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quarta-feira, março 21, 2007

Acredito no Estado




Vamos imaginar que um de nós cai das escadas abaixo, arranha-se, faz umas nódas negras, sente-se um bocado desequilibrado, especialmente magoado no braço esquerdo, e resolve ir ao hospital para que lhe façam uma radiografia de urgência; para ser examinado. Neste caso, para além da espera habitual, quase sempre excessiva, pagam-se oito euros e meio de taxa e a coisa fica por aqui; não exista necessidade de exames complementares!
Mas imaginemos que João Silva chega a casa naturalmente chateado porque o FCP perdeu, o Pintinho foi engaiolado por se terem provado todas as declarações da ex-esposa, o Gomes do escritório ganhou-lhe à bisca, e, como se não bastasse, verifica que a esposa não tem o jantar quente, e o pó não é limpo vai para três dias; o Silva resolve, justificadamente, e porque uma mulher está ali para o mau e para o pior, assentar-lhe uma carga de porrada das antigas.
Vamos supor que a senhora fica mal, mas arranja força, na manhã seguinte, para ir ao hospital, onde lhe comunicam, no momento da inscrição, que, para ser atendida, terá de pagar não só a habitual taxa moderadora, mas um valor acrescido de 143,50 euros, associado ao atendimento de vítimas de violência em urgências hospitalares.
Esta situação ocorreu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, há duas semanas, tendo a utente Filomena Ferreira decidido não usar os serviços, não só porque não tinha dinheiro, mas também por recear que a imputação, ao agressor, do referido montante, suscitasse novo ensaio de pancada. O hospital deixou-a ir.
Eu pasmo. Agora, os serviços hospitalares estatais tornaram-se equivalentes ao comércio de secos e molhados: pagas, levas, não pagas, cheiras! Agora, deixa-se uma vítima de violência ir embora sem que lhe seja prestada assistência, porque não pode pagar nem pretende apresentar queixa!
Quais são as prioridades de um serviço de saúde público? Informar sobre taxas moderadoras e cobrá-las?! Castigar as vítimas?! Como terão resolvido a situação com a mulher de Estarreja que há pouco tempo deu entrada no hospital de Aveiro, após ter sido alvejada a tiro de caçadeira pelo marido? Alguém terá mandado o funcionário administrativo saber se pagava ou fazia queixa, sendo que a senhora pediu dez minutos para reflectir, se fizessem favor, e assentiu depois, que já lhe faltava o sangue, altura em que, finalmente, deram início à avaliação do seu estado?! E quando as vítimas chegam inconscientes?! Apelo às vítimas para que cheguem à urgência o mais inconscientes que conseguirem! Apelo às vítimas para que se atirem dum primeiro andar mesmo que já tenham as duas pernas partidas! Ou que mintam. Afinal tropeçaram no fio do aquecedor, escorregaram à saída de casa... Hoje em dia, em Portugal, mentir é bom. Ah, eu hei-de mentir, a torto a direito, sempre que for preciso, e mesmo que não seja, que uma pessoa habitua-se. A mim, caso necessite de urgência hospitalar, tenham a bondade de me dar primeiro uma pancada no crânio! Que vá estendida!



