Não suporto pagar contas. Analisar um registo dos movimentos bancários enerva-me. Dá-me insónias, antes e depois. Por isso, vou ligar para o Millenium BCP Prestige para que me aceitem como cliente, e o meu gestor tratará das minudências financeiras em meu lugar.
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segunda-feira, março 31, 2008
segunda-feira, novembro 19, 2007
Conflitos de classes
Sempre fui um animal. E rainha das bactérias. Adoro comer com as mãos. Lá em África era muito assim, e isto conjugado com o belo estômago com que os genes me agraciaram, leva a que morram tarde, melhor, que morram nunca tais velhos hábitos.
No café aqui da rua arrebanho rissóis e croissantes com a mão, trinco-os, e só depois olho em volta, envergonhada, calculando os pares de olhos que me viram atacar a peça impudicamente, e lá a embrulho num papelinho, a custo, disfarçando o primeiro instinto. Não é fácil. Não domino bem a técnica. Como nunca me foi dado a ler o livro da Paula Bobone, pensei que as pessoas finas não sujavam as mãos. Que nem um milímetro de pele tocava o alimento. Afinal, não é bem assim. Acabei de ler no blogue do Dadinho Pitta que, em Portugal, apenas "uma pequena minoria indiscutivelmente educada" come primeiro com as mãozinhas e limpa os dedinhos a seguir. E é assim que deve ser. Obrigada, Dadinho. Acho isto delicioso. E liberta-me totalmente. Claro que aqui no meu bairro vai ser difícil convencer disso a malta lá de baixo do café.
No café aqui da rua arrebanho rissóis e croissantes com a mão, trinco-os, e só depois olho em volta, envergonhada, calculando os pares de olhos que me viram atacar a peça impudicamente, e lá a embrulho num papelinho, a custo, disfarçando o primeiro instinto. Não é fácil. Não domino bem a técnica. Como nunca me foi dado a ler o livro da Paula Bobone, pensei que as pessoas finas não sujavam as mãos. Que nem um milímetro de pele tocava o alimento. Afinal, não é bem assim. Acabei de ler no blogue do Dadinho Pitta que, em Portugal, apenas "uma pequena minoria indiscutivelmente educada" come primeiro com as mãozinhas e limpa os dedinhos a seguir. E é assim que deve ser. Obrigada, Dadinho. Acho isto delicioso. E liberta-me totalmente. Claro que aqui no meu bairro vai ser difícil convencer disso a malta lá de baixo do café.
domingo, junho 10, 2007
A dor é igual
Esporadicamente desaparecem crianças sem que haja testemunhas, sem que seja possível incriminar alguém. Os suspeitos plausíveis estão sempre acima de suspeita: estranho padrão.
Em Portugal é muito conhecido o caso do Rui Pedro, porque a inconformada mãe do rapaz veio para a rua gritar a sua dor, chorar, acusar as autoridades, e exigir delas uma investigação empenhada, como eu teria feito se o meu próprio filho desaparecesse. Chamaram-lhe maluca. Que a mulher era uma histérica, uma desequilibrada. Que se calasse. Que ridícula!
Outros pais de crianças desaparecidas têm sofrido, num silêncio abatido, a perda incompreensível que os atingiu, até restar uma dor seca, morta.
Até hoje, em Portugal, a polícia investigava até onde conseguia, depois avisava as organizações internacionais, e sentava-se à espera que as crianças aparecessem, vivas ou mortas, por obra e graça do espírito santo. Muito de vez em quando, seguiam uma pista que dava em nada. Nunca nenhuma apareceu. O método, comprovadamente, não resulta.
Com Maddie, alguma coisa parece ter mudado.
Os pais de Maddie andam em tour. Acho bem. Quem, podendo, não moveria montanhas, não as rebentaria por dentro, não mandaria legados aos quatro cantos do planeta, com a missão de procurar o filho em casas pobres e ricas, pequenas ou grandes, sótãos, caves, arrecadações, armários, fundos falsos? Quem não mandaria furar o planeta até ao núcleo?
A mãe de Rui Pedro, e outros pais, portugueses ou não, não puderam fazê-lo. Não eram cardiologistas nem empresários de gabarito. Trabalhavam para pagar a comida, a renda e o carro. Não tinham rendimentos para tirar férias, quanto mais para viajar. Era preciso trabalhar e assegurar a sobrevivência dos restantes filhos. Não eram ninguém. Quem é ninguém não sonha ser recebido pelo papa nem pelos representantes máximos das polícias internacionais. Quem é ninguém não tem como andar em tour, buscando o seu filho. Quem é ninguém fica em casa, com os olhos presos a fotos, perguntando "porquê, porquê" até a palavra se tornar um gemido informe.
