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sexta-feira, 12 de julho de 2019

A relação de forças resultante das eleições legislativas na Grécia





A relação de forças resultante das eleições legislativas na Grécia

1. Vale a pena revisitar-se o resultado das recentes eleições legislativas ocorridas na Grécia, para se chegar a uma ideia precisa do modo como o conjunto dos eleitores realmente se pronunciou. O alarido dos grandes títulos e a vozearia televisiva, tendo dito alguma coisa, não disseram tudo.

Sem dúvida que o  resultado dessas eleições foi uma vitória nítida da direita clássica, a Nova Democracia, traduzida numa maioria absoluta de 158 deputados num parlamento de 300. Recordemos, no entanto, que o sistema grego de distribuição de mandatos implica um bónus de 50 lugares para o partido mais votado. Nas eleições anteriores o Syriza fora o partido beneficiado. Desta vez, a vantagem coube à Nova Democracia. Pode discutir-se a bondade do sistema, mas não é questionável a legitimidade do poder assim atribuído ao partido agora vencedor, como o não foi a do Syriza, quando beneficiou de um bónus semelhante.

Isso não impede que se valorize o significado político do apoio social realmente conseguido por cada partido, tendo em conta os votos obtidos e os deputados conquistados, antes da atribuição do bónus. O número total de lugares atribuídos aos partidos foi assim de 250. Só têm deputados os partidos que tenham pelo menos 3% dos votos. Isso ocorreu com 7 partidos. Os 39,6% da Nova Democracia outorgam-lhe 108 deputados ; o novo partido de extrema-direita Solução Grega com 3,8% chegou aos 10 deputados. Os 31,6 % do Syriza deram-lhe 86 deputados; o Kinal  ( que integra o antigo PASOK) com 8% teve 22 deputados; o Partido Comunista Grego com 5,4 % teve 15 deputados; e a Diem 25 ( de Varoufakis) com 3,5% chegou aos 9 deputados. Ou seja, a ND mais a extrema-direita  chegaram aos 43,4%, a que corresponderam 118 deputados, enquanto as várias esquerdas que elegeram deputados atingiram 48,5% dos votos a que corresponderam 132. A Nova Direita teve 2.251 411 votos; um novo partido de extrema -direita chegou aos 208. 805; os quatro partidos de esquerda somados atingiram 2.732.517 votos ( dos quais 1 781 174 votos no Syriza). Esta é a relação de forças real, antes do bónus dos 50 deputados.

Ou seja, os votos realmente entrados nas urnas traduziram uma preferência pelo conjunto das esquerdas , mas o sistema eleitoral grego transformou essa preferência numa vitória estrondosa de um dos partidos da direita. A legitimidade jurídico-política do novo governo é inquestionável, mas não anula o facto de haver uma maioria de eleitores que lhe é adversa.


2. O significado político destes resultados ficará mais nítido se os compararmos com os de 2015. Neste ano houve na Grécia duas eleições legislativas, umas em janeiro, outras em setembro. Nas primeiras, o Syriza foi, pela primeira vez, o partido mais votado. Tendo assim direito ao bónus de 50 deputados, atingiu os 149 mandatos o que o deixou a dois lugares da maioria absoluta. Aliou-se com um pequeno partido nacionalistas de direita (Gregos Independentes), tendo a coligação passado a ter a necessária maioria absoluta.

Divergências ocorridas no seio do Syriza, fizeram com que A. Tsipras se demitisse, provocando novas eleições, que tiveram lugar em setembro de 2015. Em relação às eleições anteriores, o Syriza  perdeu 0,8% ( menos  4 deputados ). Os Gregos Independentes foram mais penalizados, mas ficaram com lugares suficientes para que, somando-os aos 145 deputados do Syriza, a maioria parlamentar favorável ao governo se mantivesse, até às recentes eleições.

