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terça-feira, março 07, 2017

Morrer é uma festa



Não há assuntos inabordáveis, mas há assuntos tramados de abordar. Este é um deles.
Se a minha mãe soubesse que eu escrevia sobre estes temas, não me deixava. Felizmente, não sabe.

Imaginemos que uma jovem ex-concorrente do Big Brother de há meia dúzia de anos, agora com 27 anos, mãe de dois filhos, vítima de cancro irremediável e em fase terminal, decide deixar-se filmar e fotografar, e à família, em situações íntimas do quotidano, incluindo a própria morte, como forma de ganhar dinheiro para garantir o futuro das crianças? Imaginem que transforma os seus últimos meses de vida numa extensão do Big Brother com a plausível desculpa do dinheiro que ganhará para os meninos?
É censurável ou louvável? Ou ambos? A questão atormenta-me. Há nesta história algo de mórbido que transcende o bem estar das crianças e me dá comichão nas palmas das mãos.

Quem é Jade Goody? O que fez desde o Big Brother britânico de 2002? Escreveu um livro especialmente interessante? Ganhou um prémio científico? Salvou um menino que se afogava na praia das Maçãs? Deu uma valente bofetadona ao Sócrates e garantiu-lhe que nunca mais na vida iria ter uma maioria absoluta? Não, não realizou nenhuma das boas acções atrás enumeradas. Participou no referido Big Brother, teve cancro, morreu e deixou dois filhos. Ponto final. Eis os motivos porque fomos todos obrigados a conhecê-la.

O que distingue esta jovem mãe de outras jovens mães que morrerão no próximo mês, vítimas da mesma doença?
Em princípio, nada. O filão da piedade relativamente aos órfãos, e à idade da vítima, poderá ser explorado até à exaustão no que toca a qualquer outra mulher tão jovem.
Como é que este caso, igual a tantos outros, nos entra pelas janelas dentro e, pior, tenhamos de gramar a xaropada como assunto de grande seriedade?
Se calhar, porque a vida privada das doninhas vende jornais e revistas, e esta jovem escolheu transformar os seus últimos meses de vida numa extensão do Big Brother, alcançando assim o estatuto de estrela (trágica) que sempre desejou; cheia de vida ou cheia de morte, mas cheia de sucesso - o que fez, vendendo as imagens da sua sorridente e fotogénica agonia aos media, que nem hesitaram. Isto gera muito pathos, e, consequentemente, muita katarsis. É uma telenovela das boas, porque é real.

Nas últimas semanas perdi a conta às capas de revista e artigos onde se lia, "ainda está viva", "tem muitas dores e já se despediu dos filhos", "mal consegue andar mas ainda sorri", "casou e baptizou as crianças apenas algumas semanas antes de morrer", "comeu a última fatia de bolo", "comeu a última fatia de pizza"... Juro que já andava a pensar, cá com os meus botões, e sem desabafar com ninguém, nem o pai morre, nem a gente almoça!




Concordo que isto é muito chato de dizer por causa dos filhos! Custa uma pessoa estar aqui a levantar esta lebre terrível. E nisso ela foi esperta. A alegada necessidade de assegurar a sobrevivência dos órfãos calou as vozes mais críticas. Pelo menos em Portugal. Quem é que, pensando no bem das criancinhas, se atreve a sugerir que Jade Goody não fez isto pelos filhos, mas, se calhar, apenas por si? As crianças ficariam mesmo desamparadas?! Não terão avós, padrinhos, tios? Ninguém?! Serão todos toxicodependentes e alcoólicos?
Se a desculpa não fossem as crianças, se ela tivesse dito, "ok, esta é a minha vida e a minha morte, olhem todos, vejam bem, quero mesmo que vejam, e quero ser bem paga por isso", eu estava aqui caladinha.

Li hoje, no DN, que o acompanhamento, pelos media, dos seus últimos meses de vida, lhe rendeu mais de 4 milhões de euros. Confesso não saber bem o que são 4 milhões de euros, por isso perdoem-me estas contas tão por alto. Imagino, vagamente, que com 4 milhões de euros pudesse comprar 8 moradias de 10 assoalhadas, com piscina, aquecimento central, vidros duplos e videovigilância na Herdade da Aroeira.

Aqui, no meu bairro, 4 milhões de euros chegavam-me para adquirir 40 apartamentos de 3 assoalhadas cada, com duas casas de banho, vidros duplos e uma ou outra mariquice. Ou seja, comprava a correnteza inteira dos prédios onde moro.
Se comprasse 40 apartamentos, viveria num deles e alugava os restantes a 400 euros a peça. Não seria caro. Isto render-me-ia, ao mês, 15.600 euros, o que me daria para viver melhor que o franciscano padre Melícias, que, coitadinho, mal chega aos 8 mil. Escusado será dizer que deixava de trabalhar na fábrica, e me dedicaria inteiramente à escrita de postes, qual Saramago na sua ilha.

O que eu quero dizer com isto tudo é que alguém vai ficar muito bem na vida, e não sei se serão os filhos da Jade, mas alguém... Agora que os filhos serviram lindamente como desculpa para arrecadar esta bela fortuna, e um enorme desejo enorme de estrelato, serviram.
Até estou em crer que, para os meninos, esta exposição da mãe não deve ter sido grande exemplo emocional. Se lhes morre mais alguém sem a devida atenção dos media, os miúdos acharão estranho. Morrer é uma festa, dizia a mamã que foi para o céu. Mas se alguém, nomeadamente, a Segurança Social, for capaz de agarrar estas crianças e de as trazer de volta ao mundo real, pode ser que a coisa ainda se componha.

terça-feira, julho 15, 2008

A pobreza e o luxo




Guardei o recorte. O artigo chamava-se A necessidade de empobrecer. Tratava-se da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público, há quase um mês. VPV defendia a ideia de que o slogan mudar de vida, muito repetido pelos políticos como forma para resolver parte da crise, apelando a um uso cada vez mais moderado do petróleo, e recorrendo às energias alternativas, é uma fraude. Afirmava que não é hoje possível mudar de vida sem voltar à pobreza "pela força e pelo sofrimento". Para VPV, a registar-se um empobrecimento generalizado, "num país como Portugal, com a sua miséria e o seu atraso, 80 por cento da população não a suportaria. «Mudar de vida» seria pior que uma revolução, seria o fim de uma civilização".

Isto da pobreza, comoveu-me. Por outro lado, a ideia de fim de uma civilização, considerando o desastre que é a nossa, animou-me.

Eu própria defendo a ideia de que deveríamos todos ser mais pobres. Mas pobreza, a meu ver, é qualidade de vida, e não inclui qualquer sofrimento. A pobreza a que VPV se refere, ao falar dos tempos em que não havia telefonia nem auto-estrada nem ar condicionado, é apenas uma forma de vida que exclui os luxos da sociedade de consumo. Consumir menos, mais barato, melhor, e reaproveitar. Considero óptimo que as roupas e os livros e brinquedos passem de irmão para irmão, que a comida seja reaproveitada, que não se acendam luzes sem necessidade, nem se gaste água à toa. Continuo a bater na ideia de que todos compram produtos acima do que podem e necessitam. Sobretudo maquinaria, mas também roupas, sapatos, malas, mobiliário, pechisbeque. Uma coisa é pobreza, outra é a miséria. Ora, eu defendo que é possível viver modestamente, aquilo a que VPV chama pobreza, sem viver na miséria.

Ultimamente tenho andado à procura de um carro para substituir o meu, que chegou às últimas, e reparo que os vendedores de automóveis me apresentam viaturas afirmando, bem, não é um carro como aquele ali, que vai aos 200, mas chega com facilidade aos 160, 170, uma velocidade decente para auto-estrada. 160, 170?! Mas para que quero eu um carro a atingir velocidades dessas?! Eu quero lá circular a 160?! Quero andar sossegadinha, com uma velocidade moderadazinha, com um carro seguro, com bons travões, espaço para carregar cadelas e objectos, que sou de carregar, e boa suspensão, porque gosto de estradas más. O melhor possível em termos de segurança e consumo, aliado ao melhor preço. É o meu lema para tudo.

