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sábado, 29 de setembro de 2018

CAPRICHO ITALIANO?


1. Em meados do corrente mês de setembro, foi divulgada em Itália uma sondagem das intenções de voto dos italianos. Os dois partidos (Movimento Cinco Estrelas e Liga) que estão na base do governo atual, e que em março passado tinham obtido 50,1% dos votos, obtiveram 59,6% das intenções de voto. A Liga (extrema-direita) que tivera 17,4% dos votos tinha agora 30,2% das intenções de voto, enquanto o Mov.5 Estrelas (centro populista) passou de 30,2% dos votos para 29,4% das intenções de voto. Ou seja, a extrema-direita, hoje minoritária no Governo, passaria a força dominante, se estas intenções de voto se confirmassem, escassos meses depois de ser governo.


A Liga concorreu às eleições de março, integrada numa coligação de direita que abrangeu também a Força Itália (de Berlusconi) [14% dos votos] e os Irmãos de Itália (extrema-direita clássica) [4,4%]. Nesta sondagem, a primeira tem 8,7% das intenções de voto e os segundos, 2,7%. Ou seja, a Coligação de direita, que teve em março 35,8% dos votos, passaria a ter 41,6% das intenções de voto. Mas a Liga, em vez de ser um partido ligeiramente mais forte do que o segundo (antes dominante), passaria a ser a força largamente dominante. E embora a Coligação de direita se tenha dividido quanto a este governo, estando uma parte dentro e outra parte fora dele, já foi anunciado que se manteria em próximas eleições.
 
Nas eleições de março passado, o Partido Democrático (PD) [que faz parte do  Partido Socialista Europeu], força dominante do governo anterior, foi o grande derrotado, tendo-se ficado pelos 18,7%. Na sondagem mais recente, que tem vindo a ser comentada , a sua posição quanto a intenções de voto é ainda mais modesta : 17,3%. Dois outros partidos de esquerda, em parte resultantes de cisões do PD, LeU ( Liberi e Uguali) e PP ( Potere al Popolo), tiveram nas eleições de março, respetivamente :3,4% e 1,1%. Na sondagem recente, em intenções de voto, o primeiro teve 2,9% e o segundo 2,2%. Ou seja, a Esquerda que, no seu todo, somou em março uns desastrosos 23,2 %, conseguiu nessa sondagem a proeza de descer ainda mais, chegando aos 22,4%. Mas encarado isoladamente o PD, em vez de recuperar, desceu 1,4%. Mostrou assim a sua impotência para consubstanciar um sobressalto democrática contra  o controverso governo italiano atual  de Conte/ Di Maio/ Salvini.


Panorama insalubre, bem ilustrado pelo protagonismo de Salvini na cena política europeia,como uma das mais ostensivas alavancas do reerguer da extrema-direita. Panorama enegrecido pela divulgação, em conjunto com a sondagem referida, de um gráfico comparativo da avaliação do desempenho do atual governo e dos governos anteriores, liderados pelo PD e encabeçados primeiro  por Renzi e depois por Gentiloni.

Do primeiro são considerados os meses de abril a novembro de 2016, no âmbito dos quais atingiu, quanto a uma valorização positiva, um máximo de 44% em outubro e um mínimo de 39% em abril. Do segundo, é considerado todo o tempo de duração do seu governo, tendo tido a avaliação mínima no seu início em dezembro de 2016, com 38%; e a máxima no seu último mês em fevereiro de 2018, com 45%.O atual governo tem duas avaliações com duas valorizações positivas; uma  de 57% em junho e outra de 62%  em setembro. Fica assim claro o êxito do atual governo italiano em termos de popularidade, a inocuidade cúmplice da direita clássica e a desorientação gritante da esquerda, especialmente grave quanto ao PD. 
 
2. As próximas eleições para o Parlamento Europeu, que vão decorrer em meados de 2019,  perfilam-se no horizonte como auspiciosas para a extrema-direita e como sombrias para a esquerda. E tudo indica que sê-lo-ão tanto mais, para uns e outros, quanto menos a esquerda for capaz de mostrar um caminho novo para os europeus. Um caminho  que possa esvaziar a atmosfera de descontentamento e frustração sociais de que a extrema-direita se tem alimentado. Um caminho que se aproxime realmente dos povos e resista ao garrote do capital financeiro.
 
Na verdade, quer a extrema-direita, quer a direita clássica mais autoritária, vão continuar a explorar a imigração como nuvem de medos irracionais e vão apostar num soberanismo nacional que se apresente como resistência a uma burocracia europeia sem alma que suga os povos. E pouco importa que essa imagem seja de um simplismo primário que a afasta da verdade, se os poderes dominantes na União Europeia continuarem mergulhados na deriva neoliberal, insistindo no veneno de uma decadência injusta  como se estivessem a conduzir a Europa para um doce paraíso. Incapazes de enfrentarem realmente os problemas da União Europeia abrem a porta a todos os desesperos e encorajam todos os atalhos, mesmo aquilo que prometem sejam apenas noites mais negras.
 
Sem prejuízo de todas as esquerdas deverem ser tidas em conta, é na resposta que for dada pelos partidos que integram o Partido Socialistas Europeu que se joga o essencial destas eleições. Eles têm que tornar evidente que vão assumir a representação dos europeus a quem a atual desigualdade social mais penaliza, que estão decididos a percorrer esse caminho duravelmente. Sem ambiguidades ou tergiversações; sem sofreguidões precipitadas mas com urgência. Ou seja, a qualidade da sua resposta  depende da medida em que se libertarem  do colete de forças ideológico- político que os tem constrangido.
 
Esta nova atitude tem que ser evidente. Não pelo facto de ser proclamada, mas como ressonância óbvia das opções programáticas , das medidas propostas e da posição assumida no xadrez político pelos socialistas. Só assim uma ampla parcela do povo de esquerda sentirá como seus os partidos integrados no PSE, apoiando-os.

Do mesmo modo, só assim se criarão condições para um acolhimento digno dos refugiados extra-europeus . Um acolhimento que desse modo será um aspeto de uma politica de promoção da igualdade e da dignidade de todos os cidadãos , sejam eles europeus sejam eles refugiados.
 
Na verdade, ter a ilusão que é possível, sem abrir espaço para a extrema-direita e para a direita xenófoba, receber condignamente os refugiados extra-europeus numa Europa que continua a escavar as suas desigualdades internas e a desrespeitar uma parte significativa dos seus povos é isso mesmo : uma ilusão. Não é esse o único pressuposto relevante para uma política europeia de imigração justa e humanamente saudável, mas é uma condição sine qua non.
 
Na verdade, o atual panorama político italiano pode ensinar-nos muito se o lermos com cuidado e sem preconceitos. Discursos redondos, circunlóquios ideológicos presos na rotina, subordinação à lógica do capital financeiro, longos textos de um europês burocrático, são elementos que podem gerar uma tempestade perfeita.