Se comparamos os resultados das duas eleições de 2015 entre si e com os de 2019, podemos verificar que, entre janeiro e setembro de 2015, o Syriza, mesmo tendo perdido apenas 4 deputados, viu fugirem-lhe 321.160 eleitores, dos quais 155.242 terão provavelmente transitado para uma cisão de esquerda que então sofreu , a da  Unidade Popular, a qual no entanto não elegeu deputados. Já relativamente aos resultados de setembro de 2015, pode ver-se que nestes quatro anos o Syriza perdeu 9 deputados (sem contarmos com o bónus dos 50 lugares que antes teve, mas agora não), o que  correspondeu a uma perda de 3,9 %, traduzida em 143.730 eleitores. Foi uma derrota, mas não foi um desmoronamento, devendo lembrar-se a pressão enorme que a Grécia sofreu durante esse período, suscitando grandes sacrifícios para o povo grego e causando naturalmente um forte desgaste, tal como teria ocorrido com  qualquer governo que estivesse me funções.

Pode também recordar-se que o Syriza teve, em 2009, 4,6% dos votos; em 2012, houve eleições em maio e em julho, tendo o Syriza atingido 16.8% na primeira e 26,9 % no mês seguinte. Foi em 2012, que pela primeira vez o Syriza ficou á frente do PASOK, tendo em ambos os casos ficado relativamente perto do partido mais votado , a Nova Democracia. Este historial permite avaliar melhor a dimensão da derrota sofrida pelo Syriza nas recentes eleições.

Na verdade, a vitória da Nova Democracia foi mais o resultado da sua capacidade para absorver o eleitorado da direita e do centro do que o reflexo de um esvaziamento do Syriza. A Nova Direita subiu nestes quatro anos 11%, o que correspondeu a 725.000 eleitores. Esse aumento refletiu certamente também o desaparecimento de O Rio, um partido moderado, e a queda abrupta da União Centrista, que em conjunto representaram cerca de 300.000 eleitores. Na extrema-direita, os votos perdidos pela Aurora Dourada (agora não elegeu deputados) quase correspondem à votação que teve a Solução Grega, partido de direita radical que agora entrou no parlamento grego.


3.Deslumbrada com o doce sabor de um castigo ao Syriza e de uma correspondente recompensa a uma direita com perfume  “harvardiano”, a matilha mediática internacional noticiou o resultado eleitoral em causa como um esmagador triunfo dos  virtuosos e como o desmoronamento  irrecuperável dos irrealistas.  Como mostrei, este modo de apresentar o ocorrido não é uma informação esclarecedora e objetiva sobre o que realmente aconteceu, mais se aproximando  de uma deturpação.

Na verdade, como ficou claro a direita só tem maioria absoluta por causa  do bónus inerente ao prémio dado ao partido mais votado, mas mesmo que se lhe juntem os votos dados à extrema-direita, quanto ao efetivo apoio eleitoral  fica bem atrás do conjunto das esquerdas. O Syriza perdeu votos mas conservou no essencial a sua base de apoio, ficando bem acima do seu melhor resultado de 2012. E tudo isso conta na relação de forças que emergiu do ato eleitoral em questão.


