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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A DIREITA EM DELÌRIO

 

A DIREITA EM DELÌRIO

A oposição de direita nas suas várias declinações, num registo agressivo afinado pelo diapasão do Chega, demoniza sofregamente o PS, cobrindo-o de depreciações e insultos.

Com a sofreguidão de poder aguçada pelas circunstâncias infaustas que têm vindo a cercar o PS, rebenta as escalas de todos os exageros. A comunicação social, num orfeão pífio de comentadores e jornalistas captados pela direita e excitados contra o PS e o Governo, embrulha a campanha da direita numa aura de legitimidade e de objectividade imerecidas que escandaliza.

Ainda recentemente um reputado Prémio Nobel da Economia (2008), Paul Krugman, numa entrevista a um jornal português, teceu rasgados elogios à política económica seguida por Portugal nos últimos anos, o que é impossível de não levar a crédito do PS e do seu Governo. Algo que contraria expressivamente a algaraviada pessimista da oposição de direita e dos seus acólitos. As instâncias da União Europeia elogiaram também recentemente a política financeira portuguesa, em clara oposição aos megafones que fazem a direita ecoar na nossa praça.

Os inquietos expoentes das várias declinações da direita em Portugal dão da governação do PS que se aproxima do seu termos uma imagem devastadora. Regougam dislates como se fossem arcanjos de um rigor certeiro e implacável que resumam todos os malefícios possíveis da política de um governo naquilo que o PS fez. Insultam assim tacitamente o eleitorado que sucessivamente alcandorou o PS às vitórias como se ele fosse uma a legião de tontos que se deixou endrominar pela matreirice dos socialistas.

Apoplécticos contestam as consequências do tipo de organização económico-social de que são sequazes como se tivesse sido o PS que a inventou. Defendem incondicionalmente o capitalismo e atacam ferozmente as suas mais nítidas consequências. Pugnam na prática pela manutenção da espinha dorsal das desigualdades sociais como sinal estratégico da sua política, trovejando impropérios contra o PS como se tivesse sido ele a inventá-la. De facto, só lhes é possível fazer política escondendo o que realmente são com homilias angélicas que os falsifiquem.

As várias declinações da direita em Portugal sentem-se irresistivelmente atraídas pela atmosfera queirosiana que os leva a colocar: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" .

 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

UMA ESCOLHA NECESSÁRIA

 



UMA  ESCOLHA  NECESSÁRIA

 

Há três candidatos à liderança do PS: Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro e Daniel Adrião. Temos assim três socialistas que se incomodam praticamente com o Partido e com Portugal. Só por isso merecem o nosso reconhecimento e o nosso apreço.

Cabe-nos agora a nós socialistas, membros do Partido Socialista, dizer quem preferimos.

Verdadeiramente, só os dois primeiros são autênticos candidatos a liderar o PS. Daniel Adrião, com total legitimidade, é um militante que gostaria de ver discutidas no Congresso algumas das suas ideias políticas gerais. E os estatutos do PS impõem que só possa promover esse tipo de debate num Congresso do partido quem o fizer no quadro de uma candidatura a secretário-geral. É um aleijão estatutário que há muito nos diminui politicamente. Ter ideias e querer discuti-las no colectivo partidário não pode obrigar a ser-se candidato à liderança do Partido. Mas a realidade deste aleijão não converte Daniel Adrião num candidato com o mínimo de densidade política exigível a quem se abalance a uma disputa deste tipo. Aliás, neste como nos casos anteriores, a formalidade da candidatura enfraqueceu a visibilidade e a relevância das ideias políticas por ele propostas para debate.

Quanto aos dois reais candidatos Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro, na minha opinião, a primeira coisa a dizer é que estamos perante dois dirigentes de excelência, dois quadros políticos altamente meritórios, cujo currículo os engrandece. O PS só tem que se regozijar com isso.

Mas trata-se de escolher um deles para liderar o Partido. Não tenho a mínima hesitação: opto por Pedro Nuno Santos.

Desde logo, porque, dentro do espaço socialista, me situo na mesma região de PNS, tendo o mesmo tipo de leitura do socialismo e do essencial do trajecto a percorrer pelo PS. Depois porque o seu perfil político me parece adequado às tarefas que cabem ao PS , na actual conjuntura histórica. Alem disso, tem uma atitude combatente e um carisma liderante indiscutíveis. É crível a sua firmeza e eficácia em garantir a autonomia estratégica do PS perante todos os poderes de facto, bem como na interacção com os outros partidos, sem contudo se deixar anquilosar num isolacionismo estéril.

Por seu lado, José Luís Carneiro tem mostrado ser, não o protagonista de um projecto inovador e diferenciado, de uma maneira própria de encarar a liderança do PS, mas alguém que assumiu o papel de travar a conquista da liderança do PS por Pedro Nuno Santos. É um desígnio modesto que apouca e empobrece o seu perfil político.

Aliás, a sua campanha e, principalmente, o argumentário usado por alguns notáveis para o apoiarem tem roçado a caricatura política involuntária. JLC tem sido mais uma vítima do que um beneficiário do modo como lhe têm sido dados alguns dos apoios que recebeu.

Apoio Pedro Nuno Santos na disputa pela liderança do PS, para que levemos de vencida a soturna  aliança de direita que ostenta desde já a sua incapacidade para compreender o mundo em que vivemos e o país que somos. E terá toda a razão o povo se vir nessa direita mais um risco do que uma esperança.

 

 

 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

“VEXATÓRIA”

 

“VEXATÓRIA”

Ontem,  [ no face book]talvez me tenha enganado, quando considerei um dislate a qualificação como “vexatória” que usou  Mariana Mortágua para se referir à actual maioria absoluta do PS. Como se ela fosse algo de pernicioso que se tinha que combater como uma quase assombração pecaminosa inventada por mentes perversas.

Talvez me tenha enganado. Se calhar a inquieta dirigente do BE estava a afinal a libertar discretamente no seu discurso uma sugestão de autocrítica. A maioria absoluta do PS é sentida como “vexatória” não por qualquer força maléfica que tragicamente a inquine, mas simplesmente por ela lembrar  ao BE o tropeção estratégica em que caiu ; o qual lhe anemiou o  grupo parlamentar, reduzindo-o em 14 deputados e tendo sobrado menos de meia d+uzia.

Foram, na verdade “vexatórias “ as consequências do tropeção táctico do BE, gerador da maioria absoluta do PS É certo que continua preso ao ritual da sua própria infalibilidade política. Mas começam já a perturbá-lo as sombras de uma autocrítica…

Terá sido afinal isso?

domingo, 21 de maio de 2023

Regresso pardo do fantasma de Boliqueime

 

Regresso pardo do fantasma de Boliqueime

O fantasma de Boliqueime voltou, espumando  uma raiva fria. O seu rosto foi assolado por um ódio pardo, quase desregrado.

