Um pai vale mais do que uma centena de mestres-escola.
(George Herbert)
A semana que hoje começa vai ser por mim inteiramente dedicada ao pai, em especial ao meu.
Já várias vezes escrevi sobre ele, mas há algum tempo, comecei a escrever pequenos textos baseados na sua vida. Dei-lhe o nome de Histórias da Serra, pois o seu percurso de vida foi semelhante ao de muitos rapazes que nasceram e cresceram na serra, partindo depois em busca de vida melhor.
Penso fazer também um capítulo que dedicarei aos que não partiram e continuaram a sua luta nas agruras da serra.
Os textos não retratam fielmente a vida do meu pai mas são, em grande parte, inspirados nela. Do tema Histórias da Serra, faz parte também uma história de vida passada no feminino. Essa é inspirada na vida da minha mãe, que a certa altura se cruza com a do meu pai, para iniciarem uma nova história -a minha - a vida duma lisboeta com o coração na serra.
E como a semana vai ser do pai, a melhor forma de a iniciar será com uma poesia.
Desta vez, o autor é Pablo Neruda, numa tradução de Rui Lage.
Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.