No início terá sido muito traumatizante, mas depois as pessoas ajustam-se".
Pais Ribeiro, Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, ao Público de ontem, a propósito da notícia sobre a menina austríaca desaparecida há oito anos e agora reaparecida.
O amor entre a vítima e o carrasco é inevitável, mesmo envolvendo maus tratos - porque a criança sabe que em casa também é castigada, também fica fechada no quarto sem poder sair porque se portou mal.
A forma como ocorre o castigo a que é sujeita pelo carrasco pode até ser menos humilhante. Os maus tratos sexuais podem começar por ser uma mera brincadeira que lhe é proposta. Uma brincadeira divertida, porque está ali fechada e precisa de brincar. A vítima pode chegar a um ponto em que é ela que pede os "maus tratos", ou seja, a brincadeira, porque a diverte.
É a lógica de uma relação forçada, cujos sujeitos se descobrem mutuamente, e se conseguem amar, apesar do medo e ressentimento calados. Os carrascos têm fraquezas: eles também sabem amar. Não interessa a natureza do amor. Parece amor. Talvez seja. Mas eles amam.
Os carrascos, se fazem tudo mal, fazem-no, no seu juizo, em nome do bem: o da vítima e da comunidade. Porque o carrasco sofre os seus sindromas particulares.
Em muitos casos a vítima não desejará voltar para junto dos seus, que acusará de abandono, que jamais perdoará. Não fugirá. Revoltar-se-á pelo regresso ao que perdeu e sofreu perder, mas que agora lhe não pertence. Porque agora a vítima é voluntária do carrasco. Agora ela pertence ao seu mundo. É por ele que chora. Pela sua ausência.
A vítima fugiu porque estava presa. Porque já não era vítima, apenas presa. E quis ser livre.
O que a vítima viveu, sabe-se. É-nos revelado. A minha curiosidade, perante estas situações, assenta sobre o carrasco. Como foi o seu cativeiro? Como o viveu? Como o sentiu? Gostaria de perceber como se compôs natureza do seu mal - gratuito, altruísta, generoso.