Na plateia laranja e chique pairava um cheiro acre  a  cavaquistão.  Montenegro, titubeante mas deleitado, hesitava em convencer-se que estava a ser auxiliado pelo mago algarvio.

Houve então um conselho de urbanidade no debate político. Mas o conselho  sentiu-se perdido no discurso do mestre. “O que é isto?” perguntou  assarapantado. “Que moleza é esta?” quase se indignou.

No entanto, foi o  próprio mago que lhe respondeu, fazendo-o perceber que a alegada urbanidade era apenas um voto pied0so e descartável. E, para que tudo voltasse ao normal, ele próprio mostrou como realmente devia ser a cartilha do PSD: explodiu num discurso de desbragado ódio ao PS, ao seu Governo, a António Costa. Sem nuances, sem reservas, sem excepções ─ um oráculo em fúria.

Um contraponto: o PS e os seus Governos foram e são o mal absoluto; o PSD e os seus governos foram e garantem vir a ser o bem supremo. Equilíbrio, imparcialidade e tolerância; forte sentido do ridículo…

Não hesitando em proclamar-se arcanjo do seu próprio céu,  e em beatificar a memória de Durão, quebrando o seu compromisso com os Portugueses após servir umas bicas aos senhores do mundo que vieram a uma terra portuguesa fazer a  dança da guerra; Santana dissipando-se; e Passos na glória de querer ser pior que a “troika”.

Quanto ao PS, fulminou-o com um resumo das larachas rasteiras da propaganda da direita, disparando-se  num festival de diatribes, com que admoestou severamente o povo português, censurando-o indirectamente por lhe ter dado os seus votos há pouco mais de um ano. De facto, o descavacado  povo apesar de décadas de experiências  de convivência com os “diabos cor de rosa” deu a um seu Governo um suporte maioritário que o pôs a coberto de surpresas e traições parlamentares.

Na verdade, a democracia tem muito que penar até chegar aos calcanhares da filosofia política iluminada do mago algarvio. Realmente votar é um desporto ocioso; melhor seria pedir ao Senhor de Boliqueime a lista dos ministros e um programa de governo e deixarmo-nos conduzir inebriados para o paraíso caváquico. Lá CHEGARÃO: ( julgam eles!).

Por mim, permito-me um sorriso final: forte da sua consabida cultura poética, para deixar respirar um pouco a sua prosa cinzenta, não conseguiu recorrer a outro exemplo que não fosse uma leve e tosca evocação  de Sofia, uma grande voz da poesia portuguesa que no seu tempo se sentou na bancada parlamentar do PS. 

Embora espantadas, as musas sorriram. Mesmo na poesia, o comité laranja  dos arcanjos prosaicos tem de se socorrer da tribo rosada  dos sonhadores.

 

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

INDIGESTÃO…

 

INDIGESTÃO…

Julgavam talvez que o PS ia ser cozinhado em lume brando.

 Sabe-se agora que não vai ser assim. Pensavam talvez que tudo se resumia  a  insultar o governo, a  insultar o PS ,a insultar os socialistas, esperando-os civilizados e previsíveis na resposta, conformados no debate, mansos nas polémicas.  Vai ser um pouco mais duro.

Vão  ter a maçada de combater, de arriscar. Podem talvez fazer-nos morder o pó. Mas não são favas contadas.

Sabem agora que não vão poder  passear-se  prazenteiramente sobre as nossas dificuldades.

Aprendam : há sempre o risco de, ao fim ao cabo, o  povo socialista ser um osso duro de roer.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

É urgente substituir o povo!

 



É urgente substituir o povo!

1. Deixei passar uns dias antes de tecer alguns comentários a propósito das recentes eleições legislativas. Deixar assentar as poeiras mais imediatas pode ajudar na  crítica. Não pretendo fazer uma abordagem global. Pretendo apenas escolher alguns tópicos dispersos que me pareçam sugestivos e possam ser envolvidos em relevâncias futuras.

No dia 30 de janeiro, o (im)plural panorama da comunicação social portuguesa foi acossado por um violento sopro de realidade.

 

2. Uma vasta corte de comentadores políticos da direita ressequida, de oráculos reformados da esquerdíssima mais cortante, de cultores luminosamente científicos da vulgata neoliberal, de jornalistas previsíveis e de comunicólogos emaranhados, partilhou uma esforçada campanha destinada a explicar por que razão estavam em perigo , nas eleições do passado dia 30, o PS e António Costa, a quem seria servido inevitavelmente, na melhor hipótese, o amargo sabor de uma vitória pífia; e, na pior, o compreensível e merecido castigo de uma derrota paralisante.

Ora, se acusava AC de ser um inconfessado e oculto amante da maioria absoluta, ora se trovejava contra o alegado descaramento de a pedir expressamente. Mas ao mesmo tempo, qualificava-se como puro delírio o sonho de a vir a obter.

Com melíflua comiseração, apontava-se o seu óbvio cansaço, traçando-se um quadro dramático das  sucessivas não remodelações do seu Governo, acentuando o gigantismo de alguns minúsculos casos com que o tentaram cercar, para afirmar com a frieza gulosa de um imaginário rigor, que também o bom povo estava cansado dele, muito cansado.

Cientes do excesso de culparem directamente o governo do coronavírus 19, atiravam-lhe para cima imaginárias insuficiências e falhas de comunicação. O povo estava farto, fartíssimo de António Costa e do governo do PS.

 

3. Despertos para o grande desígnio nacional do reformismo holístico, no âmbito do qual cada corporação de interesses e cada corte ideológica do abrangente conservadorismo vigente, tingem a sua feroz apetência alegadamente reformista com a cor forte dos seus interesse mais egoísticos, deixavam cair implacáveis a sua mastigada e incontornável sentença: o governo do PS liderado por António Costa fugiu dramaticamente de todas as reformas.

 Rigorosos, aprestavam-se por isso ao registo frio de uma derrota quente das cores socialistas. Mansa, a matilha mediática uivava concordância, com toda a energia.

Mas a arguta matilha tinha uma visão de largo espectro. Atenta – vigiava qualquer tique do odiado António Costa para, como um bando de arcanjos virtuosos, o denunciar em praça pública sem contemplações. E assim na sua lucidez esotérica foi identificando sinais de uma evidente ainda que discreta arrogância.

AC defendia o acerto das medidas do seu governo e logo gritavam: arrogância! AC mostrava um qualquer sinal internacional de reconhecimento do mérito do seu Governo e logo vociferavam: arrogância! AC respondia a alguma das pedradas políticas que lhe dirigiam, num simples exercício de legítima defesa e logo se indignavam: arrogância!