domingo, 28 de junho de 2015

O Episódio Grego não é um Episódio

O que está em marcha na UE é uma desconsideração estrutural  da política em benefício de um unilateralismo economicista que serve automaticamente os interesses do capital financeiro. Essa desconsideração traduz-se na secundarização da democracia. E assim fica a descoberto um divórcio até agora inconfessado.No mundo de hoje,o capitalismo respira tanto mais facilmente quanto mais despreze a democracia - é isso que nos diz o comportamento da burocracia económico-financeira que atrofia a Europa. De momento, a vítima é o povo grego. Mas os capatazes políticos do capital financeiro que dominam os lugares de decisão das instâncias relevantes, embora ágeis enquanto aspirantes a agiotas, são anões políticos. Anões incapazes de terem respostas politicas consistentes para os problemas que tem levantado a sua lamentável inconsistência estratégica, mesmo que ancoradas na sua mundividência. No grande jogo xadrez da geopolítica mundial comportam-se como jogadores de damas, simples consumidores lineares do seus próprios ócios. Perdidos nos automatismos cegos que não sabem controlar deixam  que toda esta deriva antidemocrática vá assumindo paulatinamente o rosto da Alemanha, o que faz correr o risco de ressurreição de velhos medos e velhos fantasmas. Tudo isto se faz sob a batuta dos partidos liberais-conservadores da Europa, abusivamente sugeridos como democratas-cristãos, à sombra do rótulo hipócrita de Partido Popular Europeu. Tudo isto é dramaticamente agravado pelo facto de os partidos membros do Partido Socialista Europeu se terem deixado aprisionar no predomínio ideológico dos conservadores, deixando-se reduzir ao papel triste de agentes moderados das malfeitorias dominantes. Em poucos casos, as outras esquerdas compensam essa anemia com uma nova pujança. Mas a extrema-direita vai crescendo, de momento parecendo desafiar o "status quo neoliberal", amanhã assumindo o rosto musculado do fim da democracia,  que o capital financeiro prepara como plano B, no caso de as atuais instituições colapsarem por completo. Por isso, os socialistas europeus não estão apenas perante um encruzilhada política, como tantas outras que a História põe no caminho dos seus protagonistas. Estão perante um encontro histórico com a sua identidade e o seu destino --- perdem-se no triste papel de acólitos das direitas europeias ou assumem uma refundação estratégica que os reconduza  à sua razão de ser, ao seu lugar no coração do futuro. E o modo como os partidos membros do Partido Socialista Europeu lidarem com o caso grego pode muito bem ser  o sintoma incontornável do caminho que vão percorrer. E não vale a pena ter ilusões. Desta vez o discurso suave e redondo, que sugere tudo sem dizer nada, não é uma opção, mesmo que seja má. É uma rendição; com tudo o que isso tem de cobardia política e irremediável desencontro com o povo de esquerda.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O AVESSO SOMBRIO DA DEMOCRACIA



Um conjunto de mangas de alpaca não eleitos, estacionado na União Europeia, mais um leque de empregados bancários de luxo em quem ninguém votou, estacionado no Banco Central Europeu, mais uma alcateia de tecnocratas chamada FMI, alheia ao mais leve perfume de democracia, conluiaram-se para enxovalhar a liberdade do povo grego votar como entender nas eleições que vão ter lugar em Junho. Ameaças e admoestações, mais ou menos ostensivas, que envergonhariam qualquer consciência minimamente democrática.

Estranho que os mesmos que arrasaram o antigo poder líbio, em nome de uma enorme e confessada paixão pelos valores da democracia, dormitem agora sossegadamente como se nada estivesse a acontecer. Sabemos como a sua consciência democrática subitamente se apaga, quando se trata de algo que tenha a ver com as monarquias autocráticas do petróleo, cuja alergia a tudo o que cheire a democracia é já uma lenda, mas não imaginaríamos que alguma vez se sentissem autorizados a fazer passar a consciência dos gregos, pelo filtro pequeno dos seus  preconceitos burocrático-liberais.

Pergunto-me, por isso, onde pára a consciência democrática europeia, quando consente que um punhado de tecnocratas, que ninguém elegeu, procure constranger vergonhosamente o exercício da democracia pelo povo grego? Um espanto. Em vez de arrepiarem caminho, reconhecendo, de uma vez por todas, que estão a matar o “doente” com a cura, insistem no caminho suicida como se fossem autómatos desgovernados, arrasando os sinais de humanidade que lhes apareçam pela frente.

Só lhes falta, num gesto final de degradação, ajoelhar perante os mais fundos demónios totalitários, para caírem num inimaginável apelo ao regresso dos “coronéis” gregos, como aliados últimos da austeridade e do rigor, capazes de corrigirem o erro da simples existência de tantos gregos dispostos a exercer a liberdade de escolha.

Quem pôs estes burocratas fantasmas dentro do sonho europeu, transformando-o assim em vítima de uma assombração sem limites ?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A GRÉCIA E OS BÁRBAROS


1. Uma sujeita mal envelhecida, aparentemente oriunda da Europa mais fria, apareceu nos ecrãs televisivos, falando um vago inglês. Vinha falar dos inconvenientes resultados eleitorais cometidos por essa gente do Sul, os gregos.