Hoje, mais do que nunca, a propósito do que está em jogo nas próximas eleições europeias, tem plena atualidade a conhecida frase de Bossuet: " Não há pior desregramento do espírito do que tomar como realidade aquilo que gostaríamos que ela fosse".


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

BRUX(AS)ELAS?


Dizem que Bruxelas disse umas larachas embrulhadas num discurso economicista, destinadas a prejudicar trabalhadores e a beneficiar patrões. Dizem querer assim “esmurdenizar” o tecido económico, apertando um pouco mais o pescoço dos trabalhadores e abarrotando um pouco mais os bolsos cheios de uns poucos.[ Disse um dia o oráculo de Pxistóteles: “Se soubesses o que custa ser rico, quererias toda a vida empobrecer!”]

Mas afinal  quem é Bruxelas? Um nome duma cidade  com que se envolve um grupo de tecnocratas assalariados da União Europeia, cujas credenciais  se ignoram, cuja ideologia política é ocultada, cujas regras de designação são desconhecidas. Um grupo de tecnocratas que não passou por qualquer crivo eleitoral, nem vai um dia responder perante os eleitores, pelo que diga ou não diga, pelo que faça ou não faça. Um grupo de tecnocratas quanto ao qual se desconhece se já foi assalariado de algum poder de facto e se ao lançar para o ar as alarvidades difundidas cedeu ou não a algum lóbi, dos muitos que infetam os corredores europeus.

Esse punhado de tecnoburocratas, incrustado na União Europeia, veio remastigar diretrizes hostis aos trabalhadores que já provaram o seu poder devastador de empregos e de bem estar. Mas uivam  como  como se estivessem a oferecer o paraíso.

E ousou, um grupo ou entidade que não tem qualquer legitimidade democrática, dar alguns conselhos, admoestativos e  idiotas, ao governo português, um governo democraticamente gerado e apoiado  por uma maioria dos  deputados eleitos pelo povo português.

Não sei se a referida direção geral não sei de quê, anichada  na tecnoburocracia da União Europeia, é uma simples coleção de tontos, ainda que de luxo, ou se é uma matilha matreira a quem alguém mandou ladrar  para ver o que acontecia.

No entanto, é bom que no "alto Império" se perceba que com idiotas deste calibre  a passearem-se pelo espaço mediático europeu, os inimigos da União Europeia só podem esfregar as mãos de contentamento. Em suma: Bruxelas ou bruxedo?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O sono da Europa



Em novembro de 2008, concluí um texto, sobre  os socialistas e a Europa, que foi publicado pouco depois. Perante a hipótese de a União Europeia continuar a deixar correr as coisas ao sabor de um inércia tolhida, alertei para os riscos que daí resultavam. Disse:

“Aumentará o risco de se cair num mal-estar social difuso, numa angústia coletiva alheada da esperança, numa atmosfera propícia ao exacerbamento de uma conflitualidade social movida por fatores circunstanciais, assente em preconceitos ou em dinâmicas aleatórias e dissipativas, politicamente estéreis. Ficará assim aberta a porta a todos os fundamentalismos, ao exacerbar dos nacionalismos mais estreitos, às alianças de todos os ressentimentos, às pulsões suicidárias de todos os desesperos. A mais vertiginosa irracionalidade poderá chegar ao cerne de muitos conflitos sociais e políticos, minando os alicerces da democracia e fazendo regredir social e culturalmente a Europa.”


Não me regozijo coma a atualidade deste excerto de um texto escrito há quase uma década.

sábado, 15 de abril de 2017

As eleições presidenciais em França


Nos dias mais recentes adensou-se o dramatismo em torno das eleições presidenciais em França. Já pairava o espectro, ainda que longínquo, de uma vitória da candidata da extrema-direita. A direita clássica mantinha-se sob a espada de Damócles de um desastre eleitoral que a sombra de corrupção que paira sobre o seu candidato tornava provável. Um jovem ex-banqueiro, cooptado por François Hollande para o seu séquito presidencial e depois para o seu governo como vassalo de Valls, talentoso videirinho do nem esquerda nem direita que apunhalou suavemente os seus dois citados benfeitores, parecia correr para uma entronização certa na esteira dos diversos desmoronamentos de certezas que têm ocorrido nesta campanha.O candidato que venceu com nitidez as primárias do Partido Socialista, Benoit Hamon, gorada a tentativa de ser o único candidato relevante à esquerda, passava por uma via sacra de traições de alguns dos seus próprios camaradas. Tendo fugido ao abraço de urso de Hamon,  Melenchon conseguiu reacender o fogo dos insubmissos. Passou ele a ser o urso que abraçava pouco a pouco Hamon, fazendo-o definhar nas sondagens à medida que ele próprio ganhava novas asas.
Eis senão quando nos dias mais recentes, uma combinação de subidas e descidas nas intenções de voto espelhadas nas sondagens colocou praticamente a par quatro candidatos: Marine Le Pen, F.Fillon, E. Macron e J.-L.Melenchon. Qualquer deles, a fazer fé nas sondagens, poderá estar na segunda volta a disputar a vitória a um dos outros.
Este último é um recém-chegado ao pelotão da frente, onde até agora nunca estivera. É o candidato dos insubmissos, líder do Parti de Gauche, aliado do PCF ( que o vai suportando por necessidade), ex-militante e ex-ministro socialista, deputado europeu. Tem a vantagem de estar com uma dinâmica de subida e pode beneficiar de pequenos contributos eleitorais dos candidato da extrema-esquerda que são vários; pode esvaziar ainda mais a candidatura do candidato socialista. Paira , no entanto, sobre ele a recordação do que se passou com ele  em 2012. na última semana da campanha: os 17 % das sondagens passaram a 11% na hora de votar; arrisca-se ainda a que regressem ao candidato socialista os votantes socialistas que privilegiem a solidariedade para com um partido em dificuldades. E não é seguro que o simples facto de ele poder ir à segunda volta não venha a ser um fator que favoreça relativamente qualquer dos  outros candidatos na competição entre si..
Entretanto, parece claro que para além das presidenciais, o que está no horizonte é um forte abalo no sistema político francês, sem haver uma noção clara do que advirá daí. De momento, o PS parece ser quem corre riscos mais profundos e mais dramáticos. Mas se Fillon for derrotado "Les Republicains" ficarão provavelmente em muito mau estado. Se Macron ganhar não é nítido como poderá governar se a paisagem política depois das legislativas de junho não for totalmente  mudada a seu favor. Se a Srª Le Pen vencer ( o que parece improvável) a Vª República francesa provavelmente não sobreviverá.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Europa do Nosso Descontentamento

O poema que reproduzo de seguida foi escrito em setembro de 2015, tendo sido depois  publicado como abertura do nº 22 da revista "Foro das Letras" da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas.

