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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Radicalidade ─ nem urgentismo, nem conservadorismo



                                        Quadro de Chagall
Radicalidade ─ nem urgentismo, nem conservadorismo                                                            
1.A emergência climática, os riscos pandémicos e a constância das desigualdades socioeconómicas agravaram a toxicidade do capitalismo.
O sofrimento coletivo, a angústia prospetiva, a dissipação cultural criam uma atmosfera política cada vez mais insalubre, aberta a todos os desesperos. Os horizontes de esperança tendem a reduzir-se a miragens.
O combate por uma sociedade nova, para superação dos pesadelos que assombram o nosso presente, exige, cada vez mais, o fim da sofreguidão imediatista e políticas suficientemente inscritas no horizonte, para comportarem e até exigirem a opção por estratégias de longo prazo. Estratégias suscetíveis de visarem com verosimilhança transformações radicais da sociedade, de modo a que os estrangulados pelo modelo vigente, as vítimas das desigualdades atuais, se sintam impelidos e motivados a partilhar um caminho que leve a essas transformações. E só a exploração do fundo das questões, pelo exercício de uma radicalidade crítica, pode mostrar-nos o caminho. Se o longo prazo não impregnar o cerne do curto prazo, dando à utopia uma realidade imediata como esperança verosímil, dificilmente se poderá incorporar na nossa imaginação um futuro à medida dos grandes sonhos que movem a História. E se essa esperança nos fugir, estar-se-á mais perto de um desespero sem margens e do risco de caóticas automutilações das sociedades.
A radicalidade política passou, por isso, a ser uma condição indispensável do êxito de qualquer processo democrático de transformação social. Na verdade, sem se recusar desde a raiz o modo capitalista de reprodução da vida social não se dá verosimilhança a um tipo de futuro por que valha a pena lutar, não se abre uma janela de esperança que permita que respire quem atualmente suporta o maior peso da injustiça social.
Mas não pode nunca esquecer-se que a radicalidade política não é sinónimo de urgentismo. Especialmente, se for um urgentismo que embora se conforme com a eternização das árvores velhas lhes exija depois que deem frutos novos. Um urgentismo que, sentando-se apoplético à sombra das laranjeiras, lhes exija com veemência que passem a dar maçãs. Ora, já diziam os oráculos na antiguidade, que, por mais assustadas que fiquem, as laranjeiras nunca poderão dar maçãs. Mesmo que seja trovejante a vociferação dos urgentistas, as laranjas poderão no máximo dos máximos nascer um pouco mais doces, sem no entanto desaparecer o risco de afinal nascerem ainda mais amargas.
Na verdade, só uma radicalidade política, que aponte com verosimilhança e clareza para a metamorfose do modo de vida presente, será capaz de mobilizar as vontades de mudança suscetíveis de se fundirem numa dinâmica social transformadora. Só essa radicalidade geradora de uma metamorfose superadora do capitalismo, rumo a uma economia humana que possa ser o rosto de um pós-capitalismo, trará os povos para o interior da esperança.
De nada adiantará mastigar velhas soluções como se fossem novas. Nem mesmo recorrendo à lucidez crepuscular do velho leopardo, genialmente inventado por Giuseppe T. di Lampedusa, quando percucientemente sugeria a necessidade de se mudar tudo para que tudo pudesse ficar na mesma. De nada adiantará maquilhar de inovadoríssimas velhas receitas, cuja última razão de ser é a conservação aconchegada do modelo capitalista atual.
E não é possível também que se ache suficiente e eficaz o simples apedrejamento virtual do neoliberalismo, identificando-o como doença infantil e passageira de um capitalismo que afinal até se quer ver livre dele. E uma vez curado regressará provavelmente a si próprio, salvando-nos finalmente a todos. Não salvaria.
Por isso, não faz sentido acolher calorosamente, nas hostes que combatem o neoliberalismo, os ex-chefes das orquestras que o têm interpretado diligentemente, para que todos em fraterna cumplicidade apupemos ferozmente as sinfonias que eles próprios regeram até ontem; e cujo apedrejamento nos convidam hoje a partilhar. É que, em última instância, a hipocrisia política (quando subtil) pode driblar os incautos, adormecê-los com flautas mágicas, mas acabará por esbarrar na realidade. Nunca se deve confiar nos lobos para liderarem a resistência dos cordeiros.
Também não podemos deixar-nos escorregar para uma radicalidade indolente que se deixe dormir à sombra da sua própria lucidez. Pelo contrário, a lucidez da radicalidade crítica só é fecunda animada por uma inquietação permanente. Temos que valorizar uma radicalidade tensa e ativa, capaz não só de fazer pontes como de traçar fronteiras. Uma radicalidade em movimento.
Na verdade, uma radicalidade apenas paciente poderá ver esfumar-se rapidamente todo o seu potencial futurante. Desde logo, não pode fugir do combate às secreções mistificatórias da ideologia conservadora dominante, a ideologia de conservação do capitalismo, sempre enroupada por um discurso dogmático travestido de científico, numerologicamente condimentado. É preciso arrancar os narizes de cera que contaminam o espaço público, desfazendo as evidências que escondem a realidade. A radicalidade propositiva não dispensa, no entanto, uma tonalidade crítica que se questione a si própria, para que a coerência não possa ser confundida com dogmatismo e a persistência com teimosia. Uma radicalidade nunca inflexível, mas sempre vertical; sempre prudente, nunca pusilânime.
Por isso, esta radicalidade transformadora, centrada num horizonte emancipatório, que se assume como gradualista para poder ser profunda, só pode afirmar-se autenticamente no seio de um processo único em que se conjugue com a intensificação da democracia em todas as suas dimensões, em todas as instâncias. Uma democracia ao mesmo tempo modo de ser e objetivo parcial da metamorfose desejada; mas que é exigível desde já para que nela as ideias transformadoras se possam confrontar livremente com o conservadorismo dominante, para que vencendo-o, convençam, impregnando duravelmente as consciências, conquistando uma hegemonia robusta.
Nunca esqueçamos no entanto, que a recusa do urgentismo, a opção pelo gradualismo, o respeito pelas necessidades de amadurecimento dos processos, não pode converter-se numa complacência indutora de lentidão. Lentidão que fará aumentar o risco de paralisia e colapso de uma possível transformação e poderá bloquear a metamorfose almejada.