Mas se AC tomava uma posição pública na qual fosse  impossível encontrar a mais leve aparência de arrogância, regougavam com incontida reprovação: hipocrisia!

Ou seja, o nosso bando de arcanjos mediáticos tingia de evidência o seu próprio delírio e condenava irremediavelmente AC como arrogante. Por definição; dispensando-se por isso de mostrar o arrogantismo dessas arrogâncias.

 

4. O despontar tímido de um punhado de vitórias em autarquias  importantes nas recentes eleições autárquicas, foi suficiente para se gritar como óbvia uma firme rejeição popular  de AC e do Governo do PS ( apesar de ele ser de longe o partido autárquico maioritário, quer em número de CM quer de F). A promessa firme de um tsunami laranja ia pairando assim com crescente intensidade.

Mas o povo enganou-se! Driblou oposições, comentadores graves, expoentes da ciência política, economeses de largo espectro. O PS teve maioria absoluta.

 

5. É pois urgente substituir o povo! É , pelo menos, o que pensa ousadamente a direita lusitana mais bem pensante, bem como a deslumbrada bolha comunicacional, o comentariato elucrabativo e os vultos graves dos alegados senadores do dislate.  Não podem permitir que o PS se ponha a ganhar eleições desregradamente. Uma de quando em vez, desde que modesta, ainda vá lá. Relativazinha – e é um luxo. Mas o despautério de uma vitória sem peias- nunca mais!

E a vasta corte dos oráculos políticos cujas previsões são sempre revistas em alta ou em baixa, raramente antecipando realmente a realidade, lambidas as feridas auto-infligidas pela sua desesperada e inútil cruzada contra o PS e contra António Costa, procura agora respirar com  exigência a maioria absoluta instituída.

 Forçadamente despidos da arrogância de invocarem a inexistente soberba de um e outro para agoirarem a sua derrota ou, mínimo dos mínimos, uma vitória esquálida, os da bolha político-mediática aprestam-se agora a apresentar a AC o catálogo das suas exigências. O deve haver da arrogância que inventaram e que a realidade(teimosa!) não absorveu.

Uma azougada constelação de interesses, de preconceitos e de narizes de cera apronta um caderno de encargos para assombração do PS e de AC. Ignora que o caminho a seguir pelo próximo Governo tem as raízes numa ampla convergência de vontades geradora de 119 deputados na AR e não das vocações resmungonas de um punhado der oráculos decadentes.

Com o tom solene de um Conselheiro de Estado, Mendes já decretou que  se o governo fizer o que ele lhe mandar é dialogante , se não lhe obedecer mostra a sua arrogância. Foi aplaudido e seguido. Quanto á vontade dos milhões de portugueses que deliberaram dar maioria ao PS e a AC e disseram querer ver cumprido o respectivo programa os iluminados nada disseram.

 

6. Por mim olhando para a paisagem reinante como um todo, começo por recordar Brecht.

Confrontado com um conflito que no seu  tempo opôs o governo da RDA ao povo trabalhador que aí vivia, Brecht , poeta e comunista, escreveu um breve poema, onde numa atitude crítica perante as posições oficiais que assim concluiu:

“Pois não seria

Então mais fácil que o Governo

Dissolvesse o Povo e

Elegesse outro ?”

 

É um poema lendário que esvazia uma vasta área da retórica eleiçoeira dos políticos pernósticos.

Quiçá sem o saber, a deputada  e  vice-presidente do PSD, Isabel Meirelles, quando lhe pediram para explicar o que falhou e conduziu à hecatombe da retórica já vencedorista do partido a cuja direcção pertence, deu uma resposta que fez com que se lhe enterrasse até às orelhas a “carapuça” brechtiana

“O que falhou foi o foi o povo português"!

 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

 

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

1-AUTONOMIA ESTRATÉGICA

Na actual campanha, a linha estratégica do BE (gritante) e do PCP (menos trovejante) pode resumir-se em dois apelos dirigidos ao eleitorado que possa votar no PS:

- Não votem no PS para ele não ter maioria absoluta!

- Votem no PS para ele governar, de modo a poder tomar as medidas que nós achamos que devem ser tomadas.

2- REQUERIMENTO DO ELEITORADO, ALGO CONFUNDIDO:

- Vimos respeitosamente pedir a Vossas Excelências o obséquio de nos indicarem quais de nós devem votar e quais de nós não devem votar no PS.

3- PERGUNTA INCONVENIENTE DE UM ELEITOR DE LISBOA ESCALDADO:

- Nas mais recentes eleições autárquicas em Lisboa segui religiosamente as vossas instruções e o resultado foi o que se conhece: ganhou a direita. Têm a certeza que não acontecerá o mesmo, à escala nacional, se continuar a obedecer-vos?

 4- RESPOSTA ESOTÉRICA DOS PERGUNTADOS:

- Fomos à bruxa que alegadamente tem ajudado o FCP a ganhar campeonatos e ela garantiu-nos que com um pouco de sorte isso não ia acontecer.

5- MORALIDADE EM JEITO DE PERGUNTA:

- Se o PS não existisse a quem pediriam os partidos acima mencionados para lhes executarem as suas políticas?

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Cuidado com o Anjo da História!

 


Cuidado com o Anjo da História!

Quando na Alemanha o nazismo já começava a tornar-se visivelmente perigoso, o Partido Comunista Alemão recusou qualquer concertação com os socialistas do SPD, baseando-se numa linha política simples que se traduzia em “enterrar o nazismo sob o cadáver da social-democracia”.
O Anjo da História adormeceu e o nazismo não foi enterrado, floresceu. Uniu, nos campos de concentração e nos obituários do seu poder, comunistas e socialistas. Vários povos, a começar pelo povo alemão, sentiram-lhe o peso insuportável .
A água continuou a passar por debaixo das pontes e o Anjo da História foi acordando lentamente sem deixar de passar por múltiplas distrações. O nazismo pereceu nas caves mais fundas da indignidade e da ignomínia. O Partido Comunista Alemão já não existe. O SPD prepara-se para liderar o próximo governo por escolha democrática dos alemães.
A História não se repete mas é saudável não a esquecer. O seu Anjo não pára de nos surpreender

domingo, 11 de abril de 2021

Chegada de Jorge Coelho ao infinito

 

Chegada de Jorge Coelho ao infinito

                   homenagem

 

Chegou com surpresa ao infinito,

melancólico espanto a rodeá-lo.

Na tertúlia do tempo alguns amigos

ouviram as notícias que trazia.

