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segunda-feira, 22 de julho de 2024

MELANCOLIA EM ABRIL ?

 

Melancolia em Abril ?

Descobri por acaso no YOUTUBE uma excedente musicalização de um dos poemas que escrevi para homenagear os 50 anos da nossa revolução democrática  de Abril e que publiquei pela primeira vez em Abril passado neste mesmo blog [ O Grande Zoo] . Só tenho que me regozijar e agradecer.

Mas a minha dificuldade de navegação pelos labirintos internéticos abriu a porta a algumas perplexidades que, se de facto se justificarem, ficarão desfeitas se dermos como assente  que o poema musicalizado só foi publicado pela primeira vez em Abril passado. 

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 " Melancolia em ABRIL ?"

Eduardo Almeida, Fernando Marques Ensemble a Orquestra da TAUC interpretam, em estreia, «Melancolia em Abril?», música de Fernando Marques e João Ferreira, letra de Rui Namorado, com arranjo de Filipe Raposo.




segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Votos de um Bom Ano de 2024!

 


Votos de um Bom Ano de 2024!

Aqui vai este meu poema com os votos de um Bom Ano Novo, com um abraço de amizade

Acompanha-o uma evocação do tempo de Dali. 

Retribuo  também deste modo os votos de Boas Festas que recebi.

Rui Namorado

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Bom ano de 2024


Em modo subtil o tempo passa,

orvalho de tristezas e desastres,

incêndio de ousadias e audácias,

futuro desmedido, nunca exato.

 

Há um perfume novo a rodear-nos,

colhendo-nos  em todos os caminhos.

 

Nas ruas que nos levam pelo sonho

acendem-se jardins de encantamento.

Flor de movimento rumo à esperança,

a pérola do tempo desabrocha.

                              [Rui Namorado]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A FUGA DOS MESES

 

Votos de um Bom Ano de 2023!

 Um poema que ofereço como ressonância do tempo, acompanhado pela inquietação exuberante de um grande pintor, que assim me ajuda num abraço de amizade e nos votos de um Bom Ano Novo . Retribuo também deste modo os votos de Boas Festas que recebi.

Rui Namorado




Bom Ano de 2023!     [A fuga dos meses]

 

Foge por nós o tempo em cada ano

e há um futuro em riste  que nos colhe

na vertigem dos sonhos desprezados.

 

Nas pérolas mais frias da revolta

só a paixão dos passos que perdemos

abre  inquieta todos  os caminhos.

 

A cor  do tempo  vai amanhecer

e as colheitas audazes vão crescer

na seara dos sonhos que hão-de vir.

 

Rui Namorado

 

 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Cidade do Tempo - uma ressonância poética de Coimbra

 


No próximo dia 2 de Novembro (2022) , em Coimbra, assinalando a abertura de uma nova livraria da editora Lápis de Memórias, vai ocorrer um evento cultural centrado no livro da autoria de  Rui Namorado, A Cidade do Tempo, recentemente publicado.



sábado, 21 de maio de 2022

SERENATA

 



SERENATA


Que lágrima triste subiu no vento,

deixando a saudade a perder-se nele?

Que garra de angústia se rasgou no peito

perdida na dor dos versos cansados,

esquecida da audácia das grandes montanhas?

 

Os lábios longínquos das guitarras tristes

não dizem os sonhos das ruas mais largas,

não trazem os cheiro das histórias sofridas,

não esquecem o medo dos anos de abismo.

 

Podiam abrir as ruas mais lentas,

subi-las num rasgo,  emoção e prazer,

 ser campos abertos de sonho e amor,

esculpida em memória a dor do futuro.

 

Mas descem os dedos das harpas mais tristes

perdendo os silêncios das velhas saudades,

e escavam  a angústia das harpas mais tristes

fugindo da audácia que colhe o amor.

 

Respira-se a sombra dos tempos que faltam,

arranca-se o gume crispado nos versos

e sobe-se o voo de todas as águias,

mais longe, mais longe, mais longe.

 

É esta a serenata dos peitos abertos,

das cordas que rasgam o som das guitarras

e olhando através de todos os mares,

Coimbra cansada de não se cansar.