Não penso que seja fácil viver hoje confortavelmente sem frigorífico e máquina de lavar roupa. Não são luxos. No meu caso pessoal, devo incluir nesta lista uma televisão, aparelhagem de som e computador com ligação ADSL. E isto, sim, para mim, é luxo. Poderia viver só com os meus livrinhos. Como cultura, chegaria. Mas digamos que é um luxo mínimo. Defendo-me, escolhendo bem, e não desperdiçando aquilo que já tenho. Acho os écrans plasma muito funcionais, com óptima imagem, mas os respectivos preços não, por isso, quando comprei a minha televisão, exclui essa hipótese. E não me passa pela cabeça deitar fora esta televisão para adquirir um objecto melhor. Viverá o seu tempo, e depois logo se vê. Exactamente como com o meu carro. Já prometi que vou andar mais de transportes públicos, mas por uma série de motivos pessoais não consigo cumprir as minhas obrigações sem um carro.

A minha ideia de pobreza está, portanto, relacionada com a esforçada recusa do luxo. Os portugueses acham que viver bem é viver no luxo, e sentem uma enorme apetência pelos sinais exteriores de riqueza. É exactamente aí que é preciso cortar, emendar. Melhor, educar. Só um povo muito pobre, pobre de ideias, de valores - é essa a nossa maior pobreza - pode julgar suplantar a pobreza por via da aparência, do luxo. Seria o mesmo que pintar um velho bidão ferrugento com verniz de purpurina. Não precisamos de luxo, mas de eficácia, e de conforto na eficácia. Isso já é viver bem, ou, se quiserem, pobremente.

Já agora, a secretária sobre a qual tenho o computador no qual escrevo este blogue, veio lá de baixo do lixo. Exactamente. Estava entre os contentores do lixo orgânico e os da reciclagem de vidro, papel e embalagens. Alguém a deitou fora. É uma óptima secretária em estado novo, a qual, com sorte, ainda chegará aos os meus netos. Pobre, muito, muito pobre foi aquele que deitou fora uma secretária destas. A minha mãe admitiu que era uma excelente secretária, mas acrescentou que devia parecer muito mal aos meus vizinhos verem-me levar para casa coisas do lixo. Já não me lembro bem, mas acho que me ri.


sábado, março 01, 2008

Tudo o que há para saber sobre roubo de automóveis de alta cilindrada


Eu sei lá se devo sentir-me ofendida por não pertencer à elite com direito a ser vítima de car jacking! Rejeitando-me sem apelo, os assaltantes estão a dizer-me, "oh, filha, não vales um carapau seco; se queres que a gente se digne considerar-te na nossa lista, livra-te desse Opel Corsa cheio de riscos e compra um topo de gama cujo abafanço valha a pena".
Antigamente, toda a gente tinha direito a que lhe roubassem a carripana, e qualquer marca servia. Havia uns ferros amarelos que metíamos por dentro a bloquear o volante e a embraiagem do Renault. Hoje, para se ser roubado, é preciso, primeiro, uma pessoa endividar-se em empréstimos bancários de valor igual ao do salário, comprar um Mercedes não sei quê, e, logo a seguir, começar a fazer biscates que rendam o suficiente para pagar o carro novo e, já agora, comer; ora, um dos biscates rentáveis será fazer car jacking. Isto, sinceramente, é o mesmo que vender droga para consumir droga.
Quando ouço falar em roubo de carros de alta cilindrada, ocorro-me logo querer saber quem os compra. Estão encomendados? É trabalho feito em free lance? Se estão encomendados, trata-se de pessoas que querem possui-los por quantias menores, suponho, e que pertencem ao mesmo mundo cultural dos assaltantes. O carro já alterado não poderá iludir o facto de ser em segunda mão, e o tipo de transacção realizada, mesmo que no estrangeiro, deverá levantar algumas suspeitas. Portanto, é bastante provável que quem compra um veículo nesta situação, mesmo que roubado em regime de free lance, faça uma ideia do que está a comprar. Quem alinha nestes esquemas de criminalidade, fá-lo porque é importante ter um automóvel caro, mesmo que tenha de se ficar a dever no crédito Jumbo. A bomba dá status. E o status tem sido moeda de troca ao longo dos tempos; com ele se compra confiança, integração, sexo, bajulação, e todas as consequências que daí se tiram.
Em última análise, os culpados do roubo de carros de alta cilindrada são os seus possuidores. Responderam ao estímulo de possuir uma bomba de que muito provavelmente não precisam, só porque sim, e encontram-se a reproduzir o mesmo estímulo, em burros de igual quilate. Quem não precisa de transportar carga e não pode circular a mais de 120 quilómetros por hora, precisa de topos de gama para quê? A mim não me passa pela cabeça passar do Fiat utilitário. Se hoje me oferecessem o crème de la crème dos automóveis, empenhava-o amanhã, e dirigia-me ao concessionário Opel desta praça para trocar o meu velhinho por um novinho com direcção assistida. O restante gastava-o em bacalhau com natas e tratamentos à celulite, por exemplo.

Nota: acabei de ler que o destino de uma parte dos automóveis roubados em car jacking é servirem para um outro tipo de assaltos, no qual se exige que um carro vá dos zero aos 240 quilómetros/hora em meia fracção de segundo. Ora, isso já é motivo plausível para se precisar de um automóvel de alta cilindrada.

segunda-feira, novembro 26, 2007

A máquina do Natal



Estamos no final de Novembro, mas os centros comerciais estão enfeitados com gambiarras, trenós e renas, desde o início do mês. No dia de São Martinho vi crianças sentadas ao colinho do Pai Natal, no Almada Fórum. Promoções de brinquedos, no Jumbo, muitas. Créditos especiais "compre agora e pague depois", com ou sem juros, inumeráveis. Este fim-de-semana, o trânsito direccionado às grandes superfícies intensificou-se. Os centros comerciais abarrotavam.
Compre, adquira, ofereça, tenha, possua, exiba, use, satisfaça, seja como todos os outros que compram, adquirem, oferecem, têm, possuem, exibem, satisfazem. Gaste já o seu subsídio de Natal, caso o tenha recebido, porque foi para isso que o recebeu. Alimente o monstro com o seu crédito. É esta a letra oculta dos Jingle Bells que se vão ouvindo pelos altifalantes do centro comercial. Oh-oh-oh-oh-oh, compra-compra-compra...
Mas eu gosto do Natal. Antecipo a noite, os bolos-rei, os pudins, a mesa do jantar com o bacalhau, que é melhor ou pior, mas que sabe sempre bem, quentinho e regado a azeite. Gosto de me rir e conversar enquanto estamos todos juntos, recordando situações do passado, contando histórias.
Quando era pequena passava a tarde do dia 24 de roda das saias da minha mãe que fritava quilos de filhoses para distribuir pela vizinhança e pelos amigos. A D. Alice faz sempre filhoses de cenoura a mais para mim e para a minha mãe, e nós levamos-lhe um bolinho rei. Ou de chocolate. Ou um pão-de-ló. Que bom estarmos juntos, falarmos, bebermos licores e comermos docinhos. Que bela altura para estarmos juntos. O Natal devia ser só isto. Era o principal. Chegava.
Entretanto, não há ninguém na rua; estão todos nos centros comerciais a comprar prendas.
Não é verdade que os portugueses pensem gastar menos este Natal, ou seja, que a crise diminua o consumo associado à troca de prendas.
Estamos ainda a um mês da comemoração do nascimento do homem que se insurgia contra os vendilhões do templo... e toda esta movimentação se realiza em nome da dádiva e do amor, ou seja, em seu nome.
O consumo natalício já se percebeu, não vai diminuir. Que não chegue para o bacalhau e para as batatas, mas há-de chegar para a máquina de café Nespresso e para o camarão tigre, é certo.

terça-feira, maio 29, 2007

E Deus criou a gorda

Fotos: Amélia
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



No final da rua Domingos Sequeira, em Lisboa, ao subir para Campo de Ourique, existe um outdoor da Clínica Persona que parece ter ficado esquecido da campanha do ano passado. Lê-se, em letras garrafais, "Eles não gostam de celulite"; atenção, trata-se de um portal para outra dimensão.