Gente que a figura olhava com o espanto e a severidade de uma mestra que admoesta os irrequietos alunos.Gente que a senhora não admitia que tivesse  o descaramento de não manter uma suavidade melancólica, enquanto os alegados mercados e os demónios neoliberais, de que estão possuídos os espíritos toscos dos senhores da Europa, a estrangulam com uma frieza de autómato. Respondendo aos resultados eleitorais acontecidos recentemente na Grécia, a esfíngica criatura vinha com o dedo em riste arremessar furiosamente aos gregos o imperativo de novas humilhações, rumo a uma pobreza mais funda.
                                   
Fiquei siderado. Quando seria de esperar o início de uma profunda auto-crítica dos arautos do fundamentalismo neoliberal, pelos desastrosos resultados políticos causados pelo seu simplismo e pelo doçura com que trataram  o poder financeiro no decurso da crise, vinham afinal acusar as vítimas de se recusarem a morrer sem resistir. Se o remédio é afinal um veneno, censura-se o envenenador e para-se com a medicação ? Não senhor: dá-se mais veneno e censura-se a vítima por se ter deixado envenenar.

Fiquei alarmado. Temos em alguns  postos de comando europeus verdadeiros imbecis políticos.

2. Pois é , ó minha gente do Sul, não somos nós os novos bárbaros. Não temos que pedir desculpa por Platão, por Dante, por Cervantes, por Camões. Os bárbaros do século XXI estão friamente sentados a norte, nas cadeiras de um poder agressivo, agiotas de uma riqueza tingida pelo sofrimento de muitos,de muitos de muitas terras, a  norte, a sul, a oriente.São talvez ricos, mas não deixam de ser bárbaros, novos bárbaros. 

3. Não nos admiremos: ainda eles andavam aos pássaros nas floresta  frias do Norte e já no Mediterrâneo cresciam cidades.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O VIZINHO ALEMÃO

Uma boa parte das tragédias históricas, duramente escritas com sangue, tiveram nas suas raízes anátemas ou preconceitos, que envolveram povos inteiros. Mas dentro desses povos, seguramente, (e pelo menos) uma boa parte nada fez para que existissem os motivos ou os pretextos que estiveram na base desses anátemas e dessas guerras. Porém, os vendavais não têm reconhecido os culpados.

Assim, um inestimável mérito da construção europeia foi o de ter diminuído drasticamente essas crispações, tantas vezes agudizadas por repetidas guerras, entre os povos que se envolveram nelas.

Nos dias que correm, a vozearia ideológica dominante nos centros de poder europeus tem falado muito numa alegada ligeireza dos europeus do sul, marcados por um hedonismo desbragado que teria levado a Europa às agonias da crise. Essa lenda, que pareceu casar-se minimamente com os factos num primeiro tempo, logo se afastou deles e mais se vai afastando, a cada dia que passa.


Os europeus do sul podem ter sido escolhidos como primeiro alvo por serem relativamente mais fracos no plano económico, mas não por terem infringido, grosseira e injustificadamente, as regras da arte e o consenso europeu. Os europeus do sul, como humanos que são, nem sempre terão seguido os caminhos mais certos, mas não foram os seus erros próprios o que mais contribuiu para as dificuldades que vivem, hoje. Na verdade, é de meridiana evidência que, se há uma força propulsora da crise vivida na Europa, ela está na incapacidade política das lideranças europeias e, em particular, no egoísmo nacionalista dos países mais poderosos, com especial destaque para a Alemanha.

É precisamente isto que torna mais grave a sucessão de atitudes de dirigentes políticos alemães que têm reflectido um dramático regresso a um tempo de preconceitos intra-europeus, em que os povos se combatiam cegamente numa espiral perversa. Para os alemães, os europeus do Sul, e muito particularmente os gregos, são gente de terceira classe, indolente e pouco confiável, sofregamente, à espera do seu ouro.

Ora, acontece que esses povos do sul, e por exemplo os gregos, sofreram, não há muitas décadas, uma brutal e devastadora agressão de invasores alemães. Por isso, se virmos bem, eticamente, talvez os alemães devam aos gregos muito mais do que aquilo que agora regateiam emprestar-lhe.

É claro, que qualquer cidadão do mundo minimamente esclarecido, seja ele ou não europeu do sul ou do norte, nunca deixará esvair-se na sombra do nazismo a inestimável claridade da cultura alemã, dos seus filósofos, dos seus músicos, dos seus escritores. Por mais que os ofendam, com a sua pequenez, os actuais políticos alemães, os expoentes maiores dessa cultura irão sempre ao nosso lado como irmãos e como guias.

