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terça-feira, março 07, 2017

Uma doce tarde de sesta

Não vou dizer que ela saltou para cima da cama e me lambeu a cara toda. Seria mentira. Ela já estava em cima da cama há muito tempo, procurou a minha cara, a arfar, e lambeu-ma toda.
Tinha-a tirado do seu cestinho, umas horas antes, dizendo-lhe, agora vamos dormir uma sestinha as duas, e metia-a comigo na cama. Eu tinha frio, e ela é um cobertor, o meu conforto. Dormimos uma bela sesta.
Depois ela acordou-me. Eram horas de comer. Ri-me e disse-lhe, conheço-te tão bem, conheço-te tão bem, e correspondi aos seus beijos e fiz-lhe festas. Sei-te de cor, disse ainda, e comecei a cantar-lhe o Sei-te de Cor do Paulo Gonzo, sei porque becos te escondes/ sei ao pormenor o teu melhor e o pior/ sei de ti mais do que queria /numa palavra diria / sei-te de cor, e percebia-se que ela estava a gostar. É praticamente o único ser que gosta de me ouvir cantar. Ela e o meu pai. A minha prima afastada diz que o meu pai compreendia-se, porque era meu pai.

Objectos perdidos

Andei a arrumar e limpar a casa. Trabalho para caramba! Encontrei objectos perdidos atrás dos móveis, debaixo da cama, dentro de sacos guardados em sítios inenarráveis: o alicate de cortar as unhas às cadelas, um relógio swatch que julgava perdido na rua, chinelos de quarto que andavam sem parceiro, documentos importantes, lápis, borrachas, esferográficas, o carregador da bateria da máquina fotográfica, graças a Deus, enfim, um mundo de coisas perdidas há meses.
O que também tem andado completamente perdido, e não encontrei em lugar algum, mas, atenção!, procurei atrás de todas as portas, até arrastei o sofá e abri gavetas, foi a minha libido. É provável que a tenha perdido fora de casa. Não sei. Nem me lembro quando foi a última vez que lhe pus os olhos em cima. Vou pedir à minha mãe que lhe reze um responso ao Santo António, que costuma resultar. Se não aparecer, o responsável pelo seu desaparecimento padecerá de grande urticária. É isso.

sábado, fevereiro 14, 2009

Dia dos Namorados




Peguei nas meninas e saí. Comprei o jornal no sítio do costume. Tomei o pequeno-almoço no sítio do costume. Sentei-me no banco do jardim a ler o jornal do costume, o que já havia começado a fazer enquanto comia o croissant e bebia o café com leite. As meninas corriam na relva. Foi uma manhã em cheio. O celibato conserva-nos muito a pele.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Tragam-me os prisioneiros de Guantánamo

Se Portugal aceitar presos de Guantánamo, gostaria de informar o Ministério dos Negócios Estrangeiros ou da Defesa ou da Administração Interna, que um deles há-de ser, que me ofereço como família de acolhimento.
Olhando para o Estado desta casa, e considerando que tenho visitas no fim-de-semana, dava-me imenso jeito que viesse até sexta-feira. Assino o que quiserem declarando não o deixar sair de casa, que ele tem muitos produtos químicos com que se entreter debaixo do balcão do lava-louça. Só peço que seja um indivíduo jovem, jeitoso e despachado. Prometo que o castigo tanto ou mais que em Guantánamo.

