segunda-feira, junho 30, 2008

A vingança da gorda


Foto de Leonard Nimoy


É o funcionário novo lá na fábrica. Terá os seus 16 anos, idade legal para o trabalho, e anda a dar serventia. Tem a mania que é poeta. Se calhar é poeta, não sei, mas que eu sou cabra velha é uma certeza, e costumo dizer-lhe, olha lá, isto dos teus olhos são estrelas, eu percebo, eu e toda a gente, mas não tens maneira diferente de dizer a mesma coisa?
Ah, não interessa, responde-me o puto, as miúdas gostam. Está bem, meu amigo, mas a poesia é uma espécie de território sagrado, não é para engatar miúdas. Pode servir-te como isco, mas então chama-lhe isco. Prefiro que me digas, escrevi aqui este isco, veja lá, Isabela, o que é que acha. Percebes o que estou a dizer? Percebo. Não percebes nada. Não percebes nada de nada. Não fazes a menor ideia do que seja a poesia. E o pior que pode haver é um poeta vaidoso. São aos milhares, e não há nada pior. Um poeta vaidoso é pior que uma praga de pulgas na carpete da sala. Livre-nos Deus. Não percebes nada do que te digo, pois não? Percebo. Não mintas. Estás a zeros. Não estou nada.
Isto passou. O rapaz nunca mais me mostrou os poemas, graças aos céus.
Esta semana encontrei-o no autocarro. Sorrimos. É giro o rapaz. Tem as faces rosadas, ainda um certo ar de menino. Não fosse a vaidade poética, e simpatizaria mais com ele.

Saímos na paragem da fábrica, e quando se encontra a meu lado, mesmo junto à porta do autocarro, e lhe sorrio, descendo, o poeta vaidoso diz-me, veja lá não tombe o autocarro pró seu lado. Fixei-lhe o olhar, atravessando-o, já não sorrindo, e segui o meu caminho. Não tombe o autocarro?!; o sacana, o grande cabrão estaria a chamar-me gorda? Ai, pois estava, pois estava. Não tombe o autocarro, grande cumprimento matinal, sim senhor. E eu a pensar que me tinha livrado, com a adultícia, dos insultos adolescentes sobre a gordura. Lindo. Fiquei a matutar. O comentário jocoso devia ter caído em saco roto, mas não caiu, porque os fundos estão ainda bem cosidos. Devia ter-lhe dito, ó grande marmanjo, gorda é a tua vaidade. Devia ter-lhe dito, eu sei lá, qualquer coisa com espírito, que desvalorizasse a gordura, que desproblematizasse a questão. Mas não me ocorreu. Não fui capaz. Fiquei paralisada naquilo, no gorda, gorda, gorda... como um eco, como quem tem medo de elevadores ou de andar de avião.
A chamar-me gorda... Espera lá, espera, meu cabranito. Hás-de cá vir com os teus poemas da tanga, hás-de cá vir, hás-de, hás-de, meu menino!

domingo, junho 29, 2008

O inferno de sábado à noite


Queria só comunicar aos organizadores do Arraial Pride que tudo bem, ok, até às quatro da manhã no Terreiro do Paço, e com música electrónica, ou house, ou seja lá o que for que chamam ao que passaram, e que nós, em Almada, tivemos que suportar, porque o raio do vento estava de feição, e nos trazia a barulheira toda de chapada, atravessando as janelas, as paredes, a caixa craniana, e não deixando ninguém dormir, nem no meu prédio nem nos restantes. Moro aqui há um ror de anos e não me lembro, nunca, de uma festa no Terreiro do Paço nos trazer tanto chinfrineira. Pensei que fossem os tarados do prédio ao lado, pensei que fossem os do tunning num carro lá em baixo, pensei que fosse uma rave algures no bairro, até que avistei o jogo de luzes intensas e ritmadas do outro lado do rio.
Se temos que gramar barulho deste calibre, e até às quatro da manhã, para o ano ponham a Gloria Gaynor, por favor, ou a Tina Turner, ou os Queen ou qualquer outra coisa realmente gay, ou seja, gira.
Gosto muito de festa, sou toda a favor, mas o pessoal aqui no bairro precisa muito de dormir, que levanta-se cedo, e o descanso é sagrado. Caramba, até às quatro da manhã?

sexta-feira, junho 27, 2008

Serão as mulheres capazes de chefiar uma estação espacial?



Não sei se Golda Meir, Indira Ghandi, Margaret Thatcher exerceram política como mulheres, porque não sei o que seja a política exercida por mulheres, ou seja, com a sua marca. Creio que cada uma delas fez o que os homens esperariam ver feito, porque disso dependia a sua credibilidade enquanto agentes governativos. Todos estariam à espera de vê-las ser diferentes, de vê-las falhar, para concluírem, agiram como mulheres! Elas sabiam.

As mulheres, todas, eu não fui excepção, têm sido educadas profissionalmente para agir como homens, ou seja, para agir de acordo com um status quo que não reflecte uma voz feminina. Angela Merkel governa como uma mulher ou como um homem? Vejamos, como se detecta a voz feminina de Merkel? E o que é uma voz feminina? A minha voz é feminina?
Há neste momento mulheres desempenhando altos cargos na Europa, sobretudo a Norte e no Leste. Fazem melhor que os homens? Pergunto, realmente. Quero saber.
Se eu fosse deputada agiria de acordo com os meus valores humanos e profissionais aprendidos num mundo de homens, para homens. Que tipo de política seria a minha? Terei eu conseguido subtrair-me a essa ordem? Serei capaz de ser diferente?

