Mostrar mensagens com a etiqueta igrejas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta igrejas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Papa deveria renunciar

Na revista brasileira de grande circulação Isto é , o pensador e teólogo Leonardo Boff concedeu uma importante entrevista à jornalista Débora Crivellaro, sobre o Papa Bento XVI do qual foi aluno e mais tarde colega. O título dado ao texto é incisivo: "O Papa deveria renunciar". A entrevista é precedia de um pequeno comentário introdutório, no qual se diz:


" O brasileiro Leonardo Boff, 71 anos, e o alemão Joseph Ratzinger, 83, têm uma longa história em comum. Intelectuais de fôlego, respeitados fora dos muros da Igreja Católica, os teólogos se conhecem há mais de 40 anos, quando conviveram na universidade, em Munique, Alemanha. O atual pontífice já era um cultuado professor, admirado pelo jovem franciscano que frequentava como ouvinte suas conferências, enquanto preparava a tese de doutorado – que contou com a ajuda providencial do alemão para ser publicada. Tempos depois, os dois trabalharam juntos em uma prestigiosa revista de teologia. Durou pouco, pois as contendas ideológicas provocaram a saída de Ratzinger. Mas o encontro mais marcante aconteceu em 1985, quando ambos estavam, definitivamente, em trincheiras opostas, dentro da mesma instituição. Boff já era o grande mentor por trás da Teologia da Libertação, movimento que interpreta o Evangelho à luz das questões sociais. E Ratzinger já havia se tornado o temido cardeal que punia severamente quem se atrevesse a mudar, uma vírgula que fosse, a interpretação oficial da “Bíblia”. O embate terminou com o silêncio forçado do franciscano e sua posterior saída da ordem, em 1992. Vinte e cinco anos depois desse encontro, casado com Márcia Miranda, padrasto de seis filhos e autor de mais de 60 livros traduzidos para diversas línguas, Boff analisa a Igreja da qual nunca se afastou e seu líder máximo. Que ele conhece como poucos".


Isto é - A Igreja Católica está em crise?
Leonardo Boff - A Igreja possui uma crise própria: até hoje ela não encontrou seu lugar no mundo moderno e no mundo globalizado. Suas estruturas são medievais. Ela é a única monarquia absolutista do mundo, concentrando o poder em pouquíssimas mãos. Nesse sentido ela está em contradição com o sonho originário de Jesus que foi o de criar uma comunidade fraterna de iguais e sem nenhuma discriminação.


Isto é -
Mas a Igreja Católica pode se modernizar sem perder a essência de seus princípios e, consequentemente, sua identidade?

Leonardo Boff -
A Igreja se engessou em suas doutrinas, em suas normas, em seus ritos que poucos entendem e num direito canônico escrito para legitimar desigualdades e conservadorismos. Os homens de hoje têm o direito de receber a mensagem de Jesus na linguagem de nossa cultura moderna, coisa que a Igreja não faz. Ela coloca sob suspeita e até persegue quem tenta fazer.


Isto é - O que o sr. acha que a Igreja Católica deveria fazer para sair dessa crise?
Leonardo Boff - Ela deveria ser menos arrogante, deixando de se imaginar a exclusiva portadora dos meios de salvação, a única verdadeira. Ela se diz perita em humanidade, mas maltrata a muitos desta humanidade internamente e ofende a vários direitos humanos. Por isso que até hoje não subscreveu a Carta dos Direitos Humanos da ONU, sob o pretexto de que ela não faz nenhuma referência a Deus, e retirou seu apoio ao Unicef, porque ele aconselha o uso de preservativos para combater a Aids e fazer o planejamento familiar. Uma igreja que afirma constantemente que fora dela não há salvação, ela mesma precisa de salvação.

Isto é - O sr. acha que os escândalos de pedofilia contribuem para a debandada católica, com fiéis migrando, no Brasil, principalmente, para as igrejas evangélicas?

Leonardo Boff - Muitos cristãos não aceitam ser infantilizados pela Igreja como se nada soubessem e tivessem que receber a comida na boca. Estes estão emigrando em massa. Mas é uma emigração interna. Continuam se sentindo dentro da Igreja, mas não identificados com as doutrinas deste papa, nem com o estilo com o qual ela se apresenta no mundo, com hábitos e símbolos palacianos que os tornam simplesmente ridículos. As igrejas evangélicas crescem porque a católica deixou um espaço vazio.
Isto é - Muitos vaticanistas dizem que Bento XVI pensa em termos de séculos e não está preocupado em conquistar mais fiéis. O sr. concorda?