domingo, janeiro 18, 2009

Nós, as Bridget Jones


Certos amigos dizem que eu também me dedico a escrever umas coisas tipo Bridget Jones, mas inteligente. Discordo totalmente. Ainda agora estive a rever um dos filmes da dita. Não há uma Bridget Jones inteligente e outra burra. Nós, as Bridget Jones, somos todas muito parecidas, com o seu quê de burro, como qualquer pessoa apaixonada. A mim também me fascinam as cuecas de gola alta, e consumir televisão enquanto como pistachios com as cadelas, ou bolo de chocolate. Sou absolutamente tontinha quando estou interessada por um homem. E quando não estou, também não se aproveita grande coisa. Há, como eu, um grupo de mulheres que se atrasou bastante no cumprimento das tradições familiares, ou que começou por desprezá-las, vindo a perceber mais tarde, casadas as amigas, e cheias de filhos rebeldes, mas integradas e respeitadas, que não havia grande salvação fora do esquema sacrossanto da família, pelo menos nas estruturas sociais conhecidas. De forma mais ou menos longínqua, nós, as Bridget Jones, ainda sonhamos ser salvas pelo amor dedicado de um homem parecido com o Colin Firth, mesmo que seja manco. Mas é um sonho vago. Eu, por exemplo, tenho quase a certeza que no lar de terceira idade onde acabarei os meus tempos, há-de estar o homem ideal, aquele que gostará de mim como sou, e não será um psicopata dissimulado, como a maior parte dos que conheci. Andámos perdidos, mas o lar de terceira idade reunir-nos-á, e depois é que vou conhecer as alegrias da relação pura. Agora, obviamente, não, porque os homens que me interessam estão todos casados, e não me apetece nada passar de mulher livre a amante escondida e dependente. Agora, obviamente, não, porque os homens que se interessam por mim, não me despertam a libido por motivos diversos, que incluem ter pêlos no nariz, para além de que sei-muito-bem que não suportaria o quotidiano de um casamento com peúgas para lavar e etc. Um homem com o qual fosse sumamente feliz, para mim, é assim um ideal. E um ideal, caros leitores, é como sonhar que nos vai sair o Euromilhões, e vamos deixar de trabalhar, e fazer viagens cheias de aventuras e com dinheiro para gastar em cocktails, num bar da praia, ao pôr-do-sol.

terça-feira, outubro 28, 2008

Mulher de 40 anos


Não, não gosto dele. A vida seguiu outro rumo. Sim, é verdade que não resisto a espreitar para dentro da janela da sua casa quando por lá passo, mas é apenas um hábito. Não tem as cortinas corridas, e é impossível deixar de reparar que as almofadas estão sobre os sofás, ou caídas, que a mesa está posta, ou ainda não, que os cães se estiram nos tapetes, ou os brinquedos das miúdas estão espalhados ao canto. Desviar o olhar, sim, seria dar excessiva importância ao que não a tem.
Ontem, até disse ao meu amigo sexy, eu cá não tenho ilusões conjugais ou de qualquer tipo de união, o que elimina da minha vida a hipótese do amor concretizado. O que me dava jeito, disse-lhe, era um homem asseado, de boas falas, que cá viesse de 15 em 15 dias, ou que eu lá fosse, mas que por amor de todos os santinhos, não me deixasse roupa para lavar nem louça, nem me chateasse com ciúmes e manias, e de forma geral não ocupasse demasiado o meu espaço físico e mental. Um homem com quem trocasse ideias, que eu ouvisse, que me ouvisse, já seria pedir demais, já tenho idade para saber que algumas coisas não passam de ideal, mas alguém de quem pudesse sentir saudades, enfim, a quem telefonasse duas vezes por semana.
Tudo isto é a prova provada de que não gosto dele. Que espreito pela sua janela só por vício de ver. Não queria ter a sua vida. Não queria ter com ele a vida que tem com outros nem a vida que poderia ter comigo, se tivesse existido. Agora já me tornei um bicho. Uma mulher com cabeça de cão. Quero dizer, agora, tudo isso, é tarde demais.

quarta-feira, outubro 22, 2008

E la nave va


O Camané, meu personal trainer, não sei se estão lembrados, disse-me, ó Isabela, não é por nada, mas eu diria que você já está, já está... já abateu um bocado. Desde que cá chegou... hein?! Não ligue à balança, você não ligue à balança, olhe mas é prá roupa. Aqui conta é a roupa. Você tem sorte, que é bem proporcionada. (E eu acrescentei, sou uma gorducha bem proporcionada!) Está bem, mas não é uma gorducha qualquer, você é muito bem proporcionada, que se vê, e mais, tem uma carinha de boneca, e até as sardinhas
...
Isto é tudo verdade, juro, juro, juro.
Ah, Camané, que por tua causa ainda vou ter que ir gastar dinheiro numa embalagem de Durex Play.


