Tuesday, May 12, 2026
Friday, May 08, 2026
Férias
Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar como um abraço.
Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.
Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão
E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.
Ary dos Santos, O sangue das Palavras
Sunday, May 03, 2026
Pavana para uma burguesa defunta
A cabeça de vaca da minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.
Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.
A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.
A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim i não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.
Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.
Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
– não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.
A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
Do senhor que a devora em sua santa glória.
ary dos santos
vinte anos de poesia
insofrimento in sofrimento, 1969
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