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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Educação, sindicatos e manifestação



                                 [Um militante do PSD e um militante do PCP lideram uma manifestação]

Educação, sindicatos e manifestação

1. Os  protagonistas principais  da educação no nosso país têm deixado, ao longo deste novo século, confinar esta problemática, em larga medida, às questões sindicais que envolvem a profissão docente. Este caminho está longe de conduzir a um pleno florescimento do processo educativo e de suscitar uma verdadeira dignificação da profissão docente e a realização profissional e humana dos professores.

 A sociedade tem vindo a tornar-se cada vez mais complexa, na esteira de uma vertiginosa evolução tecnológica, de uma crescente diversificação cultural, de uma desordenada aceleração da velocidade de circulação da informação e de uma imensa facilidade comunicacional. A multiplicidade de veículos de difusão do conhecimento e da informação convive com uma enorme escassez de instrumentos críticos que permitam o seu pleno e real aproveitamento em benefício de todos. 

Pior, a democracia continua tolhida e a sociedade injusta. A resposta dada pelas políticas educativas a esta complexidade tem sido insuficiente. Talvez demasiado presa a um conservadorismo estrutural que ficciona movimento em detalhes e em aspetos secundários, mas que não consegue quebrar as amarras estruturais que o tolhem. Os oásis de criatividade que felizmente enriquecem o panorama educativo português não são suficientes para apagarem a sensação de secura que predomina no plano da inovação educativa.

2. Se olharmos, à  luz destas dificuldades, para a agenda que tem dominado os debates em torno da problemática educativa no nosso país, veremos como temos ficado longe do desejável. Não significa isso que se deva menosprezar o tipo de questões que têm ocupado a ribalta pela mão dos sindicatos dos professores. Significa que quanto mais tudo se conserve fechado dentro delas, mais difícil será  chegar-se a uma verdadeira solução que, caminhando para uma maior justiça, rasgue em simultâneo novos horizontes.

3. A esta luz, não pode deixar de se pôr em dúvida o acerto da marcação da anunciada manifestação  para  o próximo dia 5 de outubro, dia de reflexão por ser  véspera das eleições legislativas.

Há meses atrás, no auge do seu confronto com o governo, os sindicatos dos professores anunciaram um vasto programa de lutas que incluía a referida manifestação. Ficou por isso bem sublinhado o carácter antigovernamental da manifestação.

Ora, se no dia de reflexão é proibida a propaganda a favor de qualquer partido, não deixa também de o ser, a propaganda contra. E essa proibição tem um sentido substancial e não formal; não está apenas em causa a explícita crítica ou o explícito apoio, está em causa o sentido das ações, dos cartazes e das palavras de ordem e não apenas a sua letra. Se esta manifestação, como já foi assumido pelos promotores, contende diretamente com decisões políticas do governo, não deixará de se traduzir em apoiá-lo ou criticá-lo, ainda que implicitamente. E se assim é, nesse dia é ilegal. Haver uma razão verosímil para que ela seja feita nesse dia, não parece suficiente para tornar lícito o que a lei por razões de transparência eleitoral, proíbe.

4. Sendo por isso pelo menos discutível a legalidade da manifestação em causa, não se compreende a razão por que se insiste nela. Sendo antes de umas eleições após as quais haverá um novo governo, não parece haver outra razão para a fazer nesse dia do que a   tentativa de prejudicar o PS, partido que suporta o atual governo. E isso é precisamente o que a lei eleitoral proíbe.

Para além disso, se olharmos com atenção para o que ocorreu nos últimos meses, em torno do conflito entre o governo e os sindicatos dos professores, podemos ver que está longe de poder ser dado como certo que uma manifestação contra o PS promovida pelos sindicatos dos professores prejudique realmente o PS. A fazer fé no que tem sido dito por partidos, jornalistas e opinadores de referência, essa sofreguidão anti-PS pode acabar por beneficiá-lo. E isso seria uma saborosa ironia objetiva que deixaria a nu a tacanhez tática e estratégica das figuras liderantes dos sindicatos dos professores.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019


 
Um substituto de Rui Rio ?

O ex-deputado do PSD Jorge Roque da Cunha tem usado a sua qualidade de dirigente do Sindicato Independente dos Médicos para, instrumentalizando e empolando qualquer problema que surja no funcionamento do SNS, promover uma campanha política agressiva contra o atual Governo.

Mais honesto, politicamente, seria ter-se candidatado à liderança do seu partido para fazer a partir dessa liderança os combates antigovernamentais que entendesse. Rui Rio podia assim ficar descansado e o terrível Dr. Cunha daria vazão legitimamente a toda a sua acrimónia contra o atual Governo. Mas usar um Sindicato como megafone, de modo a permitir-lhe fazer-se ouvir na comunicação social, parece-me um claro abuso de poder e uma ofensa à ética sindical a que deveria obedecer.

Será que todos os médicos inscritos no SIM fazem sua a sanha antigovernamental do Dr. Cunha? Todos eles , como o fez o Dr. Cunha, alinham na delação de colegas perante a Ordem dos Médicos, por não seguirem o que ele acha bem?

