reuniões assim como na liderança coletiva do movimento, o Osvaldo era o tecido conjuntivo que dava coesão às equipas, que transmitia serenidade e que limava com bonomia as arestas naturais das crispações de ocasião. Os companheiros de responsabilidade, os estudantes, não se limitavam a respeitá-lo. Gostavam dele.
O poder fascista não conseguiu esmagar a Academia de Coimbra. O governo não caiu, mas verificámos depois que algo se quebrou então dentro dele, arrastando-o para uma anemia crescente da qual nunca se viria a recompor.
Hoje, sabemos que aqueles anos mágicos vertebraram as nossa vidas sem que nos transformassem em antigos combatentes. O horizonte, que o Osvaldo partilhava com tantos de nós, continua vivo. É certo que talvez tenhamos encarado esse horizonte, ao longo da vida, de maneiras entre si diferentes, que nos levaram por vezes a enveredar por caminhos diversos, mas nenhum de nós deixou escapar as utopias em que realmente acreditava.
O tempo passou pelas nossas vidas como uma tempestade de esperança muitas vezes travada por melancolias e desilusões. O Osvaldo deixou sempre que a tempestade o levasse, não como folha perdida a que escapasse o norte, mas como a vontade firme e serena de quem quer fazer parte dela.
Mesmo quando os nossos caminhos se afastaram, sempre trocámos com naturalidade sinais de uma amizade intocável. Quando voltaram a convergir e nos reencontrámos na Assembleia da República como deputados do mesmo Partido, tudo se passou como se na semana anterior tivéssemos dito um até já, no fim de uma reunião. E haviam passado décadas.
Os anos haviam-no amadurecido, mas não o tinham mudado. Como deputado ou como governante, o Osvaldo, ainda mais apurado na sua competência, cultivou sempre como se voasse a memória dos anos mágicos, ouviu sempre com alegria o marulhar generoso das “repúblicas”, exerceu sempre sem embaraço a ironia aguçada da congeminação.
 Por isso, é hoje tão difícil saber se esta saudade é a melancolia de um outono que teima em nos invadir, ou a combustão virtuosa da esperança que nos faz viver, a todos nós, homens comuns vertebrados pelo futuro.
Concluo estas palavras de justa homenagem com um poema que escrevi em memória do Osvaldo, no meu blog, quando ele nos deixou:

Adeus, Osvaldo.

O tempo desabou sobre o teu nome
e o passado ocupou-te rudemente.

Um violento nó foi apertado
no coração mais triste da memória.

A tua ausência rasga-nos por dentro
como se toda a lembrança fosse dor.

Agora és a semente libertada
nas avenidas lentas do futuro.

Não chega!

É todo  o teu presente que nos falta
o sabermos que estavas nalgum lado.

Essa espera tranquila que sabia
ir ouvir-te de novo e abraçar-te.

É nova esta saudade e já sem fim.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

EVOCAÇÃO DO 17 DE ABRIL DE 1969



EVOCAÇÃO  DO 17 DE ABRIL DE 1969

Abro as portas do tempo devagar
colhendo mil memórias de um só dia.

No espelho destes anos que passaram
sinto a sombra dos sonhos naufragados.

Há hoje na cidade nova peste.
Cerca os dedos da vida de um bolor
que nos queima e nos perde sem parar.

Não estava escrito então este silêncio
na boca das revoltas que inventámos.

Não era o não ser desta agonia
que apunhalava a negro a cor das ruas.

Por isso, esta guitarra que se esvai
desmoronada em peste  rua a rua
colhe em silêncio toda a luz do dia.

Escrevamos pois de novo outro lugar
onde caiba em pleno o mês de abril.