Leonardo Boff - Bento XVI é fiel a uma esdrúxula teologia que sempre defendeu e da qual eu ainda como estudante e ouvinte dele discordava. Ele é um especialista em Santo Agostinho, grande teólogo. Santo Agostinho partia do fato de que a humanidade é uma “massa condenada” pelo pecado original e pelos demais pecados. Cristo a redimiu. Criou um oásis onde só há salvação e graça. Esse oásis é a Igreja. Ocorre que esse oásis é uma fantasia. Ele é tão contaminado como qualquer ambiente, haja vista os pedófilos e outros escândalos financeiros.

Isto é - Como o sr. avalia o pontificado de Bento XVI?

Leonardo Boff - Do ponto de vista da fé, este papa é um flagelo. Ele fechou a Igreja de tal forma sobre si mesma que rompeu com mais de 50 anos de diálogo ecumênico, vive criticando a cultura moderna, desestimula qualquer pensamento criativo, mantendo-o sob suspeita. Todo papa tem a missão imposta por Jesus de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Esta missão, a meu ver, não está sendo cumprida.

Isto é - Por quê?

Leonardo Boff - Bento XVI cometeu vários erros de governo com respeito aos muçulmanos, aos judeus, às mulheres e às religiões do mundo. Reintroduziu o latim nas missas em que se reza ainda pela conversão dos judeus, reconciliou-se com os mais duros seguidores de Lefebvre (Marcel Lefebvre arcebispo católico ultraconservador, que morreu em 1991), verdadeiros cismáticos. Enquanto trata a nós teólogos da libertação a bastonadas, trata os conservadores com mão de pelica. É um papa que não suscita entusiasmo. Mesmo assim, convivemos com ele, porque a Igreja é mais que Bento XVI. É também o papa João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce, a Irmã Doroty Stang, é dom Pedro Casaldáliga e tantos e tantas.
Isto é - O sr. acha que ele deveria renunciar?

Leonardo Boff - O papa, para o bem dele e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão: ele é um homem doente, velho, com achaques próprios da idade e com dificuldades de administração, pois é mais professor que pastor. Em razão disso, faria bem se fosse para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade sofredora, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina.

Isto é - Como foi a convivência dos srs. no mesmo ambiente acadêmico?

Leonardo Boff - Ouvi-o muitas vezes, pois era um apreciado conferencista. Teve um papel importante na publicação de minha tese doutoral, que, por seu tamanho – mais de 500 páginas –, encontrava dificuldades junto às editoras. Ele encontrou uma, arranjou-me boa parte do dinheiro para a impressão em forma de livro. Depois fomos colegas nas reuniões anuais da revista internacional “Concilium”. Mas ele se desentendeu com a linha da revista e criou uma outra, a “Communio”, em franca oposição à “Concilium”.

Isto é - Anos depois, em 1985, já na Congregação para a Doutrina da Fé, ele o puniu. Como foi esse encontro?

Leonardo Boff - Ele me fez sentar na cadeira onde sentou Galileo Galilei, no famoso edifício, ao lado do Vaticano, do Santo Ofício e da antiga Santa Inquisição. Foi meu “inquisidor”, interrogando-me por mais de três horas sobre o livro “Igreja: Carisma e Poder”, que me custou o “silêncio obsequioso”, a deposição de cátedra e a proibição de publicar qualquer coisa. Mas devo dizer que é uma pessoa finíssima, extremamente elegante na relação, mas determinado em suas opiniões. E muito, mas muito, tímido.
Isto é - O sr. é a favor da ordenação de mulheres pela Igreja Católica?

Leonardo Boff - Não há nenhuma doutrina ou dogma que impeça as mulheres de serem ordenadas e até de serem bispos. O patriarcalismo intrínseco à instituição, governada só por homens e celibatários, faz com que não se tenha apreço pelas mulheres nem se reconheça o imenso trabalho que fazem dentro da Igreja. E, no entanto, devemos reconhecer que as mulheres, nos evangelhos, nunca traíram Jesus, como fez Pedro, foram as primeiras testemunhas do fato maior para a fé cristã, que é a ressurreição, e também foram discípulas.

