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domingo, 25 de novembro de 2018

Não deixemos que a memória se apague!


Vamos contribuir para que a memória não se apague, recebendo condignamente em Coimbra Helena Pato, no próximo dia 28 de novembro, 4ª feira, às 18 horas. Vai ser-nos apresentado um livro seu, através do qual nos vai ser dado testemunho de como as vidas verticais não deixaram fechar as portas da esperança, quando a noite cercava o nosso povo.

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terça-feira, 21 de julho de 2015

COM RAZÃO OU SEM ELA


Num número da revista VÉRTICE do já distante mês de fevereiro de 1973, nas páginas verdes do seu inesquecível Jornal, ao percorrer com saudade aquelas páginas e aqueles nomes, deparei com a versão livre de uma “velha história chinesa” escrita por Joaquim Namorado. “A narceja e a ostra” era o seu título. Ei-la:

“Na praia, uma grande ostra entreabre a concha para expor-se aos raios do sol. Uma narceja, que passava, estende o bico, querendo saborear a carne saborosa do molusco, que fecha a concha num repente.
O pássaro tenta inutilmente libertar o bico da prensa que o aperta.
A ostra, por seu lado, não consegue libertar-se do bico que a prende.
Ambas não conseguem mais do que sussurrar a disputa em que se envolvem.
A pernalta diz:
Se não chove nem hoje nem amanhã, vai haver uma ostra a menos.
Ao que a ostra replica:
Tal como entre as narcejas se não te largar o bico nem hoje nem amanhã.
Sem nenhuma querer ceder continuou a querela, até que passou um pescador as agarrou sem dificuldade e meteu no saco.”

Imagino o sorriso do meu tio Joaquim, se pudesse fruir este momento se suprema ironia, mais de quarenta anos depois. Quanto à narceja e à ostra, asseguram-me que o pescador afirmou ser-lhe indiferente saber qual delas tinha razão.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CEM ANOS - memória breve de um longo século


O tempo é a ironia da saudade. Passa, parecendo que nos escapa por entre os dedos, para logo a seguir deslizar por dentro da nossa memória como uma sucessão de eternidades.Momentos de eternidade, escondidos como preciosos tesouros nos recantos da nossa memória, para de vez em quando nos falarem da novidade do que já passou, da luminosidade tranquila das palavras e das pessoas que foram dando cor às nossas vidas.Vai agora ser tempo de muitos percorrerem com emoção a presença que Joaquim Namorado assinalou nas suas vidas, e de outros ouvirem os ecos dessas narrativas nos testemunhos em sépia que as corporizem.Cem anos desde que chegou à vida no seu Alentejo de sempre, ocupando, como viria a acontecer com  os seus irmãos , o seu lugar entre a gente de Alter. Mas foi há quase trinta anos que nos deixou.


Faço parte de um pequeno grupo de privilegiados para quem Joaquim Namorado, era, antes de tudo o mais e simplesmente, o tio Joaquim.Uma vez, muitas vezes, ao mesmo tempo que ia juntando as primeiras letras, fui ouvindo o meu pai ( o seu irmão António) recitar o pequeno poema que sempre preferiu a todos os outros : " Na terra que o sangue rega e aquece...". Foi ele que permitiu que, antes de conhecer os poetas através das palavras, antes de os poder aprender a cultivar nas minhas emoções e imaginações, antes de olhar a poesia como o mistério subtil das palavras e do sonhos, tivesse podido ter ao vivo diante de mim um poeta. Talvez por isso, cedo tenha aprendido que a poesia vive nas pessoas e das pessoas, embora se transmita como magia  pelo perfume da palavra. Talvez por isso tenha percebido mais tarde toda a serena ironia, toda a laicização do poético que está presente na sua lendária "Aventura nos Mares do Sul" , traduzida simplesmente nesse curto verso de tantas viagens que se não esquece: " Eu não fui lá..." Aventura em que, ironizando sobre a ironia ao torná-la algo de muito sério, participou o grande actor e declamador Carlos Wallenstein, amigo do Joaquim Namorado, vindo de Lisboa a Coimbra para, junto do autor, se certificar do acerto da interpretação dessas terríveis quatro palavras. Reza a história que uma tarde não chegou para levar a bom termo tão complexa empresa. O eminente actor e declamador voltou para Lisboa sem ter conseguido uma interpretação que o poeta aceitasse como boa.