                        [Rui Namorado]

segunda-feira, 16 de maio de 2022

PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 


Em Fevereiro de 1996, quando eu era deputado na AR pelo PS, publiquei um livro de poemas , “Sete Caminhos”, através da editora Fora do Texto [Centelha].

O livro estava organizado em sete partes, uma das quais a penúltima se intitulava “Pré-história”. Era composta por quatro poemas, um dos quais “Pré-história de guerra” evocava o risco de uma guerra nuclear- O título sugeria que estávamos perante um risco que perdera actualidade.

Hoje, passados todos estes anos, vemos que assim não é. Por essa razão resolvi recordá-lo aqui.

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PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 

1.

a pomba foi morta pelo general

 

calculou  o sítio exacto

o lugar único    onde a morte esperava

 

 no relatório omitiu a cor branca da vítima

e aquela leve pluma de ternura

visível no seu olhar    depois de morta

 

parecia mais pena    do que saudade ou terror

mais um enorme peso de braços caídos

do que o gelo transido do pânico

 

o general descreveu com precisão

a trajectória magnífica do tiro

o seu rigor    a rapidez fatal

 

com palavras antigas   sincopadas

ao ritmo dos tambores de mil batalhas

 

2.

quando pouco tempo depois lhe disseram

que o neto   o filho   a sua velha mãe

a mulher cujo sabor guardava dia a dia

a casa com jardim e duas árvores

a rua suave     a cidade onde nascera

eram agora uma nuvem espessa de cinza

onde a custo emergia o esqueleto de uma árvore sozinha

 

o general suspendeu o relatório

e teve um suor frio vindo da raiz da alma

 

mas quando lhe vieram dizer pouco depois

que era inútil mandar o relatório

porque o lugar que o ia receber não existia

 

o general chorou como um menino perdido

 

e  foi então que o sol se perdeu numa nuvem de poeira

e um doce sabor a morte   azul e profundo

entrou pelo general até aos ossos

 

3.

a mão do general ficou ligeiramente tombada

sobre a folha do relatório vitorioso

 

ocultou um pouco a trajectória da bala

a palavra pomba parecia agora levemente manchada

 

e junto à porta o olhar fixo do jovem ajudante

era um vidro de espanto gravado no general

 

tudo à volta estava finalmente tranquilo

a paz fulminantemente conquistada

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Homenagem ao 25 de Abril

 


Capitães de Abril

               [1974/2022]

 

Capitães de um futuro incendiado

esculpiram num só dia o coração

das largas avenidas que hão de vir

 

O povo semeou-se pelas ruas

gritando em vermelho um cravo imenso

com asas que voaram pensamento

 

Em todo o horizonte ficou escrito

um sonho que perdeu o seu limite

  pétala de luz   deslumbramento

 

Capitães inventados em Abril

o povo atravessou-os como um rio

com a paixão mais justa e vertical

 

        [Rui Namorado – 25 de Abril de 2022]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

UMA NOTÍCIA QUE MUITO ME HONROU

 



FEUC cria Fundo Rui Namorado em Economia Social

     ( No passado dia 11 de fevereiro , em Coimbra no Jornal Campeão foi publicada                esta noticia que muito me honrou )

A Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) iniciou, hoje (11), mais uma edição da pós-graduação em Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade.

A conferência de abertura do curso, a 13.ª edição, realizou-se às 14h30 na Sala Keynes da FEUC. O orador convidado, João Salazar Leite, antigo dirigente da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), membro do Conselho da Social Economy Europe (SEE) e recentemente distinguido com o Prémio de Economia Social da União Europeia, da iniciativa da SEE, abordou o tema “Economia social em Portugal e na Europa: uma visão do passado ao futuro”.

Na mesma sessão, o director da Faculdade, Álvaro Garrido, anunciou a criação do Fundo Rui Namorado, designação do acervo bibliográfico do Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social (CECES/FEUC), que reúne mais de 3000 livros sobre a economia social e solidária, nas suas diversas perspectivas disciplinares e tradições teóricas, e que integra a Biblioteca da FEUC.