 

Era pequena ainda a eternidade,

sentindo-se a memória bem presente.

Na orquestra de luzes da alegria,

simbólica uma estrela se ofereceu.

 

Uma estrela tranquila, sem temor,

humana, enérgica, imperfeita.

Uma estrela de serras e cidades,

sem lenços de adeus, quase saudade.

 

Vai ouvir-se o vento das bandeiras,

erguidas nos combates que travou

e uma garra no peito dos amigos

fugirá por dentro da tristeza.

 

                                               11/04//2021

                                            Rui  Namorado

domingo, 7 de março de 2021

Fantasma de um pesadelo passado

 


Fantasma de um pesadelo passado

 

Cavaco Silva explodiu numa suave reunião de senhoras do PSD. A comunicação social dominante fez respeitosamente ecoar a voz tonitruante do seu antigo senhor.

Como se de um ousado pirilampo se tratasse, a sua rápida e modesta luz prometeu salvar-nos não se sabe bem de quê. Qual arcanjo providencial, veio ostentar uma  determinação firme: a de nos salvar, salvando a nossa democracia da terrível mordaça que a malévola geringonça (que assim ressuscitou) tem vindo a perpetrar contra todos nós.

Com argúcia pôs a nu os sinais mais fortes e mais preocupantes da opressiva mordaça que cerceia a nossa democracia: o ex-Presidente do Tribunal de Contas não foi reconduzido quando terminou o mandato para que havia sido nomeado, o mesmo tendo acontecido com a anterior Procuradora Geral da República. Neste caso o implacável fantasma de si próprio não hesitou em causar um dano colateral no seu sucessor na Presidência já que foi em última instância ele quem a nomeou. Terá o seu olhar de lince da Serra da Malcata descoberto nas brumas do mistério uma secreta implicação do Presidente Marcelo nas perversas maquinações de uma geringonça que afinal existe? O oráculo de Boliqueime deixa crer que talvez.

O ponto fraco desta paixão pela democracia que quer desamordaçar é ter uma intensidade demasiado forte. Tão forte que é dificilmente  harmonizável com a mansidão com que ele suportou  essa coisa que existiu em Portugal antes do 25 de abril e que certamente nem a sua percuciência consegue considerar como algo menos amordaçado do que o agora o atormenta. Pode ser que andasse então apenas distraído e que com o nobre peso dessa distração no seu inconsciente freudiano se exceda agora num paroxismo compensatório de vigilância democrática. Pode também ser um prosaico problema de maus fígados associado a uma possível falta de tempo para encontrar algo de aparentemente consistente que legitimasse algumas farpas mais agressivas no PS, no Governo e na alegada geringonça.

Será talvez a mesma falta de tempo para dar mais consistência ás suas pirilampices que o fez sugerir sem subtileza que os mortos da covid 19 são fundamentalmente culpa do atual governo. Só não se percebeu se o oráculo de Boliqueime imputava ao governo português a culpa apenas pelas consequências nacionais do vírus ou se a estendia à Europa e ao mundo. Não se sabe. De certeza certa, apenas se sabe que sentiu vergonha.

 Anda a OMS na China à procura da raiz da pandemia, quando facilmente evitaria perdas de tempo e dinheiro se perguntasse a Cavaco. Se estiver atenta é o que fará. Terá talvez apenas de inquirir se a culpa foi principalmente do Primeiro-Ministro, da Ministra da Saúde ou de todo o Governo. Aguardemos.

Também foram comoventes as melífluas alfinetadas que espetou em Rui Rio. Não se sabe se para o estimular se para o enfraquecer. Mas foi particularmente brilhante a lógica que uniu a sua enérgica diatribe desqualificativa do PS e a recomendação dirigida ao PSD para atrair os eleitores que têm preferido o PS. Rui Rio ficou tonto:" Então para conquistar os eleitores do PS insulto a escolha que eles fizeram?" Isso o oráculo de Boliqueime não explicou.

Mas onde ele mais se excedeu em rasgo, foi no críptico conselho dado a Rui Rio para lidar com o Chega. Não fale nele. Nunca responda a qualquer pergunta sobre ele. Seja inerte perante qualquer enormidade que venha dele. Notável como Cavaco, que foi tão eloquente em imaginar mordaças para as imputar ao atual  governo, numa pose de intransigente excelência democrática, tenha ficado preso numa bonomia inerte perante as piruetas neofascistas do Chega. Estranho! Tão estranho que é legítimo suspeitar-se que o aferidor de democracia que ele usa está notoriamente avariado. Ou então é o próprio oráculo de Boliqueime que está desbussolado, tendo-se perdido do norte e do simples bom senso.

Cavaco voltou, a direita mais linha do Estoril adorou, o jornalismo mole da matilha dominante mastigou penosamente as banalidades básicas. Mas se me perguntassem em que tipo de programa o colocaram não saberei dizer se foi um programa cómico ou trágico.

sexta-feira, 5 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas

 

1. Este é o primeiro de uma pequena série de textos através dos quais tenciono abordar a problemática autárquica no quadro das eleições de outubro próximo. O meu ponto de vista não é imparcial, uma vez que militando no PS apoio politicamente em termos gerais a atual gestão autárquica no município de Coimbra. Mas, pretendendo hoje fazer uma crítica das críticas, procurarei encará-las com objetividade, no quadro de um debate democrático frontal mas sem crispação. Não vou discuti-las em si próprias, apreciando o seu conteúdo. Vou tentar comentar a tipologia de algumas delas em termos genéricos, sem a pretensão de exaustividade.

Muitas vezes, as críticas foram metodológicas ou de estilo, suscitadas por episódios políticos ou por casos isolados, tentando-se através delas desgastar o prestígio da atual gestão municipal. Este tipo de críticas envolve um risco grande de descambar em ataques pessoais que suscitam uma crispação intensa entre os protagonistas e tornam mais difícil um diálogo profícuo, encorajando um clima de suspeições mútuas e de ressentimento.

Em si, não envolvem a promessa de qualquer programa alternativo ou de iniciativas novas. São ataques que procuram menorizar os visados, mas não nos dizem nada quanto ao que há a esperar de uma gestão autárquica dos críticos. Podem dar sinais quanto à sua ferocidade, mas não quanto ao seu programa e à sua competência. Podem mostrar uma demarcação genérica intensa, mas não revelam o que fariam de diferente se estivessem na mesma posição.