Os fenómenos históricos e sociais repetem-se; e só muda o motivo, não o modus operandi: quando as mulheres começaram a conduzir automóveis, haviam de ter acidentes porque eram mulheres e nada percebiam de pedais de embraiagem, e quando começaram a exercer profissões liberais, seriam piores profissionais porque eram mulheres, e teriam dores na data da menstruação. Daqui a uns anos haveremos de discutir se as mulheres serão eficientes como responsáveis máximas por estações espaciais. Vai ser igualzinho. Os argumentos de sempre.

A feminização de uma actividade tem tido como tendência a sua descredibilização, o que aconteceu, por exemplo, com a classe docente, que perdeu poder à medida que as escolas se encheram de mulheres. Vamos ver o que acontecerá com a classe médica, dentro de dez anos, quando os mais velhos se reformarem.
De igual forma, ainda hoje, uma escritora não vale o mesmo que um escritor, porque o escritor debruça-se sobre assuntos universais e sérios, enquanto uma escritora mergulha em intimidades, no amor, na vida quotidiana, etc., etc. Em literatura, os interesses das mulheres inferiorizam as obras que publicam. Porque os homens, como o Pedro Paixão, entre outros, podem à vontade escrever sobre amor e intimidades que permanecem escritores de créditos firmados.

Por esta ordem de ideias, feminizar a política implicaria uma diminuição do seu poder, consciência que as mulheres que a praticam têm tido, mantendo o adequado low profile. Não o manter tem consequências que passam pela não inclusão em listas eleitorais ou não nomeação para cargos.

Não me interessa saber que diferenças e semelhanças juntam ou separam homens e mulheres no que respeita às capacidades das suas naturezas biológicas. Estou para além das influências determinantes da cultura na formação das identidades femininas e masculinas. Sempre houve homens com capacidades ditas femininas, e vice-versa. Toda essa fronteira que ao longo dos tempos, e na nossa cultura, se estabeleceu entre feminino e masculino, cada vez menos se aplica. Eu diria que vai morrendo devagar. Mas que morre.

O que interessa, na política, e fora dela, é que quem a faz, a faça com justiça, respeito e cuidado pelo que cuida. Ouvindo, reflectindo e executando. E que essa execução não ignore que, à partida, somos todos gente de bem, porque os que não forem, tratam-se à parte.
E que se fale claramente, sem medo dos lobbies de poder. Sem medo. Sem farsas. Sem medo. Sem nada de especial para mostrar, a não ser a vontade de melhorar. Pedindo ajuda, quando for necessário. E como tem sido.
Como mulher, como ser humano, falo muito, digo muito o que penso, com sinceridade, e peço muita ajuda, porque preciso, e pergunto, e indigno-me, e ralho, e dou atenção, e ouço, ouço, e respondo, e recuso padrinhos e subornos. Sou um ser racional e emocional. Tenho dois lados e não escondo nenhum. Isto é feminino? Não, pois não?! São valores humanos. É isso que quero ver na política.
Claro que quero ver muitas mulheres na política, mas se um homem for capaz de governar desta forma, para mim serve lindamente.

quinta-feira, junho 26, 2008

História sem moral I


O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade.
Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.

quarta-feira, junho 25, 2008

Como eles falam das mulheres


Vinham entrando no café a falar de mulheres. Dois homens. Um deles, jovem, alto, de cabelo ondulado, pele clara. O outro, de 40 e tal, 50, envelhecido, cabelo branco, crespo, pele escura, baixo. Ambos vestidos com roupa de trabalho num dia feriado. Oficina. Biscates em obras. Uma ou outra.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...

Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.

A mulher com cabeça de cão

Dificilmente conseguiria arranjar imagem com que melhor me identificasse para a nova fase d' O Mundo Perfeito. A modificação feita pelo Indigente Andrajoso reflecte exactamente como me sinto: uma mulher com cabeça de cão. Até podia dar novo nome ao blogue. Esse.

terça-feira, junho 24, 2008

Euforia


Conheço gente que para se sentir eufórica toma estimulantes proibidos pela Lei, ou faz 20 piscinas de uma só vez, e sorri, ou corre a meia-maratona de Lisboa, e outras, ou se expõe a aventuras e perigos altamente... perigosos, como escalar as paredes rochosas de um abismo ou, pior, engatar um desconhecido no acesso a uma estação de metro à uma da manhã ou no Jardim do Princípe Real a qualquer hora do dia.
A mim, basta-me que a roupa que a secar no arame esteja toda direitinha de manhã, quando a recolho, e não precise do ferro de engomar.

segunda-feira, junho 23, 2008

Como se não fosse preta

Foto: Mary Ellen Mark


Para o Carlos Narciso


Já disse à minha filha, tem cuidado, que o teu marido é homem, e, como se não bastasse, preto, por isso, se vais lá para Cabo Verde ter com ele, tem cuidado; qualquer dia estás metida na cozinha a fazer petiscos para ele e para os amigos, enquanto vêem bola e bebem que nem esponjas. Já lhe deixei o sermão. Oh, há lá homem que seja diferente.... não é por ele ser meu genro que há-de ser melhor que os outros.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.

Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.

domingo, junho 22, 2008

Franjas de comportamento marginal


Alberto Gonçalves, sociólogo, com coluna em página direita do Diário de Notícias de hoje, dá destaque, com foto, ao casamento de duas lésbicas americanas, senhoras que já passaram os 70 anos, beijando-se no final da cerimónia de casamento. As duas mulheres viviam maritalmente há 55 anos e só agora puderam casar-se legalmente.
O sociólogo não questiona o casamento, mas que aqueles que pertencem às "franjas de comportamento marginal", e a expressão é minha, os quais sempre desprezaram o casamento enquanto instituição, optem por tal via assim que se torna possível. E pergunta o sociólogo: "De que forma é que o repugnante papel se tornou de repente imprescindível à união consumada de legítima de duas criaturas?"
Não sei onde é que o Diário de Notícias recruta os seus cronistas, esperando sinceramente que não venham todos da Universidade Moderna; como explicar que um designado sociólogo possa dar-se ao luxo de ignorar que pessoas do mesmo sexo, que vivem maritalmente, não possuem, na actual ordem administrativa, direitos civis que lhes permitam declarar-se acompanhantes em situações de apoio na doença, nomeadamente em hospitais?! Todos nós sabemos que os(as) homossexuais continuam a não poder beneficiar de seguros de saúde, ou outros, realizados por um dos parceiros; não podem reclamar-se herdeiros um do outros; em suma, não têm acesso aos mesmos direitos civis dos casais legais formados por pessoas de sexos diferentes, o que configura uma situação de estúpida desigualdade.
Portanto, a resposta é simples: o papel não consolida uma união, mas atribui direitos, e na ordem em que somos obrigados a viver, porque não conseguimos arranjar outra, por enquanto, faz sentido. É o chamado, do mal o menos.
Muito para além disso, "as franjas de comportamento marginal" têm todo o direito a mudar de opinião quando e como querem, como qualquer pessoa. Mudar de opinião é dos poucos direitos que ainda nos assistem.

sexta-feira, junho 20, 2008

O crescimento e a amizade

Bambi é uma história sobre o desafio do crescimento e a importância da amizade (...)
Público, 20.06.08 pág. 17 do suplemento P2

Bambi é dos poucos filme que vi aos 5 anos com a minha madrinha, numa manhã de cinema Scala, em Lourenço Marques, e nunca mais consegui rever.
A minha madrinha não gostava de mim, é uma explicação.
Mas que não consiga ver, aos 45, um filme clássico de desenhos animados, é comportamento singularmente expressivo no que respeita ao que penso sobre o crescimento e a amizade.
Ainda não deixei de ser o Bambi.

quinta-feira, junho 19, 2008

As lesbianas


As habitantes da ilha de Lesbos interpuseram um processo contra uma associação grega de homossexuais: não permitem que as raparigas que apreciam raparigas se designem como lesbianas. Lesbianas são as mulheres originárias da ilha de Lesbos, e umas são sáficas, outras não. É isto que pretendem as lesbianas que não são lesbianas, mas da ilha de Lesbos.
Não sei que atitude vão tomar, a seguir, os Virgens de signo, por me parecer que causa muita confusão uma pessoa andar por aí a dizer, aos 40 anos, sou Virgem. O valor de mercado da pessoa em questão desce muito, porque se desconfia da identidade e capacidade sexual da criatura, o que nos dias de hoje não é nada cool.
Eu cá, quando um Virgem me diz que é Virgem, bem vejo o largo sorriso com que acompanha a afirmação, e fico a pensar, olha que se calhar, estás aí a rir-te todo e... és mesmo.

O jogo da bola

Hoje há um jogo, vou já sair de manhã com a camisola da selecção, ai, hoje, o jogo, a ver se despego cedo, se regresso ainda mais, e preparar o petisco, uns pipis, o ritual, as cervejas no congelador quase a rebentar, mostrar-me confiante no café, falar sobre o jogo, quantos vamos marcar, ai, o que vamos ganhar, conduzir a alta velocidade, pisar o risco contínuo, não dar prioridade nas passadeiras nem à minha mãezinha, stress, senti-lo, essa antecipação do momento decisivo, o sol que se apaga, a lua que desce à terra, mas não, é mais que isso por agora, joga a selecção, por isso vou refastelar-me no sofá, preparar as bandeiras, as buzinas, porque se joga o meu dia, a minha felicidade, a minha vida.

quarta-feira, junho 18, 2008

Na terra

A nova imagem do blogue foi-me enviada pelo Indigente Andrajoso, a quem agradeço a insistência na busca de imagens com as quais me identifico tanto. A foto tem autor, naturalmente, mas agora não me lembro, e os leitores não se vão aborrecer (Indigente, por favor, regista na caixa de comentários o nome do fotógrafo!). E foi sujeita a um ligeiro apagamento facial, para se resguardar o anonimato.
Este é o poste de hoje, e quem dá o quem tem...