Isto é - O sr. também é a favor do fim da obrigatoriedade do celibato?
Leonardo Boff - O primeiro papa, Pedro, era casado. Aceito o celibato livremente assumido pelos que se propõem a servir às comunidades cristãs. Seria tão enriquecedor para a própria Igreja se houvesse, como há em outras igrejas, padres casados e padres celibatários. Mas o celibato desempenha uma função importante no estilo autoritário da instituição: ela pode dispor totalmente dos celibatários, sem laços com a família, transferi-los para onde quiser e ver-se livre de problemas de herança.
Isto é - O sr. acha que os casos de pedofilia cometidos por padres têm relação com a obrigatoriedade da castidade?

Leonardo Boff - Entre a pedofilia e o celibato há um denominador comum que é a ­sexualidade. A educação sexual que os candidatos ao sacerdócio recebem é carregada de suspeitas e distorções e é feita longe do contato com as mulheres. Hoje sabemos que o homem amadurece sob o olhar da mulher e vice-versa. Quando se tolhe um desses polos da equação, pode surgir o recalque, a sublimação e as eventuais distorções. A pedofilia é uma distorção de uma educação sexual mal realizada. Ademais, a pedofilia é um pecado e um delito.

Isto é - O sr. pode explicar melhor?

Leonardo Boff - A Igreja só via o pecado que podia ser perdoado, e tudo terminava aí. Não via as vítimas, que eram crianças e adolescentes que sofreram violência. Ela não via o delito que deve ser levado aos tribunais para ser julgado e receber a punição adequada. Este lado sempre foi mantido em sigilo, para não prejudicar a imagem da Igreja. Isso configura cumplicidade no crime. Graças a Deus, o papa agora acordou, se redimiu, reconheceu o delito e exige a denúncia dos pedófilos aos tribunais civis.

Isto é - Quando o sr. era frei franciscano, soube de casos de abuso sexual?

Leonardo Boff - Nunca soube de nada.

Isto é - O que o sr. acha da Renovação Carismática Católica?

Leonardo Boff - É um movimento forte, que trouxe muitos elementos positivos, pois tirou o monopólio dos padres. Agora o leigo fala e inventa orações, coisa que não ocorria. Deu certa leveza ao cristianismo, muito centrado na cruz e na paixão e menos na alegria e na celebração. Mas, a meu ver, ela ficou a meio caminho.
Isto é - Por quê?
Leonardo Boff - Não se pode pensar no cristianismo sem justiça social e preocupação com os pobres. Todo carismatismo corre o risco de alienação. Eles se perdem no louvor, no cantar e dançar.
Isto é - E como o sr. avalia os padres cantores, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo?

Leonardo Boff - Eles produzem um tipo de evangelização adequada ao que é dominante hoje, que é o mercado. Mas com as limitações que o mercado impõe, tenham eles consciência disso ou não. É sempre problemático, do ponto de vista teológico, transformar a mensagem cristã numa mercadoria de fácil consumo e de pacificação das consciências atribuladas. Noto que as grandes questões sociais estão ausentes em seus discursos e cânticos.

Isto é - Por quê?
Leonardo Boff - Eles falam sobre questões subjetivas. O cristianismo não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia, mas deve falar às consciências para que as pessoas tomem decisões que vão na direção do outro. Para mim, a mensagem cristã não significa buscar um porto seguro onde ancoramos para repousar. Mas é um chamado para irmos ao mar alto, para enfrentar as ondas perigosas. E não pedimos a Deus que nos livre das ondas, mas que nos dê força e coragem para enfrentá-las.

Isto é - O sr. ainda é católico?
Leonardo Boff - Sou católico apostólico franciscano. Acho que São Francisco foi o último cristão verdadeiro e talvez o primeiro depois do Único, que foi Jesus Cristo. O franciscanismo me inspira mais do que o romanismo porque o romano é apenas uma qualificação geográfica.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Beato Gay ?