Alguns dos títulos dos seus livros , tendo ficado como marcos do  seu universo poético, reflectiram também algumas das linhas mestras da sua vida. A "Incomodidade" sempre foi o modo como se relacionou com o quotidiano mole dos conformistas. O magistério informal de que sempre revestiu as suas amizades foi muitas vezes  um preocupado "Aviso à Navegação".A  matemática com que ganhou a vida, a actividade política e cívica através da qual cumpria um dever, o envolvimento cultural que era a sua respiração, o convívio com os amigos que o abria para o mundo, nunca o fizeram esquecer "A Poesia Necessária".

Mestre de inquietações, escolheu o Partido Comunista Português como o seu partido, na juventude e para toda a vida. Não foi esse o meu caso, nunca pertenci a esse partido. Mas isso não impediu que muito tivesse aprendido com Joaquim Namorado no campo da política. Nomeadamente, aprendendo a distinguir as sombras que  rodeiam o imediatismo dos comportamentos quotidianos da luz que nos mostra os horizontes rasgados daquilo em que acreditamos. Mas também como é possível e desejável ser-se aberto na troca de ideias, flexível na atenção que se dá ao outro, mas em simultâneo absolutamente firme na vertebração estrutural do nosso pensamento. Dizia ele  repetidamente que a verdadeira aventura intelectual era a ortodoxia, que, digo eu, no fundo assumia não como um dogma, mas como um horizonte. Um horizonte  para atingir o qual eram legítimas e talvez necessárias múltiplas heterodoxias. Não sendo um estalinista prático e muito menos teórico, fazia gala em declarar-se publicamente como tal, num protesto subtil contra  os aparelhos ideológicos do oficialismo soviético que, com a  destalinização, decretaram a diabolização absoluta do que antes haviam santificado para além de todos os limites.

Joaquim Namorado foi também um prático de muitas tertúlias, um mestre na esgrima de argumentos, da ironia e até, no limite e quando fosse caso disso,  do sarcasmo. Nada nem ninguém ficava aquém do seu respeito, sem contudo escapar da sua ironia. Ágil era capaz de surpreender o seu contendor na discussão com frases que desarmavam qualquer incauto. Quando se sentia acossado perante a evidência de que estava ser muito mais exigente para o outro do que aquilo que seria justo, dizia por vezes: " O facto de te chamar careca não quer dizer que eu tenha juba de leão!". Ou se, de repente, alguém confrontava a opinião que acabara de expender com uma outra que lhe ouvira de sentido contrário, dizia: "Desde quando é que eu sou obrigado a estar de acordo comigo próprio?"

Vai decorrer um ano de homenagem e memória a Joaquim Namorado. Se ele  aqui estivesse comover-se-ia com cada pequeno gesto , com cada palavra, com cada cada louvor ou elogio.Mas haveria de cultivar  a arte de se mostrar distante, sem esconder toda a sua emoção. 

Estão anunciadas sessões de homenagem para o próximos dias 30 de junho e 1 de julho, na Figueira da Foz e em Coimbra, como se pode ver nas figuras que acima integram este texto. Há outras iniciativas já anunciadas. Estou certo que este vai ser um ano em que vamos ficar a conhecer melhor a vida e a obra de Joaquim Namorado, mas também um tempo que está na raiz do que somos e vivemos hoje, um pouco da nossa história do século XX.Os seus muitos amigos que ainda estão entre nós partilharão certamente com júbilo os acontecimentos deste ano de homenagem e memórias. E o  pequeno número  que, em vida, sendo do mesmo lado, em termos pessoais o desconsiderou  sordidamente, pode naturalmente  associar-se agora à corrente de homenagens. Mas seria elegante e decente que, quem dentre eles o  fizer, declare também com clareza o seu arrependimento pelo modo como se comportou com Joaquim Namorado, quando ele era vivo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

quarta-feira, 15 de maio de 2013

sábado, 4 de maio de 2013

EM COIMBRA - 18 de maio