                        Rui  Namorado
                   [ Coimbra, 16 de abril de 2020]

domingo, 28 de julho de 2019

As pétalas do tempo


Em Braga, na Universidade do Minho, em abril passado, o Alberto Martins, o Celso Cruzeiro e eu, participamos numa conversa sobre a crise universitária de Coimbra de 1969. Uma conversa sobre o futuro.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Em Memória da Crise Académica de 1969



Gente de Abril
                   (homenagem ao 17 de abril de 1969)

O orvalho do tempo arrefeceu
a memória desperta  desse  dia

e na rosa dos ventos desprendeu-se
uma ferida no tempo  já saudade

Os braços destes anos  estão mais frios
quando se trata de agarrar a esperança

mas é por nós que sobe a teimosia
de não escolher a estrada da tristeza

A sombra do futuro não permite
esquecer  o que semeia a liberdade

e é  sempre neste dia que aprendemos
que há sempre um recomeço em cada fim
                                                       
                            Rui  Namorado
                            (17 de abril de 2018)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Regresso a 17 de Abril de 1969




Regresso a 17 de Abril de 1969

Como princesa triste está deitada
Coimbra do eterno encantamento
Lembrada desse dia eternamente
Irmã antiga do que mais quisemos.

O fio da memória traz ainda
A luz aberta e limpa desse dia.
Uma luz crua, imensa , sem fronteiras,
Como se o tempo fosse hoje e não passasse.

Lenta a saudade paira sobre nós
Brisa de um tempo que não tem limites.
Há nomes que nos rasgam por partirem
Quando era ainda o tempo de ficarem.

Vamos sendo esculpidos docemente  
Por dias novos  sempre já passados,
Quando ágeis se escapam entre os dedos
Como se antes de serem, regressassem.

Voltamos por todos os caminhos
Ao tempo que fundámos nesse dia.
Cada hora nos lembra do mistério
De termos sido o vento da alegria.

E agora que os anos se cansaram
Da limpidez sem margens do futuro
E parecem perdidos da aventura
Esquecidos do clamor e da viagem,

Voltamos às planícies que inventámos
Para sermos  a semente,  tempestade,
Na linha vertical que cultivámos
Subindo desmedida em todos nós.

Escrevemos a memória no futuro,
Colhemos a saudade sem temor,
Onde estivermos está o mês de Abril
A cólera dos sonhos, o amor.

Subimos a garganta dos clamores
No gume das palavras mais cortantes,
Queremos  a voz exacta da justiça
O som de respirar a liberdade.


[ Rui Namorado -17/04/2017]


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

3 de setembro - feira do livro - Porto : ABRIL ANTES DE ABRIL


                                                     [Clique sobre a imagem para a poder ver aumentada]


No sábado ,  3 de Setembro, na Feira do Livro do Porto, às 18 horas, vai ser apresentado o meu livro sobre a crise universitária de Coimbra de 1969. Os comentários caberão ao Alberto Martins e ao Jorge Strecht Ribeiro, dois amigos que estiveram bem no centro desse furacão.

A memória desses tempos não é uma saudade. É uma ambição futurante que até hoje não deixaram ainda descansar. É que  alguns dos futuros que então se imaginaram estão ainda por chegar.

 A presença dos amigos e de quaisquer  interessados será  honrosa  e estimulante.

Esta aviso é especialmente dirigido , como seria de esperar , a quem nesse dia ande por perto ou viva no Porto. Claro, com uma relativa dispensa a quem tenha estado em Coimbra naquele inesquecível convívio de abril passado.

Lá vos espero.

Rui Namorado

3 de setembro - feira do livro - Porto : ABRIL ANTES DE ABRIL


                                                     [Clique sobre a imagem para a poder ver aumentada]


No sábado ,  3 de Setembro, na Feira do Livro do Porto, às 18 horas, vai ser apresentado o meu livro sobre a crise universitária de Coimbra de 1969. Os comentários caberão ao Alberto Martins e ao Jorge Strecht Ribeiro, dois amigos que estiveram bem no centro desse furacão.

A memória desses tempos não é uma saudade. É uma ambição futurante que até hoje não deixaram ainda descansar. É que  alguns dos futuros que então se imaginaram estão ainda por chegar.

 A presença dos amigos e de quaisquer  interessados será  honrosa  e estimulante.

Esta aviso é especialmente dirigido , como seria de esperar , a quem nesse dia ande por perto ou viva no Porto. Claro, com uma relativa dispensa a quem tenha estado em Coimbra naquele inesquecível convívio de abril passado.

Lá vos espero.

