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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

VISITAR A MEMÓRIA - Auschwitz

Permito-me repetir  um texto com a  memória de uma visita a Auschwitz que foi publicado neste blog em  22 de maio de 2011.

Visita a Auschwitz

Aqui dormiu a morte repetida
um dia muitos dias tantos dias

Resta agora esta vergonha lenta
esta suja vergonha repetente

E o próprio silêncio sepultado
de si mesmo se guarda adormecido

Caminha-se com passos redobrados
a cólera contida na garganta

Os olhos do martírio vão seguindo
a sombra desregrada da amargura

Os pássaros da noite vão voando
num sórdido trajecto envilecido

Em cada num de nós foi construída
uma casa de dor e desespero

Já são nossos irmãos os que morreram
nas fogueiras de um ódio consentido

Foram nossos irmãos os que perderam
o tempo que nos deram generosos

Acesa apenas a centelha humana
nas cinzas humilhadas da derrota

Guardamos os seus nomes letra a letra
nas mais fundas palavras da revolta

Em Auschwitz morre lentamente
a morte mais cansada e repetida

São nossos os cabelos resguardados
nessa torpe memória enlameada

São nossos os óculos quebrados
olhando-nos ainda massacrados

Continua subindo o horizonte
um silêncio de cinza e de vergonha

Terminou a visita a tarde cai
um soluço regressa na garganta

Visitámos o medo em estado puro
o ódio desregrado sujo duro

Saímos como irmãos desembainhados
no próprio coração da liberdade


[Rui Namorado]




terça-feira, 15 de outubro de 2013

O OUTONO DOS PILARES EUROPEUS

Quanto mais a esquerda for inexpressiva na Alemanha e na França, mais estes dois pilares da União Europeia serão tomados pela anemia política de um melancólico outono. Nestes últimos dias, chegaram notícias de ambos os países que parecem indiciar um aumento do risco dessa deriva.

1. Voltou teimosamente à superfície a pequenez da grande vitória eleitoral da Srª. Merkel, com o regresso às notícias da penosa marcha rumo à formação do seu novo governo. Vitória estranha, embora tonitroantemente anunciada sem contestação, que sentou no parlamento alemão uma maioria de esquerda, repartida por três partidos (SPD, a Esquerda e os Verdes), remetendo a enorme vencedora para uma posição minoritária. Estranha esquerda essa que se aconchega na pseudo-vitória da direita, na esperança de que os seus eleitores, ao esquecerem-se da sua vitória, permitam que escape a uma severa reprovação. Reprovação impulsionada pela insólita renúncia a formar governo, praticada pelos três partidos de esquerda e causada pela sua incapacidade em chegarem a um entendimento.
Caminha-se assim para uma coligação liderada pela Sr.ª Merkel que envolverá o SPD, certamente ainda lembrado que a mais recente coligação idêntica (2005-2009) o fez descer da qualidade de um grande partido, separado dos democratas-cristãos por um escasso deputado, para a de um modesto partido de média dimensão, que ficou abaixo dos 25 %. Em quatro anos de oposição (2009-2013), conseguiu a proeza pálida de, ao subir apenas cerca de 2%, exceder ligeiramente o  modesto patamar anterior. Contudo, essa anemia política do SPD nada de positivo trouxe para o peso eleitoral dos outros dois partidos de esquerda, que continuaram penosamente a rondar os dez por cento.
Será de esperar que os eleitores alemães de esquerda continuem a dar votos a partidos que preferem ser capachos, diretos ou indiretos, de um partido de direita, que tem assombrado a Europa, do que ousarem a enorme aventura de se entenderem?

2. A França e, de algum modo, a Europa assustaram-se com um recente resultado de uma eleição local, conjugado com uma sondagem que colocava a Frente Nacional no primeiro lugar das intenções de voto dos franceses. Mesmo que não se possa  dizer que há aqui uma verdadeira exceção francesa e sendo a FN um fenómeno político com décadas, só por ligeireza, no entanto, se poderiam desvalorizar estes sinais.
E eu não estou a pensar em sofisticadas interpretações do fenómeno, mais vocacionadas para compensarem a inação do que para serem guias da ação. Não estou a pensar numa meticulosa procura de culpados, como se fosse mais importante encontrá-los do que combater politicamente o prenúncio de novas serpentes.
Estou a pensar na necessidade de confrontar a direita democrática francesa com os recorrentes sinais de transigência que vários dos seus vultos têm enviado à FN e com as consequências dessas atitudes.
Estou a pensar no imperativo de se confrontarem as várias esquerdas com a necessidade de avaliarem aprofundadamente as razões  da perda de apoio social e eleitoral que as atingiu, parte da qual,  por desespero e primarismo político, talvez se  tenha transferido para a extrema-direita.
Particularmente, o PSF não pode permanecer alheado da necessidade premente de uma reconversão estratégica, que supere definitivamente o pântano da terceira via, reconciliando-se com a sua matriz socialista, que no essencial o identifica e que não pode deixar de inscrever um pós-capitalismo no seu horizonte. O PSF, todos os partidos socialistas europeus, não podem pedir o voto ao povo de esquerda, para deixarem depois os banqueiros governar.
E não podendo imprudentemente ignorar a realidade que os condiciona e rodeia, não podem limitar-se a deixarem-se arrastar pela corrente dos automatismos económico-financeiros do capitalismo, sem praticarem a resistência possível e sem se baterem pelo seu próprio caminho, rumo ao seu próprio horizonte.
De facto, se os socialistas aceitarem exercer o poder político institucional, como meros certificadores de decisões que lhes escapam, como simples homologadores de decisões dos poderes de facto, podem penosamente governar durante uma ou outra legislatura, num ou noutro país, mas arriscam-se a sofrer um forte desgaste popular, pelas consequências sociais desse caminho. E podem assim  perder, irremediavelmente o peso político necessário para que estejam em condições de desempenhar o seu papel nuclear, como garantes e potenciadores de um  desenvolvimento democrático que transcenda o capitalismo.

Ora, faz parte das vicissitudes da luta política que um partido socialista se arrisque em prol dos seus objetivos históricos e identitários, expressão do interesse legítimo de todos os que são prejudicados pelo capitalismo, materialização de um humanismo completo, podendo pagar um preço político por essas decisões. Mas é um puro absurdo estéril que um partido socialista perca a sua base social e eleitoral de apoio, por se deixar arrastar na deriva dos automatismos económicos, eles próprios reflexos dos interesses e do domínio dos poderes económicos de facto.

terça-feira, 15 de maio de 2012

MENSAGENS DAS ELEIÇÕES ALEMÃS

1. Os resultados das recentes eleições no mais populoso e mais rico  Estado Federado da Alemanha , a Renânia do Norte/Vestefália, acentuaram a decadência política da coligação CDU/FDP (democratas-cristãos /liberais) que detém, em Berlim, o poder federal.  Na verdade, de um empate em 2010, entre os dois maiores partidos (CDU/CSU e SPD), com a pequena vantagem de uma décima para os democratas cristãos, passou-se, dois anos depois, para uma vantagem do SPD de quase treze pontos percentuais (39/26).Os liberais progrediram dois por cento e os verdes regrediram quase um por cento, mas mantiveram cerca de três por cento de vantagem sobre aqueles. A Esquerda (Die Linke), que tinha entrado tangencialmente para o parlamento estadual há dois anos ( 5,4%), tendo eleito 11 deputados, perdeu agora  mais de metade do eleitorado; e desta vez ficou excluída.O Partido Pirata, há dois anos escolhido por menos de dois por cento ( e assim excluído do parlamento estadual), foi agora a grande surpresa, tendo conquistado 7,8% dos votos, o que fez com que elegesse 20 deputados.
Este conjunto de resultados permite folgadamente a instituição de um governo vermelho/verde ( Sociais-democratas/ Verdes), presidido pelo SPD.