terça-feira, outubro 21, 2008

Há coisas de que nem me lembro


Sou uma mulher que aproveita tudo, que gosta de reciclar. A certa altura tenho as gavetas cheias, e começo a pensar que destino dar ao excesso.
Ora, tinha ali guardadas duas caixas de Durex sensitive, já nem me lembro porquê; as ditas estavam a impedir o fácil fecho de uma gaveta, pelo que aproveitei a estadia de um amigo muito sexy para lhas oferecer, toda contente, olha, vê lá, estes preservativos todos, isto não te dá jeito?!. Esses e todos os que tenho trazido avulsos da Movijovem, de acções da Abraço ou de associações LGTB. Enchi um belo saco de preservativos de todas as marcas, qualidades e cores. Um único problema: todos fora de prazo. De facto, tenho sentido andar a esquecer-me de qualquer coisa indistintamente importante.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Martírio


Ainda há bocado, estando eu no ginásio a realizar a quinta série na prensa, o Camané, meu treinador, passou por mim e exclamou, temos de martirizar muito esse corpo.
Peço a Deus que esteja a falar a sério, que o plural majestático não se trate de uma inconsequente figura de retórica.

domingo, outubro 05, 2008

Um estilo de vida excessivamente cancerígeno



A certa altura dos relacionamentos as mulheres consideram reunidas as condições para começar a chagar a cabeça aos namorados com a ideia do casamento, do juntar trapinhos e estar sempre perto como Deus e o Diabo. E eles engasgam-se, encolhem-se todos, arranjam desculpas sobre não ser a altura certa, que estão aflitos com um projecto, pedem tempo para pensar, defendem-se, coitados, como qualquer animal à beira do perigo.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.


quarta-feira, setembro 24, 2008

O meu treinador pessoal



Sou a única mulher no ginásio entre dezenas de garotos em boa forma.
Se tivesse 20 anos isto era capaz de me preocupar; ai que estava suada, o cabelo desalinhado pela transpiração, as formalidades da beleza todas comprometidas, a celulite, a celulite... mas aos 40, sinceramente, olho para eles com admiração pelos exercícios que fazem melhor que eu, e com mais carga. É tudo. Sinto-me completamente integrada. Sou uma mulherona?! Olha, pois sou. Estou gorda?! Olha, pois, vendo bem, estou. Os 40 são realmente uma idade generosa, sobretudo para uma solteirona de carreira, que sabe não interessar a miúdos, sendo que os graúdos a que possa interessar estão casados com as mulheres, nuns casos, com os filhos, noutros, e com a economia doméstica, na maior parte deles. Sou por deixar os homens casados sofrerem em paz o enorme erro de não me terem dado a oportunidade de lhes infernizar a existência. Bem feita!
Adoro ir ao ginásio. Sinto-me interessante. Dão-me atenção. São gentis. Até os garotos me cumprimentam com o género de sorriso que se dedica à tia. Mas o mais importante é o meu instrutor, que quis o fado se chamasse Camané. O Camané segue-me pelo ginásio, transportando a minha toalha e a garrafinha de água, que pousa perto da máquina que escolheu para mim. Põe-me a toalha nos ombros, quando estou tão transpirada que acho que já nem vale a pena, e vai, voluntário, encher-me a garrafinha de água, porque tenho de repor os líquidos. Até me sinto mal. E diz, agora a Isabela vai puxar pelos peitorais, agora os tricepes, agora as coxas. Exemplifica, e, senhores, não sai dali. Fica a ver-me e a contar as séries. Os miúdos mandam-lhe umas bocas, mas o Camané não ouve. Está empenhado no meu projecto. Vê-se a admiração com que me põe a trabalhar. Isto queima muito, Isabela, tem que ter cuidado com a alimentação. Veja lá a sua dieta. Coma uma banana antes de vir. E bolachas. Olhe que isto queima. Acredito. Não há músculo que não me doa. Músculos que não pensei existirem. Sou uma chaga toda inteira de dor física que se movimenta a poder de vontade. Como lenitivo penso na minha saia branca de Verão. No próximo Verão, a minha cinturá parecerá a curva do Mónaco, e hei-de ver-me muito ao espelho e sorrir e fazer poses, e exibir a minha beleza por todo o lado, e ser atrevida, olhem, olhem para mim, grandes filhos-de-uma-mãe-que-nem-uma-trinca-cá-hão-de-dar. Hei-de mostrar os braços e os ombros todos nus, e as pernas torneadas, e vestir fatos-de-banho ousados e apaixonar-me muito por mim. Já começo a sentir-me tão bonita outra vez.
Não sei quanto paga a Madonna pelo seu treinador pessoal, mas o meu é bom e sai-me barato.