2. Feito este enquadramento, olhemos mais para o imediato. É um lugar-comum o alvitre de que a pandemia em curso vai mudar o mundo. Uma insidiosa e difusa neblina lança no entanto alguma incerteza sobre o significado desse alvitre.
Parece, às vezes, tratar-se de um voto de urgência quanto à necessidade de se caminhar com celeridade para um mundo mais justo; de uma consciência mais aguda e mais generalizada de que a insistência na conservação de um tipo de sociedade indutor de desigualdade, de pobreza e de exclusão é insuportável. Mas não deixa também de às vezes nos sobrevoar como ave agoirenta a ideia difusa de que o fruto da mudança, que se sugere já estar consumada, é um tempo de sacrifício que apenas  nos cabe estoicamente suportar.
O mundo mudou, dizem insistentemente as sereias do óbvio. Ora, fazer a constatação de que o movimento dos vários planos da vida e da sociedade é indutor de uma cadeia de mudanças na superfície das coisas e na pele dos dias, podendo ser um mero sinal de realismo, não deixa de poder ter uma ressonância perversa. Na verdade, a circunspecta proclamação de que o mundo mudou (já mudou), pode sugerir que isto que aí está e que tanto nos esmaga já é um aspeto, um fruto, uma antecipação dessa mudança. Não é. Mas, além de assim se poder sugerir que a estagnação é a mudança possível, pode subliminarmente induzir-se a ideia conservadora de que, uma vez que o mundo já mudou, perdeu sentido a vontade de o mudar.
Não perdeu. Igual a si próprio, espelhando o capitalismo que nele predomina, o mundo atravessa uma crise vivida como um pesadelo para milhões de pessoas. Verdadeiramente está agitado, mas não em movimento. Não se abriu ainda a uma humanização radical, libertadora e superadora das desigualdades atuais. A vertigem da aceleração do tempo numa sofreguidão de urgências, que parece arrastar-nos para uma voragem de precariedades em que tudo é provisório, não quebrou a inércia estrutural que tem conservado a sociedade atual confinada no capitalismo. Não escapámos ainda do pântano das catástrofes.
Não estamos a percorrer um caminho que tenha mesmo como horizonte a paz, a liberdade, a igualdade e a justiça, um caminho democrático numa atmosfera de solidariedade e cooperação. Adiar mais o início dessa transição, rumo a um pós-capitalismo, carrega cada vez mais  o mundo de riscos graves. É a imperatividade desta transição e a sua urgência que a atual pandemia tornou absolutamente incontornáveis.

3. Percorrer esta transição não será um alegre passeio através de jardins, fará certamente com que se rasgue a pele de muitos sonhos, porá escolhos diante de muitas ousadias, desafiará esperanças com desilusões, mas é o único caminho que pode levar a um horizonte humanizante e libertador. Dificuldades, no entanto, bem mais suportáveis do que a permanência no cinzento deste tempo fechado.
As esquerdas que ficarem alheias a essa transição deixarão objetivamente de se poderem considerar como tais. Nenhuma delas pode estagnar melancolicamente na saudade de um futuro a que renunciou. Mas as entidades político-partidárias, que protagonizam institucionalmente as esquerdas no aparelho de Estado, não devem ser tolhidas pela ilusão de que é aí que tudo se joga e se decide. É certamente também aí; mas não apenas aí. Sem as dinâmicas endógenas da sociedade que se projetam nos movimentos sociais, com relevo para as que materializam resistências ou alternatividade em face do capitalismo, a metamorfose cujo horizonte é a sua superação poderá ficar bloqueada.
É por isso urgente dar corpo a uma vasta rede de entidades e de cidadãos, de organizações e de pessoas, agindo conjugadamente com flexibilidade dentro e fora das instituições, protagonizando um permanente debate de ideias, gerador de conhecimento e de um cultura crítica que potenciem a compreensão do presente para se poder caminhar transformando-o. Mas, se a ação política tiver horizontes tão cinzentos que impeçam os explorados e os excluídos de cultivarem esperanças verosímeis em concreto, eles não se envolverão no combate pelo futuro. Ora, sem o envolvimento das vítimas atuais da desigualdade, uma luta pela transformação social continuada, esclarecida e consistente, que aproveite as energias do povo e as estimule cada vez mais, será uma miragem. Mas se forem fechadas as portas do futuro àqueles para quem o presente é insuportável, dificilmente se evitarão explosões sociais devastadoras e estéreis, eventualmente contra civilizacionais.
Por tudo isto, vemos como é necessário que as esquerdas revisitem sem preconceitos as suas tradições emancipatórias comuns, a história das suas conquistas e dos seus falhanços, das suas intuições luminosas e dos seus erros, para poderem somar-se umas às outras na construção de um espaço ideológico comum. Somar-se num espaço comum de crítica e de luta, ancorado firmemente numa imaginação do futuro bem enraizada nas tradições emancipatórias e libertadoras da humanidade. Espaço comum composto por regiões, cuja diferenciação exprima a heterogeneidade da esquerda no seu todo, respeitando diferenças sem comportar muros nem fronteiras. Um espaço em que as diferenças de opinião, a heterogeneidade das ideias, exprimam e estimulem uma permanente criatividade crítica. Sem dogmatismos, sem anátemas, sem excomunhões.
Só assim se pode esperar sem fantasia que o povo de esquerda se ponha sustentadamente em movimento, só assim o cinzento pesado e triste dos tempos presentes se esfumará no quotidiano dos explorados e dos excluídos, só assim o protagonismo institucional das esquerdas ganhará sentido e poderá ser eficaz na realização dos objetivos que o justificam.
É neste contexto que se pode compreender plenamente a importância da radicalidade na ação política e no combate ideológico , bem como a necessidade de lhe garantir robustez, pela recusa quer do urgentismo quer do conservadorismo.
                                              
                                                  RUI NAMORADO
                                            [2 de julho de 2020] 

domingo, 22 de setembro de 2019

Stiglitz escalpeliza o desastre neoliberal na Argentina




Stiglitz escalpeliza o desastre neoliberal na Argentina

Reproduzo hoje uma entrevista, dada recentemente  por Joseph Stiglitz ao jornal argentino Página /12. Aí o reputado economista norte-americano escalpeliza a deriva  neoliberal liderada por Macri, atual presidente argentino, que tem vindo a arruinar o país.
É importante lê-la com atenção. Se virmos bem, no essencial, o “macrismo” é uma tradução argentina do caminho seguido pela direita portuguesa durante o “pafismo” que agora nos propõe toscamente recauchutada, ainda que  com diferentes maquilhagens, R. Rio e A.Cristas. Se os deixassem, intoxicariam de novo o país com os seus falsos remédios. Sigamos o que nos diz o referido jornal:
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Entrevista exclusiva al prestigioso Premio Nobel Joseph Stiglitz:
“Macri y el FMI provocaron el desastre”