Rui Namorado

domingo, 22 de junho de 2014

Palavras de homenagem ao Osvaldo Castro




No passado dia 20 de junho, ocorreu em Lisboa, no Museu da Resistência e da República, uma Homenagem ao Osvaldo Castro, um ano depois de ele nos ter deixado. Foi-me dada a honra de ser um dos intervenientes. A sala repleta ilustrava a marca que o Osvaldo deixou entre nós. A sua família, que também se colocou com naturalidade dentro da nossa saudade e dentro do nosso afecto, sublinhou bem a tristeza e o júbilo que pairavam na sala.  Eis o texto que então li:

"Às vezes, o tempo atravessa-nos como um estilete implacável, para nos lembrar brutalmente como corre. É assim que os amigos nos deixam. Com ou sem aviso, mas inscrevendo sempre dentro de nós o rasto de uma saudade que, mesmo esbatendo-se melancolicamente, não passará.

E, quando partilhámos com eles desígnios, que foram muito para além da pequena dimensão de cada um de nós, essa saudade tinge-se de uma memória que a ergue sem tristeza, como se todo o passado que nos diz respeito estivesse afinal concentrado no futuro de que não desistimos.

Por isso, o Osvaldo está hoje aqui presente, não só como a sombra luminosa de uma saudade, mas também como camarada de um futuro que, mesmo quando parece afastar-se de nós pela crueldade fria da história, continua como horizonte irrenunciável das nossas vidas.
Corria o mês de Janeiro de 1968. Não sabíamos ainda que se aproximava um mês de Maio que inscreveria, uma vez mais, a França na legenda histórica do inconformismo e da revolta. Não sabíamos ainda que um velho ditador iria cair de uma cadeira e do poder, oito meses depois. E muito menos sabíamos que o garrote fascista que nos apertava o pescoço se desfaria em pó, pouco mais de seis anos depois.

Sete estudantes de Coimbra sentaram-se em volta de uma mesa para uma primeira reunião na cave da República do Ninho dos Matulões: o Osvaldo Castro, o Celso Cruzeiro, o Carlos Baptista, o Pio Abreu, o Jorge Strecht, o Jorge Aguiar e eu próprio. O Conselho das Repúblicas e os Organismos Autónomos haviam-nos escolhido para liderarmos o combate contra o estado de exceção na AAC, contra os delegados do Governo que usurpavam a direção da Associação Académica de Coimbra, contra a Comissão Administrativa que nos envergonhava.

A democracia tinha que regressar á nossa Associação, a Academia de Coimbra não queria ver prolongada a sua humilhação. Cabia-nos conseguir a realização de eleições.

Éramos, por isso, a Comissão pró-Eleições. Liderámos o movimento estudantil em Coimbra até ao início do ano seguinte, quando, tendo sido cumprido o encargo que recebemos, uma nova direção eleita para a AAC tomou o seu lugar na liderança do movimento estudantil em Coimbra.

Sinalizando uma continuidade procurada, o Osvaldo e o Celso faziam parte da nova direção, ao lado do Alberto Martins, da Fernanda da Bernarda, do Matos Pereira, do Gil Ferreira e do José Salvador.

Nessa tarde simples de um janeiro banal, começou de algum modo uma nova aventura. Aqueles primeiros sete estudantes, mas também os outros cinco, sabiam-se e queriam-se como apenas um punhado entre milhares. Gostavam de ler, de escrever, de viver o teatro, a música e o canto, de praticar desporto, de serem gente da boémia coimbrã e até de estudar. Gente comum que não tinha interesse em subir ao palco das pequenas glórias, que não estava impregnada pela vertigem ilusória das pequenas ambições. Uns acabados de entrar na juventude, outros navegando a meio do rio, outros ainda resistindo teimosamente a sair dela.

Não podíamos defraudar os que haviam confiado em nós. Não éramos heróis de coisa nenhuma, mas estávamos dispostos a vender cara a nossa pele. Não íamos cumprir um calendário de sofrimento. Íamos conseguir eleições. E houve eleições na AAC.

