Vamos imaginar que um de nós cai das escadas abaixo, arranha-se, faz umas nódas negras, sente-se um bocado desequilibrado, especialmente magoado no braço esquerdo, e resolve ir ao hospital para que lhe façam uma radiografia de urgência; para ser examinado. Neste caso, para além da espera habitual, quase sempre excessiva, pagam-se oito euros e meio de taxa e a coisa fica por aqui; não exista necessidade de exames complementares!
Mas imaginemos que João Silva chega a casa naturalmente chateado porque o FCP perdeu, o Pintinho foi engaiolado por se terem provado todas as declarações da ex-esposa, o Gomes do escritório ganhou-lhe à bisca, e, como se não bastasse, verifica que a esposa não tem o jantar quente, e o pó não é limpo vai para três dias; o Silva resolve, justificadamente, e porque uma mulher está ali para o mau e para o pior, assentar-lhe uma carga de porrada das antigas.
Vamos supor que a senhora fica mal, mas arranja força, na manhã seguinte, para ir ao hospital, onde lhe comunicam, no momento da inscrição, que, para ser atendida, terá de pagar não só a habitual taxa moderadora, mas um valor acrescido de 143,50 euros, associado ao atendimento de vítimas de violência em urgências hospitalares.
Esta situação ocorreu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, há duas semanas, tendo a utente Filomena Ferreira decidido não usar os serviços, não só porque não tinha dinheiro, mas também por recear que a imputação, ao agressor, do referido montante, suscitasse novo ensaio de pancada. O hospital deixou-a ir.
Eu pasmo. Agora, os serviços hospitalares estatais tornaram-se equivalentes ao comércio de secos e molhados: pagas, levas, não pagas, cheiras! Agora, deixa-se uma vítima de violência ir embora sem que lhe seja prestada assistência, porque não pode pagar nem pretende apresentar queixa!
Quais são as prioridades de um serviço de saúde público? Informar sobre taxas moderadoras e cobrá-las?! Castigar as vítimas?! Como terão resolvido a situação com a mulher de Estarreja que há pouco tempo deu entrada no hospital de Aveiro, após ter sido alvejada a tiro de caçadeira pelo marido? Alguém terá mandado o funcionário administrativo saber se pagava ou fazia queixa, sendo que a senhora pediu dez minutos para reflectir, se fizessem favor, e assentiu depois, que já lhe faltava o sangue, altura em que, finalmente, deram início à avaliação do seu estado?! E quando as vítimas chegam inconscientes?! Apelo às vítimas para que cheguem à urgência o mais inconscientes que conseguirem! Apelo às vítimas para que se atirem dum primeiro andar mesmo que já tenham as duas pernas partidas! Ou que mintam. Afinal tropeçaram no fio do aquecedor, escorregaram à saída de casa... Hoje em dia, em Portugal, mentir é bom. Ah, eu hei-de mentir, a torto a direito, sempre que for preciso, e mesmo que não seja, que uma pessoa habitua-se. A mim, caso necessite de urgência hospitalar, tenham a bondade de me dar primeiro uma pancada no crânio! Que vá estendida!

Em tempos, acreditei que Portugal pós-ditadura fosse um lugar justo para se viver. Discuti à mesa, e creio ter vencido aos argumentos (o meu idealismo era tão puro, e eu acreditava tanto no mundo melhor cuja edificação iniciáramos!), defendendo que nossa contribuição colectiva para o bem geral criara uma democracia que, não sendo perfeita, funcionava sem privilégios, e garantia a todos iguais direitos. Acreditei que o Estado se responsabilizaria pela criação de mecanismos de vigilância capazes de assegurar que os valores do capital não pudessem jamais impor-se aos da humanidade. Eu acreditei no Estado como na Ciência!
Nos tempos que correm, Portugal transformou-se num condomínio privado muito mal frequentado, e eu, juro!, não fosse a minha mãe, que não posso transportar a tiracolo, e a quem devo atenção, amor e assistência, e estaria a escrever este blogue algures em Espanha, ou noutro sítio qualquer, bem longe do asco que este governo me causa! Este governo fede, e os fedores sempre me deram volta ao estômago! Ultimamente, nem o Eno me vale!
Eu ainda acredito no Estado! Eu ainda creio que só o Estado, enquanto entidade que nos representa, e que sustentamos, nos poderá garantir igualdade de acesso à saúde, à educação e à justiça. Mas o Estado - eu, vós - não pode permanecer indiferente, permitindo que o manipulem, lhe atem os pulsos. Aceitemos medidas de austeridade, se são necessárias para melhorar a economia, mas indiquem-nos um prazo de sacrifício razoável a partir do qual deveremos esperar resultados. O que querem de nós, afinal? Quais são os objectivos? Trabalhemos muito, mas não aceitemos que nos roubem direitos básicos. Nos últimos dois anos o espoliamento vem sendo diário, perante a indiferença generalizada do Zé e da Maria Povinho, que escolhem discutir futebol ao almoço, e comentar fait-divers mediatizados, ou seja, circo, circo, porque "não há nada a fazer". Há tudo a fazer! Só nos comem as papas na cabeça porque o autorizamos com o nosso silêncio, a nossa inacção; a culpa deste estado de coisas é nossa, não deles, na medida em que nos alheamos do que é a nossa obrigação de cidadãos e cidadãs: exigir do governo a protecção dos nossos direitos, não a sua delapidação, como nunca vi - e ainda vivi 12 anos em ditadura!