Através desta iniciativa e da vinculação de um extraordinário fundo bibliográfico das bibliotecas da Universidade de Coimbra ao nome de Rui Namorado, a FEUC pretende homenagear um dos seus docentes mais prestigiados e invocar o seu extraordinário contributo para o estudo dos temas de economia social e do cooperativismo.

Professor Associado aposentado da FEUC, fundador do CECES e da Pós-Graduação em Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade, Rui Namorado junta à sua dimensão intelectual e cívica uma obra ímpar no campo da economia social, composta por livros, artigos, projectos de investigação e numerosas conferências. Salienta-se ainda o seu trabalho de juscooperativista e o brilho dos seus escritos teóricos e doutrinários na área da economia social. Segundo Álvaro Garrido, director da FEUC, “esta iniciativa constitui um tributo ao professor Rui Namorado e um incentivo à continuidade e renovação do ensino e da investigação sobre temas de economia social, área em que a FEUC sempre assumiu um papel de grande dinamismo e alcançou reconhecimento nacional e internacional”.



domingo, 21 de novembro de 2021

UMA RESSONÂNCIA POÉTICA DE COIMBRA.

“A cidade do tempo”─ Rui Namorado

[NOVIDADE LÁPIS DE MEMÓRIAS ]

 Livro  que é uma ressonância poética de  Coimbra 

P.V.P.: 12.60 euros

Pode encomendar o livro, com 10% de desconto e portes gratuitos, para geral@lapisdememorias.com 

 

 


O livro abre com a Nota Introdutória que a seguir transcrevo.

"O corpo central deste livro é constituído por um conjunto de poemas que são uma ressonância poética de Coimbra. Compõem-no duas partes. A primeira repercute a cidade como um todo; a segunda inclui ecos e memórias de pessoas que viveram em Coimbra, mais ou menos tempo, e de acontecimentos ou entidades que a envolveram ou envolvem.

Neste corpo central do livro, que aliás lhe dá o nome  A Cidade do Tempo ─, incluo alguns poemas já publicados em livros anteriores. Quando isso acontece, logo a seguir a cada um desses poemas vem mencionado o título do livro e a sua data de publicação.

Cada um destes poemas foi escrito na sequência de um impulso autónomo, alheio a qualquer intenção de o integrar num todo. A decisão de os organizar como conjunto e de os publicar como corpo central de um livro é uma homenagem à cidade ao seu povo e à sua história, mas também aos estudantes de Coimbra e à sua academia.

Este livro compreende também uma vertente complementar que, embora radicada na mesma vivência, na mesma experiência e na mesma criatividade não reflete Coimbra, explicita e diretamente. Tem a designação conjunta de “Outros Poemas”. Esta diversidade não propositada talvez possa ser lida subliminarmente como sugestão de que Coimbra é uma cidade estruturalmente aberta, cuja identidade mais profunda se radica nessa abertura.

                                        Rui Namorado

                                   ( Coimbra, 14 de julho de 2021)

domingo, 24 de outubro de 2021

FÁBULA CANSADA

 



Em 31 de Dezembro de 2019 publiquei no meu blog  O Grande Zoo este poema. Infelizmente faz sentido recordá-lo.

 

Fábula Cansada

 

A esquerda atravessa o rio,

um sapo sob um lacrau.

 

O lacrau para ser lacrau

só pode sempre morder.

 

O sapo vai afundar-se

vencido pelo veneno?

 

O lacrau vai afogar-se

porque não pode nadar?

 

Que importa, clama o sapo,

este  caminho é o meu.

 

Que importa, diz o lacrau,

antes ser eu e morrer

do que pensar e viver.

 

Com o sapo e o lacrau

muito povo vai morrer.

 

Pergunto sem ironia,

não era melhor chegar?

          

                              [Rui Namorado]

domingo, 25 de abril de 2021

Cravos de Abril

 


Cravos de Abril

         [25/04/2021]

 

Os cravos deste mês são de vermelho,

essa cor de sonhos inventados

pelo rude sabor da liberdade.