En diálogo con con Página/12, el economista afirmó que la política económica del gobierno fue “una apuesta fallida”, respaldada por una comunidad internacional “enceguecida” por modelos caducos.  “El experimento neoliberal ha sido un fracaso espectacular”, señaló


El profesor Joseph Stiglitz es una excepción lúcida en el castillo calculador del imperio liberal. Consiente, según escribe, de que “el experimento neoliberal ha sido un fracaso espectacular”, Stiglitz promueve hoy lo que el denomina “un capitalismo progresista” como reemplazo al fracasado ultra liberalismo. No es un antiliberal pero si un reformista y, sobre todo, un acérrimo adversario de las políticas del FMI. Precisamente, cuando ocupaba el puesto de economista  jefe del Banco Mundial, sus posturas adversaras el FMI le valieron el Premio Nobel de Economía en 2001. A sus casi 77 años Stiglitz perdura con toda la legitimidad de su voz alternativa. Tanto más legítima cuando que, en lo que toca a la Argentina, sus premisas se hicieron una realidad fatal. En sus planteos contra el esquema actual, las experiencias argentinas de los últimos años ocupan un lugar especial. Entre las políticas económicas nacionales erradas y los organismos multilaterales de crédito que las alentaron y las financiaron con un endeudamiento suicida, Stiglitz ve todo el abanico negativo que va desde la desregulación de los mercados, el corte de los impuestos para los más pudientes, la financiarizacion de la economía, la austeridad, el ahogo del crecimiento, tasas de interés descabelladas, la inflación, la devaluación y la deuda. 
Stiglitz ha sido un critico del modelo macrista y en más de una ocasión predijo que la Argentina podría terminar como Grecia y el dólar en la estratosfera. También se ha mostrado muy mordaz con el Fondo Monetario Internacional y sus “modelos impregnados de ideología”. Ambas líneas, la política del presidente Macri y la intervención de los organismos multilaterales de crédito, han sido, asegura Stiglitz, el desencadenante del desastre argentino
En esta entrevista de Página/12 con el premio Nobel realizada en París, Stiglitz sostiene que la política económica del gobierno fue “una apuesta fallida” respaldada por una comunidad internacional “enceguecida” por modelos caducos.
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Hace unos días, se voto en la Argentina una Ley de emergencia alimentaria. Parece cada día más un paso hacia una ficción negra: hay urgencia alimentaria en el país cuya retórica nacional ha sido, durante décadas, ser “el granero del mundo”. ¿Es para usted el fracaso rotundo del proyecto que llevó en 2015 al presidente Mauricio Macri a la Presidencia?

- Escribí un artículo cuando el presidente Macri empezó a aplicar su política económica. Ya advertí que el presidente estaba corriendo un gran riesgo con la reducción de las retenciones a la exportación. Le aportó ganancias al gobierno, pero derivó en el aumento de los precios de los alimentos en la Argentina y el empobrecimiento de muchos trabajadores. De alguna manera, fue una apuesta por la idea de que se produciría en la Argentina una fiebre de fondos extranjeros hacia el país y que, con ello, Macri podría pagar la enorme suma de dinero que estaba pidiendo prestado con unas tasas de intereses escandalosamente altas. No puede haber ninguna inversión si se pagan tasas de interés del orden del 70 por ciento anual. En un momento las tasas de interés por las nubes desencadenan el efecto contrario. Creo que fue una apuesta fallida. Los inversores extranjeros no acudieron para respaldar la apuesta de Macri. Desafortunadamente para el país, Macri apostó mal y ahora Argentina paga un precio muy alto por ese error que fue respaldado por mucha gente que ya conocemos dentro de la comunidad internacional.

Al principio del mandato se celebró la retórica según la cual “La Argentina vuelve al mundo”. Luego ahondaron la idea de que “el mundo nos apoya”. Y siguen con eso, pero la situación demuestra lo contrario. El mundo abandonó a la Argentina en estos años.

- Una de las cosas que se hizo cuando Macri se convirtió en presidente fue decir que la Argentina había heredado muchos problemas. Pero una de las cosas buenas que él heredó fue precisamente una deuda externa muy baja. Pero él cambió esto y convirtió a un país con una deuda externa muy baja en otro con una deuda exterior altísima. Esto se llevó a cabo con la connivencia y el apoyo de la comunidad internacional. Ahora se está pagando el precio.

La responsabilidad del Fondo Monetario Internacional y de su Directora Gerente, Christine Lagarde, es ineludible.

- No sólo se trata de dinero. Ha sido un enorme error de juicio y quedan preguntas que ya se han planteado. ¿ No se trató acaso de un análisis económico contaminado por un análisis político? Tal vez había algunas personas dentro de la administración estadounidense que si deseaban que el plan tuviera éxito y también apoyar la apuesta de Macri. Pero hay preguntas sin respuestas, como en el caso de Grecia y la precaución inicial que debería preceder todo análisis económico, y que en ese caso también fue fallida.

¿Qué le espera como solución a un próximo gobierno con una herencia tan pesada?

- La situación se ha deteriorado tan rápido que es muy difícil en este momento emitir un juicio. Creo que la Argentina, en estos últimos cuatro años, no debería haber contraído esos enormes préstamos del FMI y de la comunidad internacional como respuesta a sus problemas. La pregunta sobre lo que se debería hacer concierne ahora a la comunidad internacional dado que fue ella quien también cometió esos errores. Se trata de saber hasta donde está dispuesta a llegar la comunidad internacional reconociendo el papel que desempeñaron en crear esta nueva crisis en tan pocos años. No puedes culpar del todo a la Argentina si alguien en la comunidad internacional te dice que te dará 60 o 70 mil millones. Por supuesto, estás tentado a decir que sí aún si piensas que los banqueros te dirán que no. Son los banqueros quienes detentan el caramelo y también ellos quienes deberían decir que es irresponsable, que no se puede. Debo decir una vez más que es a los banqueros a quienes habría que criticar, incluyendo, en este caso particular, al Fondo Monetario Internacional. Se equivocaron al suministrar esos fondos. El problema fue también que Macri cometió una serie de errores, como cuando empezó a eliminar los impuestos a la exportación para después comenzar de nuevo. Luego están los errores cometidos por el Banco Central con la forma en que se llevó a cabo la política monetaria y la estabilización. ¿ Se hizo el trabajo de la manera correcta? Ellos cometieron toda una serie de errores. El FMI debió hacer sonar el silbato. Si el Fondo Monetario Internacional dijo que la política económica estaba bien y que por ello iban a aportar 50 mil millones de dólares, eso fue pensamiento mágico, eso correspondía a un juicio enturbiado por la ideología. El FMI no estaba ayudando a la Argentina, sino violando la política de no intervención o intentando modelar la política argentina.

