cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





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18.3.18

histoire de pieds (101)


échec et mat
ou saindo daqui entro na primeira pastelaria que aparecer para comer um xadrez

9.4.17

histoire de pieds (99) ou avoir le blues



a minha filha foi de ferias com o pai ontem à noite e sinto-me estranha neste reencontro comigo.

acordar de manha espontaneamente, sem a voz dela. a casa silenciosa. o fumo do incenso. as janelas abertas. uma pequena corrente de ar a voar pela casa. a radar a tocar. uma chávena  de café em cima do banco de madeira novo.
estou de folga hoje e amanha e quase que nem sei bem o que fazer com o tempo sabendo que ele é inteiramente meu. já tenho saudades dela. o cliché ou a verdade. esta dificuldade em lidar com a separação, mesmo que seja uma separação natural. 2017 tera sido um ano rico em separações para mim. de pessoas. umas de forma definitiva. outras, de forma oficial. separar-me de casas. separar-me de memórias. separar-me de sentimentos.

je crois que j'ai le blues

27.2.17

para sempre



o meu pai morreu. 

faz 15 dias e acho que so percebi isso hoje. os estores da casa dele nunca mais abriram. ele nunca mais veio à janela ver-me entrar em casa. nunca mais me pediu para comprar bolos com creme. nunca mais fez sons com a boca ou bateu palmas para nos chamar. o meu pai era um excelente conversador e tiraram-lhe as cordas  vocais. deixou de falar e essa foi a primeira facada que lhe deram. ele aprendeu a viver com isso. muito melhor do que alguma vez eu imaginei. até ele. tinha muito orgulho quando lhe diziam que percebiam perfeitamente o que ele dizia. nao quis fazer a terapia da fala nem a fisioterapia. gostava mais de estar sentado na esplanada do café a ver passar as pessoas, a beber um copo e a conversar com quem quisesse sentar-se na mesa dele. era um homem cheio de bondade, muito generoso, um amigo fiel. 

o meu pai e a minha mae fizeram-nos a mim e ao meu irmao. quase tudo o que somos hoje devemos-lhes a eles. estavam separados ha muitos anos. refizeram as respectivas vidas com outras pessoas. ficaram amigos. como é que nao se fica amigo de alguem com quem se passou mais de um terço da vida e se teve filhos? os meus pais sempre acharam que os filhos eram preciosos e sempre nos fizeram sentir isso. vejo a minha mae a olhar para o meu pai ja sem poder dizer uma palavra e imagino-a a pensar nisso. a lembrar-se do homem por quem se apaixonou, que amou e que lhe deu dois filhos.
e como é que se acredita que uma pessoa que nos é tao proxima nao possa dizer mais nada, nunca mais? o meu pai que estava sempre à escuta, sempre que o chamavamos respondia logo "diz" ou ia imediatamente ver o que se passava. isso valeu-lhe uma cicatriz no rosto. era destemido. dava a camisola dele ao proximo e ficava despido, se fosse preciso. pouco lhe escapava. nao ficava na duvida, agia. o meu pai atirou-se à agua para salvar uma pessoa. sem pensar se ela estaria a brincar ou nao. nadou até la ao fundo. foi ver o que se passava e trouxe-a pela agua até à terra, fez-lhe respiraçao boca a boca e salvou-a. o meu pai saiu de casa a meio da noite quando ouviu a vizinha da frente gritar. nao sabia se era ladrao, se era o marido, se era brincadeira. foi la ver o que se passava. e agora eu estou ao lado dele, olho para o meu pai mas nao é ele que vejo. digo muitas vezes baixinho "pai. pai. pai" e ele nao pode ouvir-me e nao vira a correr ver o que se passa.