Admito que o Sindicato em questão preze muito ser Independente; mas, se assim é, não pode permitir que Roque da Cunha continue a arrastá-lo para uma dependência triste, em face da esquálida  orientação estratégica do PSD.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Deslize ou sinal ?



Numa estação televisiva, o advogado sindicalista dos motoristas de matérias perigosas desferiu ontem um inusitado ataque ao Governo, ao arrepio do tom cordato de relacionamento que tem predominado nas relações entre o Governo e os parceiros socais envolvidos.Terá isso sido apenas um deslize circunstancial ou será afinal um sintoma e um sinal ?

É cedo para o sabermos sem margem para dúvidas. Mas é legítimo que nos interroguemos, perante o que ouvimos e tendo em conta o modo como toda esta luta surgiu, se desenvolveu e foi preparada, sobre se ela é apenas corolário objetivo de reivindicações e aspirações dos motoristas envolvidos acicatadas pela conjuntura. Não será também um aproveitamento desse descontentamento, para visar objetivos políticos gerais bem definidos e cuidadosamente ocultados?


Objetivos que, diga-se desde já, a existirem nada têm de democrático, objetivos que a existirem em última instância e a longo prazo seriam também contrários ao interesse dos próprios trabalhadores envolvidos.

Como acima disse, a diatribe anti-governamental do advogado sindicalista não é suficiente para se poder ter como certo esse desvirtuamento da luta. No entanto, não deixa de nos alertar para a possibilidade de haver uma agenda política oculta que transcende as razões da greve publicitadas.

Os acontecimentos futuros vão certamente mostrar até que ponto se justifica esta desconfiança.

domingo, 19 de agosto de 2018

Libertar os professores socialistas?





Libertar os professores socialistas?

Há um velho dilema objetivo que se coloca aos professores socialistas. Especialmente aos militantes e aos simpatizantes do PS, mas que envolve também os seus eleitores habituais. Devem os professores socialistas esquecer o seu vínculo partidário, quando se trata da atividade sindical, enquanto  os militantes e simpatizantes de outros partidos o não fazem?  Deve, nestas circunstâncias, o Partido continuar totalmente alheio a esse dilema, não dando aos socialistas qualquer orientação explícita e taxativa ,  nem sequer dando também  qualquer indicação preferencial com o simples carácter de sugestão?

O que foi noticiado este fim de semana quanto às posições dos sindicatos dos professores no que concerne à aprovação do próximo orçamento de Estado  reacende a questão. De facto, os sindicatos em causa, e em especial os três com maior visibilidade, declararam ir pressionar o PCP e o BE para chumbarem o orçamento, se dele não resultar a satisfação completa das reivindicações que os opõem ao Governo. Ou seja, pedem a esses partidos para derrubarem o atual Governo do PS, dando assim à direita uma oportunidade para o substituir na sequência das novas eleições que daí adviriam.

Julgam que um Governo de direita trataria melhor os professores do que o atual ? Foi isso que fez o Governo anterior? E acham os professores simpatizantes das diversas áreas políticas da esquerda que um governo de direita seria melhor para o país do que o atual governo? Se o pensam por que continuam a ser de esquerda? Se o não pensam, porque deixam que as lideranças sindicais atuem em sua representação contra aquilo que pensam?

Os três sindicatos mais visíveis têm como líderes mais ostensivos dirigentes cuja identidade política é pública: um é militante do PCP, outro é militante do PSD e outro (mais recente, mais fogoso e com menos apoios) é de um antigo candidato do MAS. Todos convergiram na iniciativa política acima referida, dirigida ao chumbo do próximo orçamento. É aliás comovente apreciar o entusiasmo  com que um destacado militante do PSD se associa angelicamente à exigência feita ao PCP e ao BE, para chumbarem o próximo orçamento, se ele não for tão longe como acham  que deverá na reversão das malfeitorias feitas pelo seu próprio partido quando foi governo. A pergunta regressa: o que pensam os professores socialistas de tudo isto? O que contam os professores socialistas em tudo isso?

E aqui eu não discuto o fundo da questão, mas apenas se a constância do desacordo entre o Governo e os sindicatos, é uma razão suficiente para derrubar este governo, abrindo de novo as portas à direita? Que os professores de direita possam pensar isso acho compreensível. Que os professores de qualquer das áreas da esquerda o pensem acho estranho, a não ser que discordem da atual solução e preferissem que tivesse continuado a governar  Passos Coelho. Mas que os militantes, os simpatizantes e os eleitores do PS pensem dessa maneira acho muito improvável. E, no entanto, esta área política envolve, previsivelmente, entre 35 a 40 % do eleitorado. Quem os ouve? Quem os pode representar?

Em função, de tudo isto dou comigo a regressar há umas  décadas atrás, quando os professores do PCP quebraram a unidade sindical dos professores e criaram os seus próprios sindicatos. Eu não era então militante do PS, mas da UEDS, tendo havido reuniões com militantes do PS para se equacionar a possibilidade de fazermos algo de paralelo nos professores ao que havia feito  o PCP. A iniciativa morreu. Passaram décadas; mas  o problema mantém-se: os socialistas estão dispersos pelos vários sindicatos e em todos subalternos. É uma opção possível deixar tudo como está. Mas não acho que seja uma boa opção.

