Em Agosto pediram-me que ajudasse uma rapariga da minha idade, em sofrimento devido a uma relação fatal. A rapariga precisava de falar com alguém "normal como eu". Alguém que já tivesse levado porrada vinda de todos os pontos cardeais, e, sobrevivido, continuando a sorrir. Aceitei. O meu espírito missionário não resistiu.
A rapariga vestiu os melhores trapinhos, pintou a cara, e levei-a às docas. Era jeitosa.
Corri com ela as discotecas todas. Entrámos, saímos, voltámos à primeira.
À saída de uma, penso que da Queen's, li, afixado, que num dia certo da semana, se realizava ali um show de strip masculino. A "minha amiga" que, entretanto, apesar de não ter esquecido o amor fatal, tinha arranjado, no Indochina, engate com um puto novinho em folha, vestido de cabedal da cabeça aos pés, e com quem 5 minutos depois trocava sms's cujo conteúdo semântico me abstenho de revelar, delirou com a perspectiva. Do strip. E do puto também. Mas do strip. "Oh, vamos lá. Oh, eu não me importo de vir de propósito. Oh, eu gostava tanto de ver. Mas eu não conheço ninguém cá, tens que ser tu". Disse-lhe que sim para a calar, para a conseguir arrastar dali. Eram 5 da manhã! Mas, comigo, nunca ela foi a qualquer sessão de strip.
A rapariga vestiu os melhores trapinhos, pintou a cara, e levei-a às docas. Era jeitosa.
Corri com ela as discotecas todas. Entrámos, saímos, voltámos à primeira.
À saída de uma, penso que da Queen's, li, afixado, que num dia certo da semana, se realizava ali um show de strip masculino. A "minha amiga" que, entretanto, apesar de não ter esquecido o amor fatal, tinha arranjado, no Indochina, engate com um puto novinho em folha, vestido de cabedal da cabeça aos pés, e com quem 5 minutos depois trocava sms's cujo conteúdo semântico me abstenho de revelar, delirou com a perspectiva. Do strip. E do puto também. Mas do strip. "Oh, vamos lá. Oh, eu não me importo de vir de propósito. Oh, eu gostava tanto de ver. Mas eu não conheço ninguém cá, tens que ser tu". Disse-lhe que sim para a calar, para a conseguir arrastar dali. Eram 5 da manhã! Mas, comigo, nunca ela foi a qualquer sessão de strip.
A emancipação sexual mudou as mulheres da minha geração e mudou o mundo. Marca os comportamentos das pessoas de hoje. Mas a emancipação sexual pode ser um retrocesso. Porque, tal como a liberdade não deve ser o abastardamento e banalização do que se liberta, também à emancipação do sexo convirá respeitar tal ética.
Não estou disposta a assistir a nenhum espectáculo de strip masculino, ou feminino. Não quero que um homem depilado e musculado, ordinaríssimo, venha roçar em mim os biceps oleados, mostrar-me as nádegas duras compradas aos fat burners, mais os peitorais anormais. Que me interessa esse homem de plástico? Com a sua vulgaridade estampada nos traços do rosto, nos olhos, na boca? Pura exibição hormonal. Estes também são exemplares de macho ficcionados, impossíveis, desnecessários.
Mas, principalmente, não aceito contribuir para indústria do sexo, como lhe chamam agora. Os strippers são bailarinos ou trabalhadores do sexo? Vejamos, o que se passa numa sessão de strip é a exibição de um corpo que deve ser desejável, em posições excitantes, mostrando um máximo de pele, ocultando, mas não totalmente, não demasiado, o deus que ali se cultua, o órgão sexual, masculino ou feminino. São trabalhadores do sexo?
Se já era degradante ver homens em bares de strip emitindo urros quando as meninas lhes viravam o rabinho para a cara, é-o, igualmente, agora, suportar os gritinhos das senhoras cheias de vergonha e "ai nem posso" quando os strippers se lhes sentam ao colo, ou melhor, lhes pedem que se sentem elas nos seus, que espreitem para dentro da tanguinha, que deslizem as mãos pelos braços, costas, e elas, entre o medo e sei lá quê...
Sentar-se em cima de um maganão que não conhece de lugar nenhum e passar-lhe as mãos pelo corpo de touro enraivecido, suado e oleado, é coisa que excite uma mulher? Quando é que os strippers pagam para tanto?
Este comportamento, mimético do masculino, que a liberdade sexual trouxe às mulheres não será, antes, uma prisão como qualquer outra, como a que prende os homens?