 

A cólera do povo encheu as ruas,

chegando de todos os lugares,

sem ódio, com paixão, desembainhada

pela cor já sem medo da justiça.

 

Glórias longamente abandonadas

percorreram de novo o seu caminho.

Foram ventos do sonho que acordaram

nesse dia de todos os abraços.

 

E os gumes mais ousados da aventura

ocuparam o dia deslumbrados.

 

                           [Rui Namorado]

sábado, 17 de abril de 2021

Ressonância do 17 de Abril de 1969


Ressonância do 17 de Abril de 1969

         -homenagem às lutas estudantis pela liberdade e pela justiça

 

Está em sépia o perfume deste dia,

navegando a memória, cheiro antigo.

Passa a brisa dos dias docemente,

quase luz, melancólica saudade.

 

Eram negros os corvos desse tempo,

cercando cada gesto, cada passo,

sem tréguas, com ódio, sem pudor,

apodrecendo mais em cada dia.

 

Abrimos a janela do futuro

num incêndio de paz e juventude.

Rasgámos o cinzento que doía,

respirando por dentro da alegria.

 

Quantos anos passaram desfilando

por glórias, sonhos e paixões.

Deixamos que a memória nos semeie,

colhemos esse dia e somos sempre.

 

                       [Rui Namorado- abril de 2021]



domingo, 11 de abril de 2021

Chegada de Jorge Coelho ao infinito

 

Chegada de Jorge Coelho ao infinito

                   homenagem

 

Chegou com surpresa ao infinito,

melancólico espanto a rodeá-lo.

Na tertúlia do tempo alguns amigos

ouviram as notícias que trazia.

 

Era pequena ainda a eternidade,

sentindo-se a memória bem presente.

Na orquestra de luzes da alegria,

simbólica uma estrela se ofereceu.

 

Uma estrela tranquila, sem temor,

humana, enérgica, imperfeita.

Uma estrela de serras e cidades,

sem lenços de adeus, quase saudade.

 

Vai ouvir-se o vento das bandeiras,

erguidas nos combates que travou

e uma garra no peito dos amigos

fugirá por dentro da tristeza.

 

                                               11/04//2021

                                            Rui  Namorado

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Bodas de ouro

 


BODAS DE  OURO

 

O ouro do tempo semeou

a seara dos dias que passaram.

 

Foram longos e breves, foram vida,

ancorados no peito da cidade.

 

Nas escarpas de ternura do teu rosto

repousam os meus dedos renovados

pela luz em que nasces cada dia.

 

Escreve-se o mundo em nós

como se fosse

o jardim de tudo o que sonhámos.

 

Gravados firmemente no futuro

colhemos sem temor

o que há de vir.

 

                            [Rui  Namorado]


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Homenagem à República!

 

Várias vezes, homenageei o 5 de Outubro de 1910, reproduzi neste mesmo blog um poema da minha autoria, do livro "Nenhum lugar e sempre"(2003). Hoje, volto à homenagem





República

És a estátua do vento e das palavras
que inventamos ousadas e inteiras.

Foste penhor secreto de uma voz
desvendada em todos os caminhos.

Deusa das ruas e de muitas praças,
és um ofício, paciente e puro.

Olhaste além de nós, além do medo
e foste além de todas as fronteiras.

Há uma lenda inscrita no teu rosto:

és sonho esculpido em aventura.


Suavemente, guardas este povo,
num gesto de ternura, em tuas mãos.

E alguém deixou abertos no teu rosto
os traços fugidios da liberdade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O rosto da memória

 

É o tempo ou sou eu quem envelhece

nesta neve que fica nos cabelos?

 

Talvez outono com as cores de inverno,

subindo as escadas da melancolia.

Talvez sopro secreto da memória,

navegando por mim sem o saber.

 

Vem depois o perfume das palavras,

inventando futuro em pensamento,

colhendo cada dia sem temor

para dizer as cores da primavera.