Em tempos, acreditei que Portugal pós-ditadura fosse um lugar justo para se viver. Discuti à mesa, e creio ter vencido aos argumentos (o meu idealismo era tão puro, e eu acreditava tanto no mundo melhor cuja edificação iniciáramos!), defendendo que nossa contribuição colectiva para o bem geral criara uma democracia que, não sendo perfeita, funcionava sem privilégios, e garantia a todos iguais direitos. Acreditei que o Estado se responsabilizaria pela criação de mecanismos de vigilância capazes de assegurar que os valores do capital não pudessem jamais impor-se aos da humanidade. Eu acreditei no Estado como na Ciência!
Nos tempos que correm, Portugal transformou-se num condomínio privado muito mal frequentado, e eu, juro!, não fosse a minha mãe, que não posso transportar a tiracolo, e a quem devo atenção, amor e assistência, e estaria a escrever este blogue algures em Espanha, ou noutro sítio qualquer, bem longe do asco que este governo me causa! Este governo fede, e os fedores sempre me deram volta ao estômago! Ultimamente, nem o Eno me vale!
Eu ainda acredito no Estado! Eu ainda creio que só o Estado, enquanto entidade que nos representa, e que sustentamos, nos poderá garantir igualdade de acesso à saúde, à educação e à justiça. Mas o Estado - eu, vós - não pode permanecer indiferente, permitindo que o manipulem, lhe atem os pulsos. Aceitemos medidas de austeridade, se são necessárias para melhorar a economia, mas indiquem-nos um prazo de sacrifício razoável a partir do qual deveremos esperar resultados. O que querem de nós, afinal? Quais são os objectivos? Trabalhemos muito, mas não aceitemos que nos roubem direitos básicos. Nos últimos dois anos o espoliamento vem sendo diário, perante a indiferença generalizada do Zé e da Maria Povinho, que escolhem discutir futebol ao almoço, e comentar fait-divers mediatizados, ou seja, circo, circo, porque "não há nada a fazer". Há tudo a fazer! Só nos comem as papas na cabeça porque o autorizamos com o nosso silêncio, a nossa inacção; a culpa deste estado de coisas é nossa, não deles, na medida em que nos alheamos do que é a nossa obrigação de cidadãos e cidadãs: exigir do governo a protecção dos nossos direitos, não a sua delapidação, como nunca vi - e ainda vivi 12 anos em ditadura!
O princípio de uma revolução é precisamente este: a desobediência. Nenhum de nós pode desobedecer sozinho. Precisamos de reaprender a desobedecer em grupo, logo, sem medo. Justiça ou desobediência! A ver se um dia destes não acordamos, demasiado tarde, no tempo sombrio de uma manhã passada!


quarta-feira, novembro 15, 2006

O poder do circo, mesmo sem pão

Eduardo Prado Coelho interroga-se, no Público de hoje, sobre a necessidade de se gastar um milhão de euros em iluminação de Natal, paga com dinheiros públicos, na cidade de Lisboa.
Junte-se-lhe a factura do Porto, e também as de Coimbra, e de Braga, e de todas as capitais de distrito e concelho, não esquecendo os fogos-de-artifício habituais, e as festas de fim-de-ano, e quererei saber, lá para os meados de Fevereiro, quanto se gastou em luzinhas e decorações.
Sou accionista desta empresa chamada Portugal, e tenho os meus direitos. Preferia deter acções da Portucel, mas a cada um o seu quinhão de graça ou desgraça.

As iluminações de Natal são mesmo necessárias?
São!

Tirem tudo ao povo, mas não lhe tirem o Natal. Ou melhor: o circo do Natal; a azáfama das compras na loja dos chineses; os fritos; a família que se ama ou odeia; o bacalhau, mesmo de segunda; o bolo-rei do dia anterior; o vinho, mesmo de pacote.
Mantenham-se calmas as hostes. E, pensando bem, três ou quatro milhões em iluminação, não saem escandalosamente caros à ditadura. Outras acções de campanha para o país inteiro têm desperdiçado muito mais fundos.
Convém que os portugueses mantenham a ilusão de que alcançam alguma luz (ao fundo do túnel), mesmo que sejam apenas reflexos de gambiarras; que julguem que ainda resta o Natal, a alegria do Natal. Que nada muda significativamente enquanto o Natal permanecer Natal.
Lá no fundo, a água que corre nos lençóis freáticos está gelada e suja. Mas que ninguém perceba!
Eu queria ver o País às escuras na noite de Natal. E no Ano Novo. Zero desfiles de Carnaval. Dessa escuridão poderia sair a única luz que nos interessa: rasgamento dos mantos diáfanos da fantasia: uma janela escancarrada para a verdade: isso mesmo, revolução, evolução!