Tenho transcrito neste blog vários textos extraídos da revista brasileira de grande circulação CartaCapital, que infelizmente não é difundida em Portugal pelos canais de distribuição usados por outras revistas brasileiras. Hoje, vou transcrever um texto da responsabilidade da Redacção da referida revista, publicado no respectivo site no passado dia 16 de Abril. "Enfim, um beato homossexual ", eis como ele é intitulado.
Enfim, leiam-no. Ele fala por si:


"Como saber se um prelado é hétero ou homo desde que fez voto de castidade? Há qualquer coisa de muito intrigante na declaração do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone: “Numerosos psiquiatras e psicólogos demonstraram que não existe ligação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram que existe entre homossexualidade e pedofilia”. Pronunciada no começo da semana, atiçou um vespeiro global. Das organizações e associações gays, de boa parte da mídia, até da chancelaria francesa erguem-se protestos, a ponto de provocar na quarta um comunicado em que o Vaticano pretende esclarecer: Bertone apenas se referia aos homossexuais de batina. Com a seguinte revelação: dos 3 mil casos de pedofilia registrados pelas autoridades eclesiásticas (e rigorosamente mantidos sob sigilo) nos últimos 50 anos, 10% são de pedofilia stricto sensu enquanto 90% são, a bem da santíssima verdade, de efebofilia, ou seja, envolvem adolescentes. Reminiscências gregas. Destes, 60% correspondem a práticas homossexuais e 30%, hétero. O que não fica esclarecido é como a Igreja consegue catalogar com tamanha precisão as atividades sexuais dos seus padres, dos quais os fiéis esperam outros gêneros de comportamento. Mas não haverá de ser por acaso que o próprio Bento XVI viaja para a Inglaterra em setembro próximo para a beatificação do cardeal teólogo John Henry Newman, o qual pediu para ser enterrado ao lado do amigão reverendo Ambrose St.-John. Quanto este morreu, o cardeal confessou que sua dor era igual à de um marido, ou de uma esposa. Vale assinalar ainda o surgimento na Áustria de uma associação filantrópica destinada a proteger e educar os filhos abandonados por padres heterossexuais. Uns e outros seriam bastante numerosos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Bebendo do seu próprio cálice


Há poucos anos atrás, em conversa com um colega brasileiro, dirigente do PT, verificámos que nas análises que cada um de nós fazia sobre o que se passava em cada um dos nossos países, a Igreja Católica surgia em ambos como factor relevante, mas o sentido da sua intervenção em Portugal e no Brasil era praticamente o oposto um do outro.

Nos dois casos, com relativa subtileza, pode dizer-se que enquanto no Brasil ela pressionava tendencialmente o governo PT mais pela sua esquerda social, em Portugal pressionava tendencialmente o governo PS mais pela sua direita ideológica.E, no entanto, se passarmos em revista as posições assumidas pelas duas igrejas católicas, as diferenças explícitas de posição, se as houver, são afinal escassas e pouco intensas.

Como explicar essa aparente contradição? Na minha opinião, a Igreja Brasileira, pese embora a sua retirada institucional do terreno da teologia da libertação, nunca chegou a regressar aos bons velhos tempos da cumplicidade estrutural com a direita conservadora, mantendo uma solidariedade prática apreciável em face do sofrimento e das aspirações sociais e políticas do povo cristão explorado e oprimido. Embora inevitavelmente presente, o Vaticano está, apesar de tudo, algo distante do grande espaço latino-americano.

Pelo contrário, a Igreja Portuguesa (com a prudência necessária, para que a esquerda não se veja obrigada a lembrar-lhe a sua longa cumplicidade para com o salazarismo) adopta genericamente a linha geral da cúria romana, alinhando no mesmo tipo de posicionamento, com as igrejas do sul da Europa, em especial, a italiana e a espanhola.

É claro, que não estamos a falar de uma coincidência absoluta de estilos e de tácticas, estamos a falar da partilha do mesmo tipo de política. Assim, ela favorece os partidos de direita, tanto quanto lho permita uma neutralidade formal no campo partidário, que publicamente afixa e proclama. E o modo que encontrou para tornar o mais eficaz possível esse apoio, sem desmentir grosseiramente a sua declarada neutralidade, foi a outorga de uma centralidade pastoral a questões ético-culturais, tais como o aborto, a contracepção, o casamento gay, a eutanásia ou o divórcio. Para, depois, a partir de uma coincidência quase total com esse tipo de opções da direita política, procurar favorecer indirectamente os partidos de direita, procurando, nessa medida, afastar os católicos dos partidos de esquerda.