 Resolvi evocá-lo neste blog na ressaca deste início tão deprimente do mais recente episódio britânico. Quando se trata de salvar bancos e sacrificar povos, os amanuenses tristes que dirigem hoje a Europa são decididos e rigorosos. 

Aliás, esta deriva sem norte e sem bússola mostra afinal com clareza  como os  alegados cristãos do partido popular europeu mais não são do que  caniches de luxo da grande finança mundial. 

Mas mostra também uma anemia política grave dos partidos que integram o partido socialista europeu e que parecem conformados com o triste papel de simples ajudantes dos capatazes do capital que acabo de referir. Desgraçadamente, as outras esquerdas, à escala europeia, não se têm mostrado capazes de compensar a anemia que mencionei, parecendo oscilar sem um rumo possível, entre um radicalismo vazio de horizontes e uma promiscuidade arriscada com agendas ancoradas num populismo nivelador e justicialista.

É nesta amargura profunda mas que não baixa os braços que inscrevi o meu poema. Aqui o têm.



Europa do nosso descontentamento

Cansada  do cansaço de não ser
mais do que a sombra do que já não é,
deixa o fado descer nas suas veias
como saudade, angústia, esquecimento.

Europa que foi grão, talvez caminho,
semente de luz no rio das trevas,
nevoeiro de sonhos ou viagem,
glória de si própria interrompida.

Quem são os algarismos que nos cercam
como se  a carne do tempo fossem números?
O que é esta frieza que nos gela,
como se após a noite fossem trevas?

Os braços que se erguiam sem limite,
esculpindo em sofrimento o fio da História,
descem agora como se morressem
no naufrágio de todos os caminhos.

Cansada do cansaço de não ser
a praia onde viviam as sereias,
Europa , deusa que não tem destino,
perdida na saudade de si própria.

Quem são estes fantasmas que nos movem,
como se o tempo já não fosse nosso?
Quem fez estas paredes que nos cercam,
erguidas contra o tempo, sem futuro?

Cansada do cansaço de não ser
a terra onde morria o nevoeiro,
Europa está fechada neste tempo,
como se fosse eterna e não durasse.

Venham as musas todas dos poetas
no combate supremo pelo sonho,
venham as cores de todos os  pintores
para a suprema cor de ser manhã.

Venha o secreto amor das sinfonias,
a dor que rasga o som dos violinos,
o murmurar sem tempo das guitarras,
a música do vento, o som da esperança.

No sossego das ruas indolentes,
 nas praças que perderam o clamor,
nas cidades esquecidas, já sem alma,
nasça de novo a imensidão dos povos.

E no museu das lendas despedidas
deixemos esta Europa sem destino,
deixemos esta cinza de não ser,
este outono que queima devagar.


 Rui Namorado                                            
(setembro de 2015)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Neblina sobre a UCRÂNIA.



No excelente jornal espanhol Público, foi recentemente (18.08.14) difundido um texto sobre o que está a ocorrer na Ucrânia e sobre o modo como o complexo mediático internacional dominante a isso se refere. Merece ser lido. As versões unilaterais sobre o que ali se passa são demasiado primárias para serem verdadeiramente esclarecedoras.
É seu autor Vicenç Navarro que foi Catedrático de Economia Aplicada na Universidade de Barcelona, sendo actualmente Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). É também professor de Políticas Públicas na  John Hopkins University (Baltimore, EEUU) . É um dos investigadores espanhóis mais citados na literatura científica internacional em ciências sociais.

O texto, que se assume como reflexo de um pensamento crítico, intitula-se: “Lo que continúa ocultándose en la cobertura mediática de Ucrania”. Ei-lo:

“Cuando se escriba la historia de lo que está ocurriendo en Ucrania, espero que se documente claramente la enorme manipulación que los medios de mayor difusión en España están realizando sobre lo que está ocurriendo ahora en aquel país. La versión oficial, sin ninguna voz alternativa que la desmienta, es que la población en Ucrania desea la libertad, lo que significa integrarse en la Unión Europea, frente a unas fuerzas pro rusas que están lideradas y manipuladas por el dirigente ruso Vladímir Putin, que desea la escisión de las partes del este y del sur de Ucrania y su integración en Rusia. La guerra que estamos viendo en aquel país se está llevando a cabo también a nivel mediático, ocultando hechos, exagerando otros y mintiendo a mansalva.
A los que sean escépticos respecto a la credibilidad de los medios les aconsejo que, además de leer mis artículos (“Lo que no se está diciendo sobre Ucrania”, Público, 18.03.14; “Lo que no se está diciendo sobre Ucrania. Parte II”, Público, 31.03.14; “Las falsedades de los mayores medios españoles en su cobertura de Ucrania”, Público, 24.04.14), lean la entrevista a Volodymyr Ishchenko (a partir de ahora VI), director de la revista de izquierdas ucraniana Spilne, publicada en el último número (nº 87) de New Left Review (pp. 7-33). La Ucrania que este autor, sociólogo de formación, describe y la que usted conoce a través de los rotativos de mayor difusión no se parecen en nada. Está claro que una de las versiones de Ucrania –la de VI o la de los medios españoles de mayor difusión– no responde a la realidad. La evidencia, fácilmente contrastable, señala claramente que son los mayores medios de información los que han falsificado la situación.
VI indica que Putin es un oligarca ruso carente de sensibilidad democrática. Hasta aquí nada nuevo. Ahora bien, la gran diferencia es que la evidencia existente, mostrada por VI, no avala la postura promovida por los medios de información de que Putin desea integrar a Rusia las partes sur y este de Ucrania. Como VI indica, tal integración le supondría un enorme coste económico a Rusia, y lo que es igualmente importante, no tendría ni las garantías ni la seguridad de que pudiera controlar al movimiento pro ruso que ya existe en estas partes de Ucrania. En realidad, estos movimientos pro rusos están muy inspirados por la experiencia ocurrida en Ucrania durante la II Guerra Mundial. Su memoria y punto de referencia histórico es más la Unión Soviética que Rusia. La memoria histórica viva en esas partes de Ucrania es la que recuerda la lucha de las clases populares, como parte de la Unión Soviética, contra el nazismo, incluyendo el fascismo ucraniano, cuyos herederos están hoy muy bien representadas en el gobierno ucraniano, controlando puestos estratégicos, tanto en el gobierno actual de Ucrania como en el movimiento nacionalista ucraniano y en el movimiento Maidán, que desean hoy la integración de Ucrania en la Unión Europea.
VI señala que los símbolos y la narrativa de la mayoría de movimientos pro rusos del sureste de Ucrania son los del lado soviético durante la II Guerra Mundial. De ahí que VI subraye que lo último que desea Putin es, precisamente, recuperar el proyecto soviético en Rusia. Es más, la notable simpatía que estos movimientos están generando en Rusia está poniendo a Putin en una situación muy incómoda. Putin pagaría un coste político elevado si se presentara como anti movimiento pro ruso en Ucrania (que tiene un importante componente pro soviético). Este movimiento originalmente no era secesionista, pero se está transformando en tal, en respuesta a la postura anti rusa del nacionalismo ucraniano, que ha ido adquiriendo un tono fascista más y más acentuado, con actitudes nazis, alabando y considerándose sucesor de las tropas ucranianas pro nazis que lucharon contra la Unión Soviética. Esta actitud se mostró en su máxima expresión cuando se quemaron vivos a treinta manifestantes pro rusos en el incendio provocado por los pro nazis en el edificio central de los sindicatos donde estaban refugiados tales manifestantes. Tal como ha indicado el Profesor Stephen Cohen, uno de los mayores expertos en temas soviéticos en EEUU, se está reviviendo la II Guerra Mundial en el territorio ucraniano (Stephen F. Cohen “Kiev’s Atrocities and the Silence of the Hawks”, The Nation, 04.08.14).
La enorme influencia de la ultraderecha en el gobierno ucraniano y en la dirección de algunos movimientos anti rusos se debe, en gran parte, a su capacidad organizativa y medios proveídos, en parte, por las oligarquías ucranianas, así como el apoyo recibido del gobierno federal de EEUU y de la Unión Europea. No refleja la opinión del pueblo ucraniano que reside tanto en el este como en el oeste (la mayoría de la población ucraniana no apoya la integración de Ucrania en la OTAN, deseo sí expresado por el gobierno de Ucrania), aun cuando el nacionalismo, sin alcanzar las expresiones pro nazis de la ultraderecha, está extendido entre la mayoría de la población del oeste de Ucrania.
La guerra civil en Ucrania: quién es quién
Es también interesante subrayar que la intervención militar de lo que se llama “ejército ucraniano” es más una intervención de grupos armados próximos a la ultraderecha que no de unidades del ejército ucraniano. El generalato no se fía del comportamiento de los soldados regulares del ejército. Y los grupos armados son grupos altamente ideologizados pertenecientes, en su mayoría, a la órbita de la ultraderecha (tal como ha señalado The New York Times, 10.08.14, p.7). Es un error creer (como así hacen los firmantes del manifiesto de apoyo a los movimientos ucranianos a favor de su integración en la UE, y que incluyen a Ulrich Beck, Claus Offe, Slavoj Zizek o Saskia Sassen, entre otros) que la mayoría de la población del oeste favorable a la integración en la UE son fuerzas progresistas, “cuya integración en la UE contribuirá a hacer tal unión más justa” (ver el manifiesto “Support Ukrainians and they can help us build a fairer Europe”, The Guardian, enero 2014). En realidad, estos movimientos apoyan un Estado jacobino que prohibió el ruso como lengua oficial ucraniana (su visión del Estado es parecida a la de los jacobinos españoles) y favorecen las políticas neoliberales impuestas por la Troika (el Fondo Monetario Internacional, la Comisión Europea y el Banco Central Europeo), como hacen las derechas en España. En cuanto a las fuerzas pro rusas, que en sus inicios eran más federalistas que secesionistas, son milicias armadas, en su mayoría de origen civil, que tienen también el apoyo de ciudadanos rusos pertenecientes en su mayoría a movimientos nacionalistas rusos, así como de otros países que se identifican con su causa. Su programa, por cierto, no es un programa de nacionalización de los principales medios de producción (con notables excepciones), con escasa incidencia en las coordenadas de poder existentes en estas partes de Ucrania.
Las supuestas elecciones democráticas en Ucrania
Las elecciones a Presidente de Ucrania, presentadas como necesarias para recuperar la credibilidad democrática del Estado, registraron la mayor abstención que se haya producido en Ucrania después del colapso de la Unión Soviética. El ganador fue el Sr. Petro Poroshenko, un billonario (la sexta persona más rica de Ucrania, según Forbes) que controla algunos de los medios de información más importantes del oeste de Ucrania. La gran mayoría de la población del este y sur de Ucrania se abstuvo en las elecciones, habiendo indicado que su abstención se debía a causas políticas: su distanciamiento con el resto de Ucrania. En realidad, el movimiento Maidán, que inició las movilizaciones en las plazas del oeste de Ucrania, son, sobre todo, clases medias y estudiantes que, como subraya VI, han idealizado a la UE, deseando entrar en ella, incluso a costa de las enormes medidas de austeridad que la UE y el Fondo Monetario Internacional están poniendo como condición para la integración de Ucrania en la UE. El movimiento Maidán no son los “indignados” de Ucrania, como erróneamente han presentado y descrito los medios españoles. Sus propuestas son de claro tinte neoliberal, y entran en conflicto con los deseos de las clases populares. Tales propuestas económicas, sin embargo, no tienen gran visibilidad mediática, enfatizándose más su nacionalismo que su neoliberalismo. En realidad, la revuelta del este y sur de Ucrania es no solo una protesta frente al nacionalismo ucraniano ultraderechista, sino también una protesta frente a su neoliberalismo. Uno de los lugares donde esta protesta ha sido mayor es la región de Donetsk, redefinida por lo pro rusos como la República Popular de Donetsk. Ahora bien, tampoco hay que idealizar a las fuerzas pro rusas, algunas de las cuales incluyen nacionalistas rusos próximos a la Iglesia Ortodoxa rusa que desean prohibir el aborto en la nueva república. En este contexto, la influencia extranjera, en ambos lados, complica la situación enormemente, creando las bases para una nueva Guerra Fría que puede convertirse en caliente en caso de que no haya un movimiento internacional de protesta.”


quinta-feira, 19 de junho de 2014

COLÓQUIO NO DIA 21 DE JUNHO



Que Europa depois das eleições ?  


No passado dia 23 de Maio, portanto antes das eleições europeias, divulgámos publicamente a marcação de um colóquio promovido pelo Clube Manifesto para uma Renovação Socialista, para o próximo dia 21 de junho (sábado) com início às 15 horas , em Coimbra, na Casa Municipal da Cultura (Sala Sá de Miranda).

Vamos contribuir para uma reflexão sobre a Europa depois das eleições do passado dia 25 de maio. Que Europa depois das eleições ?  ── eis a interrogação que a todos se coloca e cuja resposta estará em debate.

O Colóquio constará de três intervenções e de um debate aberto a todos os presentes. Será moderado por um dos membros do Clube, Luís Marinho. Duas das intervenções serão feitas por convidados, Joaquim Feio, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Pedro Nuno Santos, vice-presidente da direção do Grupo Parlamentar do PS e Presidente da Federação de Aveiro do PS. A outra intervenção estará a cargo de outro membro do Clube, Rui Namorado.


Este colóquio é aberto a todos os cidadãos interessados, esperando-se que mereça uma  particular atenção dos militantes  e simpatizantes do PS.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Barroso intoxicado pelo gás russo.