Mas os actuais “panzers” da política menor, com seu insalubre hálito de uma usura estreita, têm que que perceber em que vespeiro estão a cutucar, quais os fantasmas que podem despertar, quais os demónios a que estão a abrir uma porta tão custosamente fechada. E bastaria que se lembrassem do que, não há muito tempo, aconteceu aquando da reunificação alemã. Apesar dos graves problemas que ela podia suscitar, no plano económico também, mas principalmente no delicado plano das relações de força dentro da União Europeia, os parceiros da Alemanha souberam acolher sem egoísmo a novidade. Compreenderam bem o que estava em jogo, simbólica e historicamente, tendo tratado a questão com fraternidade, mesmo sabendo o que havia de estruturalmente imprevisível na nova situação. Por isso, se agora a Alemanha fosse generosa não estaria, ainda assim, a ir além da reciprocidade.

Para mais, ao contrário do que possa parecer, para uma média potência mundial sem espaço de irradiação linguística, sem território, sem população que a possam puxar mais para cima, a força da Alemanha só pode firmar-se, diluindo-se subtilmente numa Europa, onde objectivamente pesará sempre muito. Em contrapartida, será essa Europa a não resistir a uma recaída imperial da Alemanha, mesmo que ela se processe pelas melífluas vias de um economicismo neoliberal.


Não resistirá. No entanto, se a Alemanha dispuser de suficiente inteligência política nas suas lideranças , talvez perceba que a generosidade e uma demonstração inequívoca de não querer ser mais do que um povo entre muitos, são um caminho seguro para uma proeminência natural e bem acolhida numa Europa fraterna. É, por isso, que o paroquialismo político da direita alemã, actualmente no poder, correndo o risco de ser fatal par a Europa a curto prazo, trará um enorme prejuízo para a Alemanha, a médio e longo prazo.

Aliás, a vida política oferece amiúde factos inesperados que são verdadeiros artefactos de uma saborosa ironia. É que, foi em pleno festival de menosprezo pelos europeus do sul, coloridamente soprado pelos ventos de Berlim, que o Presidente da República da Alemanha se viu obrigado a demitir-se por um potencial pecado, bem menos recomendável do que os que são imputados aos hedonistas do sul. Pensem, por um momento, no que diria a Srª Merkl, e os seus pretorianos teutões, se o Presidente da República da Grécia se tivesse demitido por um motivo idêntico. Isto, para já não falar nos ascéticos mercados… Pelo contrário, os “bárbaros” do sul tiveram a elegância de quanto a isso não dizer nada.

Enfim, não bastará que a Alemanha se emende e que o Partido Popular Europeu se recorde, ainda que vagamente, da sua raiz cristã, para que o sol nasça de novo na Europa, mas sem que pelo menos isso ocorra, corremos o risco de cair numa espécie de inóspita terra de ninguém, donde não será fácil sair.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

TRAGÉDIA APENAS GREGA ?

1. O parlamento grego aprovou o plano acordado com a respectiva "troika", parecendo aberta a porta para alguma descompressão no garrote economico-financeiro mais imediato, que tem vindo a estrangular esse país, recorde-se, membro da União Europeia. Em contrapartida, as violentas manifestações de rua , que assinalaram essa aprovação redimensionam objectivamente o significado da aprovação conseguida. Hoje, a agitação violenta parece ser um efeito colateral da mediocridade política dos líderes europeus e da sua acéfala subordinação às pulsões sôfregas do capital financeiro. Mas ela talvez esteja perto do limiar, a partir do qual a todo poderosa tirania dos mercados será apenas um detalhe esquecido na brutal chegada de um novo tipo de revolta popular, que meterá debaixo das mesas os políticos engomados, que agora ocupam a ribalta da cena política. Assim, o que se tem passado na Grécia, o que as instituições da União Europeia têm permitido que os pequenos impérios intra-europeus lhe façam, relativiza bastante o que vierem a ser os resultados eleitorais das próximas eleições legislativas gregas, que vão decorrer em Abril. Mas, seja como for, esses resultados vão ter uma repercussão tanto maior, no desenrolar dos acontecimentos na Grécia e na Europa, quanto mais atípicos forem, quanto menos saídas institucionais permitirem, no quadro dos caminhos habitualmente percorridos.