            [ Rui Namorado]

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Radicalidade ─ nem urgentismo, nem conservadorismo



                                        Quadro de Chagall
Radicalidade ─ nem urgentismo, nem conservadorismo                                                            
1.A emergência climática, os riscos pandémicos e a constância das desigualdades socioeconómicas agravaram a toxicidade do capitalismo.
O sofrimento coletivo, a angústia prospetiva, a dissipação cultural criam uma atmosfera política cada vez mais insalubre, aberta a todos os desesperos. Os horizontes de esperança tendem a reduzir-se a miragens.
O combate por uma sociedade nova, para superação dos pesadelos que assombram o nosso presente, exige, cada vez mais, o fim da sofreguidão imediatista e políticas suficientemente inscritas no horizonte, para comportarem e até exigirem a opção por estratégias de longo prazo. Estratégias suscetíveis de visarem com verosimilhança transformações radicais da sociedade, de modo a que os estrangulados pelo modelo vigente, as vítimas das desigualdades atuais, se sintam impelidos e motivados a partilhar um caminho que leve a essas transformações. E só a exploração do fundo das questões, pelo exercício de uma radicalidade crítica, pode mostrar-nos o caminho. Se o longo prazo não impregnar o cerne do curto prazo, dando à utopia uma realidade imediata como esperança verosímil, dificilmente se poderá incorporar na nossa imaginação um futuro à medida dos grandes sonhos que movem a História. E se essa esperança nos fugir, estar-se-á mais perto de um desespero sem margens e do risco de caóticas automutilações das sociedades.
A radicalidade política passou, por isso, a ser uma condição indispensável do êxito de qualquer processo democrático de transformação social. Na verdade, sem se recusar desde a raiz o modo capitalista de reprodução da vida social não se dá verosimilhança a um tipo de futuro por que valha a pena lutar, não se abre uma janela de esperança que permita que respire quem atualmente suporta o maior peso da injustiça social.
Mas não pode nunca esquecer-se que a radicalidade política não é sinónimo de urgentismo. Especialmente, se for um urgentismo que embora se conforme com a eternização das árvores velhas lhes exija depois que deem frutos novos. Um urgentismo que, sentando-se apoplético à sombra das laranjeiras, lhes exija com veemência que passem a dar maçãs. Ora, já diziam os oráculos na antiguidade, que, por mais assustadas que fiquem, as laranjeiras nunca poderão dar maçãs. Mesmo que seja trovejante a vociferação dos urgentistas, as laranjas poderão no máximo dos máximos nascer um pouco mais doces, sem no entanto desaparecer o risco de afinal nascerem ainda mais amargas.
Na verdade, só uma radicalidade política, que aponte com verosimilhança e clareza para a metamorfose do modo de vida presente, será capaz de mobilizar as vontades de mudança suscetíveis de se fundirem numa dinâmica social transformadora. Só essa radicalidade geradora de uma metamorfose superadora do capitalismo, rumo a uma economia humana que possa ser o rosto de um pós-capitalismo, trará os povos para o interior da esperança.
De nada adiantará mastigar velhas soluções como se fossem novas. Nem mesmo recorrendo à lucidez crepuscular do velho leopardo, genialmente inventado por Giuseppe T. di Lampedusa, quando percucientemente sugeria a necessidade de se mudar tudo para que tudo pudesse ficar na mesma. De nada adiantará maquilhar de inovadoríssimas velhas receitas, cuja última razão de ser é a conservação aconchegada do modelo capitalista atual.
E não é possível também que se ache suficiente e eficaz o simples apedrejamento virtual do neoliberalismo, identificando-o como doença infantil e passageira de um capitalismo que afinal até se quer ver livre dele. E uma vez curado regressará provavelmente a si próprio, salvando-nos finalmente a todos. Não salvaria.
Por isso, não faz sentido acolher calorosamente, nas hostes que combatem o neoliberalismo, os ex-chefes das orquestras que o têm interpretado diligentemente, para que todos em fraterna cumplicidade apupemos ferozmente as sinfonias que eles próprios regeram até ontem; e cujo apedrejamento nos convidam hoje a partilhar. É que, em última instância, a hipocrisia política (quando subtil) pode driblar os incautos, adormecê-los com flautas mágicas, mas acabará por esbarrar na realidade. Nunca se deve confiar nos lobos para liderarem a resistência dos cordeiros.
Também não podemos deixar-nos escorregar para uma radicalidade indolente que se deixe dormir à sombra da sua própria lucidez. Pelo contrário, a lucidez da radicalidade crítica só é fecunda animada por uma inquietação permanente. Temos que valorizar uma radicalidade tensa e ativa, capaz não só de fazer pontes como de traçar fronteiras. Uma radicalidade em movimento.
Na verdade, uma radicalidade apenas paciente poderá ver esfumar-se rapidamente todo o seu potencial futurante. Desde logo, não pode fugir do combate às secreções mistificatórias da ideologia conservadora dominante, a ideologia de conservação do capitalismo, sempre enroupada por um discurso dogmático travestido de científico, numerologicamente condimentado. É preciso arrancar os narizes de cera que contaminam o espaço público, desfazendo as evidências que escondem a realidade. A radicalidade propositiva não dispensa, no entanto, uma tonalidade crítica que se questione a si própria, para que a coerência não possa ser confundida com dogmatismo e a persistência com teimosia. Uma radicalidade nunca inflexível, mas sempre vertical; sempre prudente, nunca pusilânime.
Por isso, esta radicalidade transformadora, centrada num horizonte emancipatório, que se assume como gradualista para poder ser profunda, só pode afirmar-se autenticamente no seio de um processo único em que se conjugue com a intensificação da democracia em todas as suas dimensões, em todas as instâncias. Uma democracia ao mesmo tempo modo de ser e objetivo parcial da metamorfose desejada; mas que é exigível desde já para que nela as ideias transformadoras se possam confrontar livremente com o conservadorismo dominante, para que vencendo-o, convençam, impregnando duravelmente as consciências, conquistando uma hegemonia robusta.
Nunca esqueçamos no entanto, que a recusa do urgentismo, a opção pelo gradualismo, o respeito pelas necessidades de amadurecimento dos processos, não pode converter-se numa complacência indutora de lentidão. Lentidão que fará aumentar o risco de paralisia e colapso de uma possível transformação e poderá bloquear a metamorfose almejada.

