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terça-feira, 26 de julho de 2011

POEMA PARA A NORUEGA

Em homenagem às vítimas do terrorismo negro na Noruega, partilho na blogosfera este poema em dois tempos, que hoje escrevi.


Poema em dois tempos para a Noruega

1. Oslo

As rosas choram em Oslo,
Choram-se em Oslo flores.

Oslo, palavra colhida,
Jardim de cinza, tristeza.

Oslo, lágrima suspensa,
Palavra desmoronada,
Silêncio, cólera fria.

Em Oslo, choram-se rosas.
Apenas rosas…

2. A Ilha

No meio-dia de todos os desastres,
Um gesto foi suspenso.

Luzes acesas de pequenas esperanças
Faziam numa ilha aberta e limpa
Uma oração de futuro.

Sem medo e ainda sem saudade,
Passavam a limpo a luz da tarde,
Intuindo na sombra dos segredos
As palavras que escrevem o mistério.

Mas o gelo foi súbito e fatal,
Uma noite sem tréguas nem perdão,
Um ódio desbragado, torpe, sujo,
Um deserto, sem tempo nem miragens.

Na ilha há um silêncio denso
E frio, como as folhas caídas…

[ Rui Namorado]

NÃO FICÁMOS DE FORA !

Um bandido norueguês, que a si próprio se olha como um cruzado, odeia o marxismo, o islamismo e a democracia, massacrou dezenas de compatriotas seus. Na sua lista de ódio, onde estava escrita a morte de dezenas de milhares de seres humanos, o bandido incluiu dez mil portugueses. Fui assim indirectamente colocado nessa trágica e honrosa lista dos odiados, fomos, todos nós portugueses inscritos nesse quadro de honra dramático.Um bandido norueguês de extrema-direita tornou-me irmão de todos noruegueses mortos e de todos outros cidadãos do mundo cuja morte foi prometida. Foram os jovens trabalhistas noruegueses. Podiam ter sido portugueses. Podiam ter sido cidadãos do mundo. Não é tempo de medo. É tempo de solidariedade e de revolta. Mas, sem o saber, o bandido norueguês deu-nos a honra de nos inscrever na sua lista de ódio.

Num outro tempo, um grande poeta alemão que se opôs aos nazis escreveu um poema de que me lembrei. Assim, em homenagem aos que foram assassinados, vou relembrar, na sua versão portuguesa de Paulo Quintela, esse poema de Bertolt Brecht :


A QUEIMA DOS LIVROS


Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!

[Bertolt Brecht]

domingo, 24 de julho de 2011

O TERRORISTA INCONVENIENTE

A chuva das declarações formais de solidariedade para com os noruegueses, a intensificação do discurso oficial contra o terrorismo, não conseguem esconder por completo uma subtil contenção, a sombra de uma levíssima complacência para com um criminoso branco, nórdico, louro, conservador e cristão, com fortes pinceladas de extrema-direita. Ou seja, um terrorista com características inconvenientes. Tão inconvenientes que o jargão mediático disponível para estas situações ficou um pouco estremunhado e tarda a encontrar o registo adequado.


Ontem, por exemplo, um esforçado especialista em assuntos nórdicos,daqueles que pululam na nossa velha Lisboa, forte de um primo que lhe vive na Suécia, espremia-se desesperadamente perante uma jornalista curiosa, para tentar compreender o porquê da acção terrorista. Dada a infeliz coincidência do jovem terrorista, já confesso, nem sequer ser muçulmano, ou simpatizante do IRA ou da ETa, ou solidário com os anarquistas com os altermundialistas ou com qualquer sensibilidade verde mais radical, não podia ser nele nem no seu posicionamento político que se devia procurar qualquer explicação. Muito menos nas organizações que o protagonizam esse posicionamento político. E, no entanto, num único golpe o terrorista loiro causou mais baixas do que a ETA causou em dezenas de anos da sua actividade, finalmente terminada.


Por isso, talvez a raiz do mal estivesse neste caso na vítima, na própria Noruega, nos abastados (conquanto viciosamente democráticos) noruegueses. E o homem o especialista na televisão, continuava a espremer-se. Espremia-se quase pedindo desculpa por não encontrar uma explicação que nos ajudasse a compreender por que estranha razão um pobre militante da extrema-direita fora impulsionado a assassinar quase um centena de noruegueses, a maior parte dos quais ainda por cima pertencentes à juventude do Partido Trabalhista Norueguês.


Hoje, na página do DN, levantava-se uma ponta do véu.:”A polícia deteve um norueguês de 32 anos, identificado como Anders Behring Breivik, que já confessou a autoria dos ataques, considerando que foram "cruéis", mas necessários”.


Por mim, fiquei sem dúvidas: ou muito trivialmente vemos no miserável crime um acto de brutalidade terrorista de um militante de extrema-direita, agindo sozinho ou como braço armado de uma organização dessa área; ou, se queremos ir para uma explicação mais funda, encaremos então o atentado como uma metáfora viva que simboliza o essencial da lógica dominante, na fase histórica que atravessamos. Na verdade, todos os dias os divulgadores de más notícias, há uns tempos a esta parte denodadamente sorridentes, nos comunicam que foram ou vão ser tomadas medidas cruéis mas necessárias.