domingo, setembro 14, 2008

Donos de cães







No meu bairro são os donos de cães que estabelecem as melhores relações de vizinhança. Excepção seja feita aos donos de roteveilers, pitebules e raças concorrentes. Não compreendemos a mística do pitebule. Detestamos esses donos, não os animais sempre presos por trela curta, sempre afastados dos outros. Eles detestam-nos porque trazemos os cães à solta, podendo aproximar-se dos deles, ferozes, donos da rua, e porque os referidos cães os tornam, digamos, pessoas importantes. Para os nossos cães um pitebule é apenas um animal. Querem cheirá-lo.
Os donos dos cães normais, ou seja, rafeiros de pêlo curto e pêlo comprido, caniches, bolas peludas, salsichas falsificados conversam animadamente em qualquer troço do caminho. As primeiras conversas são sobre os nossos animais. Ai, o que é que dá de comer ao seu? E põe sal? Veja lá que quando o meu saiu do sofá deixou uma mancha de sangue; fui a ver e era dum testículo. A minha é muito mansinha. É cadela ou cão? Ah, ainda bem, porque o meu é cão. Este é um paz d' alma. Qualquer cão lhe impõe respeito. E já viu o tamanho dele? Olhe, não vá para ali que já lá passei e vi aquela mulher horrososa com o pitebule que morde. Tive de dar uma palmada no meu. Atravessou a estrada a correr. É um perigo. Qualquer dia é atropelado. A minha, no outro dia, ficou ali mesmo no meio de dois carros que passavam. Foi uma sorte.
Claro que passada a fase do diálogo canino, vem a discussão sobre outros temas da actualidade: dizer mal do Governo em todas as vertentes possíveis e imaginárias; falar do custo de vida; contar histórias começadas por "isto faz-me lembrar", relatar encontros com os fiscais da câmara que não deixam os nossos cãezinhos pisar meio metro quadrado de relva, mesmo que já tenham feito as necessidades todas. Estamos convictos que a culpa é toda atribuível à nossa presidente da Câmara, que não passa de uma tia que gostava de ser fina, mas que não é, embora se farte de imitar. Dizer mal da presidente da Câmara também liberta muito. Pessoalmente, é dos meus temas preferidos, a par das pragas rogadas ao Governo.
Como se imagina, estes encontros de donos de cães e respectivos animais dão azo à descoberta de novas pessoas e ao estabelecimento de relações que podem revelar-se gratificantes. No outro dia tive a veleidade de alimentar pensamentos pecaminosos relativamente a um vizinho da minha idade, sem aliança, giro, bem vestido, com dois cães que são um amor. Tão simpático. Tão bem falante. Mas hoje estive observá-lo melhor. A forma como fala quando se emociona, como anda, a sua gentileza, até a sua abertura e simpatia me dizem que é gay. É gay, gay, gay. Ponho as minhas mãos no fogo. Tenho este azar de seleccionar como homem ideal, entre todos os homens possíveis, um gay. Assim uma pessoa não desencalha.