Después de las elecciones en las PASO, el peronismo quedó en una posición muy favorable para las elecciones de octubre. Ahora bien, dentro de la comunidad internacional mucha gente tiene miedo del peronismo. Los medios reiteran ese cuento de que se vuelve al pasado, de que la Argentina se va del mundo. ¿Usted le tiene miedo al peronismo ?

- No, no tengo miedo. La Argentina encontró soluciones optimas después de la crisis del 2001 y 2002 y estas soluciones acarrearon un crecimiento. Durante el mandato de Néstor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner criticó al gobierno y dio pruebas de su independencia. Néstor Kirchner demostró ser un hombre integro. Ya sabemos que la política es siempre algo muy difícil, y que con la política no hay promesa para el futuro. Pero esto es un indicativo de que se proseguirá con lo que se cree correcto en materia de política económica. Por lo que he recopilado, cuentan con un amplio número de asesores que están más en contacto con la realidad económica que, desafortunadamente, los consejeros de Macri. 


sábado, 24 de dezembro de 2016

A TSU para além da neblina


A descida da TSU é , na minha opinião, uma decisão extremamente infeliz do atual Governo.

Mas a mim, mais do que o demérito induzido pela fragilidade dos argumentos que a sustentam e pela maior consistência da maior parte dos argumentos que a combatem, preocupa-me a ilusão que envolve o próprio plano em que a discussão se trava. Uma ilusão radicada numa relativa superficialidade teórica e doutrinária para a qual as esquerdas têm deslizado, de um modo geral, nas últimas décadas. Essa superficialidade que não é uniforme nem sequer idêntica relativamente a todas elas (mas em nenhuma está ausente), torna mais frágil qualquer entendimento que as congregue e mais incerto chegar-se sequer a consegui-lo.

Neste caso, para mim, o problema central que envolve a descida da TSU é o de que verdadeiramente isso significa uma redução do salário de todos os trabalhadores envolvidos. Na verdade, substancialmente, os descontos para a segurança social, quer sejam  imputados juridicamente aos patrões quer aos trabalhadores, são salários diferidos. E só a superficialidade mistificatória  que ignore isso mesmo, abre a porta a que se possa enveredar por essa via sem sequer  se achar que desse modo se está a cair numa redução salarial.

Não esqueçamos: se deixarmos que as sombras ideológicas projetadas pelo neoliberalismo  nos toldem os espíritos, dificilmente ficaremos a coberto da sua influência nefasta.


domingo, 18 de dezembro de 2016

PASSOS - o astrólogo das desgraças


Passos Coelho assumiu-se como o astrólogo das desgraças. Confiou na alta probabilidade de um regresso dos tempos difíceis a Portugal. Confiança que certamente lhe adveio dos seus próprios limites ideológicos, mas principalmente de uma noção clara da fragilidade da situação económica de Portugal  subsequente ao seu próprio consulado. Fragilidade acentuada pela objectiva  volatilidade política da União Europeia  que oscila entre uma fidelidade robótica aos dogmas do neoliberalismo (traduzida numa total nudez estratégica) e  o despertar doloroso para uma realidade que insistentemente lhe faz entrar pelos olhos dentro o negrume do seu fracasso, quando optou pela via da austeridade.

Mas se é certo que o neoliberalismo tem assombrado a Europa, não conseguiu ainda destruí-la, pelo que muita coisa se move nela apesar dele. Muita coisa resiste.

A fibra e a criatividade  dos portugueses,  uma atmosfera solidária com algum relevo e um governo possibilitado por uma conjugação das esquerdas ( e que a reflecte), têm atrasado a realização das profecias negras de Passos. E parece legítimo afirmar-se que, se os contextos político-económicos europeu e mundial não criarem dificuldades novas e maiores, pelo que diga respeito apenas aos portugueses e à via seguida pelo governo, as profecias negras de Passos não se confirmarão.

Tudo isto, no entanto, suscita duas questões centrais.

Primeira: se houver uma situação difícil inequivocamente imputável a causas externas podemos fazer recair as culpas nos portugueses e no seu Governo?

Segunda: sendo certo que o consulado de Passos, tendo apertado o garrote em torno do povo,deixou a dívida pública pior, o défice abaixo dos objectivos fixados , a economia num nível inferior  e agravados os problemas do sistema financeiro, que razão haveria para acreditarmos que ele , se viesse a ocorrer uma crise exógena,  nos faria enfrentá-la melhor  do que  este Governo?

Quanto àquilo  que a primeira questão envolve, a culpa só poderia ser imputada  aos portugueses e ao actual governo, com base na lógica de que o capital merece todo o carinho e as pessoas que vivem do seu trabalho, todos os sacrifícios.

Quanto ao que tem a ver com a segunda questão torna-se cada vez mais claro que a via da austeridade não é uma cura mas uma intoxicação, cujo efeito colateral mais notório é o de cavar as desigualdades e agravar a pobreza.

Tudo isto conduz a uma conclusão: Passos deixou-se aprisionar pela sua própria frustração por ter perdido o poder, tendo ficcionado a indispensabilidade da sua política e  a insusceptibilidade de se seguir qualquer outro caminho. Robotizado ideologicamente pelo neoliberalismo, foi deslizando para um discurso que se repete a si próprio. E cada dia que passa torna esse discurso mais distante da realidade.

E assim, perversamente, o equívoco de Passos (que começou por ser apenas uma ideia errada) pode converter-se num desejo. Sim, o desejo de Passos de que as coisas corram mal para os portugueses e para o actual Governo por ser essa a única esperança de que venha a acontecer aquilo que vaticinou; única maneira de o salvar  de um enorme falhanço que  com o tempo só pode crescer.




sábado, 15 de novembro de 2014

Economicismo

Divulgo hoje um texto da autoria  do economista argentino Alfredo Zaiat, publicado no jornal Página/12 (de Buenos Aires). É um texto simples que nos ajuda a compreender algumas das raízes do economicismo dominante, ideologia de ocultação da realidade social e de conservação do capitalismo, expressão da deriva neoliberal. Economistas - é o título do texto. Sigamo-lo.