Por outro lado, a expressão organizada dos professores dentro do PS é fraca, embora já o tenho sido mais. Durante mais de uma década, a partir de 1989, participei na Federação a que pertenço numa seção sectorial de Educação. Mais algumas idênticas existiam então noutras federações. Poucas , mas com alguma audibilidade. Tudo entretanto foi esmorecendo, perdendo visibilidade e relevância política autónoma. 

Algum tempo depois, na minha Federação foi desencadeado um subtil processo de confinamento e neutralização da seção de educação de que era membro . No termo de um sub-reptício  processo  a seção foi extinta, aparentemente por força do jogo de pequenas lógicas de pequenos poderes.  Olhando hoje para o rosário dos protagonistas e animadores principais de tão discretas manobras, surpreendo-me a desconfiar do lóbi dos negociantes de colégios.

Seja como for, com o desprendimento e o distanciamento  que a senectude traz, parece-me tempo de os professores socialistas forjarem uma dinâmica própria que os habilite a ter um papel de interlocução no seio do Partido e no seio dos Sindicatos. Não se trata de preconizar a criação de um bloco de guerreiros que se ponha ao serviço de poderes ou da sua contestação. Trata-se de criar um lugar organizado de troca de ideias, útil ao país, à educação, aos sindicatos e ao partido. Para começar, juntamo-nos organizadamente. Depois decidimos o que fazer. E se a direção do PS tomar este processo em mãos, isso então será excelente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

GREVES, EMPRESÀRIOS E OUTRAS COISAS


Dizem que é uma espécie de greve. Estranha. Uma das três reivindicações dos alegados grevistas é a reforma da legislação laboral num sentido desfavorável aos trabalhadores, segundo afirma um dos sindicatos dos trabalhadores de transportes.

Sindicato esse que sublinha o facto de se não estar perante uma greve dos camionistas - trabalhadores, mas dos empresários de camionagem-patrões. Entre os manifestantes vários são identificados como empresários, confirmando esse sublinhado. As negociações falhadas foram entre associações empresariais e governo.

Não estamos, portanto, perante greve nenhuma , mas perante um "lock-out", que em Portugal é expressamente proibido pela Constituição. Não há pois quaisquer piquetes de greve, legalmente protegidos e regulados. Há apenas grupos de pressão organizados, actuando á margem da legalidade democrática. Não acho mal que, mesmo não se estando perante o exercício de um direito de greve, se tratem os protestos sem violência. Mas não acho que se possam deixar desprotegidos todos os que não se submetam ao "lock-out", nem que se leve a transigência tão longe que possa ser posto em causa o interesse público.

E, principalmente, não esqueçamos protestos de camionistas noutros tempos, noutros países. por exemplo, no Chile de Allende, quando ajudaram a abrir caminho a Pinochet. Admito até que muitos não o tivessem feito desejando o resultado, mas a verdade é que o resultado ocorreu e durante toda o tempo da ditadura de Pinochet nunca mais houve protestos de camionistas. Nem de camionistas nem de ninguém. Pelo menos, protestos que não fossem brutalmente reprimidos.

Devo, no entanto, dizer que acho mais compreensível que quem protesta se revista da qualidade imaginária de grevista, do que a tacanhez dos jornalistas que papagueiam um palavreado estereotipado dos acontecimentos como se estivessemos perante uma autêntica greve.

Aliás, um tanto à margem destes acontecimentos, mas a partir deles, há algum tempo que me parece que tem que haver uma mudança de fundo, no modo como são encarados pela ordem jurídica os pequenos empresários, que muitas vezes são realmente trabalhadores ao serviço de grandes patrões. Simplesmente, em vez de serem encarados e protegidos como tais, são erguidos à digníssima qualidade de empresários para poderem ser desprotegidamente explorados pelos empresários graúdos. Neste, como em muitos outros casos, no campo da luta politico-ideológica quem se engana de adversário é muitas vezes levado a combater-se a si próprio.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A GREVE, O SAPO E O ESCORPIÃO


1. Fiz greve. Como professor universitário tinha razões para o fazer: o Processo de Bolonha vai continuando o seu trabalho de corrosão das universidades públicas e uma austeridade desenhada e imposta pela irracionalidade neoliberal vai agravando a deriva.Além disso, cumpri a decisão do meu sindicato.

2. As esquerdas parecem epicamente condenadas a degladiarem-se entre si. As direitas navegam em águas aparentemente mais tranquilas. Abaixam-se para ver se a tempestade lhes passa por cima e se no fim ficam mais fortes e as esquerdas mais fracas.

3. O sector dominante da esquerda institucional resmunga oficiosamente uma imagem de fracasso da greve que a realidade teimosamente desmente. Os sectores dominantes das esquerdas sociais desenham um cenário demolidor que, se tivesse a dimensão afixada, já teria varrido qualquer governo. Esgrimem entre si números como se o peso da greve não fosse o resultado de um balanço sócio-politico, mas um hipotético apuramento impessoal de uma luta entre números.