Maddie tornou-se um caso internacional, com grande exposição, e as polícias parecem realmente preocupadas. Já li sobre investigações via satélite. E acho bem, já disse.
Mas milhares de crianças que não são louras, nem particularmente brancas e abonecadas, nem filhas de pais britânicos de classe alta, com bom aspecto e vida perfeita, suficientemente fotogénicos e decorativos para merecer destaque nas revistas, têm desaparecido ao longo dos anos, continuarão a desaparecer, merecendo exactamente o mesmo tipo de tratamento, no que respeita à investigação dos seus casos pelas autoridades.
Não há filhos mais importantes. Há é pais com mais poder que outros. E esses, nisto, como em tudo, têm mais atenções.
quinta-feira, novembro 16, 2006
Discursos sobre drogas e hipocrisias civilizacionais
Uma brasileira foi detida ao tentar passar para dentro de uma prisão, em São Paulo, vinte gramas de cannabis, um telemóvel, respectivo carregador e um cartão de chamadas, escondidos na vagina. Dá vontade de rir, mas a realidade não tem graça alguma; não deve ter feito rir a moça, que foi presa por tráfico.
Dá-nos menos vontade de rir, mas o fenómeno é o mesmo: esta semana, um passageiro da KLM vomitou, em desespero, alguns sacos de droga que engolira e principiavam a rebentar-lhe no estômago - cerca de noventa. Foi conduzido ao hospital, e detido.
Continua a surpreender-me que sociedades civilizadas, perante a descoberta de casos de autosevícias, com fim mercantil, a que indivíduos se prestam para sobreviver, tenham, como única resposta, a força da Lei pela Lei.
A saúde da rapariga e do homem seriam as prioridades e, de resto, uma correcta investigação policial que conduzisse à descoberta e desmantelamento dos promotores do tráfico, dentro ou fora de prisões. Tudo o resto é inútil, porque erra o alvo.
A mesma sociedade civilizada que detém correios de droga à beira da morte, noticia que noventa por cento das notas em circulação trazem vestígios de cocaína.
A sociedade civilizada precisa avidamente dos consumos que oficialmente não consome, mas pelos quais penaliza alguém: não os produtores, inatingíveis; não os consumidores, que snifam usando notas de 100; mas os correios da droga, os que atravessam barreiras fronteiriças, e nos seus corpos, para as ganhar - duas ou três com que dar feijão com arroz aos filhos.
Dá-nos menos vontade de rir, mas o fenómeno é o mesmo: esta semana, um passageiro da KLM vomitou, em desespero, alguns sacos de droga que engolira e principiavam a rebentar-lhe no estômago - cerca de noventa. Foi conduzido ao hospital, e detido.
Continua a surpreender-me que sociedades civilizadas, perante a descoberta de casos de autosevícias, com fim mercantil, a que indivíduos se prestam para sobreviver, tenham, como única resposta, a força da Lei pela Lei.
A saúde da rapariga e do homem seriam as prioridades e, de resto, uma correcta investigação policial que conduzisse à descoberta e desmantelamento dos promotores do tráfico, dentro ou fora de prisões. Tudo o resto é inútil, porque erra o alvo.
A mesma sociedade civilizada que detém correios de droga à beira da morte, noticia que noventa por cento das notas em circulação trazem vestígios de cocaína.
A sociedade civilizada precisa avidamente dos consumos que oficialmente não consome, mas pelos quais penaliza alguém: não os produtores, inatingíveis; não os consumidores, que snifam usando notas de 100; mas os correios da droga, os que atravessam barreiras fronteiriças, e nos seus corpos, para as ganhar - duas ou três com que dar feijão com arroz aos filhos.
quarta-feira, junho 14, 2006
Os párias
Tenho uma vaga ideia de há três décadas se falar da Índia como uma espécie de Biafra. Entretanto, a economia melhorou; há indianos a viver melhor que portugueses ou suecos. Outros, pior. As pessoas dizem, agora, que há duas Índias, uma burguesa, ou mesmo muito burguesa, e outra pobre, mesmo muito pobre. Atribuem culpas ao sistema de castas. Os párias continuam na extremidade inferior, portanto intocáveis, acedendo aos trabalhos sujos, que ninguém mais pode fazer: remover os excrementos que os outros produzem, executar todas as tarefas indignas, sujas. Vivem mal, comem mal, dormem na rua, não têm direitos civis, nem educação, nada.
A mim não me parece que os párias sejam motivo de grande admiração no Ocidente. Temo-los em Portugal, em Espanha, pelo mundo todo. Os párias são os desgraçados que não conseguem libertar-se do ciclo de miséria material ou espiritual, ou ambas, em que nascem e vivem. Alguns tentam, outros nem se dão ao trabalho.