E não se diga que não estamos perante um expediente estratégico, mas apenas perante um reflexo autêntico de uma convicção profunda. Se assim fosse, a Igreja Católica não reagiria perante os massacres da guerra com a mansidão discreta com que o faz, nem seria tão contida perante o escândalo da miséria e da fome que matam todos os dias milhares de crianças pelo mundo fora. Realmente, a Igreja oficial, o topo da sua hierarquia romana, perante sequelas tão ostensivas do capitalismo dominante, é tão parca em indignação que fica claro que há aqui uma sensibilidade selectiva, uma selectividade na indignação, que não pode deixar de ter um significado político e ideológico, bem marcados. A Igreja de Roma não se indigna consequentemente com a correspondente intensidade com tudo o que põe em causa a vida e a dignidade humanas. Limita-se a adoptar uma agenda conservadora clássica que privilegia os tópicos fracturantes que acima citei, mas que esquece outros que a nenhuma luz se podem considerar menos graves.

Acontece que por um daqueles malabarismos do destino em que a História é fértil, a Igreja Católica viu transformar-se a sua florentina habilidade numa inesperada armadilha. De facto, subitamente, começaram a emergir, em catadupa crescente, acusações de pedofilia, que como mancha indelével foram subindo degrau a degrau pela hierarquia da Igreja Católica. A mancha tem-se espalhado pouco a pouco, de país para país, avançando como fatalidade sobre Roma.

E mesmo a milenar sabedoria institucional da Igreja, não evitou que algumas declarações agravassem os estragos, grandes, que uma, outra e mais outra acusação de antigas vítimas vinham fazendo. Afinal, os mesmos que publicamente trovejavam, como anjos de uma virtude branquíssima, maldições e diatribes, contra os mortais indignos, que se deixavam possuir pelos demoníacos desvios conducentes ao aborto , à eutanásia, ao divórcio, à contracepção, ronronaram mansamente como gatos de pecado, escondendo no aconchego das sacristias, ano após ano, num e noutro país, os abusos sexuais contra crianças. Contra as crianças, que neles confiavam como homens de Deus, mas que para com elas se comportavam como enviados do diabo.

E a Igreja Católica sofre tanto mais com isso, quanto, pelo menos no Vaticano e na maior parte dos países do primeiro mundo, elegeu as virtudes privadas como a primeira pedra de toque da santidade e a esfera mais sulfurosa das tentações demoníacas. Bebe agora do seu próprio cálice, pois o tipo de questões que por cálculo político elegera como as que verdadeiramente separam as águas, distinguindo os bons dos maus, os infiéis dos pios, inscrevem-na agora na lista dos ímpios e prevaricadores.

Chegou pois à Igreja Católica um tempo de encruzilhada: ou se arrasta numa via sacra de desculpas e tímidos anátemas defensivos, de atrapalhados perdões e subtis esquecimentos, numa girândola terrível de deslegitimação ética, ou regressa de uma vez por todas ao Vaticano II, assumindo finalmente o imperativo da sua própria mudança.

Pode então cooperar, natural e lealmente, com a justiça dos homens, quando for caso disso, quando ela tiver razões para actuar, em casos de pedofilia ou noutros, mas no quadro de uma mudança do seu eixo estratégico, de uma mudança profunda da sua posição na humanidade. Abandonará assim finalmente a sua cumplicidade histórica em face dos poderes instituídos, a sua conivência de última instância com os senhores do dinheiro, o seu conformismo em face do sistema universal de reprodução da pobreza, preço inevitável da abastança de alguns.

Talvez então ela possa vir a ser a casa de uma nova teologia da libertação, apontada para o futuro, conquistando-se como Igreja do século XXI. De facto, só rompendo com a ganga conservadora que há séculos a tem tolhido, para se colocar, como já tem acontecido, num ou noutro país, numa ou noutra circunstância histórica, dentro dos explorados e oprimidos, poderá ser uma esperança limpa para a humanidade aflita dos nossos dias. Só assim estes tristes episódios da pedofilia poderão reduzir-se a simples casos de polícia, para como tais serem resolvidos.

