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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Do pão com marmelada



Estão sempre a dizer-nos que devemos viver no presente, para o presente, mas o presente não existe. O meu dia de hoje é a ponte entre o passado do qual venho e o futuro que projecto. Estou no presente por instantes, e atravesso-o, de facto, impulsionada pelo tempo passado através do qual me situo e oriento. Tudo em mim é passado. O que fui está lá atrás, e o que fui é sólido, posso tocar-lhe através da memória. Reconheço uma maçã porque um dia comi uma maçã.

O
filho de uma amiga está na Marinha, e acontecia descrever-me os hábitos matinais: alvorada às sete; calçar as botas, que têm obrigatoriamente de ficar guardadas no cacifo; lavar a cara; fazer a barba e pentear-se; correr para o refeitório antes das 7h45; compor o próprio pequeno-almoço, que poderá ser de café ou leite ou Nesquik, e pão com manteiga ou com marmelada.
Pão com marmelada....

Evoquei, então, os pequenos-almoços e lanches da secção feminina do Colégio Nun' Álvares, em Tomar, onde fiz a minha tropa. Era exactamente assim, à excepção do Nesquik, substituído por chá muito deslavado. Também não gostávamos do café com leite, que tinha um sabor torrado, nem do leite, que sabia a gordura, nem do pão com manteiga que dizíamos ser margarina, nem da marmelada, que era sempre a mesma, e parecia graxa.
Não gostávamos de nada, e tínhamos técnicas para esconder a comida, e a seguir deitá-la fora, para gastar dinheiro em porcarias, se bem que eu nunca o tenha feito, porque sempre fui de boa boca, tinha uma fome esganada, e como chefe de mesa não o podia fazer nem permitir, a não ser que fosse clandestino.


Mas esse sabor do pão com marmelada... sacudia a minha gulodice. Não podia admitir, para que não me chamassem saloia, ou qualquer outro nome sem importância alguma agora, mas o raio do pão com marmelada... agradava-me o saborzinho ácido do marmelo, e a consistência do doce, à fatia. É só esta memória - este sabor da marmelada. Só isto.

Li recentemente que a secção feminina do ex-colégio Nun' Álvares vai ser tranformada num hotel de charme, em conjunto com o convento de Santa Iria, ao qual se encontrava ligado por um passadiço aéreo, e também, segundo a lenda que transmitíamos umas às outras oralmente, por túneis que teriam permitido a passagem de freiras e de senhores para encontros inenarráveis.
O ex-colégio feminino era um lugar cheio de escadas, caves, portas que acabavam em paredes, paredes onde se abriam portas inesperadas, e fantasmas que nunca vi.

Tenho muita pena que esse lugar onde todas nos sentimos tão sós e tão solidárias, onde nos apaixonámos, e nos quisemos suicidar com Lorenin, e lemos os Lusíadas e A Cidade e as Serras, e vimos o Dancing Days, experimentando uma adolescência tão contida e tão intensa, seja agora transformado num hotel para endinheirados. Preferiria que ficasse para sempre assombrado pelos fantasmas das nossas vivências, dos nossos risos e tristezas. Que ficasse parado no tempo, com a casa das roupas tal como foi; e a camarata grande, com floreados em estuque de gesso no tecto, e a cama alta da D. Perpétua logo à entrada - o penico por baixo; a casinha dos retratos das alunas exemplares, onde o senhor Ilídio nos dava bofetadões a que chamava festinhas.
Que transformassem aquele espaço num refúgio para gente sem casa, tal como todas éramos: gente sem abrigo, sem casa, sem família, que se apoiava mesmo quando se odiava muito mais.
Era isso que queria. Era só isso que queria trazer desse passado. Essa velha dor guardada numa caixa que nenhum de vós pudesse abrir.


domingo, junho 01, 2008

Texto muito incompleto

Que ninguém espera nada de mim, que ninguém espera que eu seja assim ou assado, melhor ou pior. Que parece que eu me esforço para ser aceite. Que é incompreensível que sofra de ansiedade quando sou levada a estar no meio de muita gente, sobretudo quando não conheço muito bem os outros. Ninguém espera nada de mim. Que eu, como os outros, estamos ali em grupo mas que podemos livremente apagar-nos, fazer de conta que não estamos, que não existimos, portanto ninguém espera que eu fale, que tenha graça, que seja gente, uma voz.
Que tenho de ser racional.
Eu sou bastante racional. Nunca na minha vida fui tão racional. Devo ser a pessoa mais racional da minha rua.