O princípio de uma revolução é precisamente este: a desobediência. Nenhum de nós pode desobedecer sozinho. Precisamos de reaprender a desobedecer em grupo, logo, sem medo. Justiça ou desobediência! A ver se um dia destes não acordamos, demasiado tarde, no tempo sombrio de uma manhã passada!
Esta situação ocorreu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, há duas semanas, tendo a utente Filomena Ferreira decidido não usar os serviços, não só porque não tinha dinheiro, mas também por recear que a imputação, ao agressor, do referido montante, suscitasse novo ensaio de pancada. O hospital deixou-a ir.
Eu pasmo. Agora, os serviços hospitalares estatais tornaram-se equivalentes ao comércio de secos e molhados: pagas, levas, não pagas, cheiras! Agora, deixa-se uma vítima de violência ir embora sem que lhe seja prestada assistência, porque não pode pagar nem pretende apresentar queixa!
Quais são as prioridades de um serviço de saúde público? Informar sobre taxas moderadoras e cobrá-las?! Castigar as vítimas?! Como terão resolvido a situação com a mulher de Estarreja que há pouco tempo deu entrada no hospital de Aveiro, após ter sido alvejada a tiro de caçadeira pelo marido? Alguém terá mandado o funcionário administrativo saber se pagava ou fazia queixa, sendo que a senhora pediu dez minutos para reflectir, se fizessem favor, e assentiu depois, que já lhe faltava o sangue, altura em que, finalmente, deram início à avaliação do seu estado?! E quando as vítimas chegam inconscientes?! Apelo às vítimas para que cheguem à urgência o mais inconscientes que conseguirem! Apelo às vítimas para que se atirem dum primeiro andar mesmo que já tenham as duas pernas partidas! Ou que mintam. Afinal tropeçaram no fio do aquecedor, escorregaram à saída de casa... Hoje em dia, em Portugal, mentir é bom. Ah, eu hei-de mentir, a torto a direito, sempre que for preciso, e mesmo que não seja, que uma pessoa habitua-se. A mim, caso necessite de urgência hospitalar, tenham a bondade de me dar primeiro uma pancada no crânio! Que vá estendida!
Em tempos, acreditei que Portugal pós-ditadura fosse um lugar justo para se viver. Discuti à mesa, e creio ter vencido aos argumentos (o meu idealismo era tão puro, e eu acreditava tanto no mundo melhor cuja edificação iniciáramos!), defendendo que nossa contribuição colectiva para o bem geral criara uma democracia que, não sendo perfeita, funcionava sem privilégios, e garantia a todos iguais direitos. Acreditei que o Estado se responsabilizaria pela criação de mecanismos de vigilância capazes de assegurar que os valores do capital não pudessem jamais impor-se aos da humanidade. Eu acreditei no Estado como na Ciência!
Nos tempos que correm, Portugal transformou-se num condomínio privado muito mal frequentado, e eu, juro!, não fosse a minha mãe, que não posso transportar a tiracolo, e a quem devo atenção, amor e assistência, e estaria a escrever este blogue algures em Espanha, ou noutro sítio qualquer, bem longe do asco que este governo me causa! Este governo fede, e os fedores sempre me deram volta ao estômago! Ultimamente, nem o Eno me vale!
Eu ainda acredito no Estado! Eu ainda creio que só o Estado, enquanto entidade que nos representa, e que sustentamos, nos poderá garantir igualdade de acesso à saúde, à educação e à justiça. Mas o Estado - eu, vós - não pode permanecer indiferente, permitindo que o manipulem, lhe atem os pulsos. Aceitemos medidas de austeridade, se são necessárias para melhorar a economia, mas indiquem-nos um prazo de sacrifício razoável a partir do qual deveremos esperar resultados. O que querem de nós, afinal? Quais são os objectivos? Trabalhemos muito, mas não aceitemos que nos roubem direitos básicos. Nos últimos dois anos o espoliamento vem sendo diário, perante a indiferença generalizada do Zé e da Maria Povinho, que escolhem discutir futebol ao almoço, e comentar fait-divers mediatizados, ou seja, circo, circo, porque "não há nada a fazer". Há tudo a fazer! Só nos comem as papas na cabeça porque o autorizamos com o nosso silêncio, a nossa inacção; a culpa deste estado de coisas é nossa, não deles, na medida em que nos alheamos do que é a nossa obrigação de cidadãos e cidadãs: exigir do governo a protecção dos nossos direitos, não a sua delapidação, como nunca vi - e ainda vivi 12 anos em ditadura!
O princípio de uma revolução é precisamente este: a desobediência. Nenhum de nós pode desobedecer sozinho. Precisamos de reaprender a desobedecer em grupo, logo, sem medo. Justiça ou desobediência! A ver se um dia destes não acordamos, demasiado tarde, no tempo sombrio de uma manhã passada!