quarta-feira, outubro 25, 2006

Terrorismo


Como brinde pela compra de um Diário de Notícias (antigamente os brindes saíam na farinha Amparo, no Nesquik, no OMO...) entregaram-me uma moeda comemorativa. Saiu-me a nº 43, com a efígie de Durão Barroso - colecção Grandes Figuras Portuguesas.
Te-lo-ão consultado antes? É que o senhor até pode nem se considerar grande figura, e seria aborrecido ver-se assim retratado sem autorização.

Não pesa muito, a moeda; é pechisbeque puro, mas guardo-a, porque posso precisar dela em acções de rua: às vezes é difícil arranjar uma pedrita do pé para a mão.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Professores: a via da desobediência civil

Os meus amigos professores, que ontem e hoje estiveram em greve, aqueles que suportaram fazê-la durante dois dias, com o peso que isso terá no orçamento dos agregados, mesmo agendada para uma altura cujas repercussões salariais serão visíveis no mês do subsídio de Natal, fizeram-na para nada. Os jornais não deram destaque, a televisão pouco, e a situação passou mais uma vez relativamente despercebida.

O problema dos encarregados de educação não consiste na falta que as aulas farão aos educandos, mas em não terem onde deixar as crianças, isto porque a escola se transformou, há alguns anos, num armazém de filhos - uma espécie de ATL onde alguém tenta ingloriamente ensinar qualquer coisa, pensando que ainda se vivem esses tempos: os de aprender. Essa tem sido a grande e dolorosa lição que os professores têm compreendido nos últimos anos: a de que já não são docentes, ou seja, aqueles que ducunt (de duco, ducere, latim, verbo ensinar), mas aqueles que ocupam o tempo: a sua tarefa não depende das suas capacidades científicas, didácticas, pedagógicas, mas, como li num blogue, ontem, da sua "capacidade de resistência ao stress", da sua inventividade para animar hostes ou sossegá-las, contê-las, numa espécie de continuação do trabalho das amas.

Esta greve somará milhares de dias de vencimento que beneficiarão palidamente o orçamento de Estado, o qual, por sua vez, não beneficiará, jamais, a luta dos professores. Trata-se de perder dinheiro inutilmente. Pior que atirá-lo à sarjeta, porque da sarjeta ainda alguém poderia aproveitá-lo, agora, do orçamento do Estado...
Com medidas reivindicativas desta ordem, greves que ninguém escuta, que não se discutem na rua nem nos órgãos de informação, ultrapassadas enquanto forma de luta, a indignação dos professores assemelha-se a um ofício fúnebre a expensas próprias.

As responsabilidades da ineficácia de mais esta greve deverão recair sobre os sindicatos da educação, já devidamente elucidados sobre a falta de peso deste tipo de intervenção. Permanecem inoperantes, paralizados sob acções que já se mostraram claramente ineficazes no passado, e por demasiadas vezes.

Uma luta como a dos professores, que não é, sequer, neste momento, uma questão de dinheiro contado (e deveria!), mas de honra profissional, de deontologia, de estatuto da sua profissão, deveria passar por medidas visíveis, radicais, no espírito da democracia, e da liberdade de expressão e de manifestação.

Caros professores, neste momento haveria que arranjar-se uma boa mão cheia de revoltados, meio-cegos de humilhação, com pouco a perder, e levar a cabo um boicote fortíssimo, um terrorismo sem tréguas, sólido, colectivizado, relativamente às medidas do ministério da deseducação, como lhe chama a minha amiga.
Recusa da lição, dentro da sala; recusa do cumprimento de programas, dentro da sala. E, por falar em ofícios fúnebres, greve da fome, auto-imolação à porta das escolas.
Qualquer coisa, mas tudo, tudo, menos a morte muito lenta a que estais destinados.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...