Não estou disposta a assistir a nenhum espectáculo de strip masculino, ou feminino. Não quero que um homem depilado e musculado, ordinaríssimo, venha roçar em mim os biceps oleados, mostrar-me as nádegas duras compradas aos fat burners, mais os peitorais anormais. Que me interessa esse homem de plástico? Com a sua vulgaridade estampada nos traços do rosto, nos olhos, na boca? Pura exibição hormonal. Estes também são exemplares de macho ficcionados, impossíveis, desnecessários.
Mas, principalmente, não aceito contribuir para indústria do sexo, como lhe chamam agora. Os strippers são bailarinos ou trabalhadores do sexo? Vejamos, o que se passa numa sessão de strip é a exibição de um corpo que deve ser desejável, em posições excitantes, mostrando um máximo de pele, ocultando, mas não totalmente, não demasiado, o deus que ali se cultua, o órgão sexual, masculino ou feminino. São trabalhadores do sexo?
Se já era degradante ver homens em bares de strip emitindo urros quando as meninas lhes viravam o rabinho para a cara, é-o, igualmente, agora, suportar os gritinhos das senhoras cheias de vergonha e "ai nem posso" quando os strippers se lhes sentam ao colo, ou melhor, lhes pedem que se sentem elas nos seus, que espreitem para dentro da tanguinha, que deslizem as mãos pelos braços, costas, e elas, entre o medo e sei lá quê...
Sentar-se em cima de um maganão que não conhece de lugar nenhum e passar-lhe as mãos pelo corpo de touro enraivecido, suado e oleado, é coisa que excite uma mulher? Quando é que os strippers pagam para tanto?
Este comportamento, mimético do masculino, que a liberdade sexual trouxe às mulheres não será, antes, uma prisão como qualquer outra, como a que prende os homens?
Joaquín Cortés um bailarino espanhol de origem cigana, vem a Faro, no final do mês, para um espectáculo único, e os bilhetes esgotaram de imediato.
Joaquín Cortés dança flamenco, e cria um bailado de fusão estremamente plástico; muito sensual, também. Gera imensa energia em palco, o que não acontece por acaso. Cortés estuda a lição dos strippers que agora exaltam hordas de meninas com namorados e de senhoras casadas: tira o melhor partido de características mistas do seu corpo: é um belo homem moreno, com um tronco largo, não demasiado musculado, contudo viril, que exibe nu, quase sempre; a isso, associa um cabelo escuro, liso, comprido que solta despenteado, selvagem, ou que agarra em rabo de cavalo. Tem um rosto algo feminino, que trabalha através de um corte de barba e patilhas minuciosamente desenhado.
Cortés é um excelente bailarino, mas não vende bilhetes por ser bom no que faz, mas porque dança nu, porque é viril e sensual, e cada um paga para ver o seu corpo movimentar-se como uma mulher, como uma garça, como um gato, como um homem, como um touro enraivecido. Pagamos para nos deixarmos enfeitiçar, para nos apaixonarmos por ele. Pagamos aquele corpo que baila. Pagamos aquele corpo. Pagamos.
Joaquín Cortés dança flamenco, e cria um bailado de fusão estremamente plástico; muito sensual, também. Gera imensa energia em palco, o que não acontece por acaso. Cortés estuda a lição dos strippers que agora exaltam hordas de meninas com namorados e de senhoras casadas: tira o melhor partido de características mistas do seu corpo: é um belo homem moreno, com um tronco largo, não demasiado musculado, contudo viril, que exibe nu, quase sempre; a isso, associa um cabelo escuro, liso, comprido que solta despenteado, selvagem, ou que agarra em rabo de cavalo. Tem um rosto algo feminino, que trabalha através de um corte de barba e patilhas minuciosamente desenhado.
Cortés é um excelente bailarino, mas não vende bilhetes por ser bom no que faz, mas porque dança nu, porque é viril e sensual, e cada um paga para ver o seu corpo movimentar-se como uma mulher, como uma garça, como um gato, como um homem, como um touro enraivecido. Pagamos para nos deixarmos enfeitiçar, para nos apaixonarmos por ele. Pagamos aquele corpo que baila. Pagamos aquele corpo. Pagamos.
Penso que, analisadas as motivações sob as quais assenta a compra em massa de bilhetes para os seus espectáculos, Cortés poderá ser considerado um trabalhador do sexo. Com a vantagem de que ninguém pensa no que paga, quando está a pagar. Cortés sabe-a toda.