Se são corajosos, venham comigo. Atravessemos o portal. Do outro lado não há diferenças visíveis. A esquina da Caixa Geral de Depósitos, a do café A Tentadora, os eléctricos tocando, o trânsito difícil. Edifícios, pessoas, objectos; tudo igualzinho. No entanto, reparem, as mesmas coisas não têm o mesmo valor. As quatro fotos que aqui publico fazem ali parte de uma campanha publicitária para um novo perfume Dior. Estão a vê-las nos outros outdoors publicitários deste lado? Reparem, por favor.

As páginas de publicidade da Elle, da Vogue, da Marie Claire encontram-se pejadas de voluptuosas modelos com mais de 70 quilos, símbolos sexuais sem mãos a medir para entrevistas nas quais são obrigadas a explicar que regime seguem para manter curvas avantajadas. As mais sortudas não fazem nada. Tiveram a sorte de nascer assim. "São os genes", explicam. "Tive sorte. O meu pai era gordo. A minha avó era gorda..."





Estas mulheres, que todos desejam, e cujas imagens enchem páginas de blogues dedicados à beleza feminina, sentem-se obrigadas a relativizar o seu sex appeal. Sentem que é demais todo esse fascínio pelos seus corpos. Afirmam sentir-se mulheres normais, como quaisquer outras, que o corpo, afinal, não tem assim tanta importância, e que, "hoje em dia, os padrões de beleza têm tendência a tornar-se mais heterogéneos, neles cabendo, também, certo grau de magreza".

Nesta dimensão, a magreza é um estigma infame e um tabu. O assunto evita-se fora da esfera relacionada com os cuidados de saúde. Pode dizer-se a uma mulher que está mais gorda, "que linda estás, assim gordinha". Nunca, nunca se lembra o emagrecimento. Seria de muito mau gosto afirmar algo como "emagreceste imenso, ultimamente!" Evita-se!

As magras, essa subespécie entre o animal em más condições para abate e o deficiente culpado de o ser, incomoda, desagrada. Há imensas mulheres magras; estão por todo o lado, nas esquinas, nas paragens de autocarro, nos cafés bebendo garrafas de água das Pedras... Há imensas mulheres de 55 quilos descontentes com o seu corpo, sujeitando-se a tratamentos violentos, e caros, para conseguir engordar um pouco, ganhar celulite nas pernas, e gordura na barriga e nas ancas, já que desse objectivo depende a aceitação alheia, e, também, a que as próprias farão do total de si, não havendo outro aspecto a valorizar. Ou se é gorda e atraente ou se é nada; se vale nada. As magras são, obviamente, mulheres bonitas, como as gordas, mas o espelho não lhes devolve aquilo que não foram ensinadas a ver. Não se encontram, não se vêem, não se reconhecem como mulheres. São animais. Vacas escanzeladas.





O mercado do prazer valoriza exclusivamente a mulher gorda. Só os tarados procuram as magras. Diz-se, sobretudo pensa-se, que um homem só arranja uma magra se estiver desesperado. Entre eles, comentam que as magras, enfim, também desenrascam, para além de que são alvos mais fáceis, devido à ausência de auto-estima, e à dificuldade em arranjar parceiro sexual. E pronto, vendo bem as coisas, são mulheres, têm mamas e um buraco ao fundo das pernas, até dois. E quando se está desesperado, caramba...

O corpo feminino, nesta dimensão, continua a vender todo o tipo de produtos: sumos, cuecas, papel higiénico, cremes hidratantes, pneus, jantes, aparelhos de televisão, mas o mercado é cruel na sua selecção. Mulher que pretenda almejar uma carreira como modelo publicitário, ou de moda, como actriz, intérprete musical, apresentadora de televisão ou socialaite, esforça-se por atingir 65 quilos de peso mínimo. Recentemente, uma modelo com 64 quilos e trezentos viu-se impedida de desfilar na Moda Lisboa. Demasiado magra!
O problema da dimensão em que nos encontramos, e de onde espero possamos sair depressa, está em que os cidadãos são, desde crianças, bombardeados com mensagens profundamente negativas relativamente à magreza e à relação das magras com o seu corpo. No cinema, as crianças magras são preguiçosas, lentas, sujas e burras; às mulheres magras e esguias cabem os papéis maus: obsessivas, taradas, histéricas, ridículas, pérfidas; as anti-heroínas. Só as gordas podem almejar papéis de destaque românticos, sensuais, misteriosos, selvagens. A máquina de marketing musical procura candidatas anafadas para constituir as suas girls band. As tunas académicas cantam, até ao enjoo, "A mulher gorda / a mim só me convém /Como posso andar na rua/ sem as banhas de alguém?!" Nenhuma jornalista pensa chegar a pivot de telejornal sem competir com a Alberta Marques Fernandes, esse sensual portento moreno. Num meio no qual só a imagem de uma mulher cheia e redonda satisfaz o receptor, não é de espantar que a magra se veja relegada para uma espécie de gueto que, ao aceitar, acaba por legitimar.





Este problema, na dimensão onde ainda nos encontramos, advém de se ter fixado, durante décadas a fio, um modelo universal de beleza que estigmatiza a verdade: o corpo humano na sua verdade. Tal como um corpo humano é. Vário. Como se, na dimensão à qual pertencemos, e para onde seguiremos rapidamente, se Deus quiser, tivéssemos excluído as ruivas de sardas ou as morenas de cabelo frisado.

Imaginem, agora, caros leitores e leitoras, que na nossa dimensão... e saiamos agora, vamos lá, preparem o salto - Gancho, não se importa de levantar um pouco mais a perna, por favor?!-, cuidado!, três de uma só vez não passam; olhem os eléctricos, não atravessem à maluca... Desculpem... imaginem, agora, que na nossa dimensão reservávamos para as nossas formidáveis gordas, e gordos, claro, o tratamento que as bestas do outro lado guardam para tão belas magricelas?! Impensável, não é? Que coisa mais estúpida, mais sem sentido! Felizmente, estamos deste lado a salvo.

sexta-feira, março 16, 2007

Objectos de fantasia


Sorrio com Bridget Jones. Compreendo-a. Quer ser magra. Eu também. Quer fazer tudo certo. Eu também.
Bridget é bonita, tem bom emprego, amigos e vida independente, mas como se sente insegura e insatisfeita! Falta-lhe tudo! Apenas não tem um companheiro, mas essa ausência condiciona toda a sua vida, gerando um stress habitual a quem busca e não acha, colocando-a em situação de enorme risco e desgaste emocional. Bridget, sem namorado, sente ter nada. A sua auto-estima tem dias, e toma o fracasso como certo. Esta percepção, tão generalizada, sobre a vida das celibatárias, aborrece-me. As pessoas não são muito diferentes, portanto, o que Bridget sente, eu já senti.
Temos a ideia de que avançámos muito desde o tempo das nossas mães. Eu não tenho. Enquanto continuarmos à procura de homem para nos sentirmos completas, e precisarmos de parecer, por dentro e por fora, o que consideramos fundamental para os seduzir e manter, e nos guiarmos por bitolas de beleza e bem estar que julgamos serem-nos impostas pelo gosto deles, mas que igualmente lhes são impostas pela ditadura das tendências, estamos no mesmo ponto em que estiveram as mulheres de há 40 anos.
É difícil não nos sentirmos a Bridget Jones. Todas as mulheres, não apenas as solteiras, se sentem Bridgets percentuais. Revejo-me muito na personagem, embora difiramos nos sonhos, sobretudo no que esperamos do amor: Bridget não abdica da ideia de príncipe encantado, e o seu objectivo é deixar de ser solteirona; conhece o estigma, e quer apenas confundir-se no anonimato da felicidade conjugal; eu, no que respeita a homens, ultrapassei a fase Bridget: já só agradeço a delicadeza de se manterem ao largo, e evitarem chular, para tabaco e outros vícios, o esforço do meu trabalho. Quanto ao resto, conheço bem os impulsos de fuga aos jantares com grupos de amigos acasalados; os sentimentos culposos de solteirona em permanente e absoluta contramão social; as deslocações desoras ao frigorífico, porque sinto uma falta. Não é bem fome nem sede nem dor nem comichão, mas uma falta ilocalizável que tem de ser preenchida. É uma falta de mim. É o desejo de ser outra. Isto, isto mesmo: o desejo de ser outra! Não eu, não nós, não aquela que se senta na mesa ao nosso lado, mas a mulher modificada e mediatizada que nos enfiam todos os dias em casa, via cabo. Um produto da fantasia, de uma estética imposta por ideais massificados, uma fruta do tempo, que passa, como tudo o que existe. Queremos ser uma imagem, uma ideia de mulher.