O árbitro Barroso, resquício presidencial na União Europeia, está muito preocupado pelo facto da Rússia e da Ucrânia não terem chegado  a acordo quanto à questão do fornecimento do gás, o que levou ao corte do seu  abastecimento através da Ucrânia. Os senhores juízes de Bruxelas deram-se até ao trabalho de fazerem  uma proposta com a qual a Ucrânia concordou, mas a intransigente Rússia não. Desagradável...

O garçon Barroso, há muito celebrizado por ter servido um café aos senhores da guerra que foram aos Açores decidir invadir o Iraque, o que como se sabe abriu uma era de democracia e prosperidade para o povo iraquiano que ainda hoje dura, perdeu aquela desenvoltura com que nos últimos três anos sublinhou ao devedor Portugal o imperativo de pagar o que deve aos generosos credores internacionais. Neste caso ficou bem longe de tratar a Ucrânia com a simplicidade com que tem tratado o país onde nasceu. Nunca por nunca traduziu a questão dos pagamentos das dívidas da Ucrânia á Rússia no seu habitual : “és devedora paga”. Foi mais subtil. Propôs generosamente dilações e facilidades. Inesperada transigência de um tão feroz amigo dos credores !

Mas eu até compreenderia que o  referido resquício da sua própria presidência, embebido pela civilidade dos europeus do centro-norte, tenha moderado a sua energia como rafeiro de credores. Já me parece mais estranho que , quem se instituiu antes como uma ultra-ucraniano, em cruzada contra os bárbaros russo-asiáticos, sonhe sequer  poder servir de árbitro numa contenda ou numa querela na qual verdadeiramente é um relevante protagonista. Pensar que aqueles que  tratarmos como inimigos nos possam vir a aceitar como árbitros, em episódios da contenda em que nos envolvemos contra eles, tresanda a imbecilidade.

Fico na dúvida sobre se  estes cromos graves, plenos de empáfia e autoimportância, que ocupam os altos gabinetes da União Europeia são realmente, como parecem, uns idiotas chapados, ou se julgam que são “inteligências puras” ( como dizem na novela brasileira) e que estão rodeados por legiões de inocentes.

A parte trágica desta anedota é que os alegados cromos têm poder, dinheiro e armas, dispondo de um potencial que zelosamente  utilizam para estragar a vida a muitos milhões de pessoas. 

domingo, 15 de junho de 2014

Dar a Palavra ao Alberto Martins


As emoções, os sonhos, a fé, a ambição desinteressada pelas vitórias são motores relevantes da cidadania e da acção política. São muitas vezes componentes relevantes da decisão final de cada eleitor. Mas não são suficientes para alicerçar uma política, principalmente, quando estamos a falar na acção política de um partido que tem como matriz essencial da sua identidade histórica inscrever como seu horizonte uma sociedade outra, diferente deste pesadelo neoliberal que é hoje o rosto dominante do capitalismo.
Não me refiro a um pensamento mágico que nos trouxesse o paraíso no dia seguinte ao de uma vitória eleitoral. Refiro-me ao imperativo de sermos o motor de uma metamorfose societária que nos conduza, ao longo de um trajecto difícil, para uma sociedade, livre, justa, solidária. Refiro-me a um combate verdadeiro pela igualdade, contra as desigualdades que fabricam a miséria, a fome , a exclusão para milhões de seres humanos.
Compreende-se assim que muito haja ainda para ser discutido na campanha que está em curso no PS para decidir quem vai ser o rosto que o representará na próxima pugna eleitoral. Acho pois importante que se leia o que abaixo vou transcrever.

Vou reproduzir uma entrevista feita ao Alberto Martins, conduzida pela jornalista Ana Sá Lopes,  publicada ontem no jornal I. Merece ser lida e meditada. Falando-nos do PS, fala-nos da conjuntura nacional e europeia. Mostra pela prática que a política não é um folclore mediático, um concurso de popularidade  entre candidatos a ganhar um campeonato imaginário. Deverá ser, pelo contrário, para um partido como o nosso, uma resistência tenaz  à injustiça do capitalismo predatório que nos sufoca e a todas as manifestações sociais, culturais e políticas através das quais ele se manifesta.

No Jornal é dado grande destaque a uma das afirmações feitas pelo entrevistado:"O PS deve excluir o bloco central e coligar-se à esquerda se não tiver maioria". Para além do que significa em si própria, esta frase reflecte o tom da entrevista. O entrevistado diz com clareza o que pensa, bem longe da tão difundida estratégia de se esconder o que se pensa por detrás do que se diz.

Dito isto, é tempo de dar a palavra ao Alberto Martins.
***   ***   ***

Eduardo Martins

Os socialistas erraram quando misturaram política, negócios e alta finança. Para Alberto Martins, isso tem que mudar
Na quinta-feira, o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, foi confrontado com um abaixo-assinado da maioria dos seus deputados - e vice-presidentes - a defender as directas e um congresso extraordinário. O ex-ministro da Justiça, que faz parte da direcção do PS desde que António José Seguro está na liderança do partido, mantém-se ao lado do secretário- -geral. Nesta entrevista ao i faz uma crítica cerrada à actual política europeia, afirma que os tratados - incluindo o orçamental - são "passíveis de negociação". Os socialistas europeus têm de mudar para voltar a conquistar o eleitorado: abrir-se aos cidadãos, separar a política dos negócios, lutar contra a corrupção e as offshores. As propostas de Seguro, afirma, vão nesse sentido. Acredita que as primárias podem ser uma "experiência irreversível".