4. O primeiro parece acreditar que, se fizer os sindicatos morder o pó, poderá navegar tranquilamente numa imaginária harmonia, gerida pelos generosos e altruístas senhores do dinheiro, que lhes continuarão a deixar movimentar as alavancas do poder. Os segundos parecem acreditar que se destroçarem o sector dominante da esquerda institucional verão abrir-se as portas de um outro poder político, onde os interesses que defendem tenham verdadeiro eco.

Mas se os trabalhadores forem vencidos e os sindicatos aniquilados, na constância do capitalismo, nenhum governo de esquerda respirará sequer cinco minutos de poder institucional. E se a esquerda institucional dominante for desmoronada, seguir-se-ão governos de direita, cuja novidade será o agravamento brutal de tudo aquilo que fez com que os sectores dominantes das esquerdas sociais combatessem o sector dominante da esquerda institucional.

Por isso, esta greve teve também uma dimensão trágica. Ela fez-me recordar aquela história do sapo que para ajudar um escorpião a atravessar um ribeiro o transportou no seu dorso. Contudo, a meio da travessia o escorpião espetou o seu ferrão venenoso no sapo. E ferido mortalmente o sapo perguntou. "Porque me matas, sabendo que se eu morrer também tu morres". E o escorpião respondeu: "É da minha própria natureza". E morreram os dois.

Mas neste caso, é como se a história envolvesse dois pares de sapos e de escorpiões. Num deles é a esquerda institucional que faz de sapo; no outro, são as esquerdas sociais. O desenlace é o desaparecimento de todos, seja qual for o papel que desempenharam.

5. Há uma subtil ironia, impregnando tudo isto. Embora pareçam desconhecê-lo, para cada uma das partes, os problemas da outra são afinal também seus. E cada uma delas precisa da força da outra para que, a prazo, não fique irremediavelmente enfraquecida.

Reconheço que a probabilidade de isto ser entendido por qualquer das partes, é escassa. Possivelmente, cada um dos lados continuará a incensar a sua própria santidade e a construir infernos onde gostaria de ver o outro; a construir minuciosamente a culpa do outro e a inocência própria.

Mas quem conseguir despir o seu olhar, por um momento, da neblina das aparências mais prementes, facilmente verá que, se ambos os lados continuarem a intercambiar sucessivamente entre si os papeis de sapo e de escorpião, acabarão por se afundar.

Este não é um resultado que qualquer das partes vá imputar à greve de hoje, mas foi uma reflexão que ela em mim, irresistivelmente, desencadeou. Não é entusiasmante. Mas poderemos passar-lhe por cima, ignorando-a, só pelo facto de nos incomodar ?

domingo, 23 de agosto de 2009

Impulso extravagente


Ouvi nos noticiários televisivos que o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público defendeu publicamente que devia ser aberto um inquérito criminal pelo MP ao acidente na Praia Maria Luísa, que originou cinco mortos.

Provavelmente, é uma iniciativa que se justifica. Mas seguramente que está fora da competência do Sindicato tomar posição pública sobre isso. De facto, se ele tivesse legitimidade para isso, estaria instalado, em seu benefício, um estranho confisco de parte de uma competência pública, sem que nenhuma instância com legitimidade democrática lha tivesse delegado.

Não é esta a primeira vez que tal Sindicato sai claramente da sua esfera de acção, para se intrometer em áreas de competência que, mesmo que possam caber ao Ministério Público, enquanto instituição constitucionalmente desenhada no quadro do nosso sistema jurídico, de modo nenhum podem ser capturadas por qualquer Sindicato, mesmo que represente os cidadãos que desempenham funções nessa instituição.

Será este, um simples delírio estival ou, mais do que isso,um dano colateral da lenta sedimentação, ocorrida ao longo de vários mandatos e de muitos anos, dos automatismos próprios do que alguns têm chamado uma concertação de “vodka” com “laranja”?

sábado, 1 de agosto de 2009

O veneno dos blocos centrais


No jornal espanhol El País, de hoje, saiu um texto, assinado por Juan Gómez, que de seguida parcialmente reproduzo, com a devida vénia. Ei-lo:


El SPD pierde el voto de apoyo del mayor sindicato alemán


IG Metall rechaza los recortes sociales aplicados por los socialdemócratas

El jefe del sindicato alemán IG Metall, Berthold Huber, ha rehusado apoyar al candidato del Partido Socialdemócrata (SPD), Frank-Walter Steinmeier, en la campaña electoral recién inaugurada. En una entrevista concedida al diario Süddeutsche Zeitung, el líder del mayor sindicato alemán señala: "Se acabaron los tiempos en los que el sindicato recomendaba el voto para unos o para otros".