terça-feira, junho 17, 2008

Os jovens amantes


Li na Visão, creio, que mulheres mais velhas e enxutas, sobretudo no Brasil, mas por todo o chamado Ocidente, Portugal incluído, arranjam rapazes mais novos como parceiros, e que eles não parecem importar-se especialmente com as rugas ou as carnes mais flácidas.
Compreendo ambos os lados: o relacionamento é passageiro, enquanto durar, e frutuoso.
Para eles, porque é sempre passageiro, mesmo jurando fidelidade eterna, essa falácia, mas também porque aventuras com mulheres mais velhas, estabelecidas na vida, os isentam de fazer por ela - é possível levar uma boa vida enquanto elas pagam as contas, desde que ninguém se importe especialmente com isso - em tempos não muito distantes foi quase sempre ao contrário: os homens pagavam para ter em casa e poder exibir amantes jovens, e pagavam bem; para elas, apesar da despesa, tem os seus encantos, oh como as compreendo!, um jovem amante cheiroso, vigoroso, após o inferno dos casamentos anteriores, das obrigações conjugais e tarefas domésticas que estavam excessivamente atribuídas às mulheres. Criados os filhos, ou mais ou menos criados, e estraçalhado, rasgado, em pedaços pelo chão, pisado, o amor em que se acreditou, a ideia de amor, como uma velha bandeira derrotada, é tempo de rir, de gozar, de perder as estribeiras, de atirar ao mar o gasto coração moldado a terra, e com um novo coração aquático, ou etérico, sem ideais, reconstruir para si toda a ideologia amorosa da nossa cultura. O amor, tal como nos foi dado, é uma mentira aprazada. Desse amor resta companheirismo, hábito, fraternidade. Dura cinco dias. Tem, como tudo, princípio e fim nesta terra. As estruturas que sobre ele assentam são enormes mentiras. Não estão em crise, mas em prelúdio da extinção.

segunda-feira, junho 16, 2008

Abriu só um olho

Comentário de Luís Graça ao poste "Toca-me":


"Uns vizinhos meus tinham um cão em casa. Quando o cão ia ao quintal dava-lhe para correr atrás dos gatos vadios. Os gatos vadios fugiam.

Dois meses depois fui à janela e vi o cão deitado no quintal, em plena escada de acesso ao terraço. Deitados ao lado dele, dois gatos. Todos a apanhar sol. Chegou mais um gato vadio, pé ante pé. Cheirou o focinho ao cão. O cão abriu um olho, levantou o focinho e tornou a deitar-se.

O gato deitou-se ao lado dele. Ficou a olhar em frente e a abanar o rabo."

domingo, junho 15, 2008

O espírito dos tempos


Foto: Tomatello (Malea)

A minha interlocutora não compreendia o que era um Auto de Fé. Tinha lido qualquer coisa sobre o assunto num romance histórico, mas não lhe parecia um acto nada católico, e estava confusa. Então, mas a multidão não mantinha um silêncio respeitoso quebrado apenas pelo choro, pelo desmaio?! Bailes organizados enquanto o sacrifício decorria frente aos palanques onde ardiam os condenados? Como é que se sabia, no meio da multidão, ali naquele imenso Terreiro do Paço, quem ia ser queimado e quem não ia? Uma procissão?! E injuriavam os condenados passantes? A minha interlocutora mergulhara num abismo de indignação. E os injuriadores, agressores, eram portugueses, católicos, perguntava, confirmando?!
Estava a ser difícil inseri-la no espírito do tempo, até que de repente a provável alma de um inquisidor me iluminou e resolvi o problema de uma penada só:
- Olhe, era e tal e qual como o Rock in Rio: o pessoal todo contente aos magotes, vestido a preceito; namorava-se, curtia-se, fumavam-se charros, cantava-se, dançava-se, fazia calor, estava calor, a água era cara, e os que estavam em cima do palanque também eram as estrelas do espectáculo pelo facto de irem morrer atrozmente, ou de já estarem a ser queimados vivos, agonizantes, chiando de dor e morte e injustiça. E tudo o que acontecia sobre ou sob o palanque era o espectáculo
E ela compreendeu.

