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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Regresso a BRECHT

 


Um dia,  Brecht escreveu um daqueles diamantes breves que rasgam a noite sem contemplações.

 

Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.

 

Marta Temido conquistou  legitimidade para o fazer seu.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

6 - UM LIVRO, UM POETA - Bertolt Brecht



6 - UM LIVRO, UM POETA -  Bertolt Brecht


“Poemas” de Bertolt Brecht é o livro que hoje me vai servir de apoio. Vou transgredir de novo a regra de um livro- um poema. Vou recordar vários poemas. É uma transgressão compreensível, quando temos pela frente um livro de 667 páginas, com tantos poemas que vivamente ainda hoje nos interpelam. A edição em causa é organizada e prefaciada por António Sousa Ribeiro, correspondendo à versão portuguesa dos poemas da autoria de Paulo Quintela. Foi publicada em 2007, pelas edições ASA.

Bertolt Brecht nasceu na Alemanha em 1898 e faleceu na República Democrática Alemã em 1956, depois de em 1950 se ter naturalizado austríaco. Exilou-se em 1933, por causa do nazismo, tendo vivido em vários países. Regressou à Alemanha (RDA – Berlim Leste), em 1949. Comunista, resistente ao nazismo, não deixaria de assumir alguma distância crítica em face do regime pró-soviético da RDA, como se pode depreender do primeiro poema transcrito. Foi um dos maiores dramaturgos do século XX e foi também um grande poeta.


Poemas de Bertolt Brecht

A (DIS) SOLUÇÃO

Depois da revolta de 17 de junho
Mandou o secretário da Associação de Escritores
Distribuir panfletos na Stalinallee
Nos quais se podia ler que o Povo
Perdera levianamente a confiança do Governo
E só a poderia reconquistar
Trabalhando a dobrar. Pois não seria
Então mais fácil que o Governo
Dissolvesse o Povo e
Elegesse outro?

MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Mas quando caminhava para o cepo onde o iam matar
Caminhava para um cepo que fora feito pelos seus iguais
E também o machado que agora o esperava
Fora feito pelos seus iguais. Apenas eles tinham partido
Ou tinham sido expulsos, mas estavam sempre ali
E presentes na obra das suas mãos. Nem mesmo a luz
Nos corredores por onde passava para a morte
Haveria sem eles. Nem a casa
Donde era levado, nem qualquer outra casa.
Porque é que
Tem ele de estar sozinho, ele que falou por tantos?
Por isto:
Os opressores juntam-se
Mas os oprimidos andam desunidos.


QUEM É O TEU INIMIGO

Ao faminto, que te tirou
O último pão, olha-lo como inimigo.
Mas ao ladrão que nunca passou fome
Não lhe saltas às goelas.

LOUVOR DO REVOLUCIONÁRIO

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.

Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.

Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos se calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

domingo, 24 de abril de 2016

Mensagem para a Presidente DILMA


Abandonando por um momento o século onde  estava a repousar, o poeta alemão e universal Bertolt Brecht, ainda estremunhado (e já revoltado) pelo que pôde ver na sessão do Congresso brasileiro em que foi votado o início do processo de destituição da Presidente Dilma, enviou-lhe a seguinte mensagem:

Cara companheira das cidades futuras:

Vi os anões políticos que como mabecos a cercaram de insultos, acirrados talvez por donos que ele próprios não conhecem. Lembrei-me de um poema que escrevi e que aqui lhe envio fraternalmente:



Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.

O seu
Bertolt Brecht

quinta-feira, 9 de abril de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 6


“Poemas” de Bertolt Brecht é o livro que hoje me vai servir de apoio. Vou transgredir de novo a regra de um livro- um poema. Vou recordar vários poemas. É uma transgressão compreensível, quando temos pela frente um livro de 667 páginas, com tantos poemas que vivamente ainda hoje nos interpelam. A edição em causa é organizada e prefaciada por António Sousa Ribeiro, correspondendo à versão portuguesa dos poemas da autoria de Paulo Quintela. Foi publicada em 2007, pelas edições ASA.

Bertolt Brecht nasceu na Alemanha em 1898 e faleceu na República Democrática Alemã em 1956, depois de em 1950 se ter naturalizado austríaco. Exilou-se em 1933, por causa do nazismo, tendo vivido em vários países. Regressou à Alemanha (RDA – Berlim Leste), em 1949. Comunista, resistente ao nazismo, não deixaria de assumir alguma distância crítica em face do regime pró-soviético da RDA, como se pode depreender do primeiro poema transcrito. Foi um dos maiores dramaturgos do século XX e foi também um grande poeta.