Mas se, pelo contrário, continuar a distanciar-se do Concílio do Vaticano II, para tender a ser cada vez mais a casa comum da ideologia das direitas do primeiro mundo, melifluamente deitando para debaixo do tapete as suas vergonhas como se nada tivesse acontecido, insistindo em reproduzir-se no futuro como simples sombra de um passado recorrente, é natural que se empobreça no mundo dos ricos e se desvaneça no mundo dos pobres, que se separe dos justos e entre na fila das grandes casas vazias de um ocidente dissipado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Santo brinca com o fogo

Modestamente, a Igreja Católica Italiana, pela voz solene dos seus bispos, reclama do primeiro-ministro italiano Berlusconi discrição.

O inefável estadista, velha raposa da política espectáculo, polvilhou as suas listas eleitorais para o Parlamento Europeu de garotas de calendário, vestindo-as de uma adequada nudez no espaço mediático, na esperança de que, fazendo-as cobiçar gulosamente pelos eleitores verdadeiramente machos e levando-os assim a esquecer a Europa, a crise e todas as outras coisas chatas e desagradáveis, conseguisse arrastá-los para um voto, ainda que concupiscente, na sua direita.

Arrasada por esse impulso “cicciolinniano » , e por mais alguns detalhes que envolviam uma gostosa garota abaixo dos dezoito anos, a esposa do estadista italiano assomou de supetão à boca de cena mediática e pediu o divórcio. A esquerda italiana, liderado pelo estranho Partido Democrático, pareceu acordar da sua modorra sonolenta , tendo suspirado uma comedida indignação. Como alguém que foi apanhado a roubar um rebuçado, o visado, depois de atabalhoadamente reduzir a torrente de beldades que estava a preparar para a alta política, a um pequeno punhado das verdadeiramente excelentes, denunciou com argúcia o dedo maçónico da oposição com uma esbatida foice e martelo, pálidos, ao fundo. Alegou o “velho gaiteiro” que a sua inocente esposa sucumbira às perfídias malévolas de uma oposição sem escrúpulos.

A própria gostosa garota abaixo dos dezoito anos se derramou com leveza pela comunicação social , garantindo que o Berlo era realmente um paizinho para ela. Um paizinho muito querido, mas apenas um paizinho.


Foi então que os piedosos bispos num assomo de cuidado com cada ovelha do rebanho por que são responsáveis, passaram a mão pelo pêlo de tão irrequieto cordeiro e sussurraram uma suave admoestação , esperando que o Berlo fosse doravante mais discreto.

Não vimos os anjos da virtude enlouquecidos ribombando censuras no espaço santo, não vimos o coro dos sacerdotes vigilantes invocando infernos. Vimos um plácido coro de bispos admoestando carinhosamente o irrequieto estadista.

Gostámos dessa distância prudente da política espectáculo, dessa distância salubre do carnaval de um estadista piedoso. Mas não conseguimos deixar de cair na tentação de imaginarmos as tempestades que teriam desencadeado os vigilantes bispos se tivesse sido um incauto primeiro-ministro de esquerda a procurar atrair votos com uma qualquer aposta na indução do pecado. Especialmente, se o pecado se vestisse de uma exuberância de curvas, numa tentação de lábios e de gestos sensuais de beldades de calendário.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Desavença Escaldante


1º Momento-

Do excelente Blog Água Lisa de João Tunes, permito-me transcrever o excerto que se segue, datado de 10 de Março passado, acompanhando uma fotografia do Cardeal Rouco retirada da mesma postagem.

"Sim, não esquecer que um dos grandes derrotados nas eleições espanholas foi este senhor: Antonio María Rouco Varela, cardeal arcebispo de Madrid, o ponta de lança do fundamentalismo católico espanhol que meteu as sacristias a catar votos por Rajoy, contra o Estado laico e na esperança do retorno de Espanha à ancestralidade do catolicismo paroquial em que os Curas pastavam cidadãos como se fossem ovelhas. Desta vez, não passaram."


2º Momento -

O jornal italiano "Corriere della Sera" de hoje chama a atenção para a capa da revista espanhola "Interviú" que tem como curiosidade a publicação na capa de uma fotografia de uma sobrinha do referido cardeal, devidamente nua. E como legenda picante tem uma frase da referida sobrinha, Magdalena Rouco : "Quero desnudar la hipocrisia de mi tio".