sexta-feira, junho 13, 2008

Toca-me



Penso que o Estado ou a Igreja ou uma instituição de solidariedade social devia obrigar os donos de cães como a minha Morena a prestar serviço voluntário obrigatório em hospitais, lares de terceira idade, centros de acolhimento para crianças... qualquer lugar onde uma alma precisasse de alívio.
Devia mesmo receber uma carta registada em casa a dizer, olhe, faz favor, a senhora apresente-se com o seu animal de estimação no serviço de oncologia do Hospital Garcia da Horta, no dia tal, às tantas horas. E eu ia com gosto, punha-lhes a Moreninha onde quisessem, e deixava que a tocassem. Tão simples quanto isto. O pêlo da Morena devia vir no Simposium médico. O pêlo da Morena cura. Deslizar as mãos pelo pêlo longo e macio da Morena, senti-lo correr entre os dedos, como fios de lã, dá vida. Ofereço-me como voluntária para ajudar a melhorar a vida de qualquer doente grave com a simples presença da Morena, e respectivas festas. Alguém me lê no hospital? Num hospital qualquer? Num lugar onde existam crianças ou pessoas que precisem de doçura nas suas vidas? Não tem mistério nenhum: um ser todo de carne, redondinho e morno, muito macio, eu diria doce, muito mais puro que um santo. A minha Morena é mais santa que Nossa Senhora, peço muita desculpa pela heresia ao senhor padre da freguesia, mas é merecida.
Eu sei que quando Nossa Senhora apareceu a Lúcia, e aos outros desgraçados que a segunda matou, à força de os convencer a passar fome e suplícios, lhe mostrou o Inferno. Ora, a minha Morena não sabe o que é o Inferno nem o Céu. Tudo irrelevante. Só conhece a... rua. E o... agora não vais (sentimento desagradável). E a... comidinha. Por isso, a minha Morena é melhor que a Nossa Senhora, mas claro que a Nossa Senhora pode entrar à vontade no Garcia da Horta, e pouco cura, enquanto o pêlo terapêutico da minha menina fica de fora. É o mundo em que vivemos. O maravilhoso mundo das pessoas higiénicas.
Mas chegado o calor, o pêlo longo, demasiado cerrado, causa sofrimento à Morena. Não sei se a inteligência blogosférica sabe, se calhar não sabe, mas os animais têm esta impertinência que é sofrer, e depois dão-nos preocupações, ou fazem-nos gastar dinheiro, o que é piroso. Com a tosquia, por exemplo. É que hoje a Moreninha vai à tosquia, perderá o pêlo, ficará a parecer um rapazinho, mas em cão, e era só isto que eu queria escrever; esta piroseira sobre as minhas cadelas: a ida da Morena à tosquia. O que os leitores têm de suportar para lograr ler um texto de jeito de vez em quando! Que violência!

quinta-feira, junho 12, 2008

Um dia fui muito nova

Foto de Stanko Abadzic, Girl with fish necklace, 2006


Tenho recordações muito vagas das festas de Santo António. Uma mole infame e suada subindo Alfama até ao Castelo - uma loucura de carnes e vozes e mãos. Nada de interessante a comunicar. Estamos aqui todos juntos, estamos aqui no meio, tentando furar, bebendo cerveja já morna, ou vinho ou qualquer coisa, porque é o que se faz.
Uma sardinhada com três conspiradores, e não sabia que seria contra mim, no antigo jardim de São Pedro de Alcântara. Acho que me ri. E bebi. Era inocente e tinha os olhos muito amarelos.
Lembro-me de beijos ao final da noite. Muitos, perdidos, cheios de fome, mordidos, a pouco. Mas afinal não era nada, apenas uma boca que mordia, que lambuzava, como carne que pede sal.

quarta-feira, junho 11, 2008

Marca a fogo

Anónimo, Girl with a spray of flowers, 1910


A vida privada não significa o mesmo para todos. Sou tida como pessoa que expõe com gala detalhes íntimos, e, no entanto, aquilo que exponho não é para mim privado, mas domínio público: a colonização, a descolonização - essas memórias - a minha mãe, as minhas cadelas, a solidão, a observação dos vizinhos; da rua; a relação com as colegas da fábrica ou com a minha prima afastada.

O que considero a minha verdadeira vida privada não cabe aqui.
Assuntos que a muitos nada custam, não considerados propriamente privados, como resumir o que comeram ao almoço, questões do emprego, sobressaltos da gravidez, otites dos sobrinhos seriam bastante embaraçosos para mim.

Embora os limites da minha vida privada pareçam muito alargados, o que eles são é muito direccionados, estreitados, e, nessa faixa, quase ilimitados, o que dá a ideia de uma grande exposição generalizada. De qualquer forma, aquilo que para mim não é vida privada, mas história ou quotidiano, realidade que de alguma forma nos permite vislumbrar o irreal, o inexplicável, implica o olhar judicativo do outro, o que origina a publicação de inúmeros textos sobre o fio da navalha. Há momentos em que hesito.

É importante para mim, neste pequenino mundo de senhoritos que nasceram cultos, com etiqueta, e depilados, afirmar que eu não: que eu vim das couves, dos enjeitados, da fome, da emigração, do colonialismo, do esforço enorme que fizemos, nós, a arraia-miúda, para ser melhores, para fazer bem. E se não fizemos foi porque não fomos capazes após guerra, ou porque o pensamento do nosso tempo não no-lo tornou possível.
Sou completamente desavergonhada do que sou e dos lugares de onde vim. Há uma honra e uma honestidade sobre essa origem que pretendo enunciar a ferro. É, perdoem-me, a minha marca a fogo.