O fascismo, irritado com aquele primeiro passo, largou os mastins da violência contra os estudantes. Os estudantes resistiram. A luta entrou num patamar mais duro, novos protagonistas a lideraram nesta nova e mais difícil fase. A responsabilidade dirigente passara a um outro coletivo, no qual o Osvaldo também participava. Um outro coletivo, mas a mesma determinação e o mérito acrescido de terem navegado com êxito numa tormenta maior.

Sem tergiversarem, mas com a serena inteligência dos justos, com determinação, sempre olhando a realidade a partir dos estudantes, sem inúteis alaridos, mas sempre de pé, a Direcção-Geral da AAC ergueu-se com a Academia, tornando evidentes os limites que crescentemente apertavam o fascismo.

Nas reuniões assim como na liderança coletiva do movimento, o Osvaldo era o tecido conjuntivo que dava coesão às equipas, que transmitia serenidade e que limava com bonomia as arestas naturais das crispações de ocasião. Os companheiros de responsabilidade, os estudantes, não se limitavam a respeitá-lo. Gostavam dele.

O poder fascista não conseguiu esmagar a Academia de Coimbra. O governo não caiu, mas verificámos depois que algo se quebrou então dentro dele, arrastando-o para uma anemia crescente da qual nunca se viria a recompor.

Hoje, sabemos que aqueles anos mágicos vertebraram as nossa vidas sem que nos transformassem em antigos combatentes. O horizonte, que o Osvaldo partilhava com tantos de nós, continua vivo. É certo que talvez tenhamos encarado esse horizonte, ao longo da vida, de maneiras entre si diferentes, que nos levaram por vezes a enveredar por caminhos diversos, mas nenhum de nós deixou escapar as utopias em que realmente acreditava.

O tempo passou pelas nossas vidas como uma tempestade de esperança muitas vezes travada por melancolias e desilusões. O Osvaldo deixou sempre que a tempestade o levasse, não como folha perdida a que escapasse o norte, mas como a vontade firme e serena de quem quer fazer parte dela.

Mesmo quando os nossos caminhos se afastaram, sempre trocámos com naturalidade sinais de uma amizade intocável. Quando voltaram a convergir e nos reencontrámos na Assembleia da República como deputados do mesmo Partido, tudo se passou como se na semana anterior tivéssemos dito um até já, no fim de uma reunião. E haviam passado décadas.

Os anos haviam-no amadurecido, mas não o tinham mudado. Como deputado ou como governante, o Osvaldo, ainda mais apurado na sua competência, cultivou sempre como se voasse a memória dos anos mágicos, ouviu sempre com alegria o marulhar generoso das “repúblicas”, exerceu sempre sem embaraço a ironia aguçada da congeminação.

 Por isso, é hoje tão difícil saber se esta saudade é a melancolia de um outono que teima em nos invadir, ou a combustão virtuosa da esperança que nos faz viver, a todos nós, homens comuns vertebrados pelo futuro.

Concluo estas palavras de justa homenagem com um poema que escrevi em memória do Osvaldo, no meu blog, quando ele nos deixou:


Adeus, Osvaldo.


O tempo desabou sobre o teu nome
e o passado ocupou-te rudemente.

Um violento nó foi apertado
no coração mais triste da memória.

A tua ausência rasga-nos por dentro
como se toda a lembrança fosse dor.

Agora és a semente libertada
nas avenidas lentas do futuro.

Não chega!

É todo  o teu presente que nos falta
o sabermos que estavas nalgum lado.

Essa espera tranquila que sabia
ir ouvir-te de novo e abraçar-te.

É nova esta saudade e já sem fim.".


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Poema ao 17 de Abril de 1969




no tempo dos desertos e das sombras
quando as manhãs custavam a chegar

fomos o gesto que não tem fronteiras
com sílabas sem medo com revolta

no pano negro que não tinha fim
rasgou-se então uma pequena luz

e as noites começaram a murchar
presas na teia do seu próprio fim

nos pátios tão augustos dos saberes
uma pequena luz foi inventada

sem o sabermos fomos a semente
do vento que chamou por outros ventos

[Rui  Namorado]

terça-feira, 17 de abril de 2012

Homenagem ao 17 de Abril, sempre

Cada ano regressa o mesmo dia,
Também ele escrevendo-se em Abril
E em nós com o estilete da memória.