A ditadura da atracção sexual, e consequente necessidade de manter as características que estimulam o que consideramos ser o desejo masculino, obrigam Bridget Jones, e a maior parte das mulheres, mesmo as que se mantêm alerta contra estratégias de consumo, a uma violenta uniformização da aparência e dos comportamentos.
Queremos eliminar a celulite! Eu não compreendo o ódio à celulite. Sinceramente. Há coisas que posso compreender, mas, no caso das mulheres, viver sem celulite, é como viver sem bílis. Não podemos lutar dessa forma contra o nosso corpo. A celulite incomoda-nos particularmente?! Dói?! É natural, se pressionarmos as mamas também nos doem. Queremos eliminá-la porque temos vergonha de mostrar as pernas na praia - e aos companheiros de cama. Quem, senão nós, umas às outras, nos ensinou a ter vergonha da celulite?! Nós criamos as ditaduras em que vivemos no momento em que pactuamos com elas. É assim na política como na fisiologia. Não podemos aceitar, sem questionar, um livro de estilos que nos serve mal. A luta que as mulheres travam contra a celulite não é muito diferente do actual conflito Israel-Palestina: não há solução à vista! Não mudará enquanto não mudar toda a mentalidade.
A mulher que desejaríamos ser, necessitaria dedicar a jornada inteira à escultura de si. Teria de dividir o tempo entre o ginásio, o gabinete de estética e o centro de massagens. Não trabalharia a não ser na construção da sua aparência enquanto produto de consumo. Quem depende do aspecto para cobrar salário, como as modelos, apresentadoras de programas de televisão, actrizes, inclui o custo da manutenção no seu valor de mercado. Ser um produto do que a cultura deste tempo decidiu que deveria ser uma mulher ou um homem, implica trabalho a tempo inteiro, e dinheiro. É incompatível com a vida real; com o nosso horário e obrigações.
Detestamo-nos ao espelho, e no que julgamos ver nos olhos dos outros. Não nos aceitamos, e impomo-nos regras absurdas para tentar ser o que a natureza não programou. Castigamo-nos. Não queremos ser magras se somos magras, nem gordas se somos gordas. Não nos servem pernas finas, se as temos finas; não aceitamos perna gorda, se a temos gorda. Se nascemos com mamas pequenas, pagamos implantes de silicone; se os genes no-las fizeram grandes, sujeitamo-nos a reduções mamárias. Não toleramos depósitos de gordura no abdómen nem rabos ou mamas descaídos nem rugas nem papos nos olhos nem duplo queixo nem pêlos em parte alguma. Se temos o cabelo liso, queremo-lo ondulado, se o temos ondulado, pagamos para que no-lo alisem. Meu Deus, que violência absurda a que nos sujeitamos! Que nos auto-infligimos! Que ditadura! Viver todos os dias com quem detestamos, e sermos esse objecto de repulsa. Sonharmos com outro corpo, outra vida, uma casa californiana, viagens semanais, um guarda-roupa que não temos dinheiro para comprar. A ficção. Queremos ser mulheres de ficção, e a ficção não existe. Custa-nos aceitar essa realidade.



quarta-feira, março 14, 2007

Ter muitas tendências

As páginas seguintes pertencem à revista Def, perdão, Dif (revista mensal de tendências e guia cultural gratuito), a qual costumo trazer do Bairro Alto, quando por lá passo, de dois em dois meses, frequentemente, de três em três.
Adoro a Dif, editada em bom papel, com excelente impressão policromática. É produto para custar umas coroas pesadas a quem o produz! Aconselho-a a quem pretenda passar um serão sarcástico e barato, em casa, por exemplo. Se não fosse a Dif, o mundo trendy passava-me ao lado, e eu não quero correr o risco de viver tão em paz.
Leiamos os dois primeiros textos trendy-informativos, da edição de Março, deste ícone da Imprensa de entretenimento cultural. Clique-se algures sobre as imagens, para que as páginas possam visualizar-se em maiorzinho.



Villa Tinto corresponde ao nome comercial de um estabelecimento dedicado à prostituição legalizada, situado em Antuérpia, uma "das mais importantes cidades portueiras". Cidade portueira! Muito bem! Cidade com porto, logo, cidade portueira. Setúbal, Lisboa e Vigo são igualmente cidades portueiras.
Mas a novidade será a existência do bordel?! Não, Villa Tinto é notícia por se tratar de um bordel digitalizado, estilo Matrix. A prostituta, antes de pegar, coloca o dedinho indicador no scanner, e eis que se abre a porta para o local de trabalho mais objectivo do universo: uma montra, toda ela em néon, na qual se exibem as qualidades supremas da carne de consumo, mais branca, menos branca, mais gorda, menos gorda, de primeira, de segunda, etc.

É importante sublinhar que "lá dentro o ambiente é moderno, numa especíe [sic] de quarto de hotel de design, acolhedor e com bom gosto". Ora, folgo em saber que a clientela dos serviços do sexo pode finalmente foder em hotéis de charme com nome italiano. É outro luxo, outro conforto.

Tendências a reter: cidades portueiras, bordéis, digitalização de dados, montras com condições para exposição de carnes, a velha foda clandestina que deixa de o ser apenas para a puta, agora com uma profissão linda e de futuro; eu própria, se tivesse vocação para a gemideira, aderia, que bem preciso de mudar de ramo, mas acontece que ando com as cordas vocais muito folgadas.

Segundo texto - clique-se, de novo, sobre a imagem, para aumentá-la: Sari Liimatta, finlandesa, designer de jóias, "está na boca do mundo". Eis como a sinédoque "andar nas bocas do mundo" se transforma numa original metáfora. A designer não é apenas muito falada. Mais do que isso, ela encontra-se inserida, já, na máquina digestora do mundo: a sua boca. Temo pelo que possa acontecer-lhe.


O meu temor estende-se às consequências que o talento literário possa ter na saúde mental de FVF, redactor e editor da Def, Dif,
sorry. Não será por acaso. É possível que o alto nível de inovação trendy-literária a que se entrega possa prejudicar a recepção dos seus textos. Analisemos: "A oscilação de opiniões sobre ela é, de resto, vocação das suas propostas." Quererá o Autor afirmar que Sari Liimata propõe-se, deliberadamente, gerar discussão acerca da filosofia e estética da sua obra?!
"A artista apropria-se de peças geralmente dirigidas a crianças e cobre-as minuciosamente com matérias preciosas presas, por alfinetes dourados, tornando-as em objectos desejados". Torna-as, portanto, em objectos desejados devido às "matérias preciosas presas". E que matérias serão essas? Esmeraldas, rubis, pérolas ou missangas de alta qualidade?
"Por outro lado, o reverso é preenchido por pontas, que os torna repulsivos". Refere-se ao reverso do boneco? Lá vem outro problema: mas o que raio é o reverso do boneco? Os interiores do bicho? Preenchido por pontas? Pontas de quê? Não consigo perceber!
"Tem partes do corpo decepadas, acrescentando-lhes um aspecto berrante." Ah, decepados e berrantes! Percebo agora a tendência "desejável-repulsiva". Não percebo que relação existe entre decepamento e aspecto berrante, mas, adiante. Podia passar o resto da tarde comentando aspectos da sintaxe e semântica deste Joyce, mas já se percebeu.

Tendências: matérias preciosas presas, decepamento, repulsa, pontas, redacção trash-trendy.

Só mais uma página, esta de publicidade, a que não resisto: Moda Lisboa, evento que decorreu a semana passada, no Museu de História Natural. De facto, passei por lá Domingo à tarde, tendo verificado que a escadaria da entrada principal se encontrava pejada de jovens trajando normalmente, porque ser muito jovem e bonito é já estilo que baste.