Tenho uma pilha de socialização. Foi um órgão de que cuja presença me fui apercebendo ao longo dos anos. Algumas pessoas não têm. A minha pilha está instalada perto dos rins. Dá para umas horas de luz, e depois gasta-se, e é preciso recarregá-la. E eu digo-o sem embaraço, a pilha gastou-se, desculpem, tenho de ir. Quando a pilha se gasta sinto dores musculares. Cheguei ao um ponto em que sinto não precisar de disfarçar. Esta sou eu, se sirvo, óptimo, se não sirvo, por favor tomem outro caminho, e não me distraiam do meu. Preciso do silêncio da minha casa, do meu lava-louça cheio de tachos por lavar, do meu sofá, do canal Hollywood, das minhas cadelas, da noite que vejo da minha janela, do meu silêncio, da minha vida. Não preciso de sentenças sobre o que está errado na forma como encaro a socialização.

sábado, maio 03, 2008

Os sinais do amor

Eu e a Morena estivemos ontem com insónias, e perguntei-lhe se me queria ajudar a comer um pacotinho de pinhões que sobrou do Natal. Tendo ela concordado, fui procurá-lo, metemo-nos entre os lencóis, muito encostadinhas, e fomos partilhando o saquinho. A Micas ouviu-nos tasquinhar e veio à cabeceira da cama exigir o seu quinhão. Ou bem que é para todas, ou não é para ninguém. E foi dois à Micas, dois à Morena, dois a mim.
Hoje de manhã, ao fazermos cama de lavadinho, descobrimos mais de 30 pinhões espalhados pelos lençóis, e debaixo das almofadas. Comemo-los directamente, enquanto lhes dizia, "eis a nossa cama manchada pelos sinais do amor".

quinta-feira, abril 10, 2008

O que é a felicidade?



Uma mulher casa aos 46, e vive com felicidade esse relacionamento tardio. Trata-se de um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo. Gostam um do outro. Têm rotinas nas quais se apoiam. Adoptam um cão, e, certo dia, correndo atrás do animal que lhe fugiu para a estrada, o marido é gravemente atropelado, sofrendo um traumatismo craniano profundo que alterará a sua percepção da realidade. A mulher fica sozinha, na casa sozinha, com o inocente cão que não consegue culpar.
Uma Vida e Três Cães
, de Abigail Thomas, oferece-nos as memórias desta mulher, jornalista, escritora, a sua relação com a doença do marido, internado numa clínica para doentes com lesões cerebrais irreversíveis, com os seus familiares, vizinhos, os cães, que vai adoptando, e que dormem todos na sua cama. Mas a obra é, antes de mais, uma simples reflexão, redigida com grande despojamento literário, sobre a natureza da felicidade, a importância dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como comer gelados, fazer malha, sentir a respiração morna dos cães contra a pele do nosso braço, ver e escutar os outros. É um livro sobre a felicidade, porque é um livro sobre a aceitação da vida. Ofereceram-mo porque a autora e protagonista era uma mulher como eu, uma mulher que dorme com os cães. Voltei a questionar-me sobre a felicidade, assunto que é muito recorrente em mim, que vai e volta, mas permanece pairando sobre tudo o que penso ou escrevo. A felicidade. O que eu julgava que ela seria, aos 18 anos, e o que penso a esse respeito, agora. Ser livre, pensava eu. Ser feliz era ser livre. E o que penso hoje sobre a natureza da liberdade, sobre as múltiplas prisões que a seguram pela corrente. Li-o e fui sorrindo. Dou comigo sentada no sofá a dizer à Morena e à Micas, somos tão felizes as três, não somos?! Não respondendo, dizem-me que sim. Somos mesmo felizes as três, cum caraças! Demorei muito anos a descobrir a enorme felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de mim. Achava que não podia existir na solidão. A felicidade está na solidão. Achei que não poderia encontrá-la dentro de casa. A felicidade está dentro de casa. Pensava que para ser feliz precisaria da viver experiências ruidosas e coloridas. Tropeço em felicidade nos passeios que vou dando através da Serra do Louro, ou quando vou à praia, a S. João da Caparica, e deixo as cadelas de bofes à boca. Não têm pedalada para mim, as gordas. Às vezes, se me meto pelo mato, apanho carraças nas pernas, e isso também é a felicidade. Não conseguia imaginar a minha vida quando tivesse 40 anos. Achava que seria uma infeliz mulher rejeitada, de meia idade, quase velha, demasiado velha. Mas agora, que tenho 45, não me sinto velha nem rejeitada nem de meia idade nem infeliz, mas viva, e cada vez mais capaz de me maravilhar, de me deixar tocar pelos elementos. Também cada vez mais capaz de responder aos outros, de destrinçar o certo do errado. Sei muito bem o que me faz bem e o que me faz mal, mas aí não incluo os rissóis nem os bolos de arroz. Não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada. Limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. A felicidade resulta dessa aceitação.


