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sexta-feira, 6 de junho de 2008

O perfume do abismo


As opiniões sobre a política do governo socialista são diversas, indo do amor cego ao ódio cego, com uma vasta zona intermédia variegada e complexa.

As opiniões sobre a estratégia da CGTP, onde assume um relevo incontornável a recente manifestação dos 200 mil, são diversas, indo do amor cego ao ódio cego, com uma vasta zona intermédia variegada e complexa.

O amor e o ódio, em política, não são bons conselheiros, especialmente, quando são necessárias opções estratégicas e comportamentos tácticos que, para atingirem o máximo de eficácia, têm que ser simultaneamente firmes e subtis. Sem firmeza, a subtileza pode descambar em oportunismo; sem subtileza, a firmeza pode converter-se em burrice.

Se o amor e o ódio forem tão fortes que tornem metaforicamente apropriado qualificá-los como cegos, tudo isso se agrava.

E, no entanto, por entre o jardim simbólico dos sentimentos, o peso dos factos políticos centrais da conjuntura impõe inexoravelmente a sua presença.

Estiveram na rua duzentos mil trabalhadores organizados, manifestando uma forte desconfiança quanto à política do governo socialista; entre crispados e desesperados, futuramente mais disponíveis para considerarem que tudo o que vem do Governo é mau, do que para serem justos perante qualquer possível nova medida positiva que seja tomada. E, principalmente, com grandes potencialidades para servirem de rastilho a incêndios mais vastos.

Suponhamos que essa crispação se agrava e se estende, contribuindo para acidentes políticos que conduzam a uma derrota do PS nas próximas eleições. Que governo se formará a seguir ? Um governo que una no mesmo conjunto os partidos que nas eleições tenham exprimido os duzentos mil que estiveram na rua e o PS, acabado de ser derrotado por esses partidos ? Muito improvável, para não dizer impossível.

Se não for esse o governo qual será? Um governo de direita? É a única hipótese, se excluirmos uma coligação da direita com o PS, que sendo improvável, se fosse consumada sempre se traduziria num governo mais desfavorável aos duzentos mil do que o governo actual.

Ou seja, se a crispação actual se acirrar e conduzir a níveis mais amplos e mais fundos de ruptura entre o PS e uma parte da sua base eleitoral de apoio, o cenário mais provável é o de uma derrota do PS nas próximas eleições legislativas e o emergir de um governo que esteja mais longe das aspirações e dos interesses dos duzentos mil do que o governo actual.

Por isso, o que corre o risco de estar em marcha não é apenas um rolo compressor que vá esmagar os sonhos de nova vitória do PS, é um rolo compressor que, além disso, esmagará ainda mais os interesses e as aspirações dos duzentos mil.

Como ficarão os socialistas perante uma liderança que os tenha conduzido a uma derrota em benefício do que de mais retrógrado há no nosso país? Como ficarão os duzentos mil, quando virem que a sua “vitória” frutificou em resultados amargos e numa angústia ainda mais funda ?

A pergunta está escrita nos factos: Se a acrimónia actual parece ser suicida para o governo e para os interesse de uma boa parte dos trabalhadores organizados, porque não procuram negociar, entre si ?
Negociar, não a pequena mercearia do deve e haver quotidianos, mas um verdadeira pacto estratégico. Negociar: isto é, nem uns nem outros conseguirem uma vitória completa, mas talvez ambos ganhando com as cedências em que tenham a inteligência de consentir.
Ou então, há um forte risco que desta pugna saiam ambos derrotados , deixando o país entregue à gula sem limites dos interesse particulares, à girândola predatória dos senhores do dinheiro.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cesteiro que faz um cesto...



A desproporção entre o que ocorreu no já célebre episódio da Covilhã (mesmo que se aceite como certa a versão dos sindicatos e não a dos inquiridores) e o ruído público e mediático que persiste, é tão grande, que só pode compreender-se se tiver uma outra razão que a explique.

O meu vaticínio é o de que, dentro de alguns anos, quando, de entre os actuais expoentes do sector sindical do PCP, algum deles passar a percorrer novos territórios políticos, ser-nos-á revelado que todo este exuberante excesso de reacção foi afinal o instrumento possível, para crispar ao máximo o clima público, na esperança de assim se potenciar a captação de manifestantes, para a próxima grande jornada nacional de protesto.

Sem enveredar por comentários de natureza ética, de um ponto de vista apenas político, ainda que, parecendo por vezes imediatamente rentável, a instrumentalização política das lutas sindicais, a médio prazo, acaba por ser penalizadora, quer para instrumentalizadores , quer para instrumentalizados.

Dir-me-ão que esta hipótese é uma simples conjectura.E isso é verdade. No entanto,a área política dominante na CGTP já executou outras manobras dúplices bem mais amplas e complexas, que poucos apontaram como tais, quando estavam a acontecer.