“ La figura del economista ha adquirido un espacio desproporcionado en la consideración pública como analista, promotor y actor principal de la gestión de políticas. Es una distorsión que inunda de confusiones la interpretación de los acontecimientos económicos y sociales. El origen de esa desviación no se encuentra en la expansión de las finanzas, el desarrollo mediático y la ansiedad social por saber qué va a pasar, sino en la formación del profesional dedicado a estudiar la ciencia económica que luego se desempeña en el sector público y privado. Esa (de)formación no es accidental, sino que es la expresión de las relaciones de poder en un determinado contexto histórico. Es una crisis global sobre cómo se despliega el saber económico. La debacle económica en los países centrales provocó el cuestionamiento a postulados que hasta hace pocos años eran considerados sagrados. Mientras la recesión, el estancamiento y el default sucedían en la periferia del capitalismo, el debate se dispersaba en culpar a gobiernos y políticos, pero cuando alcanzó a Europa y Estados Unidos la critica se orientó también hacia el rol de los economistas y qué se estudia en la universidad. La impugnación adquirió intensidad porque los conocimientos convencionales no brindan herramientas para comprender por qué estalló la crisis en el centro y, en especial, por qué las propuestas tradicionales no sirven para salir del atolladero, sino que lo agudizan.
Desde la irrupción a mediados de año del “Llamamiento internacional de estudiantes de Económicas a favor de una enseñanza pluralista” se han ido sumando hasta totalizar 65 asociaciones de 30 países. El manifiesto suscripto comienza así: “No es sólo la economía mundial que está en crisis. La enseñanza de la economía está en crisis también, y esta crisis tiene consecuencias mucho más allá de los muros universitarios”. La mecha de esta rebelión la encendieron los estudiantes de Economía de la Universidad de Manchester, que crearon una sociedad llamada “Post-Crash Economics” para denunciar que sólo se les enseñaba una visión neoliberal de la economía y exigir cambios en sus planes de estudios. Desde entonces, decenas de asociaciones de estudiantes de todo el mundo se han ido sumando a la iniciativa.
El documento (www.isipe.net/open-letter/) plantea que es el momento de reconsiderar la forma en que se enseña economía, puesto que la falta de diversidad no sólo perjudica la educación y la investigación, sino que limita la capacidad para lidiar con los desafíos del siglo XXI. “El mundo real debe ser traído de nuevo a las clases, así como el debate y un pluralismo de teorías y métodos. Este cambio ayudará a renovar la disciplina y, en última instancia, a crear un espacio en el que las soluciones a los problemas de la sociedad se puedan generar”, indican. Explican que el pluralismo no sólo ayudará a enriquecer la enseñanza y dar un nuevo impulso a la disciplina, sino que conlleva la promesa de traer de vuelta a la economía al servicio de la sociedad. Plantean que tres formas de pluralismo (teórico, metodológico e interdisciplinario) deben estar en el centro de los planes de estudio. El teórico, para ampliar la gama de corrientes de pensamiento representadas en los planes de estudio, alentando el debate y el aprendizaje críticamente de las ideas. Afirman que la uniformidad “es algo inaudito en otros campos; nadie tomaría en serio un programa de grado en Psicología que se centre sólo en Sigmund Freud o un programa de Ciencia política que estudie sólo el socialismo de Estado”. El pluralismo metodológico implica la necesidad de ampliar la gama de herramientas que los economistas emplean para lidiar con cuestiones económicas. Está claro que las matemáticas y las estadísticas son cruciales para esta disciplina. Pero, con demasiada frecuencia, los estudiantes aprenden a dominar los métodos cuantitativos sin tener que discutir por qué deben ser usados, la elección de los supuestos y la aplicabilidad de los resultados. La enseñanza de la economía debe incluir además enfoques interdisciplinarios, puesto que la economía es una ciencia social; y fenómenos económicos complejos rara vez se pueden entender si se presentan en un vacío, separados de sus contextos sociológicos, políticos e históricos.
La insatisfacción ante la labor de los economistas también está presente en la corriente liberal. Uno de sus miembros, el dominicano Frederic Emam–Zadé Gerardino, publicó Los economistas como armas de destrucción masiva. Afirma que “los economistas no sabemos tanto como le hacemos creer a todo el mundo, y no debemos ser tan economicistas en nuestros enfoques y diseños de políticas públicas. Las personas no piensan sólo en términos económicos, ni son tan racionales como supone la mayoría de las teorías económicas, ni la realidad es tan simple como para sintetizarla en unas cuantas ecuaciones, ni siquiera en miles o cientos de miles de ecuaciones”. Observa que “esperar que la realidad vaya a comportarse de la misma manera que los números reaccionan a las variaciones de otros números en una hoja de cálculo en una computadora no tiene fundamento científico y el economista que pretenda que tiene ese conocimiento, es un peligro público”.
Desde otra posición del pensamiento económico, el documento de debate “Enseñanza y ensañamiento del neoliberalismo en la Facultad de Ciencias Económicas-UBA”, elaborado por Andrés Asiain, Rodrigo López y Nicolás Zeolla, también aborda el abuso de las matemáticas en el análisis económico. Calcularon que, en el plan de estudios de esa facultad, el 16 por ciento de la carga horaria de la carrera está compuesta por la enseñanza de matemáticas, y sube a casi el 30 por ciento si se agrega estadísticas y econometría. Comparan ese porcentaje con el destinado a la ciencia política o a la sociología, que no supera en cada caso el 3 por ciento, concluyendo que la utilización excesiva de las matemáticas es el resultado de un proceso que buscó separar a la economía de la política y los conflictos sociales para presentarla como un conjunto de conocimientos científicos presuntamente neutrales. “De esta manera se infunde en el estudiante una formación tecnocrática que elude discutir las implicancias políticas y sociales de las diferentes teorías económicas. Esta prestidigitación fue funcional al avance acrítico de la escuela neoclásica, cuyas recomendaciones de políticas de libre mercado favorables para una determinada minoría de la sociedad global, y en desmedro de las mayorías mundiales, fueron implementadas bajo el disfraz de que se trataba de medidas técnicas que eran el resultado de rigurosos análisis científicos”, señala esa troika de investigadores. Menciona a la vez que la descontextualización entre la realidad económica nacional y la formación que reciben los economistas se evidencia “en hechos insólitos como que la mayor parte de los egresados no haya estudiado la explotación de recursos naturales vitales para el país, como el petróleo y la minería. También se encuentra ausente el estudio de las economías regionales, así como el de las economías latinoamericanas”. El resultado es que el egresado de la carrera carece de elementos para comprender el funcionamiento de la economía argentina, ámbito central donde debería desarrollar su profesión.
Esta controversia de alcance mundial, a partir de la crisis en los países centrales sobre la formación y actuación de los economistas, es un marco conceptual inicial para abordar lo que parece incomprensible: la sucesión de papelones de gran parte de los economistas locales, analizando los diferentes acontecimientos económicos.”


