Sobre o progresso
Um pastor perdido na serra. Num dia certo ao ano, ia às brasileiras, à cidade mais próxima. Se eu por acaso acharia que a prostituição, neste caso por misericórdia, se justificava. Foi nestes termos que me falaram no referido documentário, há cerca de um ano. Tinha passado na SIC. Fiquei curiosa, mas comprei o dvd há cerca de duas semanas, apenas.
O filme é de uma beleza que rompe os limites entre documentário e cinema, se é que alguma vez isso existiu: limites. É um documentário porque documenta o fim desse mister, e dos que dele se ocupam: a pastorícia, tudo o resto é grande cinema.
Esperava encontrar em Hermínio, o pastor de 27 anos que o documentário transforma em personagem principal, uma personagem pura, com desejos animais, mas inocentes. Encontrei um homem que pastoreia, mas que anseia por uma vida igual à dos outros da vila, da cidade, dos outros que têm direito aos domingos e feriados para descansar. Até aí tudo bem. Haveria de ser possível a um pastor ter quem o substituisse um dia por semana, para que vida e profissão não se confundissem totalmente, porque os tempos mudaram, e em alguns casos, sejamos honestos, para bem melhor. Que não sejamos escravos da sobrevivência. Também acho que não tanto.
Hermínio delira com a música e concertos de Quim Barreiros, "hei-de mamar nos peitos da cabritinha", canta ele, acompanhando a voz do intérprete, proveniente do reprodutor de cassetes, "meto o carro, tiro o carro, da garagem da vizinha...", canta, canta, de rádio ao ombro, sorrindo, deliciado com o tom brejeiro que considera cool. Mais tarde, após a frequência continuada das brasileiras, escuta música igual à que ouço num apartamento do prédio aqui ao lado: uma espécie de vira do Minho com influências tupi, acho. Uma coisa mexida para lá do samba, entre o samba e a música cigana do centro da Europa. Um som horrendo. Para o Hermínio, cool. Tudo o que não seja gado e serra é cool. A decadência de todo o código de socialização rural é cool. O pastor que já não quer ser pastor deseja a civilização, o progresso. Já não suporta a vida de solidão e natureza rija. E tenho pena.
Há poucos dias, na Baixa de Lisboa, tragava uma sopinha de repolho e uma febra no pão, acompanhada do meu amigo francês, e diz-me ele, exclamativo, isto é que é progresso.
Isto o quê?
A sopa, a sandes. Percebes, Isabela, percebes o que quero dizer?! Isto é que é o progresso.
Referia-se ao que comíamos. Comida autêntica sem franchising. Que saciava e nutria. E eu percebi, de facto, e verbalizei a sua ideia, sem sotaque, afirmando que progresso é o que nos faz bem, porque é bom, não porque vemos os outros fazer. Se era isto que ele queria dizer?
Era: o progresso é o que é bom e o que nos faz bem. O resto é a moda.
O pastor de Casais de Folgosinho não almeja, portanto, uma vida melhor, e não a terá quando deixar de ser pastor. Porque uma vida melhor não é ir mais vezes às putas nem levantarmo-nos às onze, nem trocar a solidão da serra pela do cimento - o seu sonho. Isto ele não sabe, provavelmente ninguém lho dirá, e mais tarde ou mais cedo, largará a pastorícia, para seu mal. E custa-me isso de já não haver almas de pastor, de já não haver ninguém.
O filme é de uma beleza que rompe os limites entre documentário e cinema, se é que alguma vez isso existiu: limites. É um documentário porque documenta o fim desse mister, e dos que dele se ocupam: a pastorícia, tudo o resto é grande cinema.
Esperava encontrar em Hermínio, o pastor de 27 anos que o documentário transforma em personagem principal, uma personagem pura, com desejos animais, mas inocentes. Encontrei um homem que pastoreia, mas que anseia por uma vida igual à dos outros da vila, da cidade, dos outros que têm direito aos domingos e feriados para descansar. Até aí tudo bem. Haveria de ser possível a um pastor ter quem o substituisse um dia por semana, para que vida e profissão não se confundissem totalmente, porque os tempos mudaram, e em alguns casos, sejamos honestos, para bem melhor. Que não sejamos escravos da sobrevivência. Também acho que não tanto.
Hermínio delira com a música e concertos de Quim Barreiros, "hei-de mamar nos peitos da cabritinha", canta ele, acompanhando a voz do intérprete, proveniente do reprodutor de cassetes, "meto o carro, tiro o carro, da garagem da vizinha...", canta, canta, de rádio ao ombro, sorrindo, deliciado com o tom brejeiro que considera cool. Mais tarde, após a frequência continuada das brasileiras, escuta música igual à que ouço num apartamento do prédio aqui ao lado: uma espécie de vira do Minho com influências tupi, acho. Uma coisa mexida para lá do samba, entre o samba e a música cigana do centro da Europa. Um som horrendo. Para o Hermínio, cool. Tudo o que não seja gado e serra é cool. A decadência de todo o código de socialização rural é cool. O pastor que já não quer ser pastor deseja a civilização, o progresso. Já não suporta a vida de solidão e natureza rija. E tenho pena.
Há poucos dias, na Baixa de Lisboa, tragava uma sopinha de repolho e uma febra no pão, acompanhada do meu amigo francês, e diz-me ele, exclamativo, isto é que é progresso.
Isto o quê?
A sopa, a sandes. Percebes, Isabela, percebes o que quero dizer?! Isto é que é o progresso.
Referia-se ao que comíamos. Comida autêntica sem franchising. Que saciava e nutria. E eu percebi, de facto, e verbalizei a sua ideia, sem sotaque, afirmando que progresso é o que nos faz bem, porque é bom, não porque vemos os outros fazer. Se era isto que ele queria dizer?
Era: o progresso é o que é bom e o que nos faz bem. O resto é a moda.
O pastor de Casais de Folgosinho não almeja, portanto, uma vida melhor, e não a terá quando deixar de ser pastor. Porque uma vida melhor não é ir mais vezes às putas nem levantarmo-nos às onze, nem trocar a solidão da serra pela do cimento - o seu sonho. Isto ele não sabe, provavelmente ninguém lho dirá, e mais tarde ou mais cedo, largará a pastorícia, para seu mal. E custa-me isso de já não haver almas de pastor, de já não haver ninguém.