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segunda-feira, março 17, 2008

Já não há ninguém

Sobre o progresso


Ainda há pastores?, filme de Jorge Pelicano
(clicar sobre a imagem, para aumentá-la.)


Um pastor perdido na serra. Num dia certo ao ano, ia às brasileiras, à cidade mais próxima. Se eu por acaso acharia que a prostituição, neste caso por misericórdia, se justificava. Foi nestes termos que me falaram no referido documentário, há cerca de um ano. Tinha passado na SIC. Fiquei curiosa, mas comprei o dvd há cerca de duas semanas, apenas.
O filme é de uma beleza que rompe os limites entre documentário e cinema, se é que alguma vez isso existiu: limites. É um documentário porque documenta o fim desse mister, e dos que dele se ocupam: a pastorícia, tudo o resto é grande cinema.
Esperava encontrar em Hermínio, o pastor de 27 anos que o documentário transforma em personagem principal, uma personagem pura, com desejos animais, mas inocentes. Encontrei um homem que pastoreia, mas que anseia por uma vida igual à dos outros da vila, da cidade, dos outros que têm direito aos domingos e feriados para descansar. Até aí tudo bem. Haveria de ser possível a um pastor ter quem o substituisse um dia por semana, para que vida e profissão não se confundissem totalmente, porque os tempos mudaram, e em alguns casos, sejamos honestos, para bem melhor. Que não sejamos escravos da sobrevivência. Também acho que não tanto.
Hermínio delira com a música e concertos de Quim Barreiros, "hei-de mamar nos peitos da cabritinha", canta ele, acompanhando a voz do intérprete, proveniente do reprodutor de cassetes, "meto o carro, tiro o carro, da garagem da vizinha...", canta, canta, de rádio ao ombro, sorrindo, deliciado com o tom brejeiro que considera cool. Mais tarde, após a frequência continuada das brasileiras, escuta música igual à que ouço num apartamento do prédio aqui ao lado: uma espécie de vira do Minho com influências tupi, acho. Uma coisa mexida para lá do samba, entre o samba e a música cigana do centro da Europa. Um som horrendo. Para o Hermínio, cool. Tudo o que não seja gado e serra é cool. A decadência de todo o código de socialização rural é cool. O pastor que já não quer ser pastor deseja a civilização, o progresso. Já não suporta a vida de solidão e natureza rija. E tenho pena.
Há poucos dias, na Baixa de Lisboa, tragava uma sopinha de repolho e uma febra no pão, acompanhada do meu amigo francês, e diz-me ele, exclamativo, isto é que é progresso.
Isto o quê?
A sopa, a sandes. Percebes, Isabela, percebes o que quero dizer?! Isto é que é o progresso.
Referia-se ao que comíamos. Comida autêntica sem franchising. Que saciava e nutria. E eu percebi, de facto, e verbalizei a sua ideia, sem sotaque, afirmando que progresso é o que nos faz bem, porque é bom, não porque vemos os outros fazer. Se era isto que ele queria dizer?
Era: o progresso é o que é bom e o que nos faz bem. O resto é a moda.
O pastor de Casais de Folgosinho não almeja, portanto, uma vida melhor, e não a terá quando deixar de ser pastor. Porque uma vida melhor não é ir mais vezes às putas nem levantarmo-nos às onze, nem trocar a solidão da serra pela do cimento - o seu sonho. Isto ele não sabe, provavelmente ninguém lho dirá, e mais tarde ou mais cedo, largará a pastorícia, para seu mal. E custa-me isso de já não haver almas de pastor, de já não haver ninguém.


quarta-feira, junho 13, 2007

Um sítio de ninhos


A minha casa fica no ar. No Verão, abro as janelas o dia inteiro. A minha casa fica na copa de uma velha árvore alta, entre ramos e folhagem, para que eu exista no mundo como se não lhe pertencesse.
Hoje, ao anoitecer, uma andorinha-bebé entrou pela janela da sala e ficou voando aos círculos, perdida, sem compreender por onde entrara.
Escondeu-se na estante, num vão entre livros, local onde fui resgatá-la, fechando-a muito de leve na concha das mãos, olhando-lhe o biquinho, a ponta da cauda, só um instante, a medo.
Assustava-se.
Como pensa uma andorinha-bebé que ainda não conhece a vileza ?
"Estou neste lugar; não é o meu; quero sair deste lugar." Mais nada. Quando me aproximei, terá pensado, "um bicho grande e feio: não quero ser apanhada. Bato as asas."
Pousei-a no rebordo da janela, e abri as mãos, com pena; percebeu-se livre e voou em direcção ao Mar da Palha. Perdi-a de vista muito antes.
Um dia a minha casa será um pombal, um sítio de ninhos, e quem chegar não me encontrará, porque estarei a catar as outras aves da minha espécie.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Eu fico com as aves