Passo a descrever, redundantemente, pois disponibilizo a imagem, o cartaz da Moda Lisboa, muito patrocinado pela Seat, o qual ostenta o que parece ser um ursinho em peluche, trajando macacão negro, inteiro dos pés ao escalpe, em tecido sintético, com furos na cabeça, orelhas e braços, penso eu que para facilitar a respiração do brinquedo. O referido objecto apresenta, ainda, uma coleira estranguladora ao redor da garganta, e não parece dispor de grande mobilidade. Para além da informação obrigatória num cartaz que divulga uma iniciativa - o quê, quando, onde - é possível ler a inscrição "play". Penso que seja um incitamento à brincadeira. E pronto, termino por hoje, sem qualquer moral, até porque não me atreveria. Cá vos espero no proximo poste sobre a Def, bolas, a Dif.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Consumir para viver

Os Portugueses gastaram mil euros por segundo durante o período de compras de Natal.
(notícia de hoje)


O Natal não era uma orgia de dinheiro a escorrer dos bolsos. Era um tempo para as crianças brincarem, para se maravilharem. Havia magia no Natal, com menos iluminação, menos purpurina, menos presentes. Era a magia do Feiticeiro de Oz, não a de Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban. Eram estéticas e conteúdos muito diferentes.

Não preciso de ir tão longe quanto a minha infância; situo-me na última metade da década de 70, quando fui adolescente, e nos oferecíamos prendas modestas, as que podíamos, mas também as que eram tradição oferecerem-se: meias, cuecas, collants, luvas, cachecóis, livros e discos, coisinhas para o enxoval, e quando vinha um conjunto de lençóis era uma prendazorra! Gastávamos quinhentos escudos numa prenda, vá lá, mil, e era muito.
Não se pensava ganhar um subsídio de Natal para o desperdiçar imediatamente numa alegada generosidade natalícia, mascarando a obrigação do consumo. Hoje, é quase impossível não o fazer, em maior ou menor grau: existe enorme pressão social nesse sentido. Hoje, os almoços de Natal não se fazem sem que cada um leve uma prendinha de 5 euros, a qual sairá em sorteio a alguém que não precisará dela para nada. Tenho cá em casa alguns objectos que ofereço a quem os reclame, e que me calharam em ocasiões semelhantes.

A verdade é que não precisamos da maior parte das prendas de Natal que nos são oferecidas. Preferíamos que nos tivessem dado um queijo ou uma garrafa de azeite. Isto quando não somos os próprios a gastar dinheiro em prendas caríssimas que não têm utilidade alguma para outros. E, claro, a economia vive disto. As empresas podem dar-se ao luxo de pagar subsídios de Natal, bem como de férias, porque esses valores entram rapidamente no mercado, retornando no mês seguinte.
Se, na Primavera, se inventasse um feriado para qualquer outro valor positivo, como o amor e a família, e o mercado realizasse um esforço de marketing na promoção da data, como se fez para o de São Valentim, que, quando era pequena, literalmente não existia, as empresas poderiam perfeitamente pagar aos funcionários um terceiro subsídio, porque o retorno seria certo, e a mercadoria devidamente consumida; as finanças ferveriam! O que interessa é que todos vivam felizes, sobrevivendo de postos de trabalho onde se ocupam a produzir para alimentar a engrenagem de uma viciosa economia de mercado, sem a qual o sistema não sabe funcionar. E o que também interessa, claro, é que o vulgar trabalhador-consumidor não tome grande consciência dessa forma de escravidão. Que diga apenas, na brincadeira, na bicha da ponte, como se não fosse verdade, "oh, sou um escravo"!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Discursos sobre drogas e hipocrisias civilizacionais


Uma brasileira foi detida ao tentar passar para dentro de uma prisão, em São Paulo, vinte gramas de cannabis, um telemóvel, respectivo carregador e um cartão de chamadas, escondidos na vagina. Dá vontade de rir, mas a realidade não tem graça alguma; não deve ter feito rir a moça, que foi presa por tráfico.
Dá-nos menos vontade de rir, mas o fenómeno é o mesmo: esta semana, um passageiro da KLM vomitou, em desespero, alguns sacos de droga que engolira e principiavam a rebentar-lhe no estômago - cerca de noventa. Foi conduzido ao hospital, e detido.

Continua a surpreender-me que sociedades civilizadas, perante a descoberta de casos de autosevícias, com fim mercantil, a que indivíduos se prestam para sobreviver, tenham, como única resposta, a força da Lei pela Lei.
A saúde da rapariga e do homem seriam as prioridades e, de resto, uma correcta investigação policial que conduzisse à descoberta e desmantelamento dos promotores do tráfico, dentro ou fora de prisões. Tudo o resto é inútil, porque erra o alvo.

A mesma sociedade civilizada que detém correios de droga à beira da morte, noticia que noventa por cento das notas em circulação trazem vestígios de cocaína.

A sociedade civilizada precisa avidamente dos consumos que oficialmente não consome, mas pelos quais penaliza alguém: não os produtores, inatingíveis; não os consumidores, que snifam usando notas de 100; mas os correios da droga, os que atravessam barreiras fronteiriças, e nos seus corpos, para as ganhar - duas ou três com que dar feijão com arroz aos filhos.


terça-feira, junho 27, 2006

Admirável consumo novo

Primeiro foi o caos: umas máquinas de calcular do tamanho de arcas congeladoras, de máquinas de lavar roupa industriais, com rolos de gravação largos e longos como películas de celulóide de 6 horas, como o Amor de Perdição, do Manuel de Oliveira.
Depois passaram muitos anos, e foi a disquete. A disquete grandalhona que se formatava antes de poder usar-se. Depois, a partir da disquete grandalhona, e com menos capacidade, que sozinha não medrava nem ajudava a medrar, Eles criaram a disquete pequena. Foi preciso adquirir computadores com novas portas. A disquete pequena fez a sua carreira, transmitindo vírus de computador em computador, que também se foram tornando cada vez mais pequenos e não adaptáveis a novas máquinas de impressão. As portas de ligação tornaram-se incompatíveis e comprámos cabos de adaptação ou, melhor, novas máquinas.
Depois Eles trouxeram-nos o cd-rom. O cd-rom evoluiu e diversificou-se; uns só se podiam usar no computador, outros podiam ir à aparelhagem audio e ao dvd. Cd-roms de todos os tamanhos e para todos os usos.
A seguir, Eles convenceram os nossos patrões de que a produtividade melhoraria com novo software que precisaria de novo hardware, e as máquinas no trabalho deixaram de ter porta para disquete; vimo-nos obrigados a adquirir novas máquinas pessoais para transportar documentos em cd do trabalho para casa e vice-versa. Porque as pessoas que trabalham 35 horas por semana levam trabalho para casa, onde cumprem mais 35 ou 50. O que for preciso para comer. Porque estamos em plena Revolução Global do Capital Liberal Digital.
Tudo o que tínhamos em disquete se perdeu, porque a maior parte dos amadores não possuía conhecimentos para conseguir transportar o conteúdo de 682 disquetes para computadores sem a respectiva porta.
Depois, Eles mudaram outra vez as máquinas de impressão e criaram a pen. Um acessório que todos podemos trazer ao pescoço, com a nossa vida devidamente empacotada, compactada. A pen não se parece com uma esferográfica ou caneta. Consiste num pequeno objecto de diferente formas, que se introduz no cérebro do computador e permite que ambos realizem a cópula divina da transmissão de dados. O nosso maior problema não é não termos dinheiro ao fim do mês, não é roubarem-nos os direitos humanos, sociais, económicos, políticos que gerações inteiras conseguiram para nós e para os nossos filhos. O nosso problema é perder a pen (e o mundial de futebol).
Felizmente o meu computador tem entrada para pen. Não tem é entrada para pen, modem e novo sistema de ligação da nova impressora-scanner-fotocopiadora, tudo ao mesmo tempo. Preciso de outro computador. Se calhar.
Se não fosse o ADSL, ainda me servia o primeiro, que adquiri em 1991. Era bom; portátil; custou-me uma fortuna. Mas não aguentava modernices, software pesado, coisas que não uso nem me interessa usar mas que vêm em pacote; e não tinha porta para cd nem pen.
Acho que este é o meu terceiro computador; sou poupada. Comprei-o há dois anos, mas está desactualizado. Não me apetece substituí-lo por nenhum outro enquanto a pen não se tornar obsoleta. Já sei que há-de vir uma porta Matrix - há-de vir um cabo que permitirá a cópula entre o meu cérebro e o cérebro da máquina. Depois logo se vê qual a necessidade de consumo que será criada. Se puder ligar o cabo à orelha ou a uma narina, até mesmo a um olho qualquer, escuso de mandar pôr um cateter na moleirinha. Logo se vê. Mas vai aparecer, disso estou certa. Brevemente. Porque é preciso consumir. Temos de consumir muito.
E temos de ter mais filhos que possam ser bons consumidores. Não temos dinheiro para gastar no consumo de mais crianças, por isso não as temos - porque atingimos o limiar máximo de consumo - mas se não o fizermos seremos penalizados fiscalmente. Quem não consumir, produzindo novos consumidores terá de pagar mais taxas, consumir mais taxas. Consumimos ou somos marginais.
Os Ocidentes deste planeta, mesmo a Oriente, tornaram-se cemitérios de desperdício químico, metálico. Cabos, fibras, plástico, estranhas amálgamas. Objectos grandes e outros mais pequenos. Lixo que nunca antes existiu. Precisamos de consumir muito e de consumir rápido, deitando fora. Não vale a pena arranjar sapatos, nem roupa nem panelas nem electrodomésticos nem chapéus-de-chuva. Não é rentável. Deitar fora, comprar novo, deitar fora, comprar novo, comprar.
Pedíamos que nos arranjassem as calças de ganga gastas entre as pernas? O sapateiro punha meias-solas nos sapatos e cosia-os quando rebentavam? Alguém se lembra? O meu pai arranjava os ferros de engomar e as torradeiras quando as resistências se queimavam? Compravam-se peças de substituição nas lojas? Agora não é possível comprar peças para um Wolkswagen de 1985, a não ser no ferro-velho?
Podíamos viver com menos? Podíamos viver melhor? Não querendo exagerar, podíamos ser mais felizes? Um dia havemos de nos atirar a nós próprios para o lixo e havemos de nos comprar completamente novos? Um dia havemos de ser felizes como um frigorífico?
Não sei se será o mesmo, mas Alberto Caeiro quis ser feliz como um girassol.