2. Olhando para este panorama, são visíveis algumas novidades. Na actual coligação governamental, ao contrário do que vinha acontecendo em eleições anteriores, o mais penalizado foi o partido da Srª Merkl, tendo os liberais, também ao contrário do que vinha acontecendo, resistido melhor.
Do outro lado, desta vez, o SPD teve um crescimento muito relevante e foram os Verdes a murchar. A Esquerda teve um importante revés simbólico, ao ficar fora do parlamento estadual. O Partido Pirata, afirmou-se, em consonância com sondagens nacionais recentes, como uma força emergente que pode introduzir uma inesperada  imprevisibilidade no xadrez político alemão.
Podemos pois dizer que os resultados destas eleições adensaram o risco de uma derrota nacional para a Srª Merkl dentro de dezasseis meses, embora  as sondagens nacionais não apontem ainda inequivocamente nesse sentido.
No entanto, deve sublinhar-se que,  até agora, se podia admitir como forte a hipótese de uma vitória relativa da CDU/CSU, com descalabro dos seus aliados liberais, o que podia conduzir a uma nova grande coligação com um  SPD, nesse caso, eventualmente, com menos votos do que a CDU/CSU. Mas estes resultados tornaram essa hipótese muito mais remota.  Assim , se a paisagem política evoluir no sentido por eles revelado, começa a ser uma probabilidade forte a vitória do centro-esquerda na Alemanha no próximo ano. E esta possível evolução da política alemã não pode deixar de influenciar desde já o xadrez político europeu.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O VIZINHO ALEMÃO

Uma boa parte das tragédias históricas, duramente escritas com sangue, tiveram nas suas raízes anátemas ou preconceitos, que envolveram povos inteiros. Mas dentro desses povos, seguramente, (e pelo menos) uma boa parte nada fez para que existissem os motivos ou os pretextos que estiveram na base desses anátemas e dessas guerras. Porém, os vendavais não têm reconhecido os culpados.

Assim, um inestimável mérito da construção europeia foi o de ter diminuído drasticamente essas crispações, tantas vezes agudizadas por repetidas guerras, entre os povos que se envolveram nelas.

Nos dias que correm, a vozearia ideológica dominante nos centros de poder europeus tem falado muito numa alegada ligeireza dos europeus do sul, marcados por um hedonismo desbragado que teria levado a Europa às agonias da crise. Essa lenda, que pareceu casar-se minimamente com os factos num primeiro tempo, logo se afastou deles e mais se vai afastando, a cada dia que passa.


Os europeus do sul podem ter sido escolhidos como primeiro alvo por serem relativamente mais fracos no plano económico, mas não por terem infringido, grosseira e injustificadamente, as regras da arte e o consenso europeu. Os europeus do sul, como humanos que são, nem sempre terão seguido os caminhos mais certos, mas não foram os seus erros próprios o que mais contribuiu para as dificuldades que vivem, hoje. Na verdade, é de meridiana evidência que, se há uma força propulsora da crise vivida na Europa, ela está na incapacidade política das lideranças europeias e, em particular, no egoísmo nacionalista dos países mais poderosos, com especial destaque para a Alemanha.

É precisamente isto que torna mais grave a sucessão de atitudes de dirigentes políticos alemães que têm reflectido um dramático regresso a um tempo de preconceitos intra-europeus, em que os povos se combatiam cegamente numa espiral perversa. Para os alemães, os europeus do Sul, e muito particularmente os gregos, são gente de terceira classe, indolente e pouco confiável, sofregamente, à espera do seu ouro.

Ora, acontece que esses povos do sul, e por exemplo os gregos, sofreram, não há muitas décadas, uma brutal e devastadora agressão de invasores alemães. Por isso, se virmos bem, eticamente, talvez os alemães devam aos gregos muito mais do que aquilo que agora regateiam emprestar-lhe.

É claro, que qualquer cidadão do mundo minimamente esclarecido, seja ele ou não europeu do sul ou do norte, nunca deixará esvair-se na sombra do nazismo a inestimável claridade da cultura alemã, dos seus filósofos, dos seus músicos, dos seus escritores. Por mais que os ofendam, com a sua pequenez, os actuais políticos alemães, os expoentes maiores dessa cultura irão sempre ao nosso lado como irmãos e como guias.

Mas os actuais “panzers” da política menor, com seu insalubre hálito de uma usura estreita, têm que que perceber em que vespeiro estão a cutucar, quais os fantasmas que podem despertar, quais os demónios a que estão a abrir uma porta tão custosamente fechada. E bastaria que se lembrassem do que, não há muito tempo, aconteceu aquando da reunificação alemã. Apesar dos graves problemas que ela podia suscitar, no plano económico também, mas principalmente no delicado plano das relações de força dentro da União Europeia, os parceiros da Alemanha souberam acolher sem egoísmo a novidade. Compreenderam bem o que estava em jogo, simbólica e historicamente, tendo tratado a questão com fraternidade, mesmo sabendo o que havia de estruturalmente imprevisível na nova situação. Por isso, se agora a Alemanha fosse generosa não estaria, ainda assim, a ir além da reciprocidade.

Para mais, ao contrário do que possa parecer, para uma média potência mundial sem espaço de irradiação linguística, sem território, sem população que a possam puxar mais para cima, a força da Alemanha só pode firmar-se, diluindo-se subtilmente numa Europa, onde objectivamente pesará sempre muito. Em contrapartida, será essa Europa a não resistir a uma recaída imperial da Alemanha, mesmo que ela se processe pelas melífluas vias de um economicismo neoliberal.


Não resistirá. No entanto, se a Alemanha dispuser de suficiente inteligência política nas suas lideranças , talvez perceba que a generosidade e uma demonstração inequívoca de não querer ser mais do que um povo entre muitos, são um caminho seguro para uma proeminência natural e bem acolhida numa Europa fraterna. É, por isso, que o paroquialismo político da direita alemã, actualmente no poder, correndo o risco de ser fatal par a Europa a curto prazo, trará um enorme prejuízo para a Alemanha, a médio e longo prazo.

