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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Necessidade de uma orquestra

                                                                     Delacroix  - A liberdade guiando o povo

A força dos de cima está na disseminação desorientada das revoltas dos de baixo. Muitas vezes elas defrontam-se, anulando-se. Muitas vezes caminham apressadamente para lado nenhum.

Os poucos  de cima querem inculcar nos povos a ilusão de que está no incremento da sua riqueza, que prometem um dia distribuir, a salvação da humanidade. Mas eles próprios criaram um automatismo predatório de que agora dependem e que controlam cada vez menos ; o qual traz no seu bojo o perfume negro das catástrofes.

Mas a sobrevivência da humanidade está cada vez mais nas mãos dos muitos de baixo, na grande orquestra humilhada dos povos da terra.

Orquestra, fixem bem. Uma orquestra de revoltas que se conjuguem harmoniosamente numa sinfonia emancipatória. Uma orquestra e não um ajuntamento caótico  de revoltas que se devorem e anulem entre si num paroxismo suicida. Como hoje , em grande medida, acontece.

Não se dispensa o rufar rude dos tambores, nem  o trovejar altivo das trombetas. Mas não pode esquecer-se a subtil luz dos violinos, nem o calor humano dos maestros. Não pode desprezar-se a partitura.

Não chega o rasgar aflito de uma guitarra sozinha, nem o trovejar dos trompetes que se fechem em si próprios.


É urgente uma orquestra dos de baixo, um pertinaz acordar das multidões dispersas. É preciso  escrever a partitura, ouvindo sempre os mestres da revolta e o leve sussurrar do pensamento.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

FERIADO POPULAR NO CARNAVAL !

Nenhum Governo normal, de esquerda, de direita ou de mistura, cometeu até hoje a tontice de acabar com o feriado da terça-feira de Carnaval, formalmente revestido do eufemismo de uma tolerância de ponto. O efeito prático desta austeridade mesquinha, se não for nulo, só pode ser negativo. O efeito simbólico pode ser devastador: num momento em que seria altamente aconselhável acumular factores de distensão numa conjuntura que se promete socialmente difícil, o governo comporta-se como o bombeiro que, em vez de usar água para apagar um fogo, lhe deita gasolina.

Não fica claro, se este acto resulta de uma infantilidade ideológica, que aplica ingenuamente como absoluto um receituário necessariamente relativo, ou de uma abissal carência de massa cinzenta. Nenhuma das hipóteses é boa; mas também nenhuma delas suscita uma qualquer obrigação ética de conformismo e passividade. Pelo contrário, é mais útil ao país sacudir a canga, que este governo nos quer pôr, desde já, neste pequeno episódio quase inicial, do que permitir a acumulação de uma energia de indignação que possa vir a explodir arrasadoramente mais tarde.

Nessa medida, em nome da sanidade sociocultural de todo o povo, em nome da recusa em aceitar que se reguem as fogueiras com gasolina, temos que fazer com que a terça-feira de Carnaval decorra exactamente como decorreria, se este Governo não tivesse escorregado para dentro do buraco que temos vindo a comentar. Apelemos para que todos façam no Carnaval o que sempre têm feito, ajudando o Governo a corrigir-se a si próprio e a ficar ciente, de uma vez por todas, dos seus próprios limites.

Por isso, decretemos desde já, num acto de festa e de cidadania: Um feriado popular na terça-feira de Carnaval, em todo o país.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

AVISO AOS MERCADOS !


O que de essencial nos estão a dizer pelo mundo, em várias línguas, milhões de pessoas, independentemente, de nas suas subjectividades se poderem manifestar motivações muito diferentes, é que o mundo em que vivemos talvez seja um espaço óptimo para os negócios, mas é um lugar inóspito para muitos, muitíssimos seres humanos.

Na Europa na última década, pouco a pouco, há um murmúrio que vem crescendo lentamente, ainda latente mas elucidativo como sintoma, cujas raízes mergulham nos mesmos problemas. Portugal não é excepção.

E enganam-se os que julgam que a história registará, com espanto e aplauso, as proezas traduzidas em aumentos centesimais de alguns índices económicos, especialmente se mais tarde se verificar que, em vez de entupirem a gula dos especuladores, abriram as portas a convulsões sociais desgovernadas, que levaram na frente agências de rating, banqueiros, economistas, jornalistas, comentadores iluminados, gestores, estrelas de rock, treinadores de futebol, mas afundaram também o país e a Europa, por algumas décadas.

Os partidos de direita já pensam discretamente nas polícias, mastigando banalidades. Os partidos de esquerda parecem meios zonzos, atolando-se estranhamente em trivialidades. Mas se à esquerda não for gerada a sagacidade de se perceber que chegou o momento de se começar a sair do capitalismo, num processo politicamente pilotado por timoneiros seguros, sem iludir desde já a necessidade algumas mudanças urgentes, no quadro nacional , no plano europeu e à escala mundial, corre-se o risco de se caminhar para explosões sociais estéreis ou para desilusões pantanosas que afundem as sociedades. A revolta pode transformar-se em esperança, se à esquerda for encontrada a maneira de se aproveitar a energia crítica dos que se rebelem para abrir caminho para uma sociedade diferente.

Quem à esquerda falhar esse desígnio dificilmente terá futuro, podendo obrigar ao despontar de novas entidades, que não estando condenadas á partida ao falhanço, enfrentarão certamente, nesse caso, escolhos bem mais difíceis do que aquilo que terão que enfrentar na outra hipótese.

Não estamos perante um imenso telejornal a regurgitar de sangue, espectáculo e anedotas dramáticas, para ser visto em cómodas poltronas e para permitir que uma enésima especialista em relações internacionais mastigue no ecrã televisivo um rosário de previsíveis tontices, com a gravidade solene de quem descobriu a pólvora. Estamos perante um aviso sério, feito desta vez pelas pessoas aos mercados, de que por todo o mundo há cada vez mais pessoas pouco dispostas a sofrer a ditadura dos ditos, mesmo que ( ou especialmente por) isso ocorra para que o actual tipo de sociedade tenha um estertor mais prolongado. Aviso sério, com a saudável particularidade de se destinar não a manter injustiças e desigualdades, mas a diminui-las já no decurso de um caminho que se destine a acabar com elas.