 


Poemas de Bertolt Brecht

 
A (DIS) SOLUÇÃO

 
Depois da revolta de 17 de junho
Mandou o secretário da Associação de Escritores
Distribuir panfletos na Stalinallee
Nos quais se podia ler que o Povo
Perdera levianamente a confiança do Governo
E só a poderia reconquistar
Trabalhando a dobrar. Pois não seria
Então mais fácil que o Governo
Dissolvesse o Povo e
Elegesse outro?


MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO


Mas quando caminhava para o cepo onde o iam matar
Caminhava para um cepo que fora feito pelos seus iguais
E também o machado que agora o esperava
Fora feito pelos seus iguais. Apenas eles tinham partido
Ou tinham sido expulsos, mas estavam sempre ali
E presentes na obra das suas mãos. Nem mesmo a luz
Nos corredores por onde passava para a morte
Haveria sem eles. Nem a casa
Donde era levado, nem qualquer outra casa.
Porque é que
Tem ele de estar sozinho, ele que falou por tantos?
Por isto:
Os opressores juntam-se
Mas os oprimidos andam desunidos.



QUEM É O TEU INIMIGO


Ao faminto, que te tirou
O último pão, olha-lo como inimigo.
Mas ao ladrão que nunca passou fome
Não lhe saltas às goelas.


LOUVOR DO REVOLUCIONÁRIO


Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.


Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.


Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?


Onde quer que todos se calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.


Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.


Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Recordar as vozes de grandes poetas é um estímulo insubstituível para a nossa razão e um guia seguro para as nossas emoções. Ouçamos pois, uma vez mais, Bertolt Brecht, na versão portuguesa de Paulo Quintela.



MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Mas quando caminhava para o cepo onde o iam matar
Caminhava para um cepo que fora feito pelos seus iguais
E também o machado que agora o esperava
Fora feito pelos seus iguais. Apenas eles tinham partido
Ou tinham sido expulsos, mas estavam sim ali
E presentes na obra das suas mãos. Nem mesmo a luz
Nos corredores por onde passava para a morte
Haveria sem eles. Nem a casa
Donde era levado, nem qualquer outra casa.
Porque é que
Tem ele de estar sozinho, ele que falou por tantos?
Por isto:
Os opressores juntam-se
Mas os oprimidos andam desunidos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

NÃO FICÁMOS DE FORA !

Um bandido norueguês, que a si próprio se olha como um cruzado, odeia o marxismo, o islamismo e a democracia, massacrou dezenas de compatriotas seus. Na sua lista de ódio, onde estava escrita a morte de dezenas de milhares de seres humanos, o bandido incluiu dez mil portugueses. Fui assim indirectamente colocado nessa trágica e honrosa lista dos odiados, fomos, todos nós portugueses inscritos nesse quadro de honra dramático.Um bandido norueguês de extrema-direita tornou-me irmão de todos noruegueses mortos e de todos outros cidadãos do mundo cuja morte foi prometida. Foram os jovens trabalhistas noruegueses. Podiam ter sido portugueses. Podiam ter sido cidadãos do mundo. Não é tempo de medo. É tempo de solidariedade e de revolta. Mas, sem o saber, o bandido norueguês deu-nos a honra de nos inscrever na sua lista de ódio.

Num outro tempo, um grande poeta alemão que se opôs aos nazis escreveu um poema de que me lembrei. Assim, em homenagem aos que foram assassinados, vou relembrar, na sua versão portuguesa de Paulo Quintela, esse poema de Bertolt Brecht :


A QUEIMA DOS LIVROS


Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!

[Bertolt Brecht]

quarta-feira, 13 de julho de 2011

QUEM FICA EM CASA QUANDO A LUTA COMEÇA

São dias de um chumbo aveludado, mas asfixiante. As vozes parecem veladas. Os gestos parecem tolhidos. As sombras ditam a lei, como se estivessem vivas. Os prégadores numerogam a desgraça, ficcionado-a como neutra. A maré lenta dos povos agita-se ao longe. A Europa é um outono melancólico que se recusa a andar. Ministros deixam os olhos perderem-se no Tejo como navios sem regresso. Aspiram um poder de fim de tarde com a volúpia constragida de quem não sabe muito bem se tem alguma coisa que possa fazer. Neste crepúsculo indolente, resolvi recorrer uma vez mais a Bertolt Brecht, sempre na sua versão portuguesa de Paulo Quintela:


QUEM FICA EM CASA QUADO A LUTA COMEÇA


Quem fica em casa quando a luta começa

E deixa os outros combater p'la sua causa

Tem que ter cuidado: pois

Quem não partilhou da luta

Partilhará da derrota.

Nem sequer evita a luta

Quem evita a luta: pois

Lutará p'la causa do inimigo

Quem não lutou p'la própria causa.


[Bertolt Brecht]

sábado, 9 de julho de 2011

QUEM É O TEU INIMIGO ?