 

2. Outro tipo de críticas centra-se em insuficiências estruturais do concelho e na subsistência de lesões no tecido social inerente às desigualdades sociais. Há duas verificações prévias a fazer. A primeira, para apurar se essas lesões são insuficiências específicas do nosso município ou ressonância inevitável do tipo de sociedade em que vivemos, inigualitária e desumana, dominada por uma lógica de proeminência do capital em face das pessoas. No primeiro caso, estamos sob a alçada da política autárquica; no segundo não. No primeiro caso, é legítimo, positivo e necessário discutir caminhos para a sua superação no quadro da dinâmica autárquica; no segundo transcende-se o plano autárquico, o que induz a necessidade de se agir no quadro de instâncias nacionais ou europeias.

Quanto às insuficiências estruturais, há que apurar se cabem no poder auto regenerador da autarquia ou  se implicam deliberações da competência de entidades nacionais ou europeias. No primeiro caso, estamos perante um problema político autárquico, no outro não.

Imputar responsabilidades e discutir políticas que caibam na área das atribuições e competências legais das autarquias é um exercício natural da democracia. Criticar o poder autárquico por desvios e omissões inerentes a espaços políticos onde a competência é de outras entidades não faz sentido, podendo confundir-se com pura demagogia. Desenhar programas políticos para um município envolvendo medidas cuja competência cabe a outras entidades (nomeadamente, nacionais) é propaganda mistificatória e desonesta.

A distinção entre aquilo que cabe nas atribuições do município e aquilo que as transcende é tanto mais importante quanto estamos numa fase em que está em mutação profunda o leque de competências atribuídas aos municípios, o que é especialmente relevante em espaços municipais relativamente amplos e complexos como é o caso de Coimbra.

 

3. Uma das atitudes críticas mais frequentes radica-se na comparação de Coimbra com outras cidades, especialmente cidades de outros países, no plano das políticas autárquicas. Fazem-se por vezes comparações gerais, outras vezes propõe-se a aplicação aqui de políticas praticadas noutros lados. Se a comparação for além de uma mera alegação genérica, reprodutora de um simples impressionismo fruto de um senso comum turístico, estamos perante um exercício útil potencialmente fecundo.

São recomendáveis algumas precauções contextualizadoras. Em primeiro lugar, há que comparar o nível de desenvolvimento do nosso país com o dos países das cidades que se comparam com Coimbra. Depois, a qualidade do tecido económico-social das regiões circundantes. Por fim, o peso demográfico de cada um dos termos da comparação.

Tudo isso tem que ser ponderado para a plena fecundidade das comparações. Todas as cidades envolvidas têm uma história, percorreram uma trajetória geradora de uma identidade, o que impõe uma abordagem diacrónica. Não parece útil por isso procurarmos inserir na trajetória de Coimbra como prótese circunstancial uma ideia, uma medida, um projeto que tenham sido extraídos do seu lugar de origem, sem uma contextualização que aí os situe. Pelo contrário, o que se impõe é aproveitar as comparações como energia nova no percurso de Coimbra, intensificando-lhe o ritmo, ajustando-lhe a trajetória, melhorando o modo como caminhamos.

É desta cidade concreta, numa fase precisa da sua vida, da sua trajetória, que estamos a falar. Não se trata de trazer do nada uma cidade ideal, de implantar um sonho de cidade, por mais belo que ele seja, trata-se de interferir num devir específico, inscrevendo-nos numa trajetória de cidade que tem séculos. Não faz sentido esculpir com a nossa imaginação uma cidade nova virtual que esqueça a cidade que existe, que não esteja enraizada numa ambição irrestrita pela qualidade de vida dos munícipes concretos  que lhe dão vida. Os sonhos de imaginação do futuro são preciosos para darem viço à Coimbra que existe, rasgando novos horizontes no seu caminho, ajudando a suprir as suas incompletudes e a superar as suas mazelas. Mas dificilmente se pode conseguir isso, se não se tiver presente o que já se atingiu, os contornos do prestígio nacional e internacional já conseguido. Só será possível  atenuarmos os nossos defeitos e romper as nossas limitações, se transmitirmos energia às nossas qualidades, enriquecendo as nossas virtudes. Para isso não as podemos ignorar e muito menos enxovalhá-las, submergindo-as no paroxismo insalubre da propaganda política presa ao imediatismo estéril da sofreguidão de poder.

 

4. Todas as autarquias são realidades sociopolíticas dinâmicas inseridas num contexto nacional em permanente evolução num espaço europeu que ajuda a projetá-lo no mundo. Mas algumas delas em certos períodos atravessam fases onde convergem várias dinâmicas.

 Parece-me ser esse o caso de Coimbra. Para além da sua própria trajetória como município que envolve uma cidade histórica com energia futurante, incorpora uma universidade centenária com forte índice de internacionalização, apreciável relevância nos países da lusofonia animada pela ambição de inovar. Além disso, cabe-lhe objetivamente um papel irrenunciável numa dinâmica nacional de resistência a uma deriva de bipolaridade no desenvolvimento nacional que pode convertê-lo num destino aleijado em que duas grandes áreas metropolitanas desertificam indiretamente o resto do país e se autocongestionam insalubremente numa urbanização de pesadelo. Não deixa também de dispor de um especial protagonismo no campo da saúde o que na presente conjuntura terá necessariamente um apreciável relevo no caminho a percorrer.

Naturalmente que a relação sinérgica com a Universidade de Coimbra deve ser conjugada com a adequada valorização de outras instituições de ensino superior aqui radicadas, estimulando a instituição de um espaço diversificado de afirmação científica e tecnológica que possa cumprir uma tarefa decisiva na qualificação dos portugueses.

São estes alguns dos trilhos a percorrer por Coimbra para enriquecer como um todo a sua história projetando-a no futuro, para ser cada vez mais fiel ao melhor de si própria ao progredir numa cada vez mais intensa respiração do futuro e do mundo. E assim afirma uma irredutível identidade própria como um recurso de Portugal. Estes caminhos podem questionar-se na procura de alternativas mais fecundas, mas não podem anular-se substituindo-se por nada. Esses trilhos que não devem ser encarados como caminhos fechados num perfil antecipado ao detalhe, mas como grandes linhas de orientação; nítidas, mas a necessitarem de uma criatividade continuada que as vá materializando.

O debate em torno das grandes linhas de orientação e do modo como são materializadas é dos mais úteis e assumi-lo como tal qualifica muito a fisiologia democrática da autarquia, permitindo que as alternativas à atual gestão autárquica se identifiquem realmente, revelando a profundidade ou  vacuidade dos horizontes que proponham e mostrando as suas diferenças.

 

5. Parecem-me apropriadas duas observações finais. Como atrás se sublinhou, o município de Coimbra, como qualquer outro, move-se num espaço bem delimitado de atribuições e competências legalmente definidas que não pode transcender. Mas para além disso, o seu exercício tem também limites orçamentais aprovados por órgãos com essa competência que não podem ser excedidos.