Steinmeier sufre un nuevo revés en su intento de rebajar la ventaja de Merkel
El sindicato renunciará también a valorar los programas electorales para orientar a los votantes. Huber, que es militante socialdemócrata, destaca también las distancias entre su sindicato y el nuevo equipo que Steinmeier presentó el jueves como pistoletazo de salida de la campaña veraniega para las elecciones generales del 27 de septiembre.
La entrevista supone un nuevo jarro de agua fría sobre el intento socialdemócrata de recortar distancias con su actual socio de Gobierno, la Unión Cristiana Democrática (CDU) de la canciller Angela Merkel. Mientras Merkel sigue de vacaciones, Steinmeier adelantó unas semanas el inicio de su campaña y trató de colocarse en el centro de la atención mediática presentando un gabinete en la sombra.
Ahora, la falta de apoyo de IG Metall oscurece el perfil social y combativo que Steinmeier quería imprimir a sus propuestas. Ante la crisis económica, el SPD quería presentarse como defensor de los puestos de trabajo y las prestaciones sociales.
Huber dirige desde hace dos años el poderoso sindicato IG Metall, que tiene más de dos millones de afiliados. El sindicalista arremete en la entrevista contra las políticas aplicadas por sus compañeros de partido durante 11 años en el Gobierno de Alemania. Huber ataca los recortes sociales del canciller Gerhard Schröder, que gobernó entre 1998 y 2005. En su opinión, "son percibidos como una amenaza" por los trabajadores alemanes. La participación de los socialdemócratas en el Gobierno de Merkel también es objeto de las críticas de Huber, en especial el retraso de la edad de jubilación hasta los 67 años, aprobada en 2007 por la gran coalición.
Las reformas de Schröder, conocidas como Agenda 2010, abrieron una gran división entre el SPD y sus sindicatos históricamente afines. La labor conjunta de SPD y CDU durante los últimos cuatro años ha dado a Merkel un halo centrista, mientras que ha disuelto el perfil político de su contrincante socialdemócrata. Así, Huber señala en su entrevista que tiene "menos problemas con la CDU que con el FDP", en alusión al Partido Liberal Democrático con el que Merkel quiere coligarse si no logra una mayoría suficiente para gobernar en solitario.
Las críticas al equipo de Steinmeier para las elecciones llegaron también ayer desde Los Verdes. Claudia Roth, presidenta del partido, acusó a Steinmeier de intentar "dar una imagen de renovación eligiendo de nuevo a los actuales ministros".
***************
Dedico este texto àqueles que no PS transigem com a ideia do Bloco Central, ainda que embrulhada numa vaga ladaínha que a remete para o lugar aparentemente distante de uma última hipótese, que aliás muito convenientemente dizem indesejar. Aconselho ainda a sua leitura a quem procura amarrar o PS ao pântano da transigência com hipotéticos governos minoritários de direita. Uns e outros deviam meditar sobre o texto acima transcrito.
De facto, o que se tem vindo a esboroar na Alemanha, como reflexo da teimosia no celebrado "novo centro", agora velho de mais de uma década, é um bloco político-social que levou mais de um século a construir.
A terceira via e seus sucedâneos, podem até render, no curto prazo, vitórias eleitorais, mas a longo prazo são apenas o suicídio suave do socialismo democrático e um sério contributo para o agravamento dos problemas dos países em que se instalem.
O maior contributo que os socialistas podem dar aos seus países é o de serem eles próprios. Para políticas de complacência com a direita e para a aceitação do capitalismo como fim da história, não é necessária a esquerda. É mais do que suficiente a direita que,afinal, existe para desempenhar esse papel.

domingo, 15 de março de 2009

Governo e sindicatos


Duzentos mil trabalhadores na rua, em protesto contra um governo do PS, não podem apenas merecer um simples juízo de valor, quanto às razões escolhidas como eixo da manifestação, e uma alusão ao facto de serem livres de manifestarem a sua opinião. Na verdade, se vinte mil dondocas das melhores famílias desfilassem pelas ruas batendo em caçarolas, em protesto contra qualquer medida de um governo do PS, esse juízo e essa alusão talvez bastassem.


Mas um governo do PS não pode deixar de ponderar politicamente sobre o facto dessa manifestação ter ocorrido com o apoio popular verificado. Não estava ali todo o povo de esquerda, mas estava ali uma parte considerável do povo de esquerda.


Ora, o governo do PS, devendo tratar com justiça todos os portugueses, devendo velar pelo bom funcionamento das instituições e das organizações, garantir a liberdade e segurança das pessoas, instituir mecanismos de solidariedade e de protecção social, não pode deixar de procurar conseguir que o exercício do seu poder deixe as desigualdades sociais menos escandalosas e as subalternidades sócio-políticas menos penalizadoras. Mas estes princípios não são fórmulas abstractas, têm destinatários concretos. Entre estes, estão seguramente os trabalhadores que perderam o emprego, os trabalhadores precários, os trabalhadores cujos salários são tão baixos que não lhes asseguram uma sobrevivência digna.
Eu não desvalorizo o facto de os actuais governantes estarem convencidos que estão a proteger esses trabalhadores da melhor maneira possível. Mas o governo também não pode desvalorizar o facto de centenas de milhares deles mostrarem publicamente que estão convencidos do contrário.


E este é um problema político grave: duzentos mil trabalhadores protestam nas ruas contra a política de um governo de esquerda. Não é apenas a revelação de um risco eleitoral para o governo. E não é algo que não represente também um risco político para os interesses históricos dos trabalhadores.