terça-feira, maio 09, 2006

A criação da mulher mutante

A revista Maria e congéneres, em tempos, foram úteis para as mulheres e contribuíram para a educação pública, ensinando o que faltava na escola, na família e no grupo social do café.
Nunca fui leitora assídua, mas apanhava os exemplares das colegas, os que encontrava nos consultórios, e mantinha-me informada. Sempre gostei de revistas cheias de conselhos sobre como tirar nódoas da roupa, diluir a catástrofe do sal em excesso na sopa, remendar erros de tricot, rega das sardinheiras, preenchimento e entrega de impressos de irs, solução de conflitos sociais, conflitos conjugais.
Foi assim que aprendi a fazer bolo-mármore com os tais efeitos psicadélicos do chocolate misturado à massa tradicional.
Estas revistas eram de leitura bastante gratificante, porque, a par dos conselhos práticos, motivavam as mulheres para uma vivência saudável e desinibida da sexualidade, motivavam-nas para o desenvolvimento de competências vocacionais fora de casa e da família, ensinavam-lhes uma nova forma de relacionamento com o parceiro, em que ambos tinham valor e responsabilidades por igual... Eu, que era uma menina de cidade, aprendi muito, pelo que posso intuir o impacto civilizacional que estas revistas terão tido naquilo a que chamamos província, e, nessa, no interior; e aí, em zonas congeladas no tempo.
A Maria e congéneres formaram uma geração de mulheres: a minha. Foi aí que aprendemos que a masturbação não provocava borbulhas nos rapazes, que não era um pecado mortal, que memorizámos desenhos com a fisiologia dos órgãos sexuais e aprendemos o que eram a uretra e as trompas de falópio, que seria possível engravidar praticando coito interrompido, mas que, sentarmo-nos numa sanita, seria inofensivo nesse aspecto, embora pudéssemos contrair fungos, bactérias, e o diabo a sete.
O consultório sentimental, que depois passou a sexual, sempre foi a primeira secção lida na Maria. Todos tinham vergonha, mas todos liam às escondidas, ou então em grupo, à gargalhada. Achávamos as perguntas ridículas, mas líamos as respostas, sempre formativas. Surgiam muitas questões sobre sexo na adolescência e a normalidade de certas práticas sexuais; rapazes, raparigas, homens e mulheres desfaziam mitos sobre contracepção: fazer amor de pé, afinal, não evitava a gravidez, e lavar muito bem a vagina com Bétadine, após o sexo, também não; mostravam-nos desenhos de diafragmas, preservativos enrolados e desenrolados, embalagens de pílulas e espumas e óvulos espermicidas. Explicavam muito bem os efeitos, e todos os aspectos práticos. Aconselhavam a visita a médicos, formas de falar com os pais em caso de acidente. Era muito bom, para dizer a verdade. Ensinava de forma despreconceituosa, informal, muito livre. A revista libertava-nos. Dos pais, dos professores, da pressão dos pares, dos preconceitos todos.


A Maria merecia que lhe fosse prestada a devida homenagem. A Maria antiga, até aos anos 80 e tal, noventa e pouco. Hoje, é insuportável; é o contrário do que foi. Os artigos de capa não formam, apenas legitimam as tendências sexuais e sociais da moda. Consistem em conjuntos de regras tiradas do senso comum cultural sobre como prender um homem, sendo diferente na cama todos os dias; como prender um homem, realizando as suas fantasias sexuais; como prender um homem, cozinhando com especiarias; como prender um homem, usando artigos de sex-shop; como prender um homem de toda a maneira e feitio, porque a obsessão é prender o homem que se vai embora se não formos uma espécie de bonecas insufláveis falantes. O medo de perder o homem, e o que fazer para o evitar, é o assunto favorito. Depois, sexo diferente: prenda-o à cama, deixe que a prenda, tape-lhe os olhos, vista-se de enfermeira ou então de Batwoman; as maravilhas do sexo anal: deixe que o seu companheiro a inicie numa experiência nova - não, peço desculpa, estou a enganar-vos, agora é: seja tolerante e deixe que o seu companheiro lhe mostre que a penetração vaginal também é possível; que não é obrigatório usar algemas na cama e rasgar 3 conjuntos de lingerie de renda por semana. Há uns anos, os homens escreviam para o consultório sexual colocando questões sobre como convencer as mulheres a fazer aquelas coisas rudes e excitantes que viam nos filmes pornográficos, tipo penetração anal, dupla, sexo oral, esfregar o pénis numa parte qualquer, porque elas queixavam-se, não queriam, não era romântico. Hoje em dia, os mesmos homens escrevem a queixar-se: desejam sexo normalzinho e as mulheres só têm prazer de empurrão. Não queria dizer isto, mas não posso tapar o sol com a peneira. Isto construiu-se a pouco e pouco. Não se aprende a reciclar o lixo, é chato, mas se para prender um homem temos de nos converter ao sexo nasal, vamos lá alargar as narinas! Também leio perguntas de meninas de 20 anos pretendendo saber se se pode alternar entre anal e vaginal, tira aqui, mete ali, sempre com o mesmo preservativo. Acho bem que esclareçam as dúvidas, por motivos de saúde pública, mas o que leio e não está escrito, mostra-me que a revista existe, hoje, para divulgar e legitimar práticas sexuais que aprisionam as mulheres mais do que libertam. Aprisionam-nas a um conjunto de comportamentos que não têm como objectivo a sua realização pessoal ou profissional ou sexual, mas a dos parceiros. Aprisionam-nas à ilusão de que são livres, e, por isso, as mulheres têm horror a isso do feminismo. Não são feministas, mas femininas, e desfiam todo o discurso masculino sobre o assunto. Bem aprendido. Ensinam que somos livres na medida em que praticamos sexo livremente, alternativamente, com direito legal à contracepção, ao divórcio ou a viver em união de facto. Estimula-se nas mulheres um conjunto de medos que deviam ter já sido ultrapassados por uma pessoa realmente livre; medos relativos ao aspecto do corpo, ao que se veste como roupa interior ou exterior, promovendo uma série de consumos relacionados com sexo: roupa, produtos de beleza, produtos de estimulação, tratamentos corporais. As mulheres têm, assim, maior temor a umas mamas flácidas que a um tumor mamário. Ter barriga é uma catástrofe irremediável; a celulite justifica a total exclusão social. E é curioso que assim seja, porque tudo isto é parte do corpo feminino, como a barba e os músculos o são do masculino. As mulheres têm mamas flácidas após amamentar; aparece-lhes barriga e celulite assim que as hormonas acordam. A ideia consiste em transformar o corpo feminino num objecto mutante, permanentemente sujeito a recomposições, para que possa servir um ideal de prazer. Não se coloca a hipótese de uma mulher gostar da barriga e das mamas que tem. Todas estão, à partida, em falha. Todas devem odiar o seu corpo e desejar o da modelo da revista. Nenhum corpo real deve ser autorizado.