Desse modo, quaisquer projetos, quaisquer planos têm que caber não só nas competências legais da autarquia mas também no seu orçamento. E o orçamento depende das receitas objetivamente previsíveis e não do arbítrio de quem quer que seja. Por isso, quaisquer projetos ou propostas que ignorem esses limites são simples expressões de uma demagogia gratuita. Assim, as críticas que assentem numa alegação de omissões para serem sérias têm que demonstrar a possibilidade delas serem colmatadas sem romper os limites orçamentais.

Uma outra observação tem a ver com o funcionamento da máquina administrativa autárquica que em Coimbra atinge uma dimensão e uma complexidade apreciáveis, as quais foram potenciadas pela expansão das competências que tem que exercer. É certo que essa máquina tem uma existência própria independente da direção política escolhida para a autarquia nas respetivas eleições. Mas é indispensável que essa direção política coordene e oriente politicamente toda a máquina administrativa materializando a escolha dos eleitores. Essa tarefa é um aspeto decisivo da gestão autárquica e assegurá-lo com proficiência é determinante para o bom funcionamento do município e assim para a qualidade de vida dos munícipes,

Por isso, a credibilidade das críticas a qualquer administração autárquica depende também da capacidade dos críticos darem sinais inequívocos de que serão capazes de responder a essa importantíssima vertente do quotidiano autárquico. Não lhes basta ostentar sonhos e horizontes de ambição, têm que mostrar credenciais que induzam confiança na sua capacidade de gerir competentemente no quotidiano o muito que já existe.

Tudo o que acabei de escrever projeta uma imagem clara dos pressupostos de um ambiente político menos insalubre consubstanciado num debate, certamente sem complacências, mas também sem crispações que degradem a convivialidade democrática e um diálogo político que induza sinergias e facilite alguns espaços de convergência. Dado o histórico dos últimos anos não será fácil, mas não é impossível.

 

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Leituras criativas de uma sondagem

 

  Leituras criativas de uma  sondagem

1. A parte do complexo mediático dominante que mais ou menos ostensivamente partilha com a direita o seu modo de encarar a realidade teve hoje uma notícia que lhe deu um pequeno alento. Um barómetro de opinião da Aximage revelou uma descida de 2,3% em comparação com o mês anterior nas intenções de voto no PS. Soube-lhes a pouco, dada a furiosa campanha que desenvolveram contra o governo, em consonância com a vozearia histérica dos partidos da direita. Mas para empalidecer um pouco mais a  alegria da matilha mediática, o PSD, ao descer uns irritantes 0,1 % quedou-se nus modestos 26,5% que o mantêm bem longe do PS (37,6%). O CDS manteve uns agonizantes 0,8% e até o irresistível Chega, em vez de subir, desceu de 7,7%  para  6,5%.Foi necessário a IL para salvar a honra do convento, ao subir 2,2 % para chegar a 5,7%.  Só em conjunto a direita podia esconder o quão esquálidos eram estes resultados para os seus objetivos.

Na verdade, embora em relação ao barómetro do mês anterior no seu todo tivesse apenas  subido de uns pífios 0,9 %, a descida de 2,3% do PS permitiu-lhe ter em conjunto uma percentagem de preferências superior em 1,9%  à do PS.

Estranhamente, esta magra vantagem destituída de qualquer significado prático foi o grande aspeto que ridiculamente quiseram extrair da sondagem os vozeadores correntes. Esqueciam assim grosseiramente os 14, 8% dos  outros três partidos de esquerda considerados na sondagem ( BE-7,7; CDU -5,8; Livre- 1,3), bem como os 4% do PAN.

2. Este exercício estéril, de mero aproveitamento mistificatório de uma sondagem, tem como efeito banalizar politicamente um pouco mais os neofascistas do Chega, ao considerá-los em conjunto com a direita democrática. Talvez porque sem eles a direita democrática penaria nuns frágeis 33% que a colocariam ainda mais longe de um governo seu, afinal  com a mesma percentagem que tinham alcançado em 2019.

Na verdade, contra os 52,4% do conjunto da esquerda de que valem os 39,6% do conjunto da direita? Em termos de um possível governo - nada.

A não ser que queiram ressuscitar o fantasma apagado em 2015: o sonho de que o PS se tiver menos votos do que a direita a deixará formar governo e governar. Sonho tolo! Convençam-se de uma vez por todas: se quiserem formar um governo democrático  de direita conquistem uma maioria parlamentar de direita.

domingo, 13 de setembro de 2020

A matilha mediática e os seus senhores

 


A matilha mediática, megafone insalubre da direita, uiva raivosa contra António Costa, contra o Governo, contra o PS. Hoje o pretexto é A, ontem foi X, amanhã será Z. Ora trovejante, ora melíflua. Ora brutal, ora florentina. Incansável, hipócrita, rasteira. Usando o estipêndio dos poderes fácticos, por vezes abusando sem pudor de recursos públicos.

Ocorre-me irresistivelmente, um velho provérbio: “ Se atirares pedras aos cães que te ladram, nunca chegarás ao fim do teu caminho”.

Espreguiço-me com tédio pelo viscoso alarido e cometo  uma pergunta simples: “Se a matilha mediática e os seus senhores, por insidiosa obra do mafarrico, assumissem sem peias o poder político, de quantas semanas precisariam para destruir Portugal?” Não sou capaz de responder com segurança, mas receio que não fossem muitas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Socialista, republicano e laico

 Um dia, Mário Soares identificou-se politicamente como republicano, socialista e laico. Hoje, assistiu-se à adesão a essa trilogia de uma deputada europeia do Bloco de Esquerda, no anúncio público da sua candidatura à Presidência da República.

É uma aproximação objetiva e simbólica. Em termos pessoais e meramente psicológicos ,talvez signifique pouco. Quiçá, apenas a procura de uma ressonância subtil.

Mas quem procurar surpreender os grandes movimentos sociopolíticos estruturais, pode talvez ver aqui o prenúncio do que será um dia a chegada do BE ao PS.

No imediato, pode parecer um vaticínio delirante, especialmente pelas resistências psicológicas que isso possa enfrentar numa parte dos principais atores políticos. Mas, não é menos certo, que no seio das esquerdas vai ser preciso fazer um ruído cada vez maior, para se transformarem pequenas diferenças em grandes divisões.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A economia social no programa do Governo



No passado dia 7 de novembro, foi publicado no jornal Negócios um artigo da minha autoria, cujo tema era “A economia social no programa do Governo”.  Vou transcrevê-lo.