3- Moralidade:

É o que se chama uma desavença familiar escaldante, que o piedodo Cardeal tomará decerto como justa penitência, a castigá-lo pelo seu excesso de zelo, no esforço de arrastar a Espanha para o passado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Pixordices – 1 : Saudades do franquismo ?

Hoje, vai iniciar-se neste blog uma secção nova, com o título de PIXORDICES. Esta palavra não existe. No entanto, se a quisermos identificar pelo sentido que se lhe pretende atribuir, podemos encará-la como um misto de inabilidade e de falta de exigência ética. O seu significado autêntico, contudo, será dado, principalmente, pelo conjunto de textos publicados sob esta epígrafe, ao fim de algum tempo. A sua sonoridade, por si só, também significa alguma coisa.





A igreja católica espanhola não teve pejo em entrar na campanha eleitoral, ao lado da direita, convocando para Madrid uma manifestação nacional, expressamente hostil ao governo do PSOE. Permite assim que se pense que continua com saudades do franquismo, fiel ao papel que desempenhou no golpe de estado de Franco contra a ordem democrática, que conduziu a uma sangrenta guerra civil que, de certo modo, foi uma espécie de ensaio para a 2ª Guerra Mundial, que começaria pouco depois. Guerra, cujo resultado só foi favorável aos golpistas, porque Franco teve o apoio directo, em soldados e em armamento, dos governos de Hitler e de Mussolini. É esta tradição que a hierarquia católica espanhola irresponsavelmente estimula. Acabará por ser caracterizada por ela, se insistir nesse infeliz rumo.

Na concentração referida, não hesitou, aliás, em atribuir ao actual governo medidas que não foram tomadas por ele, em exigir modificações de algumas lei que estavam em vigor no tempo dos governos do PP (sem que então tivesse feito tal reivindicação) e em ignorar o facto de ter havido várias matérias em que o actual governo moderou a sua política, em homenagem à distensão das relações com a Igreja Católica.

domingo, 14 de outubro de 2007

Santidade enviezada



José Ariztimuño, asesinado en 1936. Primero por la izquierda, junto a Aguirre, que luego fue lehendakari, con sombrero y gabardina.


Resolvi transcrever do jornal diário espanhol "Público" um preocupante texto que mostra como a Igreja Católica de Espanha, com a benção de Roma, ainda não saiu por completo da sua vergonhosa cumplicidade com os franquistas na guerra civil espanhola.


Los mártires de la desmemoria

En octubre de 1936 el bando sublevado asesinó a 16 religiosos vascos. Ninguno de ellos figura en la lista de los 498 mártires de la guerra

MIGUEL ÁNGEL MARFULL - Madrid -

"La historia edulcorada por la actual jerarquía católica ante la próxima beatificación de los llamados 498 "mártires españoles del sigloXX" se salta siempre la misma página. Dieciséis curas y religiosos vascos fueron asesinados por las tropas franquistas en Euskadi sin renunciar tampoco a su fe.
"Todos los asesinatos son condenables, pero no todos los asesinados son mártires", señaló el pasado martes el portavoz de los obispos, Juan Antonio Martínez Camino, preguntado por esta causa olvidada.
Entre los 498 nuevos beatos de la Guerra Civil hay elementos comunes. Todos murieron de manera trágica en el umbral del conflicto o avanzado el verano de 1936. Todos han sido desde entonces ensalzados por la Iglesia del poder nacional católico. Todos han ocupado un lugar en su recuerdo y en sus oraciones. Pero ninguno murió por orden del bando franquista. Eso les diferencia y les garantiza un lugar en la memoria de la Iglesia, que ha resultado ser tan coincidente en lo temporal con la agenda del Gobierno, como selectiva en cuanto a su rigor histórico.
Durante la presentación de los actos que coronarán esta causa de beatificación masiva el próximo 28 de octubre en la plaza de San Pedro del Vaticano, Juan Antonio Martínez Camino negó cualquier discriminación hacia los religiosos asesinados por orden del bando sublevado. Casualidad o no, ninguno ha sido elevado aún a la gloria del Vaticano.
Martínez Camino lavó sus manos y las del episcopado. Se excusó señalando que las causas sobre la posible santidad de una persona no las inician los obispos, sino los fieles. "La conciencia del pueblo de Dios es donde está depositada la fama de santidad o de martirio", concretó. Cuando se presenta una causa "no hay prejuicio previo que cierre el camino a nadie", dijo el portavoz de los obispos.