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Ainda as eleições no BRASIL

No site do jornal espanhol Público o intelectual e politólogo brasileiro Emir Sader publicou o texto La gran polarización de la era neoliberal”, no passado dia 12/10/2014. É mais um comentário esclarecedor sobre as eleições brasileiras, sobre o que representam as duas candidaturas em confronto. Eis o texto:

“Nuevamente se enfrentan en Brasil el Partido de los Trabajadores (PT) y el Partido de la Social Democracia Brasileña (PSDB). Se trata de una repetición burocrática del pasado. ¿Refleja una falta de renovación en la política? ¿O es la misma realidad que permanece y plantea a Brasil —y a América Latina— las mismas alternativas?
El Gobierno de Cardoso y los gobiernos del PT han polarizado la vida política brasileña de los últimos 20 años, ya que se corresponden con las alternativas centrales de nuestro tiempo: neoliberalismo frente a antineoliberalismo. El primero ha representado, de forma ortodoxa, un programa neoliberal que logró contener la inflación, pero al precio de un acentuado proceso de exclusión social que acabó volviendo a ella y con el país en una profunda y prolongada recesión.
Los gobiernos del PT se han constituido en base a las siguientes premisas antineoliberales:
a) Modelo de desarrollo económico con distribución de renta en lugar de la prioridad del ajuste fiscal.
b) Prioridad de la integración regional y los intercambios Sur-Sur, con el rechazo a los Tratados de Libre Comercio con EEUU.
c) Rol activo del Estado como inductor del crecimiento económico y garantía de los derechos sociales, en contra de la centralidad del mercado.
Desde entonces las alternativas de Brasil han girado alrededor de ese eje: neoliberalismo o antineoliberalismo. La derecha no ha encontrado alternativa, aunque haya esbozado un camino distinto con José Serra, en la campaña de 2010, para volver al mismo cauce del Gobierno de Cardoso. Eduardo Campos llevó al Partido Socialista Brasileño (PSB) a romper con el PT, pero tanto él como Marina Silva recayeron en alianzas estratégicas con el PSDB alrededor de propuestas de neto corte neoliberal.
La izquierda radical tampoco ha logrado formular un proyecto alternativo al del PT, que le permita aglutinar fuerzas propias, permaneciendo —como se ha confirmado en estas elecciones— como partidos sin capacidad de constituir una fuerza propia y así romper la polarización fundamental del campo político. Éste sigue reflejando la gran polarización del período histórico actual, entre neoliberalismo y posneoliberalismo.
Por esas razones, parece redundante la oposición entre PT y PSDB, porque corresponde a la era neoliberal, todavía hegemónica a escala mundial y en América Latina. Teóricamente se puede divagar sobre el problema, pero la realidad es implacable y determina los proyectos que corresponden a la situación concreta del período histórico actual. El resto queda en el papel.
Los gobiernos progresistas latinoamericanos, con sus particularidades, corresponden a esa polarización. Por ello perduran en el tiempo. Hugo Chávez y las fuerzas que lo suceden en Venezuela. Evo Morales en Bolivia. El kirchnerismo en Argentina. El Frente Amplio en Uruguay. Rafael Correa en Ecuador. El PT de Lula y Dilma en Brasil.
Porque son gobiernos que contestan al desafío más grande de nuestra época: la superación del neoliberalismo y la construcción de alternativas a ese proyecto de radicalización del capitalismo. La polarización de hoy actualiza la contradicción fundamental de Brasil y América Latina contemporáneos, entre neoliberalismo y posneoliberalismo.”


sábado, 30 de novembro de 2013

ESTA ECONOMIA MATA !


Na sequência do texto que coloquei ontem neste blog, volto  à Primeira Exortação Apostólica do atual  Papa.

Numa perspectiva histórica, está ainda fresca a cumplicidade  da Igreja Católica para com o salazarismo. Não deve ser esquecida. Tal como deve ser recordada a Santa Inquisição. Mas também não devem ser esquecidos os muitos católicos que, ao arrepio da hierarquia da sua Igreja, estiveram do lado certo da História, partilhando a resistência com muitos e muitos portugueses que nunca se conformaram com o fascismo português.

 Mas, se não há que branquear as complacências de quem quer que seja, em face das derivas opressivas que aflijam os povos, seria estulto não acolher com júbilo as novas solidariedades na denúncia de uma degradação neoliberal do capitalismo que, tornando-se mais e mais insuportável para as suas vítimas maiores, exclui o tipo de sociedade em que nos estamos a transformar  da legitimidade ética. De uma legitimidade ética  gerada pela cultura como expressão consensual de um humanismo, para onde convergiram várias ideologias e várias obediências religiosas. Que o Papa se sinta impelido a ser uma testemunha do mundo todo e em especial dos que mais sofrem, afastando-se com clareza do cartel dos poderes de facto que sorvem as nossas vidas, só pode ser um acontecimento maior.

E isto obriga também os agentes políticos colectivos, cuja existência tem na base a resistência ao capitalismo e a ambição histórica de apressar a caminhada para um mundo diferente, para um pós-capitalismo, a reexaminarem o cerne das suas posições, a reapreciarem a medida em que o futuro impregna de facto como esperança as suas posições políticas como seria lógico. Mas se este desafio envolve em primeira linha partidos e sindicatos, não deixa de fora cada militante individualmente considerado, cada cidadão que se sinta parte do povo de esquerda.

De facto, nada de mais irónico ( e de mais trágico) do que as esquerdas (ou algumas delas), descobrirem que a modorra ideológica e política em que se deixaram cair tenha levado a que acordem um belo dia à direita do Papa.

Mas, vamos ao substancial: analisemos com atenção mais um extrato do documento papal acima referido e já ontem aqui parcelarmente transcrito:


“Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».


Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.”

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

OS DEUSES TÊM SEDE ?


“Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas”.


Este texto não foi escrito por um perigoso esquerdista, ou por um nefelibata sem contacto com a realidade. É apenas um pequeno extracto da Primeira Exortação Apostólica de Papa Francisco.

terça-feira, 4 de junho de 2013

DESIGUALDADE E CRESCIMENTO



A bárbara agressão,  contra os trabalhadores, a classe média e os excluídos, perpetrada pelo neoliberalismo,  por intermédio do capital financeiro e dos seus sequazes, tem procurado buscar alguma legitimidade, alegando estar a seguir os ditames de uma infalível ciência económica, objectiva e neutra. Obedecer ao que é de facto um verdadeiro esoterismo numerológico seria afinal garantir, a longo prazo, a melhor solução; que, pela sua exclusiva conformidade com a ciência, seria afinal a única possível. O breve texto que a seguir transcrevo contribui muito para desmontar  essa mistificação. Por isso, as instâncias  de poder do capitalismo financeiro internacional podem ainda reproduzir como autómatos as vulgatas ideológicas do neoliberalismo; mas fazem-no já como espectros de uma ideologia que a realidade tornou  obsoleta. 