domingo, junho 01, 2008

Texto muito incompleto

Que ninguém espera nada de mim, que ninguém espera que eu seja assim ou assado, melhor ou pior. Que parece que eu me esforço para ser aceite. Que é incompreensível que sofra de ansiedade quando sou levada a estar no meio de muita gente, sobretudo quando não conheço muito bem os outros. Ninguém espera nada de mim. Que eu, como os outros, estamos ali em grupo mas que podemos livremente apagar-nos, fazer de conta que não estamos, que não existimos, portanto ninguém espera que eu fale, que tenha graça, que seja gente, uma voz.
Que tenho de ser racional.
Eu sou bastante racional. Nunca na minha vida fui tão racional. Devo ser a pessoa mais racional da minha rua.

Tenho uma pilha de socialização. Foi um órgão de que cuja presença me fui apercebendo ao longo dos anos. Algumas pessoas não têm. A minha pilha está instalada perto dos rins. Dá para umas horas de luz, e depois gasta-se, e é preciso recarregá-la. E eu digo-o sem embaraço, a pilha gastou-se, desculpem, tenho de ir. Quando a pilha se gasta sinto dores musculares. Cheguei ao um ponto em que sinto não precisar de disfarçar. Esta sou eu, se sirvo, óptimo, se não sirvo, por favor tomem outro caminho, e não me distraiam do meu. Preciso do silêncio da minha casa, do meu lava-louça cheio de tachos por lavar, do meu sofá, do canal Hollywood, das minhas cadelas, da noite que vejo da minha janela, do meu silêncio, da minha vida. Não preciso de sentenças sobre o que está errado na forma como encaro a socialização.

terça-feira, maio 20, 2008

Monólogo da maternidade



Podias ter vindo de dentro de mim.
Quase que cabes dentro da minha barriga.
(Muito encostadinha a mim, ligeiro movimento muscular pedindo-me que continue a massajar-lhe a barriga.)
Se tivesses nascido de mim... podia ter sido inseminação artificial... nascias pequenina como uma cachorrinha, como quando te vi, e vinhas toda embrulhada no meu líquido amniótico, e punham-te sobre o meu peito enquanto diziam, tem aqui uma bela menina, e eu beijava-te, e achava-te linda, embora fosses feiazita, atordoada e de olhos fechados, e havia de te chamar, logo, assim que olhasse para ti, Morena, a minha Moreninha. Moninha.
...
(Tremura, tipo coice, na perna esquerda, pedindo que continue a fazer-lhe festinhas.)
Não gosto menos de ti por não teres saído de mim, mas podias ter saído. Havia de ser bonito sermos do mesmo sangue, e isso.
...
É pena seres mijona, e carraçuda, e disfuncional! Por que não te portas bem como a Miquinhas? O que vais tu fazer para a obra para chegares de lá com as patas cheias de cimento? E chamei-te duas vezes, olhaste para mim e fizeste de conta que eu era uma parede. Antigamente não eras assim.
A Miquinhas é uma cadela normal, vem quando a chamo, e não se enfia debaixo da cama como tu. O que há de tão fascinante debaixo da cama, não me dizes?! Mesmo que a Miquinhas tenha a mania de trazer porcarias da rua, olha que ser mijona é bem pior.
(Ligeiro movimento de pernas a lembrar-me que continue a sessão de festas na barriga.)