"Quem é o teu inimigo?". Boa pergunta, neste tempo de sombras e embustes, neste entardecer de labirintos e ilusões, nesta manhã de espantos.
Na versão portuguesa de Paulo Quintela, ouçamos mais uma vez, alguém que nos ajude a responder, o poeta BERTOLT BRECHT:



QUEM É O TEU INIMIGO ?

Ao faminto que te tirou

O último pão, olha-lo como inimigo.

Mas ao ladrão que nunca passou fome

Não lhe saltas às goelas.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A MIRAGEM DOS ESPERANÇADOS

Viajar através da versão portuguesa de Paulo Quintela dos Poemas de Bertolt Brecht, abre sempre a porta a novas surpresas e a novas lições. Ajuda-nos muitas vezes a pensar, a proscrever uma eventual letargia, a compreender o que parece estranho. Ontem, quando um zumbido insalubre de numerologia financeira e predatória pairava no espaço mediático português, empreendi uma dessas viagens. Não posso deixar de partilhar com todos vós um poema então encontrado.



OS ESPERANÇADOS


Porque é que esperais?

Que os surdos vos ouçam

E que os nunca-fartos

Vos dêem alguma coisa!

Que os lobos vos alimentem em vez de vos devorarem!

Que por gentileza

Os tigres vos convidarão

Pra lhes arrancardes os dentes!

É por isso que esperais!

[Bertolt Brecht]

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A INJUSTIÇA CAMINHA HOJE COM PASSO FIRME

Foi apenas uma derrota eleitoral. Grande , é certo. Do PS, mas também da esquerda, em geral. O PS perdeu mais de 8% de votos, o BE perdeu metade do seu grupo parlamentar, o PCP perdeu a cabeça, quando achou que, neste quadro, ganhar 0,1 % e um deputado, era um enorme incentivo para o combate, mesmo que tivesse ocorrido o ligeiro contratempo de uma direita com maioria absoluta.

Foi apenas uma derrota eleitoral: nenhuma culpa tiveram os que combateram. Mas em política não é a culpa de ninguém o que principalmente está em causa. Em política, como nas guerras, não se distribuem armas a quem não as sabe usar; em política, como nas guerras, não se deixa que comandem exércitods generais de parada. Em política, tal como na vida, as burrices podem custar caro. Em política, como na vida, as rotinas exemplarmente seguidas podem não ser suficientes. E não foram.

Mais tarde, num próximo futuro, poder-se-á discutir tudo isso. Hoje, nada melhor do que um grande poeta para nos levar a ver o verdadeiro fundo das coisas. Lembremos pois de Bertolt Brecht , numa tradução de Paulo Quintela, o seu "Louvor da Dialéctica ":

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga:nunca!
O certo não é certo.
Assim como está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue ? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute.
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz : Hoje ainda!

terça-feira, 31 de maio de 2011

CONTRACAPA DA VÉRTICE PROIBIDA PELA CENSURA - 10

Da série de frases, destinadas à Contracapa da revista Vértice, cuja publicação a censura salazarista proibiu, eis aqui a décima.


VÉRTICE - Nº 289 – Outubro de 1967
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã e o nunca transforma-se em ainda hoje.
BERTOLD BRECHT

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CONTRACAPA DA VÉRTICE PROIBIDA PELA CENSURA - 7

Da série de frases, destinadas à Contracapa da revista Vértice, cuja publicação a censura salazarista proibiu, eis aqui a sétima.



VÉRTICE - Nº 265 – Outubro de 1965


"Com tirania e violência só se enriquece um reino: o tenebroso reino das trevas."


BERTOLD BRECHT




sábado, 12 de junho de 2010

Eleições na Holanda


As recentes eleições parlamentares na Holanda abriram o caminho do poder a um partido liberal conservador ( 31 deputados) que há décadas não liderava nenhum governo. Os trabalhistas da Internacional Socialista, participantes secundários do governo cessante, ficaram em segundo lugar com menos um deputado (30), mas não deixaram de perder três lugares, relativamente ao seu fraco resultado anterior. De facto, o resultado agora obtido só foi negativamente superado uma vez desde 1946. Os democratas-cristãos que lideravam o governo cessante desceram de 41 para 20 lugares, tendo tido o seu pior resultado de sempre, desde que existem com a actual configuração, desde 1977, tendo descido do 1º para o 4º lugar. Mas, em terceiro lugar, com 24 deputados, ficou um partido de direita radical o Partido da Liberdade (PVV), que antes tivera apenas 9.