De facto, se um partido socialista deixar que passe de certos limites (necessariamente incertos) a sua ruptura com a sua base social, ou com uma parte apreciável da sua base social, além de correr um risco maior de enfraquecimento eleitoral, pode abrir a porta ao reforço da implantação social de outras áreas da esquerda e provocar até a sua própria deslegitimação radical, como representante institucional da parte subalterna e prejudicada da sociedade. Mas se a parte mais atingida, ou mais radical,ou mais reivindicativa, do povo de esquerda queimasse por completo o único partido de esquerda que, a curto prazo, pode ser governo, também infligiria a si própria uma grave derrota estratégica, podendo transformar-se, contra a própria vontade subjectiva dos seus líderes, numa arma eficaz da direita e dos interesses que mais antagonizam os que lhes são próprios.


Um preocupante sintoma, de que esta deriva não é imaginária, está no facto de se acumularem exemplos, por enquanto ainda dispersos, de uma convergência anti-governamental das oposições que reflecte já algum grau de solidariedade. O facto de haver actores sociais que já apelaram publicamente ao voto em qualquer das oposições, é disso um eloquente sinal.


Se todos se exercitarem em distribuir culpas, blindando a sua própria infalibilidade e diabolizando os outros, se cada um se refugiar no cálculo de possíveis ganhos eleitorais , pode estar na forja uma preocupante deriva rumo a um desastre estratégico para o povo de esquerda, pela completa desestruturação dos elos que unem os seus partidos, ou alguns deles, à respectiva base social. E assim se abriria desde logo a porta à desinstitucionalização dos conflitos, aumentando-se o risco de surtos puramente dissipativos de convulsão social.


Nem o governo, nem os sindicatos, podem continuar encerrados nas suas razões, como se cada acto, se cada episódio não pudesse nunca levar a consequências estruturais e de médio prazo que fujam, e muito, ao que são os desejos de uns e de outros. Julgar que fazer política é apenas uma actividade de natureza tecnico-administrativa, sem espessura histórica, sem pressupostos ideológicos e sem implicações sócio-culturais, encarando-a com simplismo, é correr o risco de se ser folha arrastada numa corrente, cujo sentido se ignora.

Não tenhamos dúvidas: se, a médio prazo, o pior acontecesse, os duzentos mil trabalhadores que estiveram na rua, os partidos que lhes exibiram aplausos, os actuais governantes, o Partido Socialista e os seus eleitores irredutíveis, ocupariam em conjunto o conglomerado das vítimas. Por isso, talvez seja melhor abrir vias de diálogo, enquanto estamos onde estamos, do que corrermos o risco de, mais tarde, virmos todos a estar sujeitos a um qualquer insuportável poder musculado da direita.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Uma pergunta vadia


O que terá prometido ( ou dado) a Ministra da Educação aos Sindicatos de Professores para que se tenham tornado mais macios ?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Dormindo com o inimigo ? Mistérios do sindicalismo espanhol.





Hoje, publica-se no diário espanhol "Público"um texto sobre uma parte do sindicalismo espanhol que merece atenção e reflexão. Merece atenção dos sindicalistas portugueses, dos militantes de esquerda portugueses e do povo de esquerda em geral. Mas merece, principalmente, a atenção das direcções do PS e da CGTP. Se este possível aspecto da Espanha se viesse a identificar com o nosso futuro, seguramente que estaríamos perante um importante enfraquecimento da esquerda e um importante reforço político do patronato. Depois dessa inversão consumada, ocupar-nos-íamos por certo de uma inútil distribuição de culpas. Melhor será que sigamos um caminho diferente.

O texto intitula-se:"Fidalgo acerca CCOO al PP". Tem como sub-título: "El líder sindical colabora con la fundación de Aznar, se reúne frecuentemente con Rajoy y no tiene relaciones con el PSOE". O seu autor é FERNANDO GAREA. Ei-lo:


"Cuentan que José María Fidalgo siempre ha tenido la obsesión de que Comisiones Obreras sea el sindicato hegemónico y que ha intentado combatir la identificación tradicional entre el PSOE y UGT, que amplifica la potencia de éste último.
En esa estrategia se cruzó por el camino la visión de José María Aznar para acercarse a un gran sindicato y pasar del enfrentamiento, que se le podría suponer a un partido de centro derecha, hasta la colaboración más o menos reconocida o pública con CCOO. El sindicato, que nació vinculado al PCE, se ha separado con Fidalgo paulatinamente de los comunistas y del resto de la izquierda, al menos, en la actuación de sus dirigentes. El primer secretario general de CCOO, Marcelino Camacho, formó parte de la dirección del PCE y de Izquierda Unida; el segundo, Antonio Gutiérrez, es diputado del PSOE y el tercero, Fidalgo, colabora con FAES, la fundación del PP.


Amigo personal de Aznar
Fidalgo ha ganado las batallas a otros dirigentes más partidarios de una política de izquierdas, como Agustín Moreno y Rodolfo Benito, entre otros.A día de hoy, el líder de CCOO habla más con Rajoy que con Zapatero o cualquier otro miembro de la dirección del PSOE, según reconocen miembros de la cúpula del PP. Ayer coincidieron en el homenaje a Marcelino Camacho.
Esa distancia ha contribuido también el hecho de que el Gobierno de Zapatero decidiera indemnizar a UGT por el patrimonio histórico. Fidalgo no oculta sus buenas relaciones con Aznar y es amigo personal de los tres ministros de Trabajo del PP: Javier Arenas, Juan Carlos Aparicio y Eduardo Zaplana. No lo es de Jesús Caldera, actual ministro de Trabajo, al que critica abiertamente en sus intervenciones en los seminarios de FAES.
Dirigentes de CCOO colaboran con la fundación de Aznar e intercambian documentos con sus responsables y Fidalgo ha participado dos años seguidos en actos públicos con Aznar. En 2006 arremetió contra la política de Caldera, junto al ex presidente del Gobierno, y este año hizo lo propio, con parada en la medida estrella de Zapatero, el cheque-bebé de 2.500 euros. Todo eso entre elogios mutuos de Aznar y Fidalgo.