1. A economia social tem um lugar modesto, mas visível no programado atual Governo. Às entidades que a integram é reconhecida vocação para serem “parceiras fundamentais do Estado na prestação de serviços de interesse geral às populações em termos não mercantis”, com salvaguarda expressa da sua autonomia, radicada em “valores solidários” indutores da sua contribuição “para a satisfação das necessidades coletivas”. Sublinha-se o seu “papel decisivo junto dos segmentos sociais mais fragilizados”. Reconhece-se-lhe o contributo para a “dinamização da própria atividade económica e social”, geradora de emprego.
No programa dá-se ainda relevo à necessidade de estimular o desenvolvimento das entidades da economia social, apostando-se em aumentar “a eficácia e a eficiência da sua atuação” e garantindo-se também “a sua sustentabilidade económica e financeira”. Por isso, o Governo, reconhecendo expressamente “o papel determinante que a economia social desempenha”, manifesta a sua vontade de trabalhar em conjunto com as organizações que a integram, “dando passos no sentido de consolidar uma trajetória de parceria”.
Nesse quadro, propõe-se: 1) melhorar “os instrumentos de regulação da economia social”; 2) promover a modernização dos vários ramos cooperativos e estimular o seu rejuvenescimento, com destaque para o reforço e a agilização das cooperativas de interesse público [neste caso, explicita-se a vontade de as tornar “mais atrativas para o envolvimento de diferentes entidades públicas e privadas na construção de parcerias duradouras na resposta a necessidades sociais, culturais e outras”]; 3) “desenvolver um programa de formação e capacitação para dirigentes de entidades da economia social”; 4) “criar uma rede de incubadoras sociais”; 5)” criar incentivos à inovação social e à exploração de tecnologias que coloquem o cidadão no centro da decisão”; 6) “estimular dinâmicas de medição dos impactos sociais das iniciativas”; 7) “proceder a uma revisão global e integrada da legislação aplicável às fundações”.

2. Neste programa, têm uma ressonância limitada as moções aprovadas nos últimos congressos nacionais do PS, quanto à economia social e não se valoriza com clareza o caminho percorrido na legislatura anterior. Isto não legitima que se menospreze o valor objetivo das opções apresentadas, bem como o acerto estrutural da inclusão da economia social nas respostas ao desafio estratégico do combate às desigualdades. Simetricamente, não se deve apagar a necessidade de se inverter a deriva desvalorizadora do protagonismo do CNES no período final do Governo anterior. Mas para além de uma amplitude mais ambiciosa das medidas propostas e das linhas de orientação reveladas, teria constituído um importante salto qualitativo ter-se dado à economia social uma maior transversalidade, fazendo-a impregnar estruturalmente o programa do Governo. Bastaria, por exemplo, que se assumisse a ressonância plena do mais recente Congresso do PS: “Para o PS é importante a imbricação da economia social na reforma do Estado, como reforço do seu caráter democrático e como elemento de contenção e reversão dos atuais desequilíbrios demográficos, ecológicos e económicos do país”. Em sinergia com isto, teria sido bom ter-se dado uma expressão mais consistente ao que na mesma circunstância se defendeu: a especial valorização da simbiose entre a economia social e o desenvolvimento local.
Na verdade, um olhar sobre o programa do Governo mostra uma abordagem bem mais pobre da economia social do que a induzida pelo decidido no 22º Congresso do PS: “A economia social é um movimento relevante do horizonte socialista. Inscreve-se na história como memória marcante, no presente como virtude prática e no futuro como esperança emancipatória”.
                                                           RUI NAMORADO

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O geringoncismo- doença infantil da concertação das esquerdas



O geringoncismo
-  doença infantil da concertação das esquerdas

1. A geringonça nasceu como rótulo depreciativo, inventado por expoentes da direita, para desqualificarem simbolicamente uma iniciativa que agregava as esquerdas. Espalhou-se irresistivelmente no espaço público. No entanto, a realidade que se pretendia apoucar teve afinal o êxito suficiente para resgatar simbolicamente o rótulo em causa, tornando-o numa designação afetivamente mais amiga e cordial do que ridicularizante. Muitos dos seus próprios protagonistas acabaram por aceitar com naturalidade e bonomia o epíteto, que assim se acabou por tornar numa designação aparentemente neutra e inócua. De um ponto de vista simbólico, sem dúvida que o seu potencial desqualificante se esvaiu.

No entanto, talvez ele tenha tido um efeito perverso que não é aparente, mas que julgo real. Na verdade, ao longo do tempo, o pacto celebrado foi sendo predominantemente encarado como um mecanismo político-institucional radicado apenas em organizações partidárias que se concertavam entre si, na sombra discreta dos gabinetes. Celebraram um pacto e foram acompanhando o seu cumprimento. Um pacto que permitiu que um Governo fosse instituído e governasse durante uma legislatura. Um Governo de um dos partidos, a cujos deputados se somavam no Parlamento os deputados dos outros partidos de esquerda. Uma governação que, contrariando todas as expetativas e rompendo até com um certo ceticismo internacional, teve o êxito suficiente para poder ser invocada como exemplo positivo.


2. Nas campanhas eleitorais entretanto ocorridas ─ eleições autárquicas, europeias e legislativas─, mas principalmente nestas últimas, o pacto foi sujeito a um acréscimo de tensões fragmentadoras e dissipativas. Tensões inerentes a uma competição eleitoral entre partidos que concorriam entre si, sem prejuízo de estarem congregados num pacto político-institucional. Um pacto limitado e flexível que era compatível com a manifestação dessas tensões competitivas. Essa compatibilidade, em fim de legislatura principalmente, não impediu momentos de um especial aumento de tensões  e nalguns casos mesmo de alguma acrimónia ainda que contida.

Se olharmos para essa tensão argumentativa vivida nas campanhas, especialmente na mais recente, verificamos que ela refletia atitudes e posições diferentes. De um lado, estava o partido do governo, do outro lado estavam os partidos que tinham pactuado o apoio parlamentar ao governo. O PS tendia a dar centralidade à sua qualidade de partido do governo, valorizando genericamente o mérito da governação. O BE , o PCP e o PEV tendiam a exaltar os méritos inerentes a medidas específicas que teriam sido tomadas por força da pressão feita por cada um deles. Procuravam valorizar o mérito inerente aos resultados das suas pressões e distanciarem-se relativamente do resultado geral da governação, em especial dos aspetos com que não concordavam ou que não induziam popularidade.

Esse registo foi impregnado por uma intensa campanha contra uma possível maioria absoluta do PS, o que sendo em si um absurdo, se for  levada à letra (cada eleitor vota num partido, mas não tem como modular a sua preferência; vota ou não vota), era de facto uma campanha explícita contra o voto no PS. Cada um deles, além de apelar ao voto nele próprio, o que é natural em todos os partidos, apelava também a que se não votasse num partido [o PS], com o qual tinha tido um acordo que durara uma legislatura. Assumiam assim um juízo globalmente positivo quanto ao governo, mas  batiam-se contra o voto no partido que era estruturante quanto a esse governo. Convenhamos que a lógica profunda desta posição equívoca  tem um potencial de confusão apreciável relativamente ao eleitorado mais diretamente visado.