Mas o desaire relativo dos trabalhistas não foi aproveitado pelo Partido Socialista (um partido defensor de um socialismo democrático, à esquerda dos trabalhistas) que, pelo contrário, teve um resultado ainda pior, tendo recuado nove lugares, ao descer de 25 para 16 deputados. Em seguida, os Democratas 66 (defensores de um liberalismo social) tal como a Esquerda Verde ficam com 10 deputados cada um, o que significa que ambos subiram, já que antes o primeiro tinha 3 deputados e o segundo tinha 7. Assim, se estes quatro partidos se juntassem, ficariam com 66 deputados, longe dos 76 que precisariam de ter, para chegarem a uma maioria absoluta, já que o Parlamento Holandês (câmara baixa) tem 150 deputados [o Senado tem 75 senadores]. E no entanto, em 1998, embora com pesos relativos diferente [as maiores diferenças: trabalhistas – 45; socialistas -5], os mesmos quatro partidos haviam chegado aos 75 lugares.


Há dúvidas quanto ao tipo de coligação que vai surgir com base na nova relação de forças, embora sempre com o partido vencedor como eixo, sendo embora possível que se incline mais para a esquerda ou mais para a direita.


Tudo isso mostra como é evidente, fica claro que, também na Holanda, a Internacional Socialista continua a murchar. E contra o que antes acontecera não foram os socialistas de esquerda que ganharam com isso: pelo contrário, recuaram ainda mais do que os trabalhistas. E os grandes beneficiários da derrota estrondosa dos democratas-cristãos foram os liberais conservadores e a extrema-direita.
Para quando a declaração da Internacional Socialista e do Partido Socialista Europeu como tendo caído num estado de calamidade política? De facto, sem isso, pode recear-- se que os partidos nacionais desta família política não consigam sacudir o torpor que parece envolvê-los, de modo a que, em simbiose com um novo protagonismo do povo europeu de esquerda, consigam reverter o declínio que parece tê-los atingido.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Homenagens de Brecht


Na eterna viagem pelas palavras dos poetas que mais escutamos, cruzamo-nos com poemas que nesse preciso momento nos agarram especialmente. Muitas vezes, sem sabermos bem porquê. Hoje, quero partilhar com os viajantes que passarem por este blog alguns poemas de Bertolt Brecht, na preciosa versão portuguesa de Paulo Quintela.

São homenagens a revolucionários, envolvidas por uma penumbra sépia ligeiramente melancólica, mas que não abdica, no entanto, de deixar que se ouça o marulhar profundo das grandes esperanças.



Epitáfio para Rosa Luxemburg

Aqui jaz sepultada
Rosa Luxemburg
Uma judia da Polónia
Propugnadora de operários alemães
Morta por incumbência
De opressores alemães. Oprimidos
Sepultai a vossa discórdia!

Inscrição Tumular 1919

A Rosa vermelha lá se foi também
Onde ela jaz não no sabe ninguém.
Por ter dito aos pobres a verdade
Os ricos a expulsaram do mundo e da Humanidade.


Epitáfio para Karl Liebknechet

Aqui jaz
Karl Liebknechet
Que lutou contra a guerra.
Quando o mataram
Inda estava em pé a nossa cidade.



Quando Lenine partiu

Quando Lenine partiu, foi
Como se a árvore dissesse às folhas:
Vou-me.


Inscrição tumular para Gorki

Aqui jaz
O embaixador dos bairros de miséria
O descritor dos verdugos do povo
E dos que o combateram
Que se formou na Universidade das estradas
O que nasceu baixo
Que ajudou a abolir o sistema de alto e baixo
O mestre do povo
Que aprendeu do povo.


A Walter Benjamin, que se suicidou ao fugir do Hitler

Táctica do cansaço foi o que te agradou
Sentado à mesa do xadrez à sombra da pereira.
Ao inimigo que dos teus livros te expulsou,
Não lhe damos xeque-mate na jogada derradeira.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Brecht e a conjuntura


Cresce, sem que pareça erguer-se para lhe resistir uma vontade colectiva, sistemática e organizada, um ruído político insalubre que parece toldar gravemente o ambiente democrático.

Da profundeza dos códigos, uma gente em quem ninguém votou, que ninguém escolheu para agir em nosso nome, emerge soturnamente intrometendo-se na política pelo seu lado mais pequeno , sorrateiramente, insidiosamente, sem frontalidade nem risco de futuro escrutínio democrático.

E o próprio combate político, de quem tem a responsabilidade formal ou sente ter que assumir o dever cívico de o travar, torna-se de dia para dia menos aberto, menos explícito, menos clarificador. Jogo de sombras, em que é maior o risco de ser enlameado por uma calúnia do que sofrer a lâmina afiada de uma ideia.

No circo mediático, são cada vez mais escassos os rugidos directos dos leões, mas multiplicam-se as insídias torpes das hienas.

E é cada vez mais frequente receber na memória a visita de um pequeno poema de Bertolt Brecht, na sua versão portuguesa de Paulo Quintela.


Escapei aos tubarões

Abati os tigres

Fui devorado

Pelos percevejos.