Desta vez, achei que devia traduzir o referido texto, para que todos o possam ler sem serem embaraçados pela  barreira da língua. O texto foi publicado no jornal italiano  Repubblica (31 de  maio de 2013), sendo seu autor o jornalista Roberto Petrini . Trata-se de um comentário a uma recente descoberta do economista norte-americano Joseph Stiglitz, nome sobejamente conhecido que se tem imposto pelo rigor e desassombro crítico. O título alerta-nos desde logo :"A desigualdade mata o crescimento: eis a demonstração de Stiglitz". E acrescenta-se  de imediato:
"Com o teorema de Stiglitz foi infligido outro duro golpe à ortodoxia neoliberal dominante nos tempos da grande crise: se o índice de Gini ( ou seja, o indicador que mede a desigualdade) aumenta, o “multiplicador” dos investimentos diminui e assim o PIB abranda. Eis porque razão".
Segue-se depois o texto:


"É a desigualdade o verdadeiro “killer” do PIB. Nos países onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres o produto interno bruto marca passo e às vezes cai. Nas nações onde existe uma grande “middle class” , pelo contrário, a prosperidade aumenta. O Prémio Nobel Joseph Stiglitz rompe com as demoras  e formaliza num verdadeiro teorema, como ele próprio o define, a síntese dos estudos que dirige há anos.

A ocasião para serem apresentados os extraordinários resultados da investigação de Stiglitz, numa espécie de antestreia mundial, é a convenção organizada em roma pela SIEDS ( la Società italiana di economia, demografia e statistica), iniciado ontem (30 de maio de 2103), onde o Prémio Nobel enviará as considerações conclusivas, escritas a quatro mãos com o seu próximo colaborador italiano da Università Politecnica delle Marche, Mauro Gallegati.
Assim o “mainstream” é posto a um canto. O teorema é claro e luminoso como uma fórmula química ou um relação física: se índice de Gini ( ou seja, o indicador de desigualdade inventado por um economista italiano, Corrado Gini) aumenta, logo aumenta a desigualdade, o “multiplicador” dos investimentos diminui e portanto o PIB trava.
A equação de Stiglitz arrisca-se a ser o terceiro golpe nas posições da teoria económica dominante agora vacilante. O primeiro, dado há alguns meses, foi aquele que pôs em causa o 2dogma2da austeridade: o FMI na verdade calculou que o corte do deficit num ponto percentual reduz o PIB em dois e não apenas  ̶  como se cria até hoje  ̶  em meio ponto percentual. O outro golpe desajeitado foi aquele que desmontou, desmascarando um erro “Excel”, a teoria da dívida de Rogoff e Reinhard, segundo a qual para além dos 90 por cento na sua relação com o PIB ela levaria inevitavelmente à recessão.


Mas o novo assalto de Stiglitz arrisca-se a ser ainda mais perigoso para as teses do “status” económico. A desigualdade, de facto para o Prémio Nobel, fere profundamente o PIB, não só através da queda dos consumos mas também porque o sistema é “ineficiente” se prevalecem rendas e monopólios. “Frequentemente a caça ás rendas  ̶ concluem Stiglitz e Gallegati  ̶  comporta um verdadeiro esbanjamento de recursos que reduz a produtividade e o bem-estar do país”.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

COMPREENDER O NEOLIBERALISMO.

Uma vez mais, recorro ao site da excelente revista brasileira de grande circulação CartaCapital. Hoje, vou transcrever um texto de Luiz Gonzaga Belluzzo, um reputado  economista e universitário brasileiro, que colabora regularmente na revista em causa. O tema é sugestivo : Foucault e o neoliberalismo. Numa curta frase destacada como apoio do título diz-se: “O filósofo francês, um dos pensadores mais fecundos do século XX, não era economista. Talvez por isso entendeu com maior profundidade o neoliberalismo.” Eis o texto:


“O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.
Após a crise, os porta-vozes desse quase consenso, economistas e que tais, recolheram-se ao silêncio. Passado o vendaval que ajudaram a semear, já agarrados aos salva-vidas lançados pela famigerada intervenção dos governos, entregaram-se a tortuosas e acrobáticas manobras para justificar suas convicções.
Michel Foucault, um dos pensadores mais fecundos do século XX, não é economista. Talvez por isso tenha compreendido com maior abrangência e profundidade o significado do neoliberalismo. Contrariamente ao que imaginam detratores e adeptos, diz ele, o neoliberalismo é uma “prática de governo” na sociedade contemporânea. O credo neoliberal não pretende suprimir a ação do Estado, mas, sim, “introduzir a regulação do mercado como princípio regulador da sociedade”.
Foucault dá importância secundária à hipótese mais óbvia sobre a arte neoliberal de governar, a que afirma a imposição do predomínio das formas mercantis sobre o conjunto das relações sociais. Para o filósofo, “a sociedade regulada com base no mercado em que pensam os neoliberais é uma sociedade em que o princípio regulador não é tanto a troca de mercadorias quanto os mecanismos da concorrência... Trata-se de fazer do mercado, da concorrência, e, por consequência, da empresa, o que poderímos chamar de ‘poder enformador da sociedade’”.
As transformações ocorridas nas últimas décadas deram origem a fenômenos correlacionados que não se coadunam com os princípios do liberalismo clássico e sua imaginária concorrência perfeita protagonizada por um enxame de pequenas empresas sem poder de mercado.
A nova concorrência louvada pelos neoliberais admite a “centralização” da propriedade e o controle dos blocos de capital. O processo se deu pela escalada dos negócios de fusões e aquisições, alentada pela forte capitalização das bolsas de valores nos anos 80, 90 e 2000, a despeito de episódios de “ajustamento de preços”. A “terceirização” das funções não essenciais à operação do core business aprofundou a divisão social do trabalho e propiciou a especialização e os ganhos de eficiência microeconômica, além de avanços na produtividade social do trabalho.
A grande empresa que se lança às incertezas da concorrência global necessita cada vez mais do apoio de condições institucionais e legais – sobretudo na derrogação das regras de proteção aos trabalhadores – que a habilitem à disputa com os rivais em seu próprio mercado e em outras regiões.
Elas dependem do apoio e da influência política de seus Estados Nacionais para penetrar em terceiros mercados (acordos de garantia de investimentos, patentes etc.), não podem prescindir do financiamento público para exportar nos setores mais dinâmicos, não devem ser oneradas com encargos tributários excessivos e correm o risco de serem deslocadas pela concorrência sem o benefício dos sistemas nacionais de educação e de ciência e tecnologia.
Tanto a “nova ordem mundial” como a sua crise foram construídas e deflagradas no jogo estratégico disputado entre as empresas globais e seus respectivos Estados. Esse fenômeno político-econômico envolveu os protagonistas relevantes da cena global: os Estados Unidos, apoiados em sua liderança financeira e monetária, e a China, ancorada em sua crescente superioridade manufatureira.
A superação da crise atual não depende apenas da ação competente dos Tesouros Nacionais e dos Bancos Centrais, mas supõe um delicado rearranjo das relações políticas e concorrenciais que sustentaram o modelo sino-americano. Parece que não é fácil.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