Aliás, a vida política oferece amiúde factos inesperados que são verdadeiros artefactos de uma saborosa ironia. É que, foi em pleno festival de menosprezo pelos europeus do sul, coloridamente soprado pelos ventos de Berlim, que o Presidente da República da Alemanha se viu obrigado a demitir-se por um potencial pecado, bem menos recomendável do que os que são imputados aos hedonistas do sul. Pensem, por um momento, no que diria a Srª Merkl, e os seus pretorianos teutões, se o Presidente da República da Grécia se tivesse demitido por um motivo idêntico. Isto, para já não falar nos ascéticos mercados… Pelo contrário, os “bárbaros” do sul tiveram a elegância de quanto a isso não dizer nada.

Enfim, não bastará que a Alemanha se emende e que o Partido Popular Europeu se recorde, ainda que vagamente, da sua raiz cristã, para que o sol nasça de novo na Europa, mas sem que pelo menos isso ocorra, corremos o risco de cair numa espécie de inóspita terra de ninguém, donde não será fácil sair.

domingo, 29 de janeiro de 2012

EUTANÁSIA ECONÓMICA

Se os cultivadores da continuidade do sistema capitalista apenas parecem saber incentivar o pessimismo dos povos, convidando-os ao sofrimento, para poderem acariciar o capital e os seus detentores enquanto tais, numa ternura que a prática tem mostrado ser inútil, dê-se a palavra a quem não se conforma que a sobrevivência da humanidade seja sacrificada no altar da conservação dos privilégios de que o capitalismo precisa.
Seja pois dada a palavra a Robert Kurz, ensaísta alemão
nascido em 1943, que participou em 1986 na criação da revista Krisis e do correspondente grupo, do qual se separou em 2004, envolvendo-se na criação de um novo grupo, em torno de uma nova revista: EXIT! (Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria). Escreve com regularidade em jornais e revistas da Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil.

O texto abaixo transcrito foi-me enviado, em boa hora, pelo Luís Namorado, meu irmão, podendo ser encontrado em
http://obeco.planetaclix.pt/rkurz399.htm .

Eis o texto:


Robert Kurz

EUTANÁSIA ECONÓMICA

Na ideologia da economia política, o dinheiro é uma ferramenta sofisticada para fornecer da melhor maneira bens materiais e serviços sociais à sociedade; precisamente por isso, ele seria irrelevante no verdadeiro sentido económico, não passando de um "véu" sobre a produção e a distribuição reais. Marx, no entanto, mostrou que o dinheiro, como autovalorização do capital, é um fim em si mesmo fetichista, que submeteu a si a satisfação das necessidades concretas. Os bens reais apenas são produzidos se servirem para esse fim em si da multiplicação do dinheiro; caso contrário a sua produção é parada, embora seja tecnicamente possível e constitua mesmo uma necessidade vital. Isto é particularmente evidente em áreas como as pensões e os cuidados de saúde, que em si não são suportes da valorização do capital, mas têm de ser financiadas com os salários e os lucros. No plano puramente factual estão disponíveis recursos suficientes para fornecer à população alimentos e cuidados médicos, mesmo que seja cada vez maior a proporção de não activos profissionalmente. Mas, sob os ditames do fetiche dinheiro, esta possibilidade objectiva torna-se "infinanciável".

Sistemas de pensões e seguros de saúde estão indirectamente subordinados aos ditames da valorização abstracta. Sob condições de financiamento difíceis eles são "economificados". Isso significa que eles mesmos devem agir de acordo com critérios económicos, a fim de poderem participar nos fluxos financeiros. Até o diagnóstico médico se torna uma mercadoria, que está sob pressão da concorrência. O objectivo não é a saúde e o bem-estar das pessoas, mas o doping para a "produtividade", por um lado, e a gestão das doenças, por outro. A pessoa ideal para as instituições vigentes seria um lutador olímpico no local de trabalho (para aumentar o produto nacional), que simultaneamente pudesse ser definido como doente crónico (para encher os cofres do sistema de saúde) e que batesse voluntariamente a bota ao entrar na idade da reforma (a fim de não ser um fardo para o capitalismo).

Foi a própria ciência médica que estragou os planos deste esplêndido cálculo. Ela foi de facto tão bem sucedida que cada vez mais pessoas estão vivendo muito para além da idade profissionalmente activa. Este é um exemplo particularmente claro de que a concorrência forçou um desenvolvimento das forças produtivas que já não é compatível com a lógica capitalista. A "força muda das circunstâncias" (Marx) provoca assim uma tendência para de algum modo anular as conquistas médicas factuais. A produção da pobreza artificial tem efeito preventivo. Assim, na Alemanha, a esperança de vida dos mais mal pagos baixou de 77,5 para 75,5 anos desde 2001. Quem nem sequer ganha dinheiro suficiente para a subsistência, apesar de trabalhar a tempo inteiro com desempenho esforçado, chega a velho tão exausto que já não consegue explorar as possibilidades da medicina. Mas também a assistência médica em si é cada vez mais reduzida de acordo com a capacidade de pagamento. Como os hospitais gregos estão praticamente falidos, as grandes empresas farmacêuticas suspenderam o fornecimento de medicamentos para o cancro, para a SIDA e para a hepatite; e o abastecimento de insulina também foi interrompido. Este não é um caso especial, mas a imagem do futuro. Pelo menos aos doentes pobres e "supérfluos", não mais utilizáveis do ponto de vista capitalista, será assinalado por todos os peritos o que já o rei Frederico da Prússia berrou aos seus soldados em fuga do campo de batalha: "Cães, vocês querem viver para sempre?"

[Original ÖKONOMISCHE STERBEHILFE in http://www.exit-online.org/. Publicado em Neues Deutschland, 09.01.2012.]

quinta-feira, 31 de março de 2011

LIÇÕES DAS ELEIÇÕES ALEMÃS

1. Houve, recentemente, eleições em dois Estados Federados da Alemanha: Baden-Württemberg (10 milhões e 700 mil habitantes; capital- Estugarda) e Renânia - Palatinato ( 4 milhões de habitantes; capital- Mogúncia). Dois estados do sudoeste alemão, um dos quais é terceiro, quer em termos populacionais, quer em extensão; o outro é um Estado de média dimensão e de média importância em termos populacionais.
O resultado das eleições em Baden-Württemberg pôs fim a meio-século de predomínio democrata-cristão. De facto, o partido da Srª Merkl perdeu, 5,2% dos votos e 9 deputados e os seus aliados liberais perderam 5,4% e 8 deputados. Os Verdes ganharam 12,5% dos votos e 19 deputados, ficando com mais 1, 3% do que o SPD e com mais um deputado, o que faz com que lhes caiba a liderança de um governo estadual, pela primeira vez na história da Alemanha. O governo será pois verde-vermelho, ficando assim bem claro o mau resultado do SPD, que baixou 2,1% e perdeu 3 deputados, tendo tido o seu pior resultado de sempre neste Estado. A Esquerda ( Die Linke) oscilou ligeiramente para baixo (0,3%), continuando fora do parlamento estadual. A coligação de esquerda terá pois 71 deputado estaduais e a direita 67.