2. Feito este enquadramento, olhemos mais para o imediato. É um lugar-comum o alvitre de que a pandemia em curso vai mudar o mundo. Uma insidiosa e difusa neblina lança no entanto alguma incerteza sobre o significado desse alvitre.
Parece, às vezes, tratar-se de um voto de urgência quanto à necessidade de se caminhar com celeridade para um mundo mais justo; de uma consciência mais aguda e mais generalizada de que a insistência na conservação de um tipo de sociedade indutor de desigualdade, de pobreza e de exclusão é insuportável. Mas não deixa também de às vezes nos sobrevoar como ave agoirenta a ideia difusa de que o fruto da mudança, que se sugere já estar consumada, é um tempo de sacrifício que apenas  nos cabe estoicamente suportar.
O mundo mudou, dizem insistentemente as sereias do óbvio. Ora, fazer a constatação de que o movimento dos vários planos da vida e da sociedade é indutor de uma cadeia de mudanças na superfície das coisas e na pele dos dias, podendo ser um mero sinal de realismo, não deixa de poder ter uma ressonância perversa. Na verdade, a circunspecta proclamação de que o mundo mudou (já mudou), pode sugerir que isto que aí está e que tanto nos esmaga já é um aspeto, um fruto, uma antecipação dessa mudança. Não é. Mas, além de assim se poder sugerir que a estagnação é a mudança possível, pode subliminarmente induzir-se a ideia conservadora de que, uma vez que o mundo já mudou, perdeu sentido a vontade de o mudar.
Não perdeu. Igual a si próprio, espelhando o capitalismo que nele predomina, o mundo atravessa uma crise vivida como um pesadelo para milhões de pessoas. Verdadeiramente está agitado, mas não em movimento. Não se abriu ainda a uma humanização radical, libertadora e superadora das desigualdades atuais. A vertigem da aceleração do tempo numa sofreguidão de urgências, que parece arrastar-nos para uma voragem de precariedades em que tudo é provisório, não quebrou a inércia estrutural que tem conservado a sociedade atual confinada no capitalismo. Não escapámos ainda do pântano das catástrofes.
Não estamos a percorrer um caminho que tenha mesmo como horizonte a paz, a liberdade, a igualdade e a justiça, um caminho democrático numa atmosfera de solidariedade e cooperação. Adiar mais o início dessa transição, rumo a um pós-capitalismo, carrega cada vez mais  o mundo de riscos graves. É a imperatividade desta transição e a sua urgência que a atual pandemia tornou absolutamente incontornáveis.