terça-feira, junho 10, 2008

Voracidade

Marguerite Duras

O meu pai tinha uma cara grande e suada cheia de ódio ou amor conforme os dias. Tendo eu preferido os do amor, calharam-me muitos dos de ódio. Quando amamos e não podemos fugir, porque não há saída, enfrentamos de igualmente perto a face do amor e a do ódio, e não desviamos o rosto; sentimos o cuspe bater-nos nos lábios, nos olhos, e ouvimos até ao fim sem pestanejar, sem um movimento muscular que possa ser mal interpretado.
O meu pai era voraz, devorava, vociferava todos os sentimentos que conseguia exprimir, e conseguia muito bem, com uma expressividade tão brutal que causava vertigens.
Quando somos novos, acreditamos nesse amor ou nesse ódio porque aquele é o rosto de quem amamos, o da certeza. Não temos mais ninguém, estamos entregues às mãos daqueles que nos criaram e que dizem sermos seus. E somos. Mas custa ser de alguém a quem se deve uma fidelidade contra toda a lógica, sem limites.
Eu ouvi todos os discursos de ódio do meu pai, ouvi-os a dois centímetros do rosto, senti-lhe o cuspe do ódio, que custa mais que o cuspe do amor, e enfrentei, olhos nos olhos, a sua raiva, a sua frustração, a sua tão torpe ideologia e ouvi, ouvi, e não disse nada, nem um assentimento, nem um músculo se mexeu, e eu, inteira, era um não.
Tive medo do meu pai. Que me batesse com as manápulas, que me gritasse, que me dissesse tu não és minha filha, porque filha minha nunca fará isto e nunca dirá aquilo. Havia uma violência tão grande dentro de si, em amigável convívio com o amor que podia oferecer-me 10 minutos depois. De um momento para o outro.
Mas o meu pai não me arrancou um assentimento. Nunca ouviu da minha boca um tens razão, um realmente, um pois. No máximo, um percebi, como resposta a um percebeste? Porque ele podia obrigar-me a sentar, ouvir e calar, sujeitar-me a sessões públicas e privadas de ideologia rácica, mas não convencer-me das vantagens da raça nem do ódio.
O meu pai não me arrancou ao que eu era e pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. Escapei-lhe. Ele repetira-me demasiadas vezes a sua lenda preferida, a de São Martinho, o que reparte a capa. Portanto, tendo eu absorvido uma mensagem tão amorosa, podia ele gastar à vontade o seu latim com a conversa dos pretos. Eu poderia ter ouvido a lengalenga 24 horas por dia nos altifalantes, como um prisioneiro em Guantánamo, e não teria mudado um centímetro. Porque eu pensava isto e aquilo com muita certeza.
Não foi fácil ser a filha do electricista. Sonhei muitas vezes que o electricista havia de morrer de muitas maneiras e deixar-me livre para pensar, para existir sem medo dele. Para lhe responder.
E um dia morreu mesmo, sem que possamos ter feito completamente as pazes, sem que eu estivesse totalmente crescida, e ele totalmente vencido, e agora está aqui sentado, a dois centímetros do meu rosto, a ler-me, e eu, sinceramente, só queria dizer-lhe que vivemos um tempo demasiado curto para o nosso amor, confuso, desajustado, injusto. Que foi só isso que nos aconteceu: um tempo, um espaço, um tabuleiro de xadrez errado para o amor.

domingo, junho 08, 2008

Meu amor eterno

Entraste. Ouvi os teus passos. Andaste a trabucar fora do quarto, e depois entraste, estava tão concentrada, e no meu inconsciente pensei, entrou, e pensei, entrou uma pessoa, mas depois lembrei-me que estava sozinha, e voltei-me, e eras tu, Morena.

Vestido branco

Foto de William Eggleston, Southern Suite


Pedro Correia, do Corta-Fitas perguntou-me, há tempos, se não estaria interessada em pisar a passadeira vermelha do seu blogue. Respondi logo que sim, não só porque o Pedro é daqueles habituais d' O Mundo Perfeito que lê tudo o que eu escrevo, mesmo que seja uma receita sobre como raspar calos da planta do pé, e leitores destes têm de se estimar, mas sobretudo porque esta deve ser a única hipótese que a vida me concederá de pisar uma passadeira vermelha, e estas coisas, a gente muito desdenha, mas, enfim, lá aproveita.
Portanto, por estes dias, se quiserem ler uma dúzia de frases saídas do meu teclado* sobre um certo vestido branco mental, cliquem com o vosso ratinho sobre o línque, este aqui.

*Agora já não se diz "saídas da minha pena", para se evitar mentir.


sexta-feira, junho 06, 2008

Olhem que não sou muito dada ao línque!

Um texto excelente, de Sofia Loureiro dos Santos, que subscrevo integralmente, desmascarando os mecanismos sociais que hoje se vão afinando para confinar as mulheres, subtilmente, ao milenar papel doméstico e reprodutor, porque parece que sai mais barato tê-las em casa, e a criançada leva mais nalgada castigadora.

A ortografia é estúpida


O meu pai escrevia o meu nome com "e". Enviava fotos legendadas à minha avó dizendo, "nesta, vê-se a Esabela a brincar com os gatos de um cantineiro nosso amigo".
Após conferência comigo sobre o assunto, o meu pai, que não era linguista, nem nada que se pareça, concluiu que escrevia Isabela com "e", e via dessa forma o nome, porque aprendera a grafá-lo assim quando andara na escola. Anos 30. Que nos anos 60 lhe tenham registado administrativamente o nome da filha com i, isso já era assunto que o transcendia, coisas lá do registo, porque quando pronunciou Isabela, o que enunciou foi Esabela. Não me sabia explicar por que motivo o "e" se tinha transformado em "i", tinha apenas uma pista: aquela a que chamávamos rainha Isabel II de Inglaterra, em inglês chamava-se Elisabeth, portanto o meu nome devia ser uma tradução. Devia ser Elisabeta, Elisabela, e depois, sabe-se lá como, Isabela. Achávamos nós, mas nunca ninguém nos explicou, porque não tínhamos nenhum doutor na família, e livros só na biblioteca itinerante da Gulbenkian.