hoje andei pela cidade sempre a pé. de benfica, em direcçao à gulkenkian, para ir ver o almada. no caminho passei em frente ao hospital e foi ai que me caiu a ficha. foi ha duas semanas. estivemos 4 dias à espera de vê-lo morrer. esses dias foram terriveis. mas os que os precederam foram ainda piores porque tinhamos esperança. se ele comia um queque inteiro queria dizer que estava a melhorar. e agarramo-nos a isso. queremos acreditar que o milagre é para nos. lembro-me dessa quinta-feira. entrei no quarto e ele estava cansado. fechava e abria os olhos muito devagar. nao queria deixar cair as lagrimas, mas ja nao consegui. ele olhou para mim e perguntou-me se tinha pus nos olhos. chorei. chorei. chorei. disse-lhe para ele descansar e fiquei so ali a chorar agarrada à mao dele. o meu pai sabia qualquer coisa que nunca nos disse e decerto que pediu aos medicos para nao nos dizerem também. de vez em quando ficava muito sério e dizia "estou lixado".
uma noite a médica foi ao quarto, falou com ele e disse que se ele nao estivesse bem que podia po-lo a dormir para ficar mais confortavel. eu deixei de respirar e olhei para o meu pai porque vi que ele percebeu a mesma coisa que eu. quis gritar e dizer "nao. nao. nao."mas nao fui capaz. o meu pai disse à medica que ia pensar nessa noite e que lhe dizia na manha seguinte. pediu-lhe um beijo. ela deu-lho e saiu do quarto. e veio o dia seguinte e ele esteve sempre a dormir. e no outro também. e no outro. e no outro. e nunca mais acordou. morreu poucos minutos antes do dia dos namorados. de certeza que o fez de proposito. como se nos ligassemos alguma a isso. 
o meu pai vivia no alentejo, ha muitos anos. era um rapaz da lapa, com uma costela de alcantara e outra da madragoa, mas adorava a calma do alentejo, a proximidade com o mar, a pesca. e foi para la que ele foi. tenho a certeza que naquela praia nunca morrera ninguem. acredito nisso do fundo do coraçao. como acredito que ele esta por aqui. as vezes, em segredo peço-lhe um sinal, mas sei que ele nunca mo dara. para nao me fazer medo.

16.9.15

histoire de pieds (95)


quase quase outono.
umas galochas bimbas. um chapeu de chuva lola e um saco com cheiro a café e a palermo.
e assim vou caminhando para uma das minhas estacoes preferidas. sou uma rapariga morna. sou uma rapariga de meio termo. uma rapariga cinzenta. uma rapariga de sorrisos.

17.6.15

da feira do livro


eu continuo a pensar que nao sei como é que isto foi acontecer. por pouco nao ia à feira e, nao tivesse sido um compromisso para os lados de s. sebastiao acho que tinha ficado para o ano que vem. entrei por cima e foi pela calçada abaixo, triste, como sempre, pelas bancas sem espirito de feira. do lado esquerdo, de quem desce, comprei um livro na banca do ispa sobre gestao de conflitos no trabalho e fui fazendo slalom. vi a banca da minerva e nem queria acreditar que eles ainda existem. disse-me o senhor que sao a mais antiga editora portuguesa e que contam com 13 funcionarios. ficamos um bom bocado à conversa depois de ele ver-me sorrir ao pegar no livro "o pequeno alpino", uma historia juvenil, passada nos alpes, mesmo ali depois da fronteira onde fomos passear tantos fins-de-semana. continuei a descer até que rapidamente cheguei ao final e era tempo de subir. ja do outro lado, trouxe dois livros do banho para mademoiselle: um pato (ela adora amarelo) e um sapo e, para mim, comprei um livro que nunca pensei ter nas minhas prateleiras e que em tempos me enjoou. trata do assunto da inteligência emocional no trabalho… parece que ando focalizada neste assunto. entre o sobe e desce parei na banca das farturas e quando vi que havia churros gigantes com recheio de doce de leite nunca mais me lembrei das ditas. fiquei pegajosa, mas sobretudo desiludida. é que os churros tinham um buraco aberto dos dois lados e o doce de leite recheou apenas o pacote que me permitia pegar no churro, de maneira que o comi avidamente esperando com ansiedade chegar ao recheio, mas sem sucesso. fiquei embuchada e, desesperada, andei a raspar o cartao com o indicador, por um doce de leite de meia tigela.

4.6.15

histoire de pieds (91)


sao os mesmos sapatos nas ultimas historias de pés. comprei-os num dia que vinha do dentista, dobrava a esquina na av. da republica com a duque d'avila quando vi uma sapataria pequenina em saldos. entrei e experimentei. estavam com um desconto generoso e tirei uma nota de 10€ da carteira para os pagar. nao recebi troco. vim com eles para casa, nunca me fizeram doer os pés e vao comigo para todo o lado, como se tem visto. mereciam esta pequena historia, em frente à casa dos bicos, actual fundaçao saramago.

9.3.15

histoire de pieds (84) e um parque novo



descobri um parque mesmo atras da minha casa que sempre esteve ali e eu nunca tinha dado por ele. um bairro pode surpreender-nos passados tantos anos. trata-se do parque do calhau. para mim é o parque mais parque da cidade, com florestas, prados de flores e relva, sombras, muitos lugares ao sol… é daqueles parques onde apetece pousar uma  manta grande e adormecer com o sol morno da primavera, num suspiro de felicidade. maravilhosa descoberta!