3. Percorrer esta transição não será um alegre passeio através de jardins, fará certamente com que se rasgue a pele de muitos sonhos, porá escolhos diante de muitas ousadias, desafiará esperanças com desilusões, mas é o único caminho que pode levar a um horizonte humanizante e libertador. Dificuldades, no entanto, bem mais suportáveis do que a permanência no cinzento deste tempo fechado.
As esquerdas que ficarem alheias a essa transição deixarão objetivamente de se poderem considerar como tais. Nenhuma delas pode estagnar melancolicamente na saudade de um futuro a que renunciou. Mas as entidades político-partidárias, que protagonizam institucionalmente as esquerdas no aparelho de Estado, não devem ser tolhidas pela ilusão de que é aí que tudo se joga e se decide. É certamente também aí; mas não apenas aí. Sem as dinâmicas endógenas da sociedade que se projetam nos movimentos sociais, com relevo para as que materializam resistências ou alternatividade em face do capitalismo, a metamorfose cujo horizonte é a sua superação poderá ficar bloqueada.
É por isso urgente dar corpo a uma vasta rede de entidades e de cidadãos, de organizações e de pessoas, agindo conjugadamente com flexibilidade dentro e fora das instituições, protagonizando um permanente debate de ideias, gerador de conhecimento e de um cultura crítica que potenciem a compreensão do presente para se poder caminhar transformando-o. Mas, se a ação política tiver horizontes tão cinzentos que impeçam os explorados e os excluídos de cultivarem esperanças verosímeis em concreto, eles não se envolverão no combate pelo futuro. Ora, sem o envolvimento das vítimas atuais da desigualdade, uma luta pela transformação social continuada, esclarecida e consistente, que aproveite as energias do povo e as estimule cada vez mais, será uma miragem. Mas se forem fechadas as portas do futuro àqueles para quem o presente é insuportável, dificilmente se evitarão explosões sociais devastadoras e estéreis, eventualmente contra civilizacionais.
Por tudo isto, vemos como é necessário que as esquerdas revisitem sem preconceitos as suas tradições emancipatórias comuns, a história das suas conquistas e dos seus falhanços, das suas intuições luminosas e dos seus erros, para poderem somar-se umas às outras na construção de um espaço ideológico comum. Somar-se num espaço comum de crítica e de luta, ancorado firmemente numa imaginação do futuro bem enraizada nas tradições emancipatórias e libertadoras da humanidade. Espaço comum composto por regiões, cuja diferenciação exprima a heterogeneidade da esquerda no seu todo, respeitando diferenças sem comportar muros nem fronteiras. Um espaço em que as diferenças de opinião, a heterogeneidade das ideias, exprimam e estimulem uma permanente criatividade crítica. Sem dogmatismos, sem anátemas, sem excomunhões.
Só assim se pode esperar sem fantasia que o povo de esquerda se ponha sustentadamente em movimento, só assim o cinzento pesado e triste dos tempos presentes se esfumará no quotidiano dos explorados e dos excluídos, só assim o protagonismo institucional das esquerdas ganhará sentido e poderá ser eficaz na realização dos objetivos que o justificam.
É neste contexto que se pode compreender plenamente a importância da radicalidade na ação política e no combate ideológico , bem como a necessidade de lhe garantir robustez, pela recusa quer do urgentismo quer do conservadorismo.
                                              
                                                  RUI NAMORADO
                                            [2 de julho de 2020]