Mais tarde, no colégio, o meu director, que tinha 90 anos nos anos 70, chamava-me igualmente a sua Esabela, nome próprio que escrevia em todos os documentos oficiais do colégio, o que muito me exasperava: a sua Esabela, a sua Zabelita. Na secretaria alguém lhe corrigia a grafia, para bem do meu processo curricular oficial.

O que o meu pai e o sr. Ilídio faziam era manter uma antiga regra ortográfica que aprenderam como correcta. Era como se alguém agora me viesse dizer que privilégio passou a escrever-se previlégio. Ou, afinal, que já não se escreve "emoção" e "elegante" mas, por força do uso fonético indevido, "imoção" e "ilegante". Meu Deus, meu Deus, tranformar o "e" num "i" que poderia ser confundido com um prefixo de negação em vocábulos que nada negam. Ultraje. E que violência!

As questões ortográficas levantam muitas questões emocionais, porque me parece que cada um de nós sente a ortografia como parte da sua identidade; como a caligrafia, o timbre da voz, a cor dos olhos, as linhas das mãos. É, portanto, impensável alterar essa parte da nossa identidade. É uma resistência, mas não um capricho. As pessoas têm as suas razões. Quem aprendeu a escrever Esabela com "e", e assim formou a sua identidade linguística, tem o direito de continuar a fazê-lo. Exactamente como quem escreve farmácia com ph. Sou cliente da Pharmácia Mendes da Silva. Qual é o problema? É apenas uma palavra escrita com uma ortografia que para mim é arcaica, mas eu tenho que conviver linguistica, social e civicamente com tantas outras atitudes arcaicas, e algumas bem graves.... e que remédio! É apenas uma palavra!

Tanto compreendo que os intelectuais, cultos, aculturados sejam contra o acordo ortográfico como que, ao povão, o assunto, rigorosamente, não interesse. Peço muita desculpa, sobretudo aos professores de Português que se descabelam corrigindo composições pejadas de erros ortográficos, e se matam em nome de uma norma, mas a ortografia é como as plantas selvagens: nasce onde calha, como calha, e o que interessa é que consiga sobreviver, realizar a fotossíntese e morrer quando chega o Inverno. A ortografia, desculpem-me, é estúpida como um calhau. Já conheci pessoas de uma enorme inteligência emocional e científica que, ao escrever uma frase, era cada tiro ortográfico, cada melro. Portanto, isto com toda a sinceridade, eu quero que a ortografia... vá dar uma volta, por exemplo. Já a sintaxe pia mais fininho, porque reflecte a organização do pensamento. A sintaxe está coladinha ao raciocínio lógico-dedutivo.

A ortografia consiste num conjunto de regras que permitem registar as emissões sonoras da língua. Ponto final. O objectivo primeiro é comunicar. Ponto parágrafo. O objectivo segundo, parecer bem e ascender social e profissionalmente. Ou seja, escrever de acordo com a norma e conhecer as regras da ortografia categoriza os indivíduos como melhores ou piores, o que é de um elitismo que só a nossa sociedade, irracional, pode encaixar e suportar. Mas ninguém é obrigado a grafar correctamente, se não teve os meios para isso, ou se não quis. É esse o motivo por que qualquer entidade pública ou privada é obrigada a aceitar e responder a uma reclamação, petição, impugnação, seja qual for o nível de correcção ortográfica que se apresente, desde que a mensagem se faça comunicar. Porque a língua serve para comunicar, e o resto é estilo.



A minha mãe fez a terceira classe com regente, porque o meu avô era um homem progressista, e retirou os filhos à fazenda para os levar à escola - olhem que no Ribatejo, nos anos 30, poucos pais do campo manifestavam preocupações desta ordem. Regalo-me ao ler as listas de compras que a minha mãe me escreve. Sorrio com ternura porque aquilo é que é mesmo o Português verdadeiro, o portuguezinho retinto: um quilo de arrôs; um pacote de maça pevide; maçãs de Alcobaça, das pequenas; um quilo de qivis; trez crujetes para sopa; grão; fajão; grêlos; cove branca... Quando leio as listas da minha mãe, que são perfeitas, que se comunicam melhor que Deus, lembro-me sempre de quem quase vive ou morre porque uma consoante muda pode cair.

Do que eu gosto nas línguas é do seu carácter insurrecto. É o que queremos dizer quando largamos aquela frase, que soa muito bem, sobre as línguas serem organismos vivos. Um organismo vivo evolui, adapta-se, muda. E é assim sem tirar nem pôr. As línguas estão-se nas tintas para o que pensamos que elas devem ser. São o que lhes dá mais jeito. Tanto na sua forma verbal oral como escrita. E vencem. Isso de associarmos diversas questões de classe e poder ao exercício da língua transcende-as. Querem elas lá saber se as legislam! Quando as legislam já elas estão além.

