O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade. Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.