A revista Maria, e as outras, hoje, porque precisam de vender, e têm de acompanhar a cultura do tempo, não fazem mais que reflectir o culto do sexo como valor primeiro, como sucedâneo da heroína e de todos os outros prazeres que o estado limita. Não fume, compre um vibrador. Não coma, ponha silicone nas mamas. Não beba álcool, faça uma lipo-aspiração. Não foda à antiga, encene o sexo, compre adereços, e obrigue o seu corpo a decorar um texto autorizado: o de que somos todos sensuais deuses do sexo, temos todos intenso, inenarrável prazer numa vida sexual única, irrepetível e melhor que todas as outras, mesmo que tenhamos saudades de, em resumo, levar ou dar uma na enfadonha posição do missionário. Mas hoje é uma vergonha, isso do missionário, portanto iniciam-se as manobras pelo sexo oral, que não é coisa nada íntima para começar. Mas o que é isso da intimidade? Proporciona orgasmos plásticos?

Tive um namorado que me beijava no porão do cacilheiro e me masturbava com cuidado, por debaixo da roupa, não fosse alguém aparecer. No outro dia encontrámo-nos e lembrámos esse tempo, e sorrimos. Era muito bom. A certa altura, confessou-me que a recordação mais erótica que guardava do nosso namoro era tão simples quanto isto: estávamos em casa dos meus pais, à porta, prestes a sair; enquanto eu falava com a minha mãe, marcando hora para chegar, meteu-me a mão por debaixo da saia só para me tocar o rabo, clandestinamente, mas encontrou um rasgão no collant, entre pernas, por onde fez deslizar dois dedos, que sentiram, para sempre, a textura e o calor dos meus pêlos púbicos. Talvez ele se tenha libertado da memória. Eu, que fiz um esforço para me lembrar, terei de viver, agora, desassossegada por esta imagem fantasma de uma luxúria tão inesperada quanto inocente. Ele tocou os meus pêlos púbicos através de um rasgão no collant. Era Inverno, portanto. Devia estar frio. Isto nunca mais voltará a acontecer.

quarta-feira, abril 19, 2006

O tempo do adesivo

Adesivo analgésico por causa dumas dores cervicais; adesivo anti-stress; adesivo contraceptivo; adesivo anti-queda de cabelo; adesivo de nicotina; adesivo anti-celulite; adesivo para cortar o apetite; adesivo de vitamina A para a pele. Já não há cremes? Já não há comprimidos? Sinceramente, não tenho mais espaço livre.

quarta-feira, abril 05, 2006

Os que caíram nas malhas do look alienígena


Yohji Yamamoto, 2006

Disseram-me que o look alienígena está na moda.
A primeira questão que se me colocou foi, "o que é que eu posso fazer para ajudar? Como é que posso ser útil?" Existe alguma associação, como a Abraço, onde possamos ir dar o nome para participar em acções de rua com o objectivo de apoiar as pessoas que se tenham deixado cair nas malhas do look alienígena? Isto é de coração aberto, pá, eu faço o que estiver ao meu alcance. Até lhes leio uns capítulos de Marcel Proust. Sinceramente, conhecendo-me, até sou capaz de ter um rasgo de altruísmo, pegar numa nota de cinco euros, passar-lha para as mãos e mandá-los comer uma sopa e uma uma sandes de carne assada.
E tenho cá em casa roupa quase nova, que aqui me deixou uma primita de 10 anos, que foi há 20 para Venezuela, e nunca mais voltou, que se calhar podia distribuir por estes jovens carenciados. Nâo deixa de ser uma ideia. Cada um faz o que pode. Vocês, estarão com certeza a idealizar outras formas de prestar apoio, diferentes, claro, talvez até melhores que as minhas. O que importa é que juntemos as valências.



Dior 2006


Dior, 2006


John Galliano para Dior, 2006


Yohji Yamamoto, 2006

quarta-feira, março 08, 2006

Espírito Santo de bolso (curso rápido)

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Se não tens pais ricos e não te saiu a lotaria, e por isso te sentes voluntariamente pressionado a contribuir para que façamos o especial favor de ser cada vez mais ricos à tua custa, vergando tu, sempre tu, claro, a mola, vem cá sustentar os nossos papás ricos, que te pagam ordenado para que a seguir lho devolvas em brutais prestações vitalícias que, contudo, te permitem respirar, dentro da gaiola, para que no-la possas agradecer.

domingo, março 05, 2006

Eles gostam muito de celulite

Uma campanha publicitária a certa clínica estética enche as ruas de Lisboa com cartazes exibindo a foto de uma jovem, alta, magra, bronzeada, de longos cabelos dourados mexidos pelo vento, biquini preto, saltos agulha, óculos escuros, acompanhada por um dos seguintes slogans: “Perca peso, ganhe saúde” ou “Eles não gostam de celulite”.
Podiam ter pedido uma foto à Margarida da Abraço, que emagreceu imenso, e é uma figura pública. Ou à Inês Pedrosa. Ou a um homem. Talvez tivesse saído mais barato. Talvez resultasse melhor. Talvez fosse mais saudável.
Acontece que tal campanha não foi feita para homens, mas para mulheres, por causa dos homens. Para se imiscuir pelas frechas de insegurança física por onde é muito fácil introduzirem-se os discursos que apelam a um modelo de corpo como garante de sexo, e ao sexo como garante de normalidade social, porque, à partida, ninguém está totalmente satisfeito com o que aparenta.




Tiziano, Vénus recreando-se com música

O discurso publicitário considera-se amoral. Pela minha parte, considero-o, frequentemente, imoral e, acrescidamente, bestial. Esta campanha publicitária, em particular, é um bom exemplo disso. Veicula preconceitos, estereótipos, discrimina e engana. É muito má. É um exemplo do pior que se pode fazer em publicidade.
A imagem do outdoor apela ao que há de mais negativo no culto do corpo; a imposição da imagem de série. A negação do DNA.
“Perca peso, ganhe saúde” parece-me um slogan bastante sensato, desde que nunca acompanhado de um modelo de corpo inacessível ao público-alvo. Aquele corpo de mulher, alta, sem gordura, longilíneo, corresponderá a uma por mil das mulheres portuguesas?
Não se trata de uma imagem que faça o culto da saúde, porque a menina não está a roer uma cenoura nem a praticar ciclismo, nem a descansar à sombra, mas de pé, assente, o mais possível, numa das pernas, para que se confirme, como na outra da bilha do gás, que não há ali uma grama de reserva adiposa. Trata-se de hedonismo explícito e descarado, de culto por um padrão de beleza discutível: aquele, e só aquele. Aquela mulher impossível, ficcionada e desnecessária.
Tenho imensa pena, mas alguém precisa dizer aos responsáveis pela referida clínica, e lá terei de ser eu!, que embora passe a vida a refilar por causa das minhas pernas, do meu rabo e da minha barriga, não quero ser aquela mulher nem que ma ofereçam. É muito feia. Não gosto nada. Tenho muita pena, mas prefiro a minha celulite, gosto do meu rabo e quero a minha barriga.