Voltamos ao princípio do que fomos,
Ao gesto que fizemos, quando erguemos
A própria nudez da liberdade.

E ali ficámos quando a noite veio,
Como a primeira hora de outro dia,
Uma hora do sonho e da verdade.

Alguém nos desenhou com esse mês,
Novos braços de um vento desregrado,
Sabendo ser irmãos e sermos nós.

Por isso, descobrimos esses dias,
Esquecendo a flor da mágoa, da saudade
E a sombra já esbatida de outras horas.

Mas não ficámos presos nesse tempo,
Castelos pelo musgo corroídos,
Cercados pelos espectros da glória.

Fomos portas abertas ao que vinha,
Colhendo as asas do que mais voasse,
Sementes do incerto em movimento.

Tatuagem do tempo em todos nós,
Palavra sempre escrita no futuro,
Guardemos o perfume desse dia.


[Rui Namorado]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

EVOCAR O 17 de ABRIL DE 1969.

Amanhã, à noite, em Coimbra, no Café Santa Cruz, tertúlia comemorativa dos 43 anos do início da crise univeristária de 1969 .

domingo, 17 de abril de 2011

17 DE ABRIL DE 1969


O tempo vai tingindo com os tons sépia da saudade a memória daquele dia. Alguém foi mandatado para se levantar e levantou-se. Com ele se levantaram nos meses seguintes milhares de estudantes de Coimbra, fiéis a si próprios e às coisas limpas da vida.

Pedindo-se pouco, queria-se tudo. Mas a generosidade juvenil desses milhares, que arriscaram tanto, não estava fechada nas legítimas ambições de cada um. Queria-se tudo para o povo português, que apenas se olhava como um irmão de outros povos.

A palavra dos estudantes que o Presidente da Associação Académica de Coimbra pediu que fosse ouvida naquele dia era principalmente a voz da nossa liberdade recusada, indisponível para mais silêncio. A Universidade Nova que tão claramente foi exigida naqueles meses não era um Olimpo onde quiséssemos ser tratados como deuses. Era um sinal desejado de um país novo, realmente livre e justo.

A implacável censura do fascismo salazarista escondeu e distorceu repetidamente o que se estava a passar então em Coimbra. Num tempo sem a tecnologia de comunicação hoje existente, apenas os irredutíveis canais da comunicação pessoal directa ficavam ao nosso alcance. Mesmo assim os portugueses foram sabendo o que se passava em Coimbra; a Europa e o mundo também, conquanto mais difusamente.

Nos meses de combate desigual com o aparelho de Estado fascista não faltou a solidariedade de muitos portugueses, entre os quais a de alguns inesquecíveis Professores da nossa Universidade. A Academia de Coimbra foi durante alguns meses o lugar simbólico da resistência e através dela a Universidade de Coimbra eximiu-se à sombra comprometedora de uma excessiva cumplicidade e de uma conotação expressa com o regime salazarista.

Em cada momento de luta os que então estiveram presentes nunca esqueceram que em anos anteriores, em épocas anteriores, outras gerações se haviam erguido como eles num mesmo ímpeto de liberdade e de justiça. Foi também a essa tradição de luta que souberam ser fiéis.

Pela força das coisas, a luta não pareceu vitoriosa. No imediato o governo continuou. Mas não foi esmagada, já que para normalizar a vida universitária o governo foi forçado a extinguir todos os processos disciplinares, administrativos e criminais contra estudantes; a reabrir a AAC com realização de eleições; a nomear um Reitor que tivesse a confiança dos estudantes; a substituir o Ministro da Educação por um outro ostensivamente menos autoritário. Hoje, pode ver-se com clareza que em 1969 em Coimbra foi dado um decisivo empurrão para o fim do fascismo que viria a ocorrer cinco anos depois, também em Abril.

O tempo desliza implacável sobre as memórias, mas não apaga a ideia cada vez mais viva de que, sendo embora a luta universitária de 1969 uma enorme honra no passado de todos os que nela participaram e uma honra irremovível da Academia de Coimbra, está fundamentalmente inscrita no futuro. Compreendermos isto, cada vez melhor, é a homenagem que lhe devemos.