2. Vale por isso a pena comparar os resultados das eleições legislativas gregas, em Novembro de 2010, com os resultados de duas sondagens feitas na Grécia durante o corrente mês de fevereiro de 2012.

Na primeira linha, estão em itálico os resultados eleitorais de 2010; nas duas seguintes, em castanho, os números de duas recentes sondagens. A vermelho, estão indicados os nomes dos partidos de esquerda; a azul, os de direita. Os Verdes não elegeram deputados; penso que a actual Esquerda Democrática, antes integrada na Esquerda Radical, não concorreu sozinha, mas ficou com quatro deputados retirados ao conjunto desta última. Se as sondagens anteciparem realmente no essencial os resultados das próximas eleições, teremos pela frente uma metamorfose do xadrez político grego.

Ambas as sondagens anunciam para o PASOK uma verdadeira hecatombe política. Mas, na que lhe é mais desfavorável perde 35, 9%, descendo de 43,9 % para 8 %; a que lhe é mais favorável não deixa de ser desastrosa, colocando-o a descer 30,4%. Porém, na primeira sondagem, o PASOK passa a ser o 4 º partido da esquerda em peso eleitoral, quando nas últimas eleições teve sozinho mais do dobro dos votos que o resto da esquerda no seu todo.

Mas, se a sondagem mais desfavorável ao PASOK for a mais certeira, os seus votos mais os do partido de direita Nova Democracia, que seria o mais votado de todos, somando 39% (31+8), ficariam atrás dos três outros partidos de esquerda que atingiriam os 42,5% ( 12,5+12+18 ). Só o apoio da extrema-direita com 5%, colocaria este último conjunto em minoria, mas apenas no caso dos Verdes continuarem a não eleger deputados, já que, somados aos outros três partidos de esquerda, chegariam aos 46 %.

Se pensarmos que a extrema-direita abadonou o actual governo e que houve várias expulsões no PASOK e na ND, podemos avaliar a fragilidade de uma maioria que queira reproduzir o leque partidário que apoia hoje o governo. Mas, obtendo resultados próximos dos indicados por qualquer das sondagens, tem o PASOK o mínimo de condições objectivas para se aliar, qualquer que seja a justificação, à direita? É muito duvidoso.

3. De facto, se compararmos as penalizações eleitorais, a crer nas duas sondagens, que sofrem a direita e a extrema-direita, verificamos que são ligeiras. A ND perde um mínimo de 2,4 % e um máximo de 6,4%; enquanto a extrema direita perde um mínimo de 0,5% e um máximo de 0,6%. A sua base social parece largamente intocada, continuando no essencial a reconher-se neles.

Já o PASOK vê a sua base eleitoral completamente destruída, o que faz pensar que estamos perante um fenómeno socialmente mais fundo do que a simples variação, ainda que dramática, das intenções de voto. Podemos estar a assistir ao desfazer de um bloco social , donde resultará a irrelevância de um partido, até agora determinante na cena política grega. A direita, movendo-se num território que é afinal seu, dá assim sinais de se aguentar muito melhor do que uma esquerda que executou primeiro, partilhando depois, políticas distantes do seu código genético que muitas vezes chegaram a contrariar a sua própria razão de ser.

Poderá o PASOK levar ainda mais longe a sua marcha para um completo suicídio político? Talvez; mas não é provável, correndo aliás o risco de cair numa anemia política de tal ordem, que pode tornar a sua posição irrelevante, seja ela qual for, no plano da simples relação de forças.