Rubens, As Três Graças

As mulheres têm celulite; se os homens não gostam, temos muita pena, virem-se para os do mesmo sexo; os que não tenham celulite! Ou encomendem uma moça das da permilagem. Se houver disponível.
Temos muita pena, mas as mulheres, após a puberdade, ganham gordura no rabo, nas ancas, nas pernas. É a vida. É mesmo a vida, no seu sentido mais literal.
Uma rapariga de 20 anos que não pratique natação 18 horas por dia, tem celulite. Não é uma doença. É celulite. Pode fazer-se muito desporto e nunca arranjar pernas como as da menina do cartaz. A Rosa Mota, coitadinha, corria que se fartava, e não devia ter celulite, mas também não me consta que tivesse pernas propriamente sensuais.
Ora, está completamente fora de cogitação, a não ser que se tenha uma grande tara por desporto ou pelo que se consideram ser os atractivos sexuais da sociedade contemporânea, passar o dia na piscina a nadar mariposa, para que eles gostem mais de nós por mor do músculo hiperdesenvolvido.




Rubens, O Rapto das Sabinas

Claro que este discurso imagético afecta homens e mulheres, impondo-lhes um modelo a seguir, criando enorme insatisfação relativamente ao corpo que se possui, e gerando pressões para mudar o quase sempre é imutável e irresolúvel – o que aquilo nos vem dizer é “está-se a aproximar o tempo do biquini, portanto toca a passar fome e a gastar dinheiro no nosso institutozinho em ginástica passiva e drenagem linfática”; o que aquilo nos vem dizer é “se não emagreces, não arranjas companheiro, e estás lixada, porque não tens homem para passear contigo no centro comercial e oferecer-te a caneca com corações no dia dos namorados; e o teu marido vai trair-te com outra qualquer, que também terá celulite, mas isso a gente não quer que saibas (a parte da celulite, porque o medo da outra convém-nos).
Claro que já somos crescidos e espertos, descodificamos facilmente os mecanismos de bastidores que impelem o nosso cérebro ao consumo. Mas isso não desfaz o efeito de uma frase associada a uma imagem que, lida, vista, nos vai perseguir o resto do dia: eles não gostam de celulite, eles não gostam de celulite.



Bronzino, Vénus, Cupido, a Loucura e o Tempo

Se isto afecta adultos, imaginemos o efeito sobre quem procura modelos para a criação de uma identidade psicossocial e sexual: os adolescentes. Muitas meninas de 13 anos vão deixar de comer por causa desta campanha. E isto parece-me grave. Não é essa falsa lição sobre corpo e a beleza que eu quero para as raparigas e rapazes de 13 anos. E, não desejando voltar aos tempos do lápis azul, parece-me que o Estado devia regular este tipo de discursos potencialmente insanos e discriminatórios.

Para além de que é mentira! Eles adoram celulite. Pelam-se por celulite. Gostam todos os dias. Oh, se gostam!
Mas que não gostassem...

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Quero as cicatrizes

Cansei-me de meninos e meninas bonitos, todos iguais. Sem uma marca na cara, sem uma unha partida, ou uma fralda de fora, uma t-shirt amarrotada.
Cansei-me de meninos Gant, de meninos Massimo Dutti, de meninos River Wood.
E da Gisele Bundchen, Martina Klein, Heidi Klun, Adriana Lima. Não as distingo! As mesmas pernas, as mesmas mamas, a mesma anca, os mesmos rostos de produção em série!









Lá terei de usar este impertinente advérbio: antigamente. Antigamente a História corria igual, mas Marilyn Monroe não se confundia com Elisabeth Taylor; há 10 anos ainda era possível distinguir a Claudia Schiffer da Cindy Crawford.









A beleza está nos sinais particulares, no que nos distingue uns dos outros. Gosto da cara do Seal. Dos cabelos despenteados do Jorge Palma. A Laetitia Casta é um monumento porque tem os dentinhos tortos, e o resto, claro, aquele resto absolutamente redondo e macio. A Zeta-Jones é um avião de longo curso, daqueles com segundo andar, e terceiro; não, a Zeta-Jones é o Concorde. Eu sei lá, a Zeta-Jones ultrapassa a velocidade do som! Agora, aquela menina sem sal do Match Point. Como se chama? Não interessa. É a girl next door, com a sua boquinha de lábios felacionistas, como os outros lábios felacionistas.
Quero sinais na cara, cicatrizes nos braços. Quero as pessoas que se enganam, que se esquecem. Mostrem-me um bocado de vida vivida, e que o corpo a prove. E o espírito. Um carro não está lá fora na rua sem levar riscos, amolgadelas, sem a antena roubada. É a vida!
Estou farta dos magros, e dos altos, louros de olhos azuis, cabeludos. Venham os gordos, os baixos, os morenos de olhos escuros; venham os carecas. Uma ordem de beleza diversa, muito diversa, mas já não este ideal ariano, primeiro ocidental, depois universal.
Estou tão farta de gente igual.


terça-feira, janeiro 24, 2006

Intervalo - publicidade


Foto - Motor Show, 1971


Não escolha a loura nem a morena: sacie-se com Ruiva, a cerveja que faz corar macho que é macho.


Coce à vontade o rego do rabo, desentale a tomatada das cuecas, à mão; cuspa à vontade para a varanda do seu vizinho; não limpe o ranho; não se lave; não arrume nada; mate a sua sogra com veneno, se quiser, mas, por favor, não fume.

Compre este produto para lavar a sua louça: sim, é 3 vezes mais eficaz, mas não chega a ser 3 vezes mais caro.


Recenseamento militar: todos os jovens cujas... blá, blá, blá... são obrigados... blá,blá, blá.... para as cidadãs, o recenseamento militar é voluntário.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Tele2: a operadora telefónica que nem Salazar se lembraria de inventar!

Este post vem na linha daquele outro sobre terrorrismo publicitário, no qual me parece valer a pena investir cada vez mais.
Isto aconteceu a uma colega minha, hoje, e esta é a carta que fez chegar à Anacom.
Vale a pena saber isto, para quando nos vierem bater de novo à porta, perguntando se não queremos fazer chamadas telefónicas mais baratas!
Juro que não tenho comissão de nenhum operador de serviços telefónicos, mas esta é demais!
Aqui vai:

Exmos. Srs.

A Tele2 vedou o acesso do meu nº de telefone aos seus serviços no dia 16/09/05, sem qualquer explicação. Para fazer chamadas tenho agora de marcar o prefixo 1020, correspondente à PT.

Contactei telefonicamente a Tele2, para saber o que se passava, nos dias 16/09 e 17/09; enviei uma reclamação por mail a 18/09, e voltei a contactar hoje, 22/09. No contacto efectuado a 16, informaram-me que o serviço seria restabelecido dentro de 4 horas. No contacto feito a 17/09, solicitaram-me o nº de telemóvel, afirmando que me iriam prestar informações por essa via. Quanto à reclamação enviada por mail a 18/09, não teve qualquer resposta.
No entanto, através do contacto mantido hoje com a Tele2, foi-me possível receber a seguinte informação:
- A Sra. X, funcionária para quem o operador de serviço me passou a chamada, informou-me que a Tele2, para minha segurança, resolveu vedar-me o acesso aos seus serviços, porque o valor da minha factura atingiu os 100 euros, valor que consideraram excessivo. A Sra. X, imbuída de autoridade moral sobre o valor e natureza das minhas chamadas, colocou-me questões de natureza pessoal, sobre os destinos internacionais e internacionais-móveis para os quais eu telefonava, bem como sobre o valor dos meus anteriores consumos na PT.
- Questionada sobre os motivos legais que justificavam um corte de serviços relativos aos quais não tinha sido emitida ou apresentada qualquer factura para pagamento, a sra. X, respondeu que era política da empresa. Portanto, sem que me tenha sido apresentada qualquer factura, cortaram-me o acesso ao serviço.
- Mais, informaram-me que o restabeleceriam caso enviasse à empresa um adiantamento desse valor: 50%. Também sem apresentação de factura.

- Cancelei de imediato o contrato com a Tele2 e gostaria de saber 4 coisas:

1. A Tele2 pode cortar o acesso aos seus serviços aos clientes sem qualquer aviso?
2. A Tele2 pode cancelar um serviço, partindo do pressuposto que estes têm um consumo elevado que não vão liquidar?
3. A Tele2 pode pedir um adiantamento de 50% sobre uma factura de que não deu conhecimento ao cliente?
4. Tenho direito a alguma indemnização da Tele2 por me ter cortado arbitrariamente o acesso aos seus serviços?

(Ajudinha para buscas no Google: A Tele2 pretende ter autoridade moral sobre os clientes.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...