Sobre o acordo ortográfico, sinceramente, gasta-se muita tinta. As pessoas devem escrever como são capazes, e deixar os outros escrever como sabem e podem, excepção seja feita aos professores de Português que devem ensinar a norma em vigor e corrigir os desvios. Não creio que um acordo ortográfico, mesmo que concordando com ele na sua essência, que é o meu caso, sirva os indivíduos já formados como eu. O acordo ortográfico servirá parcialmente aqueles que ainda estão no sistema de ensino e que já escreviam acto sem t, e a nível profundo os que forem agora para a escola, fenómeno que se tornará visível dentro de década e meia. Nessa altura talvez cada um de nós comece a mudar, devagarinho. Para os que têm medo que ato se torne confuso, não se sabendo quando é um verbo ou um nome, resta-me sossegá-los lembrando-lhes que todos os enunciados linguísticos dependem de um contexto, e não vivem fora dele; como vale, que pode ser postal, ou verbo valer, ou designação geográfica. E se há confusão perguntamos, vale, que vale?
E rio. Eu, às vezes, rio ao pé do rio. Às vezes digo à senhora dos correios que não vale a pena mandar o vale, porque o carteiro não faz distribuição naquele vale, lá tão longe, para lá do rio onde tantas vezes me rio, rio, rio.

A mim o que chateia mesmo, mesmo a sério é o dente do siso do lado esquerdo. Dói-me. Tem um buraco até aos joelhos, e nem tempo tenho de o ir arrancar. Se houvesse aí alguém com um tira-dentes à século XIX, eu tomava uns Xanaxes antes, e uns Clavamoxes depois, e resolvia-se a empreitada, hein?! E o blogue continuava interactivo...

quarta-feira, junho 04, 2008

O raio do c antes do t

Lá na minha fábrica temos uma categoria à qual almejo chegar, que é a dos correctores de parafusos: aqueles que analisam a peça e avaliam sobre o seu valor de mercado.
Hoje, lá no refeitório, afixaram com letras muito grandes, mesmo grandes, os direitos e deveres dos CORRETORES. Assim mesmo. Sem o c antes do t, consoante que nunca se leu, e que não está ali a fazer nada, sejamos honestos. Todos os meus colegas leram, eu li, ninguém se riu, ninguém comentou, porque pensámos todos, o acordo ortográfico, ah, pois é, o acordo ortográfico, deixa-me cá calar a matraca, que não sabendo se está ou não em vigor, à cautela, não vou fazer figura de parvo; mas eu estou convencida que o autor daquela informação sempre escreveu corrector sem c. Portanto, justifica-se o acordo. Mas custa-me. Não faz lá falta. Mas custa-me. São vícios que um pessoa ganha. Vícios teimosos.

terça-feira, junho 03, 2008

Selvagem

Colaboradoras, II Guerra Mundial, França, 1944 (ACME photo)


Acabei há umas semanas de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. O livro foi-me recomendado pelo amigo a quem há muitos anos dei a ler O País das Últimas Coisas.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.

É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.

segunda-feira, junho 02, 2008

Céu revoluto

O novo banner foi-me enviado pelo Indigente Andrajoso, ao qual já agradeci por outra via. Havia um outro muito zen e muito estival, mas não só não ando muito zen, como a metereologia não permite, de maneira que por agora fiquemo-nos com este céu revoluto, que é tudo o que me ocorre quando ando cheia de dores nas cruzes.

Bailemos agora, por Deus, ai velidas


Fotos Leonard Nimoy

Bailemos agora, por Deus, ai velidas,
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos agora, por Deus, ai loadas,
so aquestas avelaneiras granadas,
e quen for loada como nós, loadas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras granadas
verrá bailar.

João Zorro

domingo, junho 01, 2008

Texto muito incompleto

Que ninguém espera nada de mim, que ninguém espera que eu seja assim ou assado, melhor ou pior. Que parece que eu me esforço para ser aceite. Que é incompreensível que sofra de ansiedade quando sou levada a estar no meio de muita gente, sobretudo quando não conheço muito bem os outros. Ninguém espera nada de mim. Que eu, como os outros, estamos ali em grupo mas que podemos livremente apagar-nos, fazer de conta que não estamos, que não existimos, portanto ninguém espera que eu fale, que tenha graça, que seja gente, uma voz.
Que tenho de ser racional.
Eu sou bastante racional. Nunca na minha vida fui tão racional. Devo ser a pessoa mais racional da minha rua.

Tenho uma pilha de socialização. Foi um órgão de que cuja presença me fui apercebendo ao longo dos anos. Algumas pessoas não têm. A minha pilha está instalada perto dos rins. Dá para umas horas de luz, e depois gasta-se, e é preciso recarregá-la. E eu digo-o sem embaraço, a pilha gastou-se, desculpem, tenho de ir. Quando a pilha se gasta sinto dores musculares. Cheguei ao um ponto em que sinto não precisar de disfarçar. Esta sou eu, se sirvo, óptimo, se não sirvo, por favor tomem outro caminho, e não me distraiam do meu. Preciso do silêncio da minha casa, do meu lava-louça cheio de tachos por lavar, do meu sofá, do canal Hollywood, das minhas cadelas, da noite que vejo da minha janela, do meu silêncio, da minha vida. Não preciso de sentenças sobre o que está errado na forma como encaro a socialização.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...