Foi confrontado com um abaixo-assinado de grande parte do seu grupo parlamentar e da direcção de bancada a defender o congresso extraordinário e directas. Como se sentiu?
Considero que é uma expressão política natural, sendo certo que há já uma decisão em sentido contrário, da realização de primárias para a escolha do candidato a primeiro-ministro, a 28 de Setembro. Quer a Comissão Nacional quer a comissão política nacional já deliberaram que haverá primárias para a escolha do candidato a primeiro-ministro, por isso a sugestão dos meus colegas de bancada, no meu entender, não tem sustentação estatutária.
A imagem que dá é que o PS está todo partido...
Eu tenho um conceito de liderança que é de partilha e responsabilidade. Nós somos a frente parlamentar do partido, por isso, desde o início, integrei na direcção o conjunto das sensibilidades e diversidades existentes no grupo. Estou convicto que o sentido da responsabilidade e a maturidade, a defesa do partido e da afirmação dos socialistas, nestes momentos que são sempre muito difíceis e delicados e que eu já vivi em vários tempos, devem ser vencidos com grande sentido de responsabilidade. Estou convicto de que isto vai acontecer, independentemente da diversidade de opiniões que exista entre nós.
Está a pedir mais responsabilidade aos deputados que estão contra a liderança?
Não, não estou a pedir mais responsabilidade. Eu confio no sentido de responsabilidade de todos os deputados, independentemente das suas posições, estejam com António José Seguro, estejam com António Costa. O partido está acima das pessoas, dos líderes. O partido é um conjunto de valores, de projectos, são referências. Acho que vamos estar todos à altura dessa responsabilidade.
Mas não desconhece que a imagem que passa para fora é de uma bancada que neste momento parece os Balcãs...
Creio que, no essencial, no combate à política do governo de direita, no combate às soluções de austeridade, de empobrecimento do país, de desemprego, de degradação social, a bancada e o PS estão muito unidos. Estes momentos de disputa interna são delicados e difíceis. O debate eleitoral tem alguma emergência e importância e não podemos recusá-lo - faz parte da própria democracia do partido. Tem momentos de maior dificuldade, maior atrito, maior conflitualidade, mas é uma exigência de todos nós - e estou convencido que vamos todos fazê-lo - privilegiar o que é essencial em detrimento do que é secundário.
Mas não é difícil aguentar esta situação até 28 de Setembro? Não é tempo de mais para o partido ficar com uma liderança fragilizada, uma vez que vai haver uma disputa interna?
Não se podem abreviar os tempos políticos com pressas que não correspondem às necessidade que temos. Foi colocada na ordem do dia a realização de primárias, um acto de grande coragem política para a alteração do sistema político em Portugal. As últimas eleições europeias obrigam-nos a tirar consequências a diversos níveis. Há uma condenação óbvia das políticas austeritárias, da desigualdade, da pobreza, do desemprego. Mas há também uma condenação do modelo europeu, há uma condenação do domínio dos mercados financeiros sobre os estados, há uma desconfiança dos cidadãos perante os sistemas partidários, há um agravamento das desigualdades sociais. Os sistemas partidários têm de perceber que há um desapego dos cidadãos face a esses sistemas. No caso dos partidos que têm sustentado os sistemas de governos na Europa houve uma diminuição brutal da sua base de apoio. Isso foi verdade em Itália, Espanha e Portugal.
Portanto, não acha que os 31% que o PS teve nas europeias se devam à liderança de António José Seguro, como sustentam muitos seus camaradas?
Nós tivemos um grande resultado, comparando em termos europeus. Naturalmente, gostaríamos de ter um resultado maior, portanto há uma interpelação aos sistemas partidários, a necessidade de mudarmos a regulação e a organização da Europa, a organização da nossa democracia, o funcionamento e a abertura da democracia aos cidadãos, a começar pelo funcionamento e pela abertura dos partidos. Na iniciativa que tomou, António José Seguro entendeu e deu um primeiro passo, que é um primeiro passo no processo de renovação e reinvenção da política partidária em Portugal e não só. Alguns destes passos já foram dados em Itália e na França. Espanha está também agora neste caminho. O povo socialista vai passar a escolher! Devo dizer que votaram nas últimas europeias mais de um milhão de portugueses no Partido Socialista. O PS tem à volta de 90 mil militantes. Se nós duplicarmos ou triplicarmos aqueles que vão escolher o candidato a primeiro-ministro é um passo brutal numa revolução política na vida dos partidos, que nós estamos a dar! As primárias são muito exigentes - não são só os militantes, é uma malha alargada de pessoas que subscrevam uma declaração de princípios consonantes com os grandes objectivos do partido que podem votar. Se triunfar, é uma experiência irreversível na democracia portuguesa.
As primárias não estão nos estatutos. Há quem as critique, afirmando que podem ser impugnadas a qualquer momento. Também há quem diga que as candidaturas em disputa se podem entreter a arrebanhar simpatizantes...
No meu entender, há credencial estatutária e constitucional para a realização de primárias para a designação do candidato a primeiro-ministro. Para mim esse problema não existe.
Mas não estão nos estatutos.
Há credencial estatutária que permite que as consultas para cargos exteriores ao partido sejam feitas na base de simpatizantes. Quando o Presidente da República pergunta ao líder do partido mais votado quem indica para o cargo de primeiro-ministro, ele indica na base da indicação que lhe foi dada pelo eleitorado que consultou. Isso não é problema que exista, a meu ver. Os problemas da democracia resolvem-se com mais democracia. Não é por acaso que outros países estão a ir neste sentido. Não nos podemos esquecer que estamos a viver a maior crise em termos de política e valores desde que vivemos em liberdade...
Mas como é que os socialistas não conseguem capitalizar essa crise de valores, a vários níveis?
É uma interrogação que se apresenta aos socialistas em Portugal e em toda a Europa. O Partido Socialista português é o 4.o partido, em termos de votação, na Europa. Aquilo que se nos é apresentado é de uma grande exigência a todos os níveis. Em Portugal temos o problema da dívida, da dependência face à Europa, da construção europeia e do modelo de desenvolvimento, de crescimento e de emprego, em que estamos a viver. Ou nós entendemos, definitivamente, e temos força para isso, que a Europa só faz sentido como um processo de solidariedade entre estados, povos e cidadãos, ou o caminho que estamos a atravessar não é aceitável. Não pode haver uma distância entre países ricos e países pobres, entre países do Norte e do Sul, entre países do excedente e países do défice. A Europa está a ser conduzida por uma burocracia executiva, dependente da especulação financeira, que se sobrepõe aos estados. Esta Europa não é a Europa que nos serve.
Os socialistas europeus até agora não conseguiram responder a isso. Aliás, são co-responsáveis.
É um desafio que enfrentamos. Se há uma crítica que podemos fazer aos socialistas em geral é que a esquerda socialista na Europa, durante muito tempo, foi demasiado complacente com os interesses financeiros globais - e com o discurso tecnocrático da União Europeia a partir de Maastricht - e foi complacente com os grandes grupos empresariais. Pagámos um preço elevado por não termos combatido de forma consistente as desigualdades. Os estados não se impuseram aos mercados e isto gerou uma situação de desconfiança dos cidadãos. E estamos nesta situação. Há erros significativos dos socialistas e dos sociais- -democratas da Europa. E temos de dar a volta a isto. Tem que haver uma reinvenção da política na lógica do combate às desigualdades, de uma Europa de solidariedade, crescimento e emprego.
Mas como é que se dá a volta a isto? A direita europeia perdeu muitos votos, mas mantém-se maioritária. Subiu imenso a extrema-direita...
A volta dá-se com a força das ideias, a força das opções políticas e a força da unidade das opções de solidariedade. Os socialistas e sociais-democratas na Europa têm de se organizar para se imporem ao domínio dos mercados financeiros, recusarem o seu domínio sobre os estados, para combaterem de forma dura a promiscuidade entre a política e os negócios, para criarem condições para maior confiança no sistema político. Em Portugal, o PS está a dar estes pequenos passos para uma maior confiança no sistema político... Vemos casos gritantes de promiscuidade entre política e negócios, que é permanente e escandalosa a nível da Europa - veja-se a Goldman Sachs, o que se está a passar com as privatizações, o papel da especulação financeira. E depois há os que pagam impostos - que são normalmente os mais pobres e as classes médias - enquanto os paraísos fiscais são o Eldorado da fuga ao fisco, da fraude e até da corrupção. Há uma nova geografia de ideias que tem que ser posta em prática pelos socialistas da Europa.