Na Renânia -Palatinato, o grande derrotado eleitoralmente foi o SPD que perdeu 9,9% dos votos e 11 deputados. Os liberais (FDP), que tinham 10 deputados, deixaram de ter assento no parlamento estadual, por terem descido de 8% para 4,2%; os Verdes, que antes não estavam representados neste parlamento, passaram a dispor de 18 deputados, já que atingiram os 15,4%, quando antes tinham ficado ligeiramente abaixo da barreira dos 5%. A CDU subiu 2,4% e 3 deputados, tendo ficado com menos um deputado do que o SPD e com menos 0,5% dos votos. A conjugação destes resultados faz com que o SPD possa continuar a liderar o governo estadual, mas, uma vez que perdeu a mairia absoluta, agora com a participação dos Verdes. A Esquerda oscilou agora ligeiramente para cima (0,4 %), tendo continuado fora do parlemento estadual com os seus 3% de votos.


2. A severa derrota política da Srª Merkl, em B. -W., não deve fazer esquecer a incapacidade do SPD para a aproveitar, ao ter descido também mais de 2%. E, embora continue com a liderança do governo da R.- P., não se pode ignorara que perdeu 10% dos votos.

O SPD parece pois consistentemente amarrado a um patamar eleitoral modesto, reflectindo uma clara incapacidade para capitalizar a seu favor o desgaste do governo da Srª Merkl ( CDU-CSU/FDP). A Esquerda também não se tem mostrado capaz de aproveitar a estagnação do SPD para levantar voo. Apenas Os Verdes ( Die Grünen) se têm mostrado pujantes, de acordo com as indicações das sondagens, confirmadas pelos resultados das eleições acima referidos.

Na verdade, se analisarmos a evolução das sondagens dos últimos meses, respeitantes a toda a Alemanha, não vemos grandes oscilações. Na mais recente, já desta semana, a CDU/CSU limita-se a 33%, o SPD não vai além dos 25 %, Die Grünen atingem os 21%, Die Linke fica-se pelos 8% e o FDP cai para uns perigosos 5%. Ou seja, a base eleitoral do Governo da Srª Merkl desceu para uns modestos 38 %, os três partidos de esquerda, actualmente na oposição, se pudessem somar-se, chegariam aos 52%. E mesmo que uma possível coligação abrangesse apenas o SPD e os Verdes, ela atingiria os 46%.

Parece claro que, se não houver uma mutação inesperada, a esquerda tem boas hipóteses de voltar ao poder, após as próximas eleições legislativas alemãs. Mas, contra o que ainda há poucos anos era impensável, não é hoje certo que uma futura coligação de esquerda na Alemanha seja liderada pelo SPD. Pode ser liderada pelos Verdes. Também é nítido que, tal como em comentários anteriores sobre eleições alemãs já alvitrei, a estagnação do SPD não foi aproveitada pela Esquerda. E o papel dos Verdes na Alemanha não é um exemplo que possa ser seguido por outros países. Nomeadamente, aqueles onde os partidos deste tipo têm pouca expressão ou simplesmente não existem, como acontece no caso português.

A estagnação política dos partidos europeus da Internacional Socialista continua, pois, sem fim à vista; e o facto de se estar a passar com o SPD o que acima se refere agrava essa situação, em virtude da grande importância desse partido no PSE ( Partido Socialista Europeu ).


[ Pode clicar sobre o mapa e as infogravuras, para as poder ver aumentadas.]

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eleições num estado alemão

No domingo passado, no mais populoso estado alemão, a Renânia do Norte-Westefália ( com cerca de 18 milhões de habitantes), decorreram as eleições regionais que a Srª Merkl receava. Neste momento, não se sabe ainda, com completa certeza, que tipo de governo vai ser formado.

As perdas dos democrata-cristãos (CDU) foram severas, tendo excedido os 10% de votos e tendo atingido um quarto dos deputados de que antes dispunham. Mesmo assim, ficou com mais 0,1% de votos do que os sociais-democratas (SPD) e com o mesmo número de deputados. Na verdade, o SPD recuperou da hecatombe das últimas legislativas, mas ainda ficou 2,6% abaixo dos maus resultados que tinha tido neste Estado nas anteriores eleições regionais. Os liberais (FDP) aliados dos democrata-cristãos no governo do Estado (aliás, o mesmo acontece no Governo federal), subiram meio ponto percentual e conquistaram mais um deputado. Ficaram, pois, muito longe de compensar a derrota dos seus aliados. Em contrapartida, os Verdes (Die Grünen), subiram quase 4% dos votos [deve dizer-se que há uma discrepância entre as duas infogravuras usadas neste texto, já que uma atribui-lhes 10,1 % e a outra 12,1%] e quase duplicaram o número de deputados, passando de 12 para 23. O Partido das Esquerdas (Die Linke), com 5,6% de votos, entrou pela primeira vez neste parlamento estadual , tendo ficado com 11 deputados.

Uma coligação SPD/Verdes ficaria à beira da maioria absoluta, mas não a atingiria. Assim, só obteria maioria absoluta, ou uma grande coligação ou uma coligação com os três partidos de esquerda. Ou seja, o SPD continua assombrado pelo espectro de que tem procurado fugir desde 2005, quando no início de uma nova legislatura federal renunciou a uma coligação de esquerda a três ( SPD, Verdes, A Esquerda), por si liderada, para ser o partido secundário, numa grande coligação CDU/CSU- SPD liderada pela SrªMerkl. Na verdade, A Esquerda parece não ser um fenómeno conjuntural, pelo que ignorá-lo tende a envolver um risco crescente de se fazer com que a direita se perpetue no poder.

E deste modo a tentativa de manter A Esquerda como um actor político exterior a qualquer protagonismo institucional parece estar destinada ao fracasso. E o SPD continua a arrastar-se numa lenta recuperação que não tem sido suficiente para que se possa dizer que verdadeiramente de novo levantou voo. O preço pela deriva moderada de Gerhard Schröder contiunua a ser cobrado pelos eleitores.