Críticas a Zapatero
En esta legislatura trascendió también la coincidencia de Fidalgo con Rajoy en la crítica a la política antiterrorista de Zapatero, es decir, una de las estrellas de la estrategia de oposición del PP. En las anteriores legislaturas, Fidalgo, en cambio, lideró el apoyo a la política contra ETA de Aznar, ya sea en la etapa del diálogo con la banda terrorista como luego en la de dureza con la Ley de Partidos y la ilegalización de Batasuna.
No se le recuerdan tampoco a Fidalgo pronunciamientos en contra de lo que se dio en llamar la "teoría de la conspiración" en la investigación del 11-M desde marzo de 2004.
Las relaciones con el actual Gobierno distan mucho de las que mantuvo con el del PP. Por ejemplo, la iniciativa de Zapatero de reunir a la CEOE y a los líderes sindicales en las vísperas de los consejos europeos ha contado siempre con la resistencia de Fidalgo. En alguna ocasión, incluso, el líder de CCOO directamente no ha acudido.
Los intentos por establecer relaciones con Fidalgo desde la Oficina Económica de La Moncloa también han fracasado siempre. Con el anterior responsable, Miguel Sebastián, sólo accedió a reunirse una vez en dos años y medio para hablar de la reforma laboral.También se recuerda en el Gobierno la dureza con la que el líder de CCOO criticó las propuestas fiscales del PSOE, cuando aseguraba que dejarían al Estado sin fondos, mientras que ahora no discute las del PP.


Un enfrentamiento
Pese a la cercanía política y, sobre todo, personal con Aznar, Fidalgo se enfrentó abiertamente al Gobierno del PP en un episodio muy concreto, que marcó un punto de inflexión en la anterior legislatura: la huelga general del 20 de junio de 2002.
No obstante, el líder de CCOO jugó en esos días un papel de puente entre el Gobierno de Aznar y UGT que nadie ocultó entonces. El Ejecutivo del PP quiso utilizar a Fidalgo para parar la protesta, pero, finalmente, la presión del resto del sindicato y el convencimiento de UGT para seguir adelante arrastró a CCOO a la huelga general.
En febrero de ese año, Juan Carlos Aparicio le presentó a Fidalgo la reforma del mercado laboral en varias comidas y cenas privadas, para intentar que el secretario general de CCOO le ayudara a sacarla adelante. El líder del sindicato se resistió, pero neutralizó a miembros de CCOO partidarios del enfrentamiento abierto con el Gobierno.


Parar la huelga general
Desde esas reuniones hasta la huelga general, el propio Aznar, el entonces vicepresidente Rodrigo Rato y el citado Aparicio multiplicaron sus gestiones con Fidalgo para intentar infructuosamente apaciguar la protesta.
En su acercamiento al PP, Fidalgo ha contado con el apoyo de dirigentes como María Jesús Paredes, la secretaria general de la federación de Banca (Comfia), que es la principal protagonista de un escándalo que ha salpicado al sindicato durante las últimas semanas.
Público ha desvelado que Paredes y su pareja, el también dirigente de CCOO Francisco Baquero, han acumulado un patrimonio inmobiliario superior a dos millones de euros en los últimos años. El sector crítico pedirá hoy explicaciones a Fidalgo sobre el caso, en la reunión del Consejo Confederal, el máximo órgano entre congresos de CCOO."

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A caminho de lado nenhum...




Muitas são as perspectivas a partir das quais se podem encarar os dois grandes episódios políticos ocorridos ontem em Lisboa: a manifestação de protesto contra a política do Governo e a cimeira europeia que aprovou o tratado renovado da UE.É possível questionar-se a política do governo que tornou possível uma tão significativa manifestação de protesto. É possível inquirir-se sobre o acerto do tom, do tempo e do modo da manifestação. Mas não é possível fugir ao peso que os factos objectivamente têm para ambos os lados lados.

Um governo de esquerda, que queira ser um factor de transformação social no sentido da justiça e da liberdade, não pode, sem prejuízo da sua eficácia política, dispensar um robusto apoio sindical, nem a capacidade de ter na rua a apoiá-lo uma grande parte do seu eleitorado e dos trabalhadores portugueses. Um movimento sindical não pode menosprezar a fragilidade política que lhe advém de ter como correspondente política mais directa o conjunto de dois partidos que no máximo tem valido 15% do eleitorado, sendo hegemonizado apenas por um deles, cuja força eleitoral não tem chegado aos 10%.