No Ocidente, dizem-lhes que são cidadãos iguais, que têm os mesmos direitos. Na prática não têm. São discriminados em todo o lado, desde pequenos. Não vão aos mesmos restaurantes. A única diferença é que aqui podem candidatar-se ao rendimento mínimo. Bem como em Espanha e na Alemanha...
Reconhecemo-los pela forma como falam, como andam, como se vestem, penteiam. A partir do momento em que saímos de casa cruzamo-nos com essa casta.
Alguns párias aceitam os trabalhos sujos, uns mais dignos que outros. Trabalham nos cemitérios a enterrar e desenterrar corpos, na limpeza das ruas e das lojas, na recolha do lixo, nos canis do estado e nos matadouros, a abater animais domésticos, bois, vacas e porcos, profissão que nem tem nome. Passar 8 horas por dia a abater e desmembrar animais deve ser aquilo que o Velho Testamento designa por Inferno. Creio que estejam todos mortos. Creio que trabalhem como robots, que sejam robots fora do trabalho. A vida deve ser-lhes muito pesada. Apesar de tudo, esses são os párias menos párias. A sociedade vê-os como intocáveis, mas eles vergam a mola para dar comida aos filhos.
Os urestantes roçam-se pelas esquinas das tabernas, e gastam tinta a tinta às cadeiras.
Para um pária nacional, qualquer casta superior que venha do estrangeiro para trabalhar e ganhar dinheiro no que ele recusa fazer, é mais pária do que ele. Os párias verdadeiros não gostam dos que consideram párias. Nem de ninguém. Consideram-se uma casta de sangue nobre, iluminada pelo conhecimento divino da miséria, da bebedeira e da grosseria. Chateia-os que alguém faça o trabalho sujo e tão mal pago a que poderiam aceder. Porque os párias têm direitos. O primeiro deles é não ser párias. Mas não é que façam por ser outra coisa qualquer. O sonho dos párias era que lhes saísse o Euromilhões para não trabalharem. Ouço-os a dizer isto sentados no snack-taberna, bebendo cervejas, de fato-de-treino, à terça à tarde. É a sua única profissão conhecida. O café. A amarguinha. A mini.
Pergunto-me se estes párias saudáveis, que vivem do rendimento mínimo, exactamente por serem cidadãos com direitos, não teriam a obrigação social de retribuir com serviço cívico? Que ajudassem a apagar incêndios em part-time. Das 9 às 13. Depois vinha o turno seguinte. Que limpassem praias das 16 às 20. Que ajudassem nos lares, hospitais, escolas e infantários: quatro horas por dia, vigiando recreios, entradas e saídas, não se pedia mais. Que escolhessem onde queriam ajudar. Podia ser que gostassem. Podia mesmo! Se se acham uns grandes machões, por que não os colocamos a ajudar os agentes da Escola Segura, que não tem o dom da ubiquidade; entre tantas outras coisas em que poderiam colaborar. Recuperar edifícios em ruínas. Quatro horas por dia. Tratar dos jardins públicos.
Não sei se existe grande paralelo entre os párias da Índia e os párias ocidentais. Na Índia sei que se envergonham um bocado, e procuram trabalho para conseguir comer.
Se há duas Índias, a dos párias e a dos outros, há também dois Portugais, dois Luxemburgos, duas Américas e duas Francas.. Nenhum país é um só país. O mundo tem pelo menos dois mundos, e nenhum é de graça.
quarta-feira, maio 31, 2006
Abraça-me e beija-me
(III da série "O que me comove")
Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.
Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.
Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me fixamente e sorriu. É uma menina tão linda e doce! Eu sorri, perguntei-lhe o nome, e apaixonámo-nos à primeira vista. Sou uma menina grande e, ela, uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro, mas não tive tempo para reparar.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:
- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:
- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.
segunda-feira, março 13, 2006
Questões da classe média
Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, na RTP1, conversando com Ana Sousa Dias, enquanto não é primeiro-ministro nem presidente da república:
- confessou ter estado para comprar o retrato de Natália Correia, por Nikias Skapinakis, mas desistiu porque era "muito, muito, muito caro e muito grande".
- manifestou agrado por Cavaco Silva se ter tornado o primeiro presidente da república não proveniente da classe média, mas da pequena burguesia.
Até ontem pensei que a burguesia, mesmo a pequena, fosse bastante média.
- confessou ter estado para comprar o retrato de Natália Correia, por Nikias Skapinakis, mas desistiu porque era "muito, muito, muito caro e muito grande".
- manifestou agrado por Cavaco Silva se ter tornado o primeiro presidente da república não proveniente da classe média, mas da pequena burguesia.
Até ontem pensei que a burguesia, mesmo a pequena, fosse bastante média.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...