Mostrar mensagens com a etiqueta subúrbio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta subúrbio. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 26, 2008

História sem moral I


O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade.
Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.

quarta-feira, junho 25, 2008

Como eles falam das mulheres


Vinham entrando no café a falar de mulheres. Dois homens. Um deles, jovem, alto, de cabelo ondulado, pele clara. O outro, de 40 e tal, 50, envelhecido, cabelo branco, crespo, pele escura, baixo. Ambos vestidos com roupa de trabalho num dia feriado. Oficina. Biscates em obras. Uma ou outra.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...

Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Um bairro chique

Amantes, no largo, acabam de esfrangalhar, em voz alta, os últimos despojos de dois anos de relação. Nos degraus da porta, namorados de 15 anos amolgam-se, enquanto escolhem os nomes dos filhos futuros. As vizinhas do 4º e do 6º insultam-se das varandas por causa de uns pingos de roupa com lixivia pendurada no arame. Um par de homens, e respectivas testemunhas, brigam por nada à porta do café dos fumadores. Uma avó grita pelo neto que se atirou pela estrada atrás de um cão. Gosto do meu bairro. Vive-se tanto como em Campo de Ourique, e as rendas são por metade do valor.

terça-feira, dezembro 04, 2007

O terrorismo da geração-nada

Nunca gostei de desperdício e estrago. Nunca desenhei, na casca das árvores, corações atravessados por setas, nem sequer o meu nome nas mesas da escola. Por isso, dificilmente compreendo a febre de escrever nas paredes, com tinta em aerossol, o gatafunho do próprio nome, ou um nick, actividade que, no meu subúrbio, se denomina tagging.




Tagging significa etiquetagem, e uma etiqueta é, por definição, um símbolo de identificação. A tag deve considerar-se, portanto, o anúncio de alguém. Quem deixa uma etiqueta em algo reclama a sua posse. Como é lógico, não ponho etiquetas com o meu nome nas malas dos meus companheiros de viagem, apenas nas minhas. Porém, muitos jovens deixam as suas etiquetas [tags] em paredes de edifícios, contentores de lixo e de reciclagem, cabines telefónicas, postos de iluminação pública, caixas multibanco, degraus de escadas, toldos, portões, esculturas, caixas da electricidade, gás e telefones, paragens de autocarro, às vezes nos próprios autocarros. No Verão passado reparei que não existiam, em Paris, carrinhas de transporte comercial que não estivessem completamente grafitadas com tags. Se existiam, não as vi.

No momento em que o tagger desenha o seu nome sobre uma superfície, declara pertença sobre o objecto grafitado; "este caixote do lixo e este lugar são meus", pensamos nós. Encaramo-lo como declaração de posse e, consequentemente, afirmação de um poder que assenta sobre a insegurança que gera. Um bairro com tags ganha o aspecto desordeiro próprio dos territórios pertencentes a um clã, e não a uma uma comunidade que vive junta, mas independente. A tag parece, assim, constituir uma poderosa afirmação de identidade marginal sem princípios que não os do máfia criminosa. Transmite-nos a impressão de que poderemos ser atacados com uma faca ou um pitbull na primeira esquina. Neste aspecto, a tag reveste uma muito eficaz forma de terrorismo.

Como desejei que o meu hóspede alemão de ontem não tivesse reparado nas horríveis pinturas que mancham as paredes do meu bairro! Mas reparou. A
disseminada tag desfeia lugares sobre os quais houve uma tentativa de ordenação urbana, caso da minha rua, e tranforma-os em território aparente inseguro e perigoso. Percebi que foi essa a impressão com que o meu amigo ficou da zona: um subúrbio perigoso!, o que rigorosamente não corresponde à verdade. "Aqui, à noite, não há jovens fazendo distúrbios?", perguntou-me. Expliquei-lhe que vivo num bairro habitado pela classe média-baixa. Ninguém me parece especialmente rico nem especialmente pobre. As pessoas saem de manhã para o trabalho e regressam ao final da tarde, vivem, têm filhos despenteados, mal mas dispendiosamente vestidos, que vão à escola, bebem cervejas, fumam charros e ouvem música inaudível, como qualquer outro jovem. Quem se ocupa, então, da grafitagem das referidas tags? Sem sombra de dúvida, os filhos dos meus vizinhos, pelo que é impossível não me interrogar sobre a tão grande necessidade de inscrição que sentem estes jovens possuidores de computadores pessoais, leitores de mp3, telemóveis topo de gama, roupa de marca, grandes consumidores de bifes, batatas fritas e fast food.

Quando passeio as cadelas atravesso zonas cheias de tags e perco tempo a analisá-las. Normalmente são horríveis. Mal desenhadas. É uma grafitagem gratuita; parece não haver qualquer mensagem a transmitir. Quem as escreveu não possui caligrafia bem definida, e mal sabe desenhar símbolos sobre papel, a esferográfica, quanto mais na parede, e com spray. A legendagem é insignificante: abreviaturas, palavras em inglês incompreensível, vocábulos muito street, como merda, fuck, the boss, qualquer-coisa rules e nicks, muitos nicks, sobrepostos. Abundam nos lugares mais escuros, nomeadamente nas traseiras de prédios. É, portanto, algo que é feito às escondidas, a medo. Quem os faz, fá-los pouco seguro, vigiando os passantes. Quem o faz sente não pertencer a este território, embora viva nele. Mais do que reclamar a sua posse sobre o lugar, parece desejar que o lugar o possua. Ver-se espelhado.

Admitamos que uma assinatura nos inscreve em algo. Temos direito a uma assinatura num bilhete de identidade porque pertencemos a um país, e não porque o país nos pertence. Através da tag, os meus jovens vizinhos reclamam pertença ao mundo, exactamente como quem preenche uma ficha de inscrição para sócio da sociedade filarmónica. "Quero que me admitam no mundo", escrevem, e assinam por baixo, sem saber o que querem. Não é de estranhar que aqueles que trouxemos ao mundo, mas sentem nada poder esperar dele, que em nada acreditam, porque nada lhes oferecemos para acreditar, e que nada esperam, reclamem espaço, identidade, existência. As odiosas tags do meu território dizem-me "eu sou daqui".
Quando Os Delfins cantaram que mais do que a um país, família ou geração pertencíamos só a nós e a mais ninguém, não poderiam ter imaginado as consequências perniciosas de tal filosofia. Cada vez que uma tag é grafitada, o que os jovens do meu bairro reclamam é a simples posse da superfície, e de todos nós, sobre si. Sentiram-na pouco: a posse, e todos precisamos de ser de algo, ser de alguém, e de conhecer os limites dessa pertença, para depois sermos selvagens, sermos nós. Tagging é apenas isso: a geração-nada deseja qualquer coisa. Por exemplo, pertencer. Para eles é já tarde: cresceram num vazio de pertença a ideias, a regras, a obrigações. Não estão filiados nem se filiarão. Não podem aceitar agora o que mais desejam. A tagging é o seu terrorismo inconsciente. E se pensarmos bem, merecemo-lo.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...