4. O PSE (Partido Socialista Europeu) há muito que devia ter apostado na sua própria metamorfose; mas, nestas circunstâncias, não pode, sem potenciar muito os riscos de desmoronamento, continuar a mastigar trivialidades, preso ao efémero dos detalhes, mas inerte perante as dinâmicas de profundidade, que realmente contam. O mesmo acontece, embora em graus diversos, a cada um dos partidos socialistas da União Europeia. Nenhum deles, no entanto, pode justificar a sua própria paralisia estratégica com a inércia do PSE; fazê-lo só agravará o problema. Também no caso português, ou talvez especialmente no caso português, não se pode continuar a cultivar rotineiramente uma irrelevância após outra, como se o essencial fosse cumprir calendário e não inventar com ousadia um futuro outro, onde realmente caiba a sobrevivência da democracia como único caminho contra a desigualdade, pela justiça e pela sobrevivência durável da humanidade.

terça-feira, 2 de março de 2010

A Grécia e o comissário tonto


A direita grega estava no poder desde 2004 e em Outubro passado perdeu as eleições e o governo. Algumas semanas depois, o PASOK (socialista) formou governo. Ao apurar a situação financeira em que o país se encontrava, verificou que tinha atingido a situação difícil em que se encontra.

Assistiu-se então a uma curiosa manobra de hipocrisia europeia. De facto, a inefável Comissão Europeia, hegemonizada pelo Partido Popular Europeu, onde estão ancorados os nossos PSD e CDS, que dormira tranquila enquanto a direita grega ia arruinando paulatinamente o respectivo país, tornou-se rigorosa logo que a responsabilidade política passou para os socialistas gregos.

Aflitos e confinados aos estreitos horizontes, onde se têm deixado encerrar os partidos europeus da Internacional Socialista, os socialistas gregos obedeceram ao receituário neoliberal, retomado sem pudor pela burocracia de Bruxelas, logo que julgou passado o pior da crise. Os trabalhadores gregos perderam a paciência e desceram ás ruas. O governo do PASOK tem vindo a medir cada passo, procurando calibrar sacrifícios e abrir janelas. Os abutres da finança internacional resolveram aproveitar as dificuldades gregas para ganharem mais uns dinheiros. O circo montado pela combinação dos especuladores com as agências de rating, iniciou o espectáculo, ameaçando de contágio outros países, entre os quais o nosso.

Mas foi ontem na Televisão que deparei com o impensável: gregos, gregos e mais gregos, protestando nas ruas; greves de protesto em marcha ou em agenda, contra o excesso de austeridade ou contra o unilateralismo dos sacrifícios, ou contra o confisco de um futuro, que não seja de dificuldade e desespero. Contra o governo, por ter tomado medidas que os atingiam. E no mesmo dia , visitando a Grécia um comissário europeu dá ao governo grego a "solidariedade" assassina, um curto prazo cominatório para apertar, ainda mais, o garrote em torno do povo.

Ora, um responsável político europeu que diz isso, nas circunstâncias em que o fez, ou é um sádico perverso ou um puro e simples imbecil. Não me interessa qual das duas hipóteses é a verdadeira, interessa-me alertar para o risco de termos na União Europeia anões políticos desta canhestrice, em lugares de responsabilidade.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Eleições legislativas na Grécia : uma derrota da maioria dos eleitores

O Partido da Nova Democracia (ND) ganhou as eleições legislativas realizadas ontem. Segundo dados provisórios obteve 152 lugares num total de 300, tendo chegado aos 41,9 % dos sufrágios. O partido de extrema-direita LAOS, com 3,79 % dos votos entrou pela primeira vez no parlamento.
O PASOK (Partido Socialista Grego) foi o grande derrotado, recuando relativamente às eleições anteriores que já havia perdido e tendo obtido 38,1% dos votos. Ainda à esquerda, o Partido Comunista da Grécia (KKE) atingiu os 8,14 %; e a Coligação de Esquerda Radical (SIRIZA) chegou aos 5, 03 %.
Tendo-se em conta os partidos que obtiveram lugares no parlamento,verifica-se assim que em termos substanciais só a divisão da esquerda vai permitir á direita governar com maioria absoluta de deputados, embora sem maioria de apoio popular em termos de votos. De facto, os dois partidos de direita juntos obtiveram 44,69% dos sufrágios e os três partidos de esquerda tiveram 51,27 %. Ou seja, a metade vencida venceu por mais do 5% dos votos.
Esta circunstância não quebra a legitimidade do governo da ND, mas deve interpelar os partidos de esquerda, pela sua incapacidade em se entenderem.