Uma leitura superficial parece indicar que a campanha pode ter tido efeito quanto a impedir uma maioria absoluta do PS, mas não fez ganhar votos nem ao BE nem à CDU. O BE estacionou quanto ao número de deputados, a CDU perdeu deputados. Especialmente à direita, neste caso por motivos óbvios, há quem queira  fazer crer que isso se deveu à participação indireta na solução governativa encontrada. É, no entanto, estranho que o apoio relativo dado a um governo que é encarado positivamente pelo povo de esquerda  induza perda de votos à esquerda. Mais lógica parece ser a hipótese de que esses partidos ( ainda que em doses diferentes) tenham suscitado  confusão, pela estratégia argumentativa seguida,   em parte do seu eleitorado, induzindo assim  a sua abstenção.


3. Se olharmos para o discurso político dos partidos envolvidos no pacto das esquerdas, verificamos que o mais global era o do PS, o que se compreende à luz da sua relação com o governo. Os outros seguiam um guião em que predominavam referências a medidas parcelares, cujo mérito reivindicavam e a medidas parcelares que inscreviam como seus objetivos para o futuro.

Todos davam na generalidade como adquirido  o tipo de sociedade atual , abdicando de inscrever no horizonte a sua transformação. As exceções a esta regra, mais implícitas do que explícitas, não condicionavam significativamente a espinha dorsal do discurso político assumido. Os eleitores tendiam a ser encarados mais como indivíduos a convencer do que como cidadãos a mobilizar; mais como clientes políticos a fidelizar do que como sujeitos cívicos de um processo político que partilhassem com os partidos que, sendo os atores eleitorais diretos, não eram tudo.

Esta atitude menosprezava um dado empiricamente verificável que se veio tornando evidente, ao longo dos últimos anos: o povo de esquerda, abrangendo os eleitorados reais ou potenciais dos partidos envolvidos no acordo, queria e continua a querer esse acordo. Independentemente de pressões circunstanciais e do desenho concreto da conjuntura institucional em 2015, o mérito principal, aliás apreciável, das direções políticas dos partidos envolvidos, foi o de terem sabido responder positivamente a esse anseio unitário profundo do povo de esquerda. Terem percebido a centralidade desse anseio.

No entanto, na generalidade, parece nítido que desde então não foi dada realmente centralidade a esse anseio, por nenhum dos partidos envolvidos. Predominantemente, a prática dos partidos envolvidos passou, quase sempre, ao lado dessa unidade substancial do povo, preferindo ficcionar uma diversidade de povos de esquerda correspondente a eleitorados separados dos vários  partidos. 

Esta perspetiva implicou, objetivamente, uma tendência para se renunciar por completo a estimular uma dinâmica de transformação social que envolvesse globalmente o povo de esquerda e se abrisse a todos os trabalhadores e a todas as vítimas da desigualdade social dominante. Uma dinâmica de transformação que desse consistência e autenticidade ao combate contra a degradação ambiental inerente ao modo como o capitalismo tem vindo a corroer o mundo. Uma dinâmica que pudesse dar corpo a uma esperança realmente grande e que assim pudesse pôr o povo em movimento.

No seio de um processo amplo de transformação social, o protagonismo diferenciado dos partidos exprimiria com naturalidade a relativa heterogeneidade  do povo de esquerda, mas fá-lo-ia no âmbito  de um processo social mais amplo mas uno, onde todos caberiam. O protagonismo institucional dos partidos em geral e a sua governação nos diversos níveis do Estado seriam robustecidos por uma dinâmica social que o apoiasse, estimulasse e desafiasse.

Tudo isso poderia gerar uma nova relação de forças que permitiria que fossem tomadas mais rápida e facilmente medidas justas, geradores de mais liberdade e de mais igualdade, induzindo até provavelmente uma afirmação e uma autonomia mais robustas do nosso país na cena internacional.


4. Sem uma ancoragem firme numa dinâmica social deste tipo, os êxitos político-institucionais, por mais relevantes e meritórios que sejam, ficarão mais sujeitos ao aleatório de conjunturas internacionais que dependem muitíssimo pouco do que ocorre em Portugal.  Sem essa ancoragem dificilmente se dará consistência à defesa da qualidade ambiental, à luta contra as causas económico-sociais das alterações climáticas, aos movimentos de inconformismo em face dos automatismos predatórios do capitalismo mundial. E assim tender-se-á para uma fragmentação das resistências organizadas à degradação ambiental e a uma estéril dissipação das suas iniciativas. Podem suscitar-se explosões desesperadas, dificilmente se gerarão resistências eficazes.

Paralelamente, se continuarmos aprisionados numa numerologia que se absolutize a si própria, esquecendo as pessoas, abriremos ainda mais as portas do desespero, às vítimas da desigualdade. E quando as portas do desespero se abrem, deixa de ser possível prever e controlar o que passa através delas.

E não se pense que este risco se diminui com atitudes proclamatórias ainda que generosas e acutilantes, com os proclamantes a considerarem-se realizados apenas por proclamarem. O general que numa guerra decretasse bombardeamentos aéreos, sem dispor de aviação, representaria um perigo nulo para o inimigo.

Está em marcha um processo negocial para o desenho político do novo governo. Entre as esquerdas parece haver algumas dificuldades e ambiguidades que podem não levar a bom porto. Se o povo de esquerda vier a ser  esquecido no labirinto das negociações, se as direções partidárias não tiverem a inteligência de perceber que sem o povo de esquerda  são pouco mais do que folhas secas ao sabor da corrente, as coisas podem ser mais difíceis do que a atual relação de forças induz. E não esqueçamos que  dentro do modo como a sociedade atual entre nós funciona, a esquerda, mesmo quando é maioritária no parlamento e nas autarquias,  está cercada pelos poderes de facto, que lhe são estruturalmente hostis. E quando quem está cercado ignora o cerco dificilmente o vai conseguir romper com êxito.

É mais fácil politicamente e menos oneroso económico-socialmente que as esquerdas se entendam para governar depois de uma vitória do seu conjunto do que se entendam para resistir depois de uma derrota. E é mais fácil o protagonismo dos partidos quando tenham como suporte o povo de esquerda com a esperança acordada, do que depois de terem conseguido desiludi-lo e desmobilizá-lo com a sua inépcia, se for esse o caso.