Acabou de pousar uma avezinha do beiral da minha janela. Olhou para dentro, bateu com o biquinho no vidro, e eu fiquei tão imóvel como uma estante, esperando vê-la entrar por uma frincha que não deixei aberta. Gostaria de ter a minha casa cheia de aves que entrassem e saíssem livremente, fizessem os ninhos entre os livros, a papelada, nos cantos mais seguros. Gostava que a minha casa fosse um pombal, uma torre de aves que eu ouviria arrulhar e piar de manhã e ao final da tarde.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Os meninos que matam

Os meninos nascem puros.
Alguns crescem muito depressa, e são já mais velhos do que o mundo, no momento em que matam. Mesmo esses meninos nascem puros.
Os meninos que nasceram puros, os de ontem, aprenderam o culto ao mal, e à morte; é a ideologia que conhecem, livremente difundida pela música, pelos jogos, pelos cinema que consomem, os livros que lêem, enfim, pela cultura que lhes chega: querem matar velhinhas, em vez de as ajudar a atravessar a rua. Querem matar e violar todos os que não forem como eles. E todos os que eles deveriam ser. Os meninos que nasceram puros e matam, querem matar-se, mas ainda não sabem.




Houve um tempo em que foi possível chegar aos meninos e ser deles, e eles nossos. Éramos puros. Todos.
Hoje, os meninos puros sujaram-se. Sujaram-se pelo desamor, que nasceu do desamor, que nasceu do desamor. E o que é isso, o amor? Serve para quê, isso, esse empecilho, o amor! Os meninos que nasceram puros deixaram de acreditar. Nunca viram o amor. Esse empecilho. Os meninos que nasceram puros sujaram-se ao ficar cegos para os outros.





"O que fazes se encontrares uma carteira na rua com dinheiro?" "Tiro o dinheiro e deixo-a lá ficar." "E não entregas à polícia?" "Até posso entregar, mas sem o dinheiro." "Mas não achas que devias entregar a carteira com o dinheiro?" "Não, se não tirar eu o dinheiro, tiram os polícias."

Os meninos que nasceram puros atiram pedras aos negros, aos ciganos. Os meninos que nasceram puros vão ao cu às colegas adolescentes, porque no cu é que é cool. É que é. Os meninos que nasceram puros esmagam a cara do colega bichona, porque é bichona, e formam gangs para roubar tudo o que possa ser vendido no mercado paralelo.

Em Madrid, há um mês atrás, adolescentes imolaram pelo fogo uma sem-abrigo que se protegia do frio na entrada de um banco, onde se encontravam as caixas atm. Esses meninos também nasceram puros.





São puros estes meninos, no fundo, e talvez ainda pudessem recuperar-se, na escola, as carências profundas de uma inexistente educação familiar; mas, paradoxalmente, não nas escolas como elas estão, não em turmas de 30 alunos, com aulas de 90 minutos, não nos moldes em que a escola hoje existe. Porque estes meninos, que normalmente se encontram sinalizados, deviam poder ter professores em regime individual. Professores tutores responsáveis por aulas em formato diferente, grupos de 2 ou 3 e não mais. Uma atenção constante agindo sobre as alterações dos comportamentos. Mas o mesmo Estado que custeia a prisão e as casas de correcção onde vão parar, não custeia vagas para professores-tutores. Não são necessários. Estão melhor no desemprego.





Por isso é que os meninos, que nascem puros, podem tão livre, tão fácil e impunemente criar, com as suas mãos, o horror, a vileza, a degradação máxima. A mesma a que estão condenados enquanto o sistema educativo se fundar numa politica economicista.
A escola de hoje chama-se demagogia. Hiipocrisia.

Os meninos puros que se envileceram, são produto da hipocrisia política que os envileceu, criando assim os seus legítimos cancros, os seus clientes para castigo exemplar.

Fotos de Anne Geddes

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Laranjas no Inverno

Gosto tanto de laranjas! Compro as mais lindas no mercado, as de pele fina, as pesadas, as de um umbigo: mas saem-me ácidas. Podia viver de laranjas doces. De tangerinas. E clementinas. Na outra casa tinha um terraço branco. No Inverno, sentava-me à chapa do sol, com uma tigela de laranjas. Nunca tapava a cabeça, porque a minha cabeça não precisa de chapéus. Comia laranjas, enquanto o sol furava a teia do casaco, depois a da pele, depois a dos ossos; eu não era feliz, mas ao sol era feliz. Depois enterrava as sementes na terra dos vasos, ao lado das trepadeiras. Na Primavera, nasceram plantinhas de citrinos. Na outra Primavera, já eram arbustos pequenos. Na outra, arbustos maiores. Eu já semeei árvores. Algumas pessoas vieram cá só para comer laranjas e semear árvores. Agora já não tenho essa casa nem esses vasos. As minhas árvores, já não existem.



Foto daqui.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...