A promiscuidade entre política e negócios é em Portugal uma evidência e não me lembro de os socialistas fazerem um grande combate a isso...
Os socialistas têm feito um combate que tem de ser sempre aprofundado. Temos apresentado muitas propostas relativamente a transparência e corrupção. Apresentámos um conjunto de propostas de acompanhamento das privatizações. Mas vamos acentuar um conjunto de medidas de incompatibilidades entre certas funções que se exercem e os lugares para onde se transita no fim dessas funções. O que aconteceu com as privatizações e o conjunto de personalidades que passaram da negociações directa do processo em nome do Estado para as empresas que foram privatizadas é inaceitável. Mas é preciso também mais meios e capacidades de investigação em tudo o que tem a ver com branqueamento de capitais, tráfico de influências, para que a promiscuidade entre a política e os negócios seja erradicada e combatida. Há, no entanto, uma questão que não quero deixar de salientar: a zona central da corrupção entre política e negócios são os paraísos fiscais e os offshores. O combate aos off-shores é absolutamente decisivo.
Porque é que apoia António José Seguro e porque é que António José Seguro é melhor que António Costa para levar o PS às legislativas?
Apoio o secretário-geral que está no exercício legítimo das suas funções, que tem um programa que foi sufragado pelo partido e que é capaz de conduzir o Partido Socialista à vitória nas próximas eleições. O apoio a António José Seguro é um apoio natural de quem integra a sua direcção e está com um processo continuado, há três anos, de procura do crescimento do partido para constituirmos uma alternativa de governo. O conjunto de medidas que já aflorei - redesenhar a política portuguesa na Europa, a renegociação da dívida, um redesenho da Europa, uma política de crescimento e emprego, uma nova industrialização, apostar na inteligência portuguesa, na inovação tecnológica, na recuperação da indústria tradicional... Há aqui uma política de combate às desigualdades sociais, uma política de crescimento e emprego que esta direcção política está a conduzir e tem todas as condições para prosseguir.
Mas não está a ser muito eficaz. Nas sondagens que têm sido feitas sobre quem seria o melhor candidato a primeiro-ministro do PS, António Costa ganha por esmagadora maioria.
Eu movo-me por objectivos programáticos e penso que esses objectivos nos vão conduzir à vitória. Entendo que o Partido Socialista está em condições de lutar por uma vitória na base destas linhas programáticas. Devemos lutar pela obtenção de uma maioria absoluta. O PS não deverá fazer coligações pré-eleitorais com nenhum outro partido. O Partido Socialista não deverá fazer qualquer coligação com os partidos que suportaram o actual governo, que é responsável por uma política de austeridade e de empobrecimento, numa lógica neoliberal.
Está a excluir o bloco central?
Estou a excluir o bloco central. Se não tiver maioria absoluta, o PS deve estar disponível para formar governo procurando coligar-se com os outros partidos de esquerda ou estabelecendo acordos de incidência parlamentar.
Mas isso é possível, tendo em conta as grandes divergências, nomeadamente em política europeia?
É um processo em construção. Há matérias em que há consonância, nomeadamente em tudo o que seja a preservação das funções sociais do Estado, saúde, educação, protecção social e até cultura. Aqui há convergência à esquerda. É verdade que o Partido Socialista é um partido com responsabilidades na construção da Europa, mas a Europa que existe hoje, a de um directório mais obediente à especulação financeira do que à solidariedade entre os Estados, é uma Europa que não tem tino.
Como é que tendo assinado o tratado orçamental o PS pode escapar do destino de governar mantendo a austeridade por 20 anos?
O tratado orçamental é um enquadramento jurídico e político relativamente aberto e possível de negociação. É um plano de contas públicas rigorosas e certas e combate ao défice e à dívida. Não é algo que esteja cristalizado num processo que ponha em causa a consolidação da economia e o crescimento e é susceptível de ser negociável. Esta ideia de vermos os tratados europeus como tratados fechados e pensarmos que a construção europeia tem que ser feita com base no desenho actual que existe na Europa é absolutamente contrário a tudo o que é necessário fazer. Naturalmente, que há que rediscutir todo o processo...
Isso significa pôr em causa o tratado orçamental?
Significa pôr em causa a forma de construção da União Europeia tal como ela está a ser feita! A lógica da solidariedade tem que se sobrepor na União europeia. Há que aprofundar os tratados, rediscutir a União Europeia num quadro de solidariedade. Há uma Europa que é preciso reconstruir, a própria lógica dos tratados e o redesenho do modelo europeu. E a renegociação da dívida, dos juros, das maturidades.
Estamos a falar da reestruturação da dívida.
Da renegociação da dívida.
Por que é que a direcção do PS não diz reestruturação?
Só para evitar a confusão com perdão da dívida. Nós entendemos que não devemos colocar a questão do perdão da dívida. O termo renegociação evita essa questão. Mas isso tem que se colocar: o pagamento dos juros, o tempo de pagamento, a sustentabilidade da dívida é um problema europeu. O acréscimo da dívida acima dos 60% já abrange um conjunto elevado de países europeus.
O senhor sempre foi da ala esquerda do PS e apoia António José Seguro. Há outros membros da ala esquerda que apoiam António Costa. António Costa é mais à esquerda ou mais à direita que António José Seguro?
Não me quero posicionar em termos desse debate. O PS é um partido de esquerda, um partido de centro-esquerda, e os valores fundamentais do PS são os da solidariedade. Mas hoje, na maior crise da democracia portuguesa em termos de valores, os grandes problemas que se colocam são os da liberdade e dignidade. O nome mais dramático para solidariedade chama-se dignidade. Quando temos estes milhões de pobres, milhares de pessoas no desemprego, milhares de jovens obrigados a emigrar, um país que vive cada vez pior com uma desesperança grande, o valor da dignidade é de uma relevância brutal. Liberdade e dignidade são agora bandeiras gritantes dos socialistas para construirmos uma nova Europa e um novo país. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril.
Há uma semana, o secretário nacional Álvaro Beleza dizia ao i que a candidatura de António Costa representava muito daquilo que foi José Sócrates.
Eu não quero entrar num debate que não seja o debate das ideias e dos valores, que é o fundamental para o Partido Socialista. Só teremos futuro como partido se formos o partido das ideias e dos valores. A crise dos valores é dramática em Portugal. Vale a pena lutarmos por valores e é uma batalha para o futuro. Às vezes pergunto-me: o que é que eu quero deixar aos meus filhos e aos meus netos? É que eles possam olhar para nós e possam dizer: "Aquele lutou pela liberdade e tem as mãos limpas".
Lembra-se bem de outros períodos de guerra fratricida dentro do PS como o que estamos a assistir neste momento. Em 1991 estava com António Costa no apoio à liderança de Jorge Sampaio quando Sampaio perdeu as legislativas e Guterres quis derrubá-lo. O que é aprendeu nesse tempo?
Na altura, era do secretariado de Jorge Sampaio com António Guterres, António Costa e outros e era vice-presidente do grupo parlamentar de António Guterres. Foi um período muito duro, de grande crispação, de grandes ataques políticos internos. Foi um período difícil. Alguns de nós lembram-se vivamente desse período muito duro e difícil. O que devemos aprender é que o partido e os valores estão acima das lutas internas. Nas lutas internas há por vezes a tentação de ultrapassar os limites do que é razoável. Espero que essas lutas do passado nos dêem experiência - a muitos de nós dão, seguramente - para poder com maturidade e sentido de responsabilidade ajudar a perceber que no dia seguinte continuamos todos socialistas, a defender um projecto que não é para nós, nem para o nosso partido. É o que é melhor para o povo português.
Há socialistas a pedir todos os dias directas. Isso não vai acontecer?
O secretário-geral é eleito directamente pelos militantes, por mandato temporal predeterminado. É estruturalmente impossível ser demitido por qualquer dos órgãos do partido, pois nenhum órgão nacional (nem o próprio congresso) tem entre as suas competências o poder demitir o secretário-geral. Só este por decisão pessoal e livre pode demitir-se. Os congressos extraordinários não são electivos, pelo que a capacidade eleitoral activa dos congressos quanto a órgãos nacionais, que lhes é atribuída estatutariamente, não pode ser exercida no caso de um congresso nacional ser extraordinário. É à Comissão Nacional de Jurisdição do PS que cabe dar parecer sobre a interpretação das exposições estatutárias.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Que Europa depois das eleições ?