Quem encarou na sua altura o PRD como o resultado de uma manobra política amplamente apoiada pelo PCP, pelo menos, no plano organizativo? E, no entanto, já houve antigos membros do PCP, entretanto saídos, que o afirmaram publicamente, revelando que eles próprios estiveram envolvidos na decisão de desencadear esse processo.

Quem terá pensado, na altura em que isso ocorreu, que o Partido Ecologista "Os Verdes" foi constituído por decisão tomada dentro do PCP e que o seu processo de recolha de assinaturas foi predominantemente posto em prática por militantes do PCP? E no entanto mais do que um antigo membro do PCP afirmou à minha frente ter participado nesse processo, nos termos referidos.

A democracia está estabilizada, o PCP assume-se como partido fiel ao estado democrático, não há nenhuma insurreição popular no horizonte , nem sequer como miragem. Portanto, a duplicidade não é uma arma política legítima. É sim uma verdadeira hipocrisia.


E não há um outro nome para a hipocrisia na política que não seja, pura e simplesmente, o de oportunismo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Os receios corajosos, os sindicatos e a esquerda



Se os polícias foram por sua alta recriação ao Sindicato dos Professores na Covilhã, são ingénuos. Se alguém os mandou, seja quem for, deve ser demitido, já. Não por ser um sombrio aprendiz de "legionário",como parece sugerir em uníssono a piedosa oposição, mas por ser politicamente estúpido.
Por outro lado, se há algum militante sindical que admita poder ser assustado com o tipo de episódio narrado, é melhor que se recolha de imediato ao remanso doméstico, pois não parece aconselhável envolver em lutas sindicais tão frágil criatura.

O mais provável, no entanto, é que seja outro o cerne da questão.De facto,mesmo que a versão dos sindicatos fosse cem por cento verdadeira, a reacção de resposta seria claramente excessiva. E é precisamente esse excesso que faz pensar que a reacção ao ocorrido é muito menos uma legítima rejeição de um acto censurável, do que uma tentativa de empolamento político de um episódio,que assim acaba por ficar reduzido a simples pretexto.
Não se julgue, todavia, que este tipo de empolamento é uma questão menor. Não é, porque os promotores do excesso nem controlam os termos exactos nem os limites de todo o processo.
Apesar disso,toda a oposição apanhou sofregamente a boleia. Mau sintoma quanto á sua eficácia.Aliás, até mesmo dentro do PS houve algumas almas mais sensíveis que se sobressaltaram ( mas seria preferível que, para além de produzirem desabafos mediáticos, participassem dentro do PS nas discretas e teimosas tentativas de ir gerando uma alternativa política interna consistente e clarificadora ).

Tudo isto potenciou o alarido sindical, ao mesmo tempo que o aproveitava. E então?Os telejornais podem ver subir as audiências, o PR pode emitir uma declaração seráfica, mas no terreno político nada ficará melhor. Realmente, o festival de agressividade desbragada contra o Governo, onde gulosamente a direita se apressou a participar, apenas pode trazer novas dificuldades políticas ao relacionamento dentro da esquerda.

Uns dirão que a culpa é do Governo, outros que a culpa é da oposição de esquerda. Pouco se ganhará com isso. Mas qualquer um perceberá que o extremar da agressividade e a prática de insultos contra o Partido Socialista e o Governo, apenas pode causar crispações mais intensas, conflitos mais fundos e lesões políticas mais duradouras.

Insistir, por exemplo, na comparação imbecil entre o ocorrido e acções "pidescas", ou integrar a gestão do actual governo no "fascismo", são insultos grosseiros que nada podem trazer de positivo. Na verdade, quem diz isso, se não é um idiota chapado, é seguramente um provocador. Os fascistas que o forem realmente e a direita, no seu todo, só podem agradecer-lhe.

Por mim, embora seja militante do PS,estou muito longe de me identificar com muitos aspectos da governação actual e , principalmente, de aceitar o seu reconhecimento implícito de que o paradigma neoliberal dominante não é um artefacto ideológico, mas o simples reflexo da natureza das coisas no pensamento. Mas estou ainda mais longe de me pôr a apedrejar o Governo com insultos ou com qualificativos primários.

Poder-se-á esquecer que o PS vale eleitoralmente o triplo dos outros dois partidos de esquerda juntos?

Ou haverá quem ache desejável proceder-se como se a esquerda fossem apenas os quinze por cento do PCP e do BE , rotulando-se como de direita os outros oitenta e cinco por cento do eleitorado?

Em particular, será que a CGTP acha que, reduzindo o seu espaço social de inserção ao eleitorado do PCP e do BE, tem condições objectivas para desempenhar com eficácia a defesa dos interesses dos trabalhadores?

Será que se dispõe a cair na armadilha de um exacerbamento imediatista do tom e do estilo da sua luta, sujeitando-se a ficar reduzida estrategicamente à situação de simples destacamento involuntário do conjuntural Menezes ?

Isto, para não perguntar se não estaremos apenas a assistir a uma tentativa da direcção do PCP de substituir Carvalho da Silva por Mário Nogueira, na liderança da CGTP.