Abigail Thomas (2008), Uma Vida e Três Cães, Lisboa, Sextante Editora (12,60€ na FNAC)

domingo, março 23, 2008

Estás à espera de quê para te ires embora?



- Como foram esses tempos?
- Nessa época, aos domingos, refugiava-me na eira para estar sozinha com os gatos e as galinhas. No Inverno, estendia-me no chão, à chapa do sol. Era bom. Não ouvia ninguém.
- Então, mas o que tira de bom desses tempos?
- De bom, desses tempos... - Nada, era o que me vinha à cabeça. Nada. Não seria o que esperavam ouvir, mas como sempre acreditei na bondade das respostas imediatas, decidi continuar, que se lixasse, e o que havia nisto de afronta, raiva e verdade! - Não precisar de ninguém. Ter-me tornado ab-so-lu-ta-mente autónoma. Fazer sozinha, com as minhas valências, o que a outros custa multidões.
- Tornou-se demasiado independente?!
- Enfim, dependo de saber que os outros existem, mas não dependo deles. Detesto a distância que me separa dos outros, contudo, tudo me parece no seu lugar à distância. Aprendi a estar longe, e isso tornou-se a minha casa. Há coisas que não sei fazer acompanhada... não sei, pronto, o que quer que lhe diga? Ir ao cinema, por exemplo... é estranho ir acompanhada... ao supermercado... a um museu, uma exposição... andar sozinha na rua... Não sei. Sei mal. E estou sempre à espera de perder. À espera que alguém se vá embora. Que desistam de mim. Que me digam que não têm tempo. Que não podem. Essa é a resposta natural. E quando acontece, mais tarde ou mais cedo, até respiro fundo. Finalmente foi-me dito o que esperava e nunca mais vinha. Finalmente, a ordem, e tudo pode retomar o seu curso normal.
Ela não me respondeu. Esperava que continuasse. Sorriu-me, séria, contudo, e senti que me ouvia, que talvez pudesse compreender-me.
- Mas não pode esquecer essas pessoas, pois não?!
- Não, não consigo... tenho-as sempre entaladas aqui - e fiz o gesto, a mão na garganta, como se a cortasse à navalha, mas não era isso, e sorri com o meu sorriso mais bonito - às vezes, sabe?!, penso que não esquecer os outros é a minha vingança contra a pouca importância que me deram. Contra terem-me largado com a minha total complacência. Melhor, respondendo ao meu persistente estímulo. Contra nunca terem insistido, nunca terem dito, oh minha grande filha-da-puta, eu não vou nada fazer aquilo que esperas, vais ter que lidar comigo, vais ter que gerir a tua vida comigo, vais engolir esse orgulho...
- Mas é contra si...
- É sempre contra mim.

sexta-feira, maio 25, 2007

Os lugares mais solitários do mundo

Estão cheios de gente que se empurra, que atravessa gente, que pragueja, que procura um lugar onde possa sentir-se só, e livre.

Série Paradoxos

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...