quarta-feira, maio 14, 2008

Nem à lei da bala


Não havia quartos individuais, só camaratas, e nós dissemos está bem. Deitei-me. Sete camas, mas não havia ninguém. Só nós. Era um velho amigo com quem já tinha dormido sem esperanças. Um amigo que se tinha deitado comigo por favor, quer dizer, por ser homem, e porque um homem nunca se nega, e porque os meus lábios tinham não sei quê que o deixavam perturbado, com boas hipóteses de ser mentira. Eu bem via as amantes que lhe iam passando pela mão. Isto sem favor para nenhuma das partes, eu tinha demasiada categoria para sua namorada, era demasiado bonita, demasiado sensível, demasiado esperançosa. Eu era uma mulher de quem era preciso gostar, e ele sabia disso.
Mas agora estávamos naquela situação, sendo que não nos encontrávamos há centenas de anos.
Não foi embaraçoso. Ele despiu-se e deitou-se. E eu pensei, bolas, isto vai dar molho.
Não me desagradou. Achei melhor ir à casa-de-banho. À cautela seria melhor fazer xi-xi, que isto, pá, uma mulher, é uma chatice.
Quando voltei, a camarata estava cheia de gente, e ele quase a dormir.
Abracei-o e pensei que também estava bem assim.

sábado, maio 03, 2008

Os sinais do amor

Eu e a Morena estivemos ontem com insónias, e perguntei-lhe se me queria ajudar a comer um pacotinho de pinhões que sobrou do Natal. Tendo ela concordado, fui procurá-lo, metemo-nos entre os lencóis, muito encostadinhas, e fomos partilhando o saquinho. A Micas ouviu-nos tasquinhar e veio à cabeceira da cama exigir o seu quinhão. Ou bem que é para todas, ou não é para ninguém. E foi dois à Micas, dois à Morena, dois a mim.
Hoje de manhã, ao fazermos cama de lavadinho, descobrimos mais de 30 pinhões espalhados pelos lençóis, e debaixo das almofadas. Comemo-los directamente, enquanto lhes dizia, "eis a nossa cama manchada pelos sinais do amor".

terça-feira, abril 22, 2008

As minhas amigas

Tiveram maridos e filhos, e eu invejo-lhes a riqueza e a normalidade que me foram negadas (que me neguei). Têm tudo e ainda se queixam.
Permaneço solteira e sem prisões, e elas invejam-me a autonomia e liberdade que mantive (a que tive de me adaptar). Acham-me cool e dizem que não tenho de que me queixar.

quarta-feira, abril 02, 2008

Do altruísmo

Não se fazem omoletas sem ovos. Tento ser tão realista e prática quanto possível. Quando chega a Primavera, tudo o que desejo é doar o corpo inteirinho a qualquer projecto-piloto de castração química aplicada, um qualquer que requisitasse os meus préstimos, sem credenciais, era de cabeça.



terça-feira, abril 01, 2008

Quando eu casar

Botero

A vida de uma solteirona é esgotante: a depilação, as madeixas no cabelo, a pedicura e manicura, o baton, as blusas que nos caem melhor, porque a gente sabe lá quem encontra, quem passa por nós, e é preciso estar sempre relativamente apresentável. Quando me casar, juro, quando me casar, arranjo um par de filhos mimosos ao meu marido, e uma hipoteca em comum, e a esteticista perde-me o norte; acabaram-se a depilação, as madeixas, os perfumes. Vai ser assim. Eles habituam-se facilmente, e depois até gostam. Tenho cá uma inveja às casadas!

sábado, março 15, 2008

Monólogo da solteirona II

Foto: Pejotek

Cenário: quarto de dormir.

Morena salta para cima da cama, ainda por fazer, e amersenda-se sobre os lencóis, suspirando fundamente, o focinho na almofada, como um cão dos filmes. Atiro-lhe, o que é que vieste cá esconder desta vez? (Silêncio, olhando-me de lado, porque estou a incomodá-la.) Um osso velho aos pés da cama? Um rato podre debaixo da almofada? (Nada, ignorando-me.) És a coisa mais porca que já dormiu nesta cama... e olha que já cá dormiu muita desgraça à qual nunca devia ter franqueado aquela porta... (Silêncio compreensivelmente despiciente).

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...