Sacerdotes depurados
Pero nadie ha iniciado causa alguna a favor de sacerdotes o religiosos asesinados por las balas del bando fascista. Su memoria sigue viva sólo en los archivos de historia.
El golpe de Estado de Franco fracasó inicialmente en Guipúzcoa. La columna del general Mola entró en San Sebastián el 3 de septiembre de 1936. Como en el resto de España, ocupación se convirtió en sinónimo de depuración. Republicanos y nacionalistas vascos fueron el primer objetivo. La sotana no fue, en esta ocasión, un salvoconducto. Dos curas de Rentería, Gervasio de Albizu y Martín de Lekuona fueron los primeros. El 8 de octubre de 1936 eran fusilados sin renunciar a sus convicciones religiosas ni a sus ideas nacionalistas.

Durante las tres semanas siguientes serían ejecutados por el bando rebelde 14 religiosos más, entre ellos el cura y escritor José de Ariztimuño, un teórico del nacionalismo.

No fueron hechos aislados. En un territorio en el que el nacionalismo está fuertemente ligado al fenómeno religioso, el asesinato de sacerdotes era algo más que un simple aviso.

Franco obedece al cardenal
"Tenga Su Eminencia la seguridad de que esto queda cortado inmediatamente", respondió Franco al primado de los obispos españoles, el cardenal Isidro Gomá, cuando éste se quejó ante el general tras tener conocimiento de las ejecuciones de religiosos vascos.

Cuenta también el historiador Julián Casanova que a los 16 curas asesinados "se les tomó declaración en juicio sumarísimo antes de la ejecución. Los fusilaron vestidos de seglar, de noche, para evitar publicidad, avisados poco antes para evitarles sufrimientos morales". Dos jesuitas estuvieron con ellos en un improvisado confesionario, en el interior de un automóvil.

Gomá detuvo los asesinatos. La jerarquía de la Iglesia, "identificada y fusionada con las armas franquistas, hablaba con quien tenía que hablar y presionaba a quien tenía que presionar. Ése era el método. Y lo podían haber utilizado para truncar bruscamente los asesinatos de muchas más personas, de miles de ellas. Pero no eran sacerdotes, sino ‘rojos' y ‘canalla marxista' por los que no valía la pena incordiar al Generalísimo", escribe Casanova en La Iglesia de Franco, un manual de referencia sobre este episodio de la historia.

La represión de Franco contra el clero vasco, no se detuvo ahí. Decenas de curas y religiosos fueron encarcelados. El obispo de Vitoria, Mateo Múgica, favorable a la sublevación, acabaría siendo una excepción dentro de la complaciente jerarquía católica.

El obispo exiliado
Múgica protestó por los abusos del bando sublevado contra clérigos y creyentes en su diócesis. Se quejó y acabó por convertirse en un exiliado. Instalado en Roma desde mediados de octubre de 1936, Múgica no regresó a España hasta diez años después. Fue condenado al ostracismo hasta su muerte. Su pecado fue de omisión. No firmó la "Carta colectiva del Episcopado español a los obispos del mundo entero", encargada por Franco al cardenal Gomá. Un pacto firmado en julio de 1937 que uniría para siempre a la dictadura con la jerarquía de la Iglesia."

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Aos infiéis, senhor, aos infiéis...





Pode ler-se no diário espanhol "Público" de hoje, que numa recente iniciativa tendente a promover uma Aliança de Civilizações, a Liga Árabe defendeu que na Mesquita de Córdoba pudessem rezar católicos e muçulmanos. Para o representante do governo espanhol cabe á Igreja decidir. De facto, a Mesquita está agora sob a tutela da Igreja Católica que se apressou a rejeitar a sugestão apresentada.
Uma oportunidade perdida, a revelar que em Roma se continua a regressar ao passado. Aliás, a situação gerada não deixa de ser irónica. Reparem: estamos a falar de um templo a que todos chamam Mesquita e não Catedral.