Se a minha mãe soubesse que eu escrevia sobre estes temas, não me deixava. Felizmente, não sabe.
Imaginemos que uma jovem ex-concorrente do Big Brother de há meia dúzia de anos, agora com 27 anos, mãe de dois filhos, vítima de cancro irremediável e em fase terminal, decide deixar-se filmar e fotografar, e à família, em situações íntimas do quotidano, incluindo a própria morte, como forma de ganhar dinheiro para garantir o futuro das crianças? Imaginem que transforma os seus últimos meses de vida numa extensão do Big Brother com a plausível desculpa do dinheiro que ganhará para os meninos?
É censurável ou louvável? Ou ambos? A questão atormenta-me. Há nesta história algo de mórbido que transcende o bem estar das crianças e me dá comichão nas palmas das mãos.
Quem é Jade Goody? O que fez desde o Big Brother britânico de 2002? Escreveu um livro especialmente interessante? Ganhou um prémio científico? Salvou um menino que se afogava na praia das Maçãs? Deu uma valente bofetadona ao Sócrates e garantiu-lhe que nunca mais na vida iria ter uma maioria absoluta? Não, não realizou nenhuma das boas acções atrás enumeradas. Participou no referido Big Brother, teve cancro, morreu e deixou dois filhos. Ponto final. Eis os motivos porque fomos todos obrigados a conhecê-la.
O que distingue esta jovem mãe de outras jovens mães que morrerão no próximo mês, vítimas da mesma doença?
Em princípio, nada. O filão da piedade relativamente aos órfãos, e à idade da vítima, poderá ser explorado até à exaustão no que toca a qualquer outra mulher tão jovem.
Como é que este caso, igual a tantos outros, nos entra pelas janelas dentro e, pior, tenhamos de gramar a xaropada como assunto de grande seriedade?
Se calhar, porque a vida privada das doninhas vende jornais e revistas, e esta jovem escolheu transformar os seus últimos meses de vida numa extensão do Big Brother, alcançando assim o estatuto de estrela (trágica) que sempre desejou; cheia de vida ou cheia de morte, mas cheia de sucesso - o que fez, vendendo as imagens da sua sorridente e fotogénica agonia aos media, que nem hesitaram. Isto gera muito pathos, e, consequentemente, muita katarsis. É uma telenovela das boas, porque é real.
Nas últimas semanas perdi a conta às capas de revista e artigos onde se lia, "ainda está viva", "tem muitas dores e já se despediu dos filhos", "mal consegue andar mas ainda sorri", "casou e baptizou as crianças apenas algumas semanas antes de morrer", "comeu a última fatia de bolo", "comeu a última fatia de pizza"... Juro que já andava a pensar, cá com os meus botões, e sem desabafar com ninguém, nem o pai morre, nem a gente almoça!
Se a desculpa não fossem as crianças, se ela tivesse dito, "ok, esta é a minha vida e a minha morte, olhem todos, vejam bem, quero mesmo que vejam, e quero ser bem paga por isso", eu estava aqui caladinha.
Li hoje, no DN, que o acompanhamento, pelos media, dos seus últimos meses de vida, lhe rendeu mais de 4 milhões de euros. Confesso não saber bem o que são 4 milhões de euros, por isso perdoem-me estas contas tão por alto. Imagino, vagamente, que com 4 milhões de euros pudesse comprar 8 moradias de 10 assoalhadas, com piscina, aquecimento central, vidros duplos e videovigilância na Herdade da Aroeira.
Aqui, no meu bairro, 4 milhões de euros chegavam-me para adquirir 40 apartamentos de 3 assoalhadas cada, com duas casas de banho, vidros duplos e uma ou outra mariquice. Ou seja, comprava a correnteza inteira dos prédios onde moro.
Se comprasse 40 apartamentos, viveria num deles e alugava os restantes a 400 euros a peça. Não seria caro. Isto render-me-ia, ao mês, 15.600 euros, o que me daria para viver melhor que o franciscano padre Melícias, que, coitadinho, mal chega aos 8 mil. Escusado será dizer que deixava de trabalhar na fábrica, e me dedicaria inteiramente à escrita de postes, qual Saramago na sua ilha.
O que eu quero dizer com isto tudo é que alguém vai ficar muito bem na vida, e não sei se serão os filhos da Jade, mas alguém... Agora que os filhos serviram lindamente como desculpa para arrecadar esta bela fortuna, e um enorme desejo enorme de estrelato, serviram.
Até estou em crer que, para os meninos, esta exposição da mãe não deve ter sido grande exemplo emocional. Se lhes morre mais alguém sem a devida atenção dos media, os miúdos acharão estranho. Morrer é uma festa, dizia a mamã que foi para o céu. Mas se alguém, nomeadamente, a Segurança Social, for capaz de agarrar estas crianças e de as trazer de volta ao mundo real, pode ser que a coisa ainda se componha.