A EUROPA ATACA-SE A SI PRÓPRIA !


Liêm Hoang-Ngoc é economista e deputado europeu pelo PS francês. Transcrevo da página Web de hoje, do jornal francês Liberation, uma entrevista que deu a CHRISTIAN LOSSON para esse jornal . O título é sugestivo : «A Europa está em vias de se tornar uma casa de correcção», uma vez que, como se diz num pequeno  excerto destacado, a Comissão Europeia recomendou à França : « Terapias de choque neoliberais » que conduzem ao impasse". 

Lá como cá. Mesmo sendo a França um dos grandes países europeus, a canzoada neoliberal vai-lhe às canelas. É urgente que se perceba que a direita europeia , fiel capataz do capital financeiro, declarou guerra aos povos europeus e em particular aos socialistas europeus. Não podemos deixar-nos cozer em lume branco. Não podemos responder a verdadeiras agressões, ainda que  embrulhadas em mistificações ideológicas, com documentos inofensivos e com ladainhas europeias que esquecem o essencial. Estamos a ser atacados por bárbaros, ao serviço do capital financeiro. Não poderemos resistir, recorrendo a rotinas e aceitando os quadros de referência do inimigo. Isso mesmo, do inimigo. É isso o que temos pela frente. Eis a entrevista :

 «L'Europe est en passe de devenir une maison de redressement»

Par CHRISTIAN LOSSON
Libération

Liêm Hoang-Ngoc est économiste et député européen du PS. Il revient, pour Libération, sur les recommandations de la Commission européenne, dévoilées aujourd'hui, autour du «programme de stabilité de la France pour la période 2012-2017».
 «La France connaît des déséquilibres macroéconomiques qui requièrent une surveillance et l’adoption de mesures décisives», estime la Commission, qui plaide pour une série de mesures très sévères pour la France...
Comme le disait Bernard Cazeneuve, lorsqu’il était ministre des affaires européennes (il est désormais l'actuel ministre du budget, ndlr), "l’Europe est en passe de devenir une maison de redressement". On inflige aujourd’hui des réformes dites structurelles -mais qui sont clairement d’inspirations néolibérales- que doivent engager tous les Etats Membres. La France n’est pas la seule à subir ce genre de traitement où l’on impose des «réformes» qui sont loin d’avoir fait leur preuve.
Quand on regarde les détails de préconisations sur l’emploi, les retraites, la fiscalité, on a le sentiment que même le FMI est désormais moins orthodoxe que la Comission. Comme s’il ne s’était rien passé depuis cinq ans dans le monde?
Depuis la crise, les textes européens ont inscrit dans le marbre les politiques néolibérales à suivre. C’est toujours présenté de façon technique comme la seule politique possible à mener face au déficit de compétitivité et les dettes souveraines. Mais ce sont des thérapies de choc menées jadis par Thatcher et son there is no alternative et défendues par Merkel aujourd’hui. La nouveauté, c’est que la Commission réalise que les cures d’austérité n’atteignent pas leur objectif de réduction des déficits ou de retour de la croissance. C’est presque à contrecoeur qu’elle s’est résolue à suspendre pendant deux ans le pacte de stabilité pour les pays incapables revenir à un déficit budgétaire de 3% en 2013. C’est un bol d’air qui doit permettre de laisser jouer les amortisseurs de crise, ce que les économistes appellent les stabilisateurs automatiques. Cela doit éviter de couper dans les dépenses sociales qui peuvent avoir un effet de soutien au pouvoir d’achat des plus démunis alors qu’il y a un problème de demande aujourd’hui en Europe...
Le problème, c’est que toute les recommandations vont dans le même sens; elles jugent même «élevé» le salaire minimum...
Alors que la hausse du smic tenait à peine du rattrapage des années précédentes! Mais les préconisations affichent en revanche un plaidoyer pour augmenter l’âge du départ à la retraite, baisser l’impôt sur les sociétés, ou réduire les cotisations sociales patronales, etc. La Commission n’a pour seul logiciel que la politique de l’offre alors qu’il faut précisément jouer sur la politique de la demande. Or, cela ne marche pas. Si tout les pays baissent leur salaires en même temps, c’est un jeu à somme nulle. Pire: à somme négative. On tue la demande intérieure européenne et on ajoute de la récession à la récession.
Pour autant, la Commission pointe une fois de plus, et ce n’est pas la seule, les prévisions trop optimistes de croissance pour 2013 en France. Rappelle que le ratio de la dette au PIB, de 64,2% en 2007, a atteint 90,2% en 2012 et devrait pointer à 96,2% en 2014. Et l’OCDE a ce matin jugé que le chômage continuera à augmenter en 2014 à 11,5% de la population active...
ll n’y aura pas d’inversion de tendance tant qu’il n’y aura pas de croissance. On peut prendre des mesures ponctuelles, comme les emplois aidés, mais cela n’a qu’un effet marginal sur l’emploi. Il faut donc mener des politiques contracycliques, un vrai virage via des politiques de relance en Europe, coordonnées à l’échelle de toute la zone euro pour éviter la spéculation des marchés sur les dettes souveraines.
Mais l’Europe prend le chemin inverse...
Oui, et elle le fait de façon très antidémocratique à travers ses «instruments de convergence et de compétitivité». Elle impose à chaque Etat de s’engager contractuellement sur des thérapies de chocs sans passer par les parlements nationaux ou européen. On peut prôner un gouvernement économique comme le fait François Hollande, ce choix doit être discuté dans des instances élues démocratiquement. Or, pour l’instant des institutions non démocratiques imposent des choix extrêmement douloureux aux citoyens européens, ce qui ne fait qu’accentuer le fossé avec les peuples du continent.