 Colóquio do Clube Manifesto

              
 Que Europa depois das eleições ?  




No próximo dia 21 de junho (sábado) com início às 15 horas , vai ter lugar em Coimbra, um colóquio promovido pelo Clube Manifesto para uma Renovação Socialista, que procurará contribuir para uma reflexão sobre a Europa depois das eleições do próximo dia 25 de maio.
Que Europa depois das eleições ?  ── eis a interrogação que a todos se coloca e cuja resposta estará em debate.

O Colóquio constará de três intervenções e de um debate aberto a todos os presentes. Será moderado por um dos membros do Clube, Luís Marinho. Duas das intervenções serão feitas por convidados, Joaquim Feio, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Pedro Nuno Santos, vice-presidente da direção do Grupo Parlamentar do PS e Presidente da Federação de Aveiro do PS. A outra intervenção estará a cargo de outro membro do Clube, Rui Namorado.

Este colóquio é aberto a todos os cidadãos interessados, esperando-se que mereça uma  particular atenção dos militantes do PS. Vem na sequência  de um outro que o Clube Manifesto  promoveu em 1  fevereiro passado, o qual se desdobrou em três sessões e contou com intervenções de A. Casimiro Ferreira, Carlos Silva, José Medeiros Ferreira, Luís Marinho, Maria de Belém Roseira e Rui Namorado Moderaram as sessões: Jorge Strecht Ribeiro, Manuel Ferreira e Nuno Filipe

O colóquio de fevereiro foi um momento relevante no processo de elaboração de um documento político, entregue ao Secretário do PS e publicamente divulgado, subscrito por vinte e nove militantes do PS: “A  Europa  e as próximas eleições europeias ─ procurar um  horizonte  para não cair numa miragem.”
Deste documento, no qual foi salientada a relevância política das próximas eleições europeia, transcrevemos a sua terceira parte:
“Tudo isto, torna particularmente importante que os socialistas portugueses e europeus assumam o seu próprio caminho para uma  renovação do projeto europeu. Desde logo, através de uma fusão crescente com as aspirações dos trabalhadores, dos excluídos  e dos jovens europeus  tão expressivamente manifestadas nos últimos anos nas ruas de tantas cidades europeias.

Para isso, o PS tem que sublinhar a sua identificação, plena e sem ambiguidades,  com  algumas linhas de orientação política. Sem excluir outras, mas destacando a importância destas , o PS tem que ser fiel às seguintes :

3.1.Defender uma Europa radicada na igualdade entre os Estados, no protagonismo democrático dos cidadãos e numa participação solidária na comunidade mundial.
3.2.Reverter o processo de desvalorização do trabalho em face do capital, iniciando um processo de aumento continuado da parte do rendimento nacional remuneradora do primeiro, rumo a uma sociedade impregnada pela dignificação e humanização dos trabalhadores e das suas organizações. Neste contexto, impõe-se desde já estimular o emprego, combater a precariedade laboral  e assegurar o pagamento atempado aos trabalhadores.
3.3.Subordinar o poder económico ao poder político, de modo a assegurar o controle democrático do capital financeiro e das instituições que o consubstanciam, bem como a garantir um combate efetivo à criminalidade económica.
3.4.Mobilização geral e sistemática dos poderes públicos, em todos os seus níveis, no apoio às organizações que constituem a economia social, encarada como simbiose entre a utilidade social imediata e um potencial  futurante, como instância de transformação social que, em sinergia com os poderes públicos, antecipa e procura um novo tipo de sociedade.
3.5.Promover a educação pública como dever fundamental do Estado e direito fundamental dos cidadãos, encarando-a como um processo de transformação das pessoas através do conhecimento e dos saberes, como lugar por excelência de integração social, cultural e cívica, como espinha dorsal da República  e da identidade cultural dos povos. Ou seja, recusa inequívoca  da mercantilização do ensino e da transmissão do saber.
3.6.Promover um serviço público de saúde universal como condição para o conseguimento do máximo de bem-estar das pessoas. Ou seja, recusa inequívoca da mercantilização da prestação dos cuidados de saúde, assente na garantia de um direito universal à saúde , materializado pelo  protagonismo público na prestação desse serviço.
3.7.Garantia da perenidade e reforço  de um sistema público de proteção social  e do seu funcionamento justo, pautado pelo respeito  pelos direitos humanos , pela legalidade democrática e pela defesa irredutível dos direitos dos reformados, encarando-os como equivalentes a direitos de propriedade, respeitando por completo o montante e a natureza das pensões já atribuídas, tal como tenham sido legalmente reconhecidas, ao longo de toda a vida contributiva.”

A Europa depois das eleições vai traduzir-se num feixe de novos problemas que provavelmente virão complicar ainda mais os que já existem. Em Portugal, uma derrota da coligação governamental, consubstanciada na obtenção de um número de deputados eleitos menor do que o que for eleito pelo conjunto das oposições, poderá acelerar o processo político. E acelerá-lo tanto mais quanto maior for a dimensão dessa derrota. Uma derrota que será tanto mais relevante e contundente quanto melhor for o resultado do Partido Socialista, único partido que tem dimensão eleitoral e política para gerar uma alternativa política ao atual governo.

            Pela Coordenadora do Clube Manifesto para uma Renovação

                                                          Rui Namorado