Este desfasamento, entre hegemonia política e hegemonia sindical, é agravado pelo facto de o partido de esquerda que supera os 40% de votos ter uma expressão sindical reduzida, em termos de potencial combatente e de eficácia reivindicativa, ao mesmo tempo que a tendência sindical dominante é liderada por uma força política que tem apenas um quarto do eleitorado do partido de esquerda predominante. É um desfasamento histórico, mas é um desfasamento que tem prejudicado muito a evolução de Portugal.

Tudo o que agrave esse desfasamento é especialmente negativo para todo o povo de esquerda, para todo o movimento sindical, para todos os partidos da esquerda. E uma das consequências disso é, precisamente, a intransigência com que cada parte procura imputar à outra toda a responsabilidade pelo que se passa e com que se mostra indisponível para tentar sequer compreender as razões da outra parte.

No imediato, cada uma delas pode festejar pequenos êxitos ou sentir-se reconfortada com os pequenos fracassos da outra. Mas que não haja ilusões, a médio prazo, ambas caminham para o desastre. Um desastre que irá muito para além de um possível descalabro eleitoral. Um desastre que marcará profunda e negativamente as vidas de todos os portugueses que não estejam abancados na estreita mesa dos mais ricos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Os receios corajosos, os sindicatos e a esquerda



Se os polícias foram por sua alta recriação ao Sindicato dos Professores na Covilhã, são ingénuos. Se alguém os mandou, seja quem for, deve ser demitido, já. Não por ser um sombrio aprendiz de "legionário",como parece sugerir em uníssono a piedosa oposição, mas por ser politicamente estúpido.
Por outro lado, se há algum militante sindical que admita poder ser assustado com o tipo de episódio narrado, é melhor que se recolha de imediato ao remanso doméstico, pois não parece aconselhável envolver em lutas sindicais tão frágil criatura.

O mais provável, no entanto, é que seja outro o cerne da questão.De facto,mesmo que a versão dos sindicatos fosse cem por cento verdadeira, a reacção de resposta seria claramente excessiva. E é precisamente esse excesso que faz pensar que a reacção ao ocorrido é muito menos uma legítima rejeição de um acto censurável, do que uma tentativa de empolamento político de um episódio,que assim acaba por ficar reduzido a simples pretexto.
Não se julgue, todavia, que este tipo de empolamento é uma questão menor. Não é, porque os promotores do excesso nem controlam os termos exactos nem os limites de todo o processo.
Apesar disso,toda a oposição apanhou sofregamente a boleia. Mau sintoma quanto á sua eficácia.Aliás, até mesmo dentro do PS houve algumas almas mais sensíveis que se sobressaltaram ( mas seria preferível que, para além de produzirem desabafos mediáticos, participassem dentro do PS nas discretas e teimosas tentativas de ir gerando uma alternativa política interna consistente e clarificadora ).

Tudo isto potenciou o alarido sindical, ao mesmo tempo que o aproveitava. E então?Os telejornais podem ver subir as audiências, o PR pode emitir uma declaração seráfica, mas no terreno político nada ficará melhor. Realmente, o festival de agressividade desbragada contra o Governo, onde gulosamente a direita se apressou a participar, apenas pode trazer novas dificuldades políticas ao relacionamento dentro da esquerda.

Uns dirão que a culpa é do Governo, outros que a culpa é da oposição de esquerda. Pouco se ganhará com isso. Mas qualquer um perceberá que o extremar da agressividade e a prática de insultos contra o Partido Socialista e o Governo, apenas pode causar crispações mais intensas, conflitos mais fundos e lesões políticas mais duradouras.

Insistir, por exemplo, na comparação imbecil entre o ocorrido e acções "pidescas", ou integrar a gestão do actual governo no "fascismo", são insultos grosseiros que nada podem trazer de positivo. Na verdade, quem diz isso, se não é um idiota chapado, é seguramente um provocador. Os fascistas que o forem realmente e a direita, no seu todo, só podem agradecer-lhe.

Por mim, embora seja militante do PS,estou muito longe de me identificar com muitos aspectos da governação actual e , principalmente, de aceitar o seu reconhecimento implícito de que o paradigma neoliberal dominante não é um artefacto ideológico, mas o simples reflexo da natureza das coisas no pensamento. Mas estou ainda mais longe de me pôr a apedrejar o Governo com insultos ou com qualificativos primários.

Poder-se-á esquecer que o PS vale eleitoralmente o triplo dos outros dois partidos de esquerda juntos?

Ou haverá quem ache desejável proceder-se como se a esquerda fossem apenas os quinze por cento do PCP e do BE , rotulando-se como de direita os outros oitenta e cinco por cento do eleitorado?

Em particular, será que a CGTP acha que, reduzindo o seu espaço social de inserção ao eleitorado do PCP e do BE, tem condições objectivas para desempenhar com eficácia a defesa dos interesses dos trabalhadores?

Será que se dispõe a cair na armadilha de um exacerbamento imediatista do tom e do estilo da sua luta, sujeitando-se a ficar reduzida estrategicamente à situação de simples destacamento involuntário do conjuntural Menezes ?

Isto, para não perguntar se não estaremos apenas a assistir a uma tentativa da direcção do PCP de substituir Carvalho da Silva por Mário Nogueira, na liderança da CGTP.