Poderá o SPD recuperar a força perdida, mantendo uma quase docilidade complacente, perante a dogmática finaceirista dos neo-liberais ?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Eleições alemãs - o preço do bloco central

1. A infogravura acima apresentada, transcrita do site do semanário "Der Spiegel", mostra um sugestivo panorama dos resultados das eleições legislativas alemãs do passado dia 27 de Setembro. Venceu a coligação democrata-cristã, CDU/CSU, encabeçada pela srª Merkl, que se manteve assim à frente do governo alemão, embora abandonando os seus antigos parceiros sociais-democratas(SPD), pelos seus novos parceiros liberais (FDP).
Apesar de vencer as eleições, a CDU/CSU teve o seu pior resultado, desde 1949 (33,8%), enquanto o SPD teve o seu pior resultado de sempre (23%). Em contrapartida, os outros partidos, FDP (liberais-14,6%), Die Linke ( A Esquerda -11,9%) e Die Grünen ( Os Verdes - 10,7%), tiveram os seus melhores resultados de sempre.
Os dois partidos de direita somam agora 48,4%, enquanto os três partidos de esquerda somam 45,6 %, o que se traduz numa maioria parlamentar folgada da direita. Recorde-se que em 2005, o SPD, os Verdes e a aliança política que deu origem ao novo partido de esquerda, tinham em conjunto uma clara maioria parlamentar. A CDU/CSU foi então o partido mais votado, com uma pequeníssima vantagem sobre o SPD, o qual aceitou ser acólito da Srª Merkl numa grande coligação, recusando a hipótese de liderar um governo das três forças de esquerda então existentes.
O SPD tentou então congelar a possibilidade de afirmação de uma nova força política ( Die Linke) no panorama alemão, recusando coligar-se com ela. Não conseguiu. O novo partido ganhou vida, tendo vindo desde então a entrar para os parlamentos de diversos estados alemães e tendo atingido cerca de 12% nas recentes eleições. Nesta campanha o SPD insistiu na política de exclusão de qualquer aliança nacional com Die Linke, embora já tenha entrado em coligações com ele em governos estaduais. O SPD pagou um duro preço pela sua participação no bloco central alemão nestes últimos quatro anos: desceu 11,2%, enquanto que o seu parceiro(CDU/CSU) teve uma quebra modesta de 1,4 %.
A réplica alemã do "blairismo", o chamado "Novo Centro", continua assim a sua marcha lenta mas persistente, para o abismo.


2. Um dado elucidativo, que indicia uma mudança qualitativa no sistema político alemão, é a evolução da força eleitoral dos dois maiores partidos, desde 1976 até hoje ( veja-se a infografia, acima publicada). Como vimos, o contraponto à decadência evidenciada pelo gráfico é a conjugação dos resultados dos outros três partidos, cada um dos quais ficou, pela primeira vez acima dos dez por cento, somando todos eles 37,2 %.

Mas vale a pena sublinhar que a decadência do SPD, só parcialmente foi compensada pela subida dos outros dois partidos de esquerda: o SPD desceu 11,2%, mas os outros dois só subiram, no seu todo, 5,8 %. Ou seja, metade das perdas do SPD, foram perdas da esquerda como um todo.

Este exemplo, mostra como é uma ideia simplista e precipitada, pensar que o definhamento de uma força dentro da esquerda gera uma automática compensação, traduzida no reforço de outra ou outras forças de esquerda.

[ Clicando sobre as imagens, pode aumentá-las.]

sábado, 1 de agosto de 2009

O veneno dos blocos centrais


No jornal espanhol El País, de hoje, saiu um texto, assinado por Juan Gómez, que de seguida parcialmente reproduzo, com a devida vénia. Ei-lo:


El SPD pierde el voto de apoyo del mayor sindicato alemán


IG Metall rechaza los recortes sociales aplicados por los socialdemócratas

El jefe del sindicato alemán IG Metall, Berthold Huber, ha rehusado apoyar al candidato del Partido Socialdemócrata (SPD), Frank-Walter Steinmeier, en la campaña electoral recién inaugurada. En una entrevista concedida al diario Süddeutsche Zeitung, el líder del mayor sindicato alemán señala: "Se acabaron los tiempos en los que el sindicato recomendaba el voto para unos o para otros".

Steinmeier sufre un nuevo revés en su intento de rebajar la ventaja de Merkel
El sindicato renunciará también a valorar los programas electorales para orientar a los votantes. Huber, que es militante socialdemócrata, destaca también las distancias entre su sindicato y el nuevo equipo que Steinmeier presentó el jueves como pistoletazo de salida de la campaña veraniega para las elecciones generales del 27 de septiembre.
La entrevista supone un nuevo jarro de agua fría sobre el intento socialdemócrata de recortar distancias con su actual socio de Gobierno, la Unión Cristiana Democrática (CDU) de la canciller Angela Merkel. Mientras Merkel sigue de vacaciones, Steinmeier adelantó unas semanas el inicio de su campaña y trató de colocarse en el centro de la atención mediática presentando un gabinete en la sombra.
Ahora, la falta de apoyo de IG Metall oscurece el perfil social y combativo que Steinmeier quería imprimir a sus propuestas. Ante la crisis económica, el SPD quería presentarse como defensor de los puestos de trabajo y las prestaciones sociales.
Huber dirige desde hace dos años el poderoso sindicato IG Metall, que tiene más de dos millones de afiliados. El sindicalista arremete en la entrevista contra las políticas aplicadas por sus compañeros de partido durante 11 años en el Gobierno de Alemania. Huber ataca los recortes sociales del canciller Gerhard Schröder, que gobernó entre 1998 y 2005. En su opinión, "son percibidos como una amenaza" por los trabajadores alemanes. La participación de los socialdemócratas en el Gobierno de Merkel también es objeto de las críticas de Huber, en especial el retraso de la edad de jubilación hasta los 67 años, aprobada en 2007 por la gran coalición.
Las reformas de Schröder, conocidas como Agenda 2010, abrieron una gran división entre el SPD y sus sindicatos históricamente afines. La labor conjunta de SPD y CDU durante los últimos cuatro años ha dado a Merkel un halo centrista, mientras que ha disuelto el perfil político de su contrincante socialdemócrata. Así, Huber señala en su entrevista que tiene "menos problemas con la CDU que con el FDP", en alusión al Partido Liberal Democrático con el que Merkel quiere coligarse si no logra una mayoría suficiente para gobernar en solitario.
Las críticas al equipo de Steinmeier para las elecciones llegaron también ayer desde Los Verdes. Claudia Roth, presidenta del partido, acusó a Steinmeier de intentar "dar una imagen de renovación eligiendo de nuevo a los actuales ministros".
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Dedico este texto àqueles que no PS transigem com a ideia do Bloco Central, ainda que embrulhada numa vaga ladaínha que a remete para o lugar aparentemente distante de uma última hipótese, que aliás muito convenientemente dizem indesejar. Aconselho ainda a sua leitura a quem procura amarrar o PS ao pântano da transigência com hipotéticos governos minoritários de direita. Uns e outros deviam meditar sobre o texto acima transcrito.
De facto, o que se tem vindo a esboroar na Alemanha, como reflexo da teimosia no celebrado "novo centro", agora velho de mais de uma década, é um bloco político-social que levou mais de um século a construir.
A terceira via e seus sucedâneos, podem até render, no curto prazo, vitórias eleitorais, mas a longo prazo são apenas o suicídio suave do socialismo democrático e um sério contributo para o agravamento dos problemas dos países em que se instalem.
O maior contributo que os socialistas podem dar aos seus países é o de serem eles próprios. Para políticas de complacência com a direita e para a aceitação do capitalismo como fim da história, não é necessária a esquerda. É mais do que suficiente a direita que,afinal, existe para desempenhar esse papel.

domingo, 23 de dezembro de 2007

A Lição Alemã



O político alemão Oskar Lafontaine já foi um dos dirigentes mais carismáticos do SPD , que aliás chegou a liderar. Participou numa cisão desse partido com base na discordância quanto à orientação política do governo Schröder. Hoje, é um dos principais dirigentes de uma novo partido: Die Linke (A Esquerda). As sondagens atribuem-lhe 13%, ao mesmo tempo que reduzem o SPD a uns os magros 29%, se os compararmos com os seus resultados habituais.
No diário espanhol "Público", é hoje publicada um entrevista sua, pela qual é responsável Juanma Romero. Uma vez mais, resolvi difundi-la neste blog, por me parecer um documento político do maior interesse. Registo, aliás,a qualiade dest "jovem" diário do país vizinho, que tarda em ter uma presença visível nas nossos quiosques de venda de jornais.
Oskar Lafontaine é identificado como sendo Copresidente do partido "A esquerda", dizendo-se que este ex-líder do SPD "dejó esta formación en 2005, convencido de que las reformas de Schröder estaban traicionando los valores de la izquierda y abriéndose demasiado al neoliberalismo". Eis o texto da entrevista:

" No la suelta de su boca. Taladra con ella todas sus respuestas. Dibuja por oposición el espejo antagónico. “Neoliberalismo”. Su palabra fetiche. Aquella que combate, en un mundo nuevo, el nuevo Oskar Lafontaine (Sarre, Alemania, 1943). Ex presidente de su land (el equivalente a nuestras comunidades autónomas), ex presidente del SPD, ex ministro (efímero, muy efímero) de Finanzas del primer Gabinete de Gerhard Schröder. Le suena a pasado.
Desde junio, su proyecto se llama Die Linke (La Izquierda), el partido nacido de la confluencia de los ex comunistas del Este y los desengañados del SPD. Sus aliados son ahora también más zurdos: de la relación casi fraternal con Alfonso Guerra y el PSOE, ha basculado a la cooperación con IU, que el viernes le trajo a Madrid para debatir sobre la reorientación de la política exterior. Un potente gancho electoral para Llamazares.

Creo que tengo delante al ‘ave fénix’ de Alemania. Eso se dice en su país y también fuera.
Quizá es demasiado rotundo. Pero no negaré que, en dos años, desde que se coaligaron el PDS [los poscomunistas] y la WASG [los occidentales cansados del SPD], hemos cambiado la política alemana desde la oposición. La justicia social ha vuelto a la agenda. Hemos obligado a Merkel a corregir sus medidas, en subsidios de paro, pensiones, salario mínimo... Modestamente, pero ahí están los esfuerzos para llevar la política a la izquierda.

Está disparado. Tercera fuerza y potencial electoral de un 25%.
En las generales de 2005 obtuvimos el 8,7% de los votos y ahora, los sondeos nos otorgan un 10-13%. Mejor ser prudentes. Nos apuntamos haber roto el sistema cuatripartito.

Me pregunto qué reflexiones hizo tras perder contra Helmut Köhl en 1990. ¿Pecó por ser sincero?
Lo he pensado muchas veces. Avisé contra los riesgos de una rápida unificación monetaria de las dos Alemanias. Así ocurrió. Ahora, la economía ha superado algunas dificultades, pero el desempleo es muy abultado, sobre todo en el Este.

Véndame ‘Die Linke’. ¿Qué ofrece de nuevo? ¿Qué tiene de viejo?
Nuestro reto es luchar contra los grandes destrozos que el neoliberalismo ha causado en Alemania. Trabajar por las condiciones de los trabajadores, apostar por una política exterior respetuosa con el derecho internacional. ¡Logramos que se paralizase la privatización del ferrocarril! Los Verdes han tildado de erróneos sus recortes sociales con Schröder. ¡Claro! Lo dijo Jean Jaurès: “El capitalismo acarrea la guerra como las nubes la lluvia”.

¿Y no será difícil mantener la convivencia del PDS y la WASG? ¿Son un partido homogéneo?
Los ex comunistas han evolucionado como en otros países. Yo mismo, cuando propuse la fusión, miré con detalle ambos programas, y eran prácticamente idénticos. Hay mentalidades diferentes, pero como las hay entre vascos o catalanes de un mismo partido. Las discusiones internas no son más agrias que las de otras formaciones.

¿Y el SPD? Le sitúan por debajo del 29%. ¿Ha llegado a tocar fondo?
[Medita] Propongo otra pregunta: ¿va a corregir su política fallida?
Va reculando en los últimos meses
Deberá aclarar si reorienta su programa. Si no, caerá más. También le empujamos. Die Linke ha surgido a raíz de la política equivocada del SPD.

Y del desencanto y de la falta de un líder como Schröder
Lo decisivo es que ni trabajadores ni pensionistas se reconocen en el SPD.

¿Se reforma o se destruye?
Si no cambia, se desplomará, sí.

¿A pesar de Kurt Beck?
El presidente del SPD apoyaba hasta hace poco tiempo la dirección de su partido y del Gobierno. Ahora revisa sus convicciones. De acuerdo. Esperaré a ver cómo evoluciona.

Una eventual alianza con el SPD se cobraría peajes. Freno a las rebajas del Estado del bienestar y...
Retirada de las tropas. Ésa es nuestra línea roja. Dos condiciones básicas.

¿Es compatible la globalización con un Estado grueso?
Por supuesto. El neoliberalismo propala una gran mentira: la sociedad actual, más rica, no puede permitirse un Estado fuerte que sí era viable en una sociedad más pobre. No tiene lógica ese razonamiento. Pero cala.

¿Merkel ha arramblado con el SPD, sus dirigentes y sus ideas?
La CDU sólo ha arañado una ventaja de tres puntos con respecto a 2005. Siete ha bajado el SPD. Merkel habla de justicia social, se ha separado de sus creencias más derechistas, pero su neoliberalismo está ahí. Ha bajado impuestos a las empresas, ha subido el IVA. Los alemanes no palpan el crecimiento.

Es vista como una líder europea.
Son valoraciones. Prefiero hechos. En la cumbre del G-8, en Heiligendamm, Merkel dijo haber arrebatado a Bush un cambio en política medioambiental. Bali lo ha desmontado.

¿Es una canciller de transición?
[Se lo piensa] No puedo predecir cuánto se mantendrá. Pero no tiene agenda propia. Le falta identidad.

Facilitó el Tratado de Lisboa
Quizá contribuyó a que los gobiernos se pusieran de acuerdo. Sin embargo, Europa no debe ser un proyecto antidemocrático, de las grandes empresas, sino de los ciudadanos, a los que no se va a consultar. Craso error.

Le pido una reflexión de la izquierda europea. Ségolène Royal se hundió, Prodi pasa apuros y Zapatero quizá no gane
La izquierda europea ha perdido credibilidad. Se ha abierto demasiado al neoliberalismo, que significa destrucción del orden social. Si regresa a sus orígenes, volverá a ganar.

De ahí sus relaciones con IU
Sintonizamos. Fundamos en 2004 con ellos el Partido de la Izquierda Europea. Queremos promover una nueva izquierda, preocupada por una Europa democrática y social.

Mencionaba la subsistencia del Estado del bienestar. La inmigración es un dilema global
La integración nos preocupa, cómo no. Primero hay que procurar que los inmigrantes aprendan el idioma local y que existan suficientes posibilidades de empleo para todos.

¿Y el terrorismo? ¿Ve una psicosis colectiva por la seguridad?
Son necesarias medidas. Aún más respetar el derecho internacional.

No querría eludir su parecer sobre la política de Zapatero.
No la conozco a fondo. Me impresionó cómo retiró las tropas de Irak.
devo diser. "
Comentário-
Há uma hipoteca política invisível que pesa sobre a esquerda alemã no seu conjunto: não ter sabido encontrar uma solução política que desse corpo a um goveno de esquerda, tal como os resultados eleitorais das mais recentes eleições indicavam. De facto, os democratas-cristãos mais os seus aliados sociais-cristãos conseguiram apenas algumas décimas de vantagem sobre o SPD. A CDU mais os liberais do FDP não bastavam para gerar uma maioria parlamentar.Mas a soma dos deputados eleitos pelo SPD, pelos Verdes e pela Aliança de Esquerda ( hoje, "A Esquerda"), conduzia a uma clara maioria parlamentar. O SPD, contudo, preferiu uma Grande Aliança com a CDU da Srª Merkl. Desapareceu debaixo das asas da nova líder. As sondagens, como atrás se viu, já o assombram, tendo começado a revelar-se algumas clivagens no seu interior.
Se a anemia do SPD levar a SrªMerkl a um segundo mandato, mas desta vez sem o contrapeso dos seus adversários, ninguém sabe como evoluirá no quadriénio seguinte a relação de forças no seio da esquerda alemã. Conservará o SPD o nível de predomínio actual ?
Mas se por um daqueles caprichos da sorte em que a política é fértil, se repetir um resultado semelhante ao das últimas eleições, mas agora com um SPD ainda mais fraco e com os seus parceiros de esquerda mais fortes, dificilmente se poderá repetir uma grande coligação. E se, nestas circunstâncias, acabar por se chegar a uma solução que afaste a direita do poder, poderá então perguntar-se por que não foi ela encontrada mais cedo, de modo a impedir-se o consulado da Srª Merkl.
É visível que, para além destas reflexões, radicadas no incontornável argumento da relação de forças, há uma grande dificuldade política no estabelecimento de uma aliança de esquerda na Alemanha. Bem maior do que a que a implicada por uma inflexão da política do SPD que tivesse tido em conta todas as sensibilidades internas, de modo a retirar espaço a qualquer dinâmica de cisão. Isso não aconteceu, a cisão ocorreu e agora a realidade é a que é.
Mas há outros países em que outros partidos socialistas devenm olhar com atenção para o que vai ocorrendo na Alemanha. De facto, é sempre mais fácil encontrar equilíbrios e chegar a consensos, no quadro de um mesmo partido do que a partir de diferentes instâncias partidárias. E as rupturas serão sempre mais fáceis de prevenir, quando se compreende que a regra da maioria não exprime por si só a natural e desejável diversidade de um grande partido de esquerda.
Por isso, as minorias, especialemente quando bem enraizdas na identidade histórica do partido e na sua projecção futura e quando disponham de uma base social espontânea e duradoura, não podem ser ignoradas politicamente. Politicamente, sublinhe-se, e não apenas convivial e simbolicamente.
De facto, as cisões mais perigosas são as que levam tempo a amadurecer, por derivarem muito menos de protagonismos pessoais de circunstância do que de uma dinâmica social e política profunda e estratégica, eventualmente potenciada por movimentos duradouros de uma parte do respectivo eleitorado para fora do seu voto habitual.
Por tudo isso, se as minorias não devem ser sectárias nem intransigentes, a maioria também não pode ser politicamente autista nem arrogante.

domingo, 28 de outubro de 2007

Mais vale prevenir do que remediar...


O jornal espanhol "El País" publicou hoje um texto de José Comas que com a devida vénia transcrevemos. Os socialistas portugueses, em especial os órgãos nacionais do partido, não podem ignorar os factos e as indicações que o Congresso aqui relatado lhes oferece. Nós ainda estamos a tempo de evitar seguir o mesmo triste trajecto. Como o povo nos ensina : "Vale mais prevenir do que remediar."
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El SPD contenta a la izquierda con sus nuevas propuestas

Las iniciativas del congreso socialdemócrata alemán disgustan a la CDU, su aliada en el Gobierno federal

JOSÉ COMAS - Berlín - 28/10/2007

Las resoluciones del congreso que los socialdemócratas alemanes celebran este fin de semana en Hamburgo han tenido buena acogida en los partidos de oposición, La Izquierda y Los Verdes, pero recibieron fuertes críticas por parte de los democristianos (CDU/CSU), socios del SPD en el Gobierno federal.
En el congreso intervino ayer el vicecanciller y ministro de Trabajo, Franz Müntefering, que en las últimas semanas libró una dura batalla contra su presidente del SPD, el primer ministro de Renania-Palatinado, Kurt Beck, para no modificar los recortes que la Agenda 2010 de Schröder había aprobado para los parados. Müntefering no tocó el tema en su discurso. El conflicto ha quedado barrido bajo la alfombra y al concluir su discurso se estrechó la mano con Beck en un gesto de reconciliación.
El SPD y Beck intentan por todos los medios frenar la irresistible caída del partido en los sondeos de intención de voto, que se mueven en torno al 25%, casi quince puntos menos que la CDU/CSU. El partido, que en 140 años de historia adquirió la fama de ser el defensor de los más débiles y paladín de la justicia social, pagó con una enorme sangría de votos y militantes la política de recortes sociales que llevó adelante el canciller Gerhard Schröder (SPD) en coalición con Los Verdes. Beck parece haber encontrado en la corrección de esa política un trampolín para intentar subir la cotización demoscópica del SPD.
Cambio climático
El congreso del SPD camina en esta dirección, dar marcha atrás en algunas de las reformas y actuar como contrapeso al socio de coalición, los democristianos (CDU/CSU), a los que acusan de neoliberalismo desalmado. La tarea del SPD no resultará nada fácil. La canciller Angela Merkel (CDU) se ha destapado como una especie de criptosocialdemócrata que ha sorprendido a los sectores más conservadores de su partido y le ha robado el espectáculo al SPD en temas como el clima o la política de protección a la familia.
Conscientes de la necesidad de recuperar la imagen progresista, los delegados del SPD aprobaron mociones en esa dirección. La sorpresa ayer fue la resolución a favor de limitar la velocidad en las autopistas a 130 kilómetros por hora para reducir la emisión de gases nocivos, en contra de la dirección del partido. La no limitación de velocidad es una de las vacas sagradas en Alemania, defendida por la industria del automóvil y muchos ciudadanos. Cuando llegó a adquirir visos de realidad la posibilidad de reducir la velocidad, surgieron las pegatinas en los coches con la frase "ciudadanos libres exigen vía libre". La resolución de limitar la velocidad es en realidad un brindis al sol, porque no tiene la menor posibilidad de lograr una mayoría parlamentaria, pero queda como un gesto, un mensaje que el antiguo socio de coalición Los Verdes acogió con satisfacción.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Desventuras do SPD ou o preço da rendição.



Se a Alemanha se constipa a Europa espirra. Sob as águas plácidas da grande coligação o SPD vê crescer a angústia dos seus eleitores e dos seus militantes. Aproxima-se um Congresso decisivo. Será que os sociais-democratas alemães vão "pagar o pato" tranquilamente saboreado pelos seus parceiros de coligação, com a Srº Merkl espreguiçando-se sensualmente numa popularidade crescente ?
É neste contexto que me permito transcrever um artigo do "El Pais" de hoje que aborda essa problemática.


El SPD alemán, en caída libre

La división interna y la aparición del partido La Izquierda afectan a los socialdemócratas

JOSÉ COMAS - Berlín - 09/10/2007


El Partido Socialdemócrata de Alemania (SPD), que a finales del mes de octubre celebrará un importante congreso en Hamburgo para renovar sus dirigentes y el programa, sigue hundido en los sondeos de intención de voto. Al mismo tiempo, el SPD atraviesa una crisis de liderazgo que deja en entredicho a su presidente, el primer ministro de Renania-Palatinado, Kurt Beck, de 58 años, y además se abre una profunda división sobre la línea que debe seguir el partido. En vísperas del congreso de Hamburgo, los socialdemócratas alemanes discuten sobre si avanzar en el programa de recortes sociales Agenda 2010, iniciado por el canciller Gerhard Schröder en el gobierno, o dar marcha atrás para recuperar el voto de la izquierda y a los descontentos.
El presidente del SPD no pudo aguantar más. Indignado por el fuego amigo y las emboscadas de algunos de sus compañeros de partido, Beck dio un puñetazo en la mesa en una reunión de la presidencia en Berlín y pronunció una frase que hizo las delicias de la prensa y ocupó los titulares: "No estoy dispuesto a soportar esta mierda por más tiempo". Beck tiene una apariencia apacible, de gordo bueno, pero la permanente puesta en tela de juicio desde sus propias filas de su capacidad para dirigir el SPD le agotó la paciencia. En posteriores entrevistas Beck explicó el motivo de su exabrupto: "Alguna gente de tercera o cuarta fila que se esconde tras los arbustos y dice cosas más o menos inteligentes, pero irresponsables. No voy a tolerar que se entorpezca el trabajo de construcción en el que estamos empeñados".
Lo de tercera o cuarta fila es un eufemismo. Beck podía haber pronunciado con más propiedad la histórica frase "el enemigo está dentro", incluso en la primera línea del SPD. Apenas un par de días antes de la bronca de Beck dos de sus futuros vicepresidentes, el ministro de Exteriores, Frank Steinmeier, de 51 años, y el de Hacienda, Peer Steinbrück, de 60, que saldrán elegidos en el congreso de Hamburgo, más su antecesor en el cargo de presidente del SPD, el primer ministro de Brandeburgo, Matthias Platzeck, de 53 años, presentaron en la sede del partido en Berlín un libro con el título A la altura de los tiempos. Llamó la atención la ausencia de Beck en un acto que congregó a los primeros espadas del partido y que no figurase entre los autores de un libro que contiene una propuesta programática que consiste en continuar la línea trazada por el Gobierno de Schröder con la Agenda 2010 de recortes sociales para sanear las cuentas públicas y la Seguridad Social.
La izquierda del SPD, representada por la futura vicepresidenta Andrea Nahles, de 37 años, y el diputado Ottmar Schreiner, de 61, se oponen a las propuestas del trío Steinbrück-Steinmeier-Platzeck. Sostiene Schreiner la necesidad de corregir las reformas que introdujo el canciller Schröder: "Tenemos que mirar adelante y si algo salió mal hay que tener el valor de corregirlo". El deslenguado ministro de Hacienda Steinbrück calificó de "llorones" a los que se oponen a llevar adelante el programa de recortes que, según sus defensores en el SPD e incluso sectores de los socios de gran coalición democristianos (CDU / CSU), ha sentado las bases de la actual recuperación económica.
En esta división en las filas socialdemócratas, Beck ha optado por situarse al lado de la izquierda del SPD y ha propuesto modificaciones en la Agenda 2010 tales como aumentar el periodo de percepción del seguro de desempleo. No se sabe si cuando Beck llamó la atención sobre los que le disparaban escondidos tras los arbustos pensaba en el vicecanciller y ministro de Trabajo, Franz Müntefering, de 67 años. Este veterano político ex presidente del partido salió al paso de las propuestas de Beck y afirmó que no se puede dar marcha atrás en las reformas. El enfrentamiento entre estos dos pesos pesados, Beck y Müntefering, es el tercero en poco tiempo. A la propuesta de Beck de que ha de intentarse la prohibición del neonazi Partido Nacional Democrático (NPD) se opuso Müntefering. Cuando Beck dijo que el SPD nunca formaría coalición en el oeste de Alemania con el partido La Izquierda, Müntefering replicó que esa decisión corresponde a los dirigentes de cada land y no a la dirección federal del partido.
Todas estas divisiones socavan el liderazgo del presidente del partido, que sigue refugiado en su gobierno de Renania-Palatinado, a 700 kilómetros de Berlín, donde se cuecen las decisiones políticas. La ausencia de Beck deja un vacío que ocupan sus potenciales competidores con declaraciones que evidencian la división existente y la falta de un rumbo claro en la socialdemocracia.
Esta situación tiene reflejo en los sondeos de intención de voto. Los más recientes dejan al SPD en torno a un 25%, casi 15 puntos menos que los democristianos (CDU / CSU), que acarician el 40%. Más de un 70% aprueba la gestión de la canciller democristiana, Angela Merkel. En un enfrentamiento electoral simulado, Merkel arrollaría a Beck, que ni siquiera ganaría la votación entre los que se declaran simpatizantes del SPD.
Con un líder en tela de juicio y sin rumbo programático, el SPD celebrará a final de mes un congreso que deberá elegir la nueva dirección. La suerte de Beck es la ausencia de alternativa. Tal vez porque en el SPD nadie está por la labor de quemarse en lo que parece una derrota anunciada en las elecciones de 2009, aunque hasta entonces las cosas pueden dar muchas vueltas. La socialdemocracia alemana está en crisis y a punto de perder por la izquierda una vez más en su historia los votos y la adhesión de los jóvenes. En los ochenta la aparición del partido ecopacifista Los Verdes supuso una enorme sangría de votos y militantes a la izquierda del SPD.
Ahora esto podría repetirse con la irrupción de La Izquierda, el partido formado por los poscomunistas del Este y los socialdemócratas decepcionados del oeste. Los últimos sondeos dan a La Izquierda una intención de voto del 12%, que se produce a costa del SPD. Un dato pone de manifiesto el envejecimiento del SPD, además de la caída vertiginosa de